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Educação

15/08/2019


ARTIGO: Professores da Universidade Católica de Salvador e Universidade Federal da Bahia analisam o “Future-se”

Em análise aprofundada, eles discutem o programa e as possíveis consequências com base na diversidade cultural existente no Brasil.

Na imagem, os professores Amilcar Baiardi e Bruna Frascolla

Em mais um artigo publicado no Portal WSCOM nesta quinta-feira (15), desta vez de forma integrada entre os departamentos de economia e filosofia das Universidade Católica do Salvador (UCSAL) e a Universidade Federal da Bahia (UFBa), os professores Amilcar Baiardi e Bruna Frascolla sintetizam o “Future-se”, novo programa a ser discutido e implementado nas universidades públicas do Brasil pelo Ministério da Educação (MEC)

 

Em análise aprofundada, eles discutem o programa e as possíveis consequências com base na diversidade cultural existente no Brasil.

 

Confira a análise:

 

O FUTURE-SE e a diversidade institucional e regional no Brasil

Amilcar Baiardi  e Bruna Frascolla

 

O FUTURE-SE, “Programa de Universidades e Institutos Federais Inovadores”, independentemente de qualquer julgamento, parece ter vindo para estabelecer uma clivagem entre as universidades que pelo mesmo optarem, pois, afinal, ele não é impositivo. As que ingressarem no Programa aceitam o desafio de internalizar a PD&I com parceria com o setor privado, candidatando-se a ser “universidade de pesquisa”, ou escolhem se transformar em “centro de educação avançada”, para usar uma sistemática em voga nos Estados Unidos. Tanto em um caso, como no outro, com a busca de uma qualidade diferenciada, essa transição não será simples e envolve desafios. As vicissitudes nessa “metamorfose”, variarão de universidade para universidade e de região para região.  

 

Para exemplificar essa hipótese veja-se um caso curioso de dificuldade, que seria o da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), que surgiu como uma promessa, mas que se converteu em um problema. A UFSB foi fundada em 2013 com o propósito declarado de “atender às exigências educacionais do mundo contemporâneo, bem como às especificidades culturais, sociais, artísticas e econômicas da Região Sul do Estado da Bahia, sem negligenciar o desenvolvimento nacional e planetário.” Isto seria feito com base em “inovadoras ideias” já aplicadas na Universidade Federal do ABC (UFABC) em 2006 e na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Como nem toda ideia inovadora é virtuosa, deve-se avaliar se a UFSB cumpriu ou vem cumprindo as expectativas que dela se tinha. Se não planetários, ao menos no nível local.

 

O conceito inspirador das “inovadoras ideias” contidas no projeto Universidade Nova se baseia em graduações não-profissionalizantes de duração de apenas três anos. Os BIs (bacharelados interdisciplinares) foram implementados na UFBA em 2008 como um modelo possível de ingresso, que foi, no entanto, pensado como modelo único. Em vez de acompanhar, com prudência, o desenrolar do BI na UFBA e na UFABC, criaram-se na UFSB já em 2013 os BIs e LIs (licenciaturas interdisciplinares) como modo de ingresso obrigatório. É muito questionável se o jovem que aspira uma graduação superior quer se dar ao luxo de estudar por três anos para receber um diploma não-profissionalizante. A experiência da UFBa – que não alterou o modo de ingresso – talvez indicasse que o BI é, aos olhos de muitos estudantes, um preço que se paga para ingressar em cursos de vestibular muito concorrido. Isto porque o egresso do BI tem direito a uma cota para os cursos normais. No entanto, muitos não sabem que as cotas são para o conjunto dos cursos da UFBA, e que há uma disputa interna entre os alunos do BI pelas vagas mais concorridas. É como se houvesse um novo vestibular ao fim dos cursos, mas a nota é a média que o aluno obteve ao longo dos três anos. Ao cabo, o BI é um tenso vestibular de três anos, e o aluno que tirou uma nota 7 já sabe que não conseguirá cursar psicologia ou medicina, o que o desestimula a continuar o curso. Desde a introdução do BI na UFBA, menos da metade dos alunos que nela ingressam concluíram a graduação. O número que informa essa proporção se chama TSG (taxa de sucesso da graduação), inserida em relatórios nem sempre disponíveis no tempo certo, caso da UFSB.

 

Outro aspecto que distancia a UFSB do modelo de “Universidade de Pesquisa” a pós-graduação e a produção acadêmica. O último Relatório de Gestão deixa entender que dos quatro cursos de pós-graduação, somente um, o de Ciências e Tecnologias Ambientais, se propõe a ter alguma inserção no território com vistas a transferir conhecimentos para ações preservacionistas do ambiente.  Inúmeros estudos mostram que a região na qual se insere a UFSB é das mais ricas do mundo em biodiversidade, tem potencial de ser palco de experiências de desenvolvimento sustentável que gerem expectativas de modelos de sociedade pós-industrial, e que, no momento, enfrenta uma crise econômica na sua principal atividade econômica que é a lavoura do cacau. A julgar pelas pesquisas e pelo impacto regional, dimensão da inserção social recomendada pela CAPES, a pós-graduação da UFSB não se coloca a serviço da recuperação da economia regional, pois não tem qualquer proposta de concepção de modelos de negócios alternativos e amigáveis ao ambiente, que explore ao máximo o potencial da bioeconomia. As graduações nas engenharias florestal, agrícola e ambiental não têm suas pesquisas integradas nas redes que interagem com os tecidos produtivos da região Litoral Sul.

 

Este distanciamento da realidade regional talvez explique a adoção por parte da UFSB de uma modalidade de seleção de docentes, absolutamente inusitada, dogmática e não calcada no mérito acadêmico. Em concurso para docentes realizado em 2014, do candidato se solicitava não só o desempenho acadêmico, mas também, e com um peso desproporcionalmente elevado no resultado final, uma proposta de intervenção na realidade, inspirada no Plano Orientador da UFSB, o qual era dado a conhecer aos candidatos.

 

Ora, desde quando conhecimento sobre uma proposta de organização de uma instituição superior entra como ponto item eliminador em uma seleção de professor, que deve, em princípio, demonstrar conhecimento específico no tema do concurso? Para dizer o mínimo, isto sugere que se deseja professores funcionais ao projeto da UFSB e acríticos ao seu modus operandi, o que limita ou mesmo bloqueia o ingresso de docentes inovadores, empreendedores, sonhadores e desejosos de promover a prosperidade com mudanças da realidade econômica e social.

 

A forma de selecionar os docentes para a UFSB pode ser interpretada como um processo de seleção ideológica no qual a identidade com o Plano Orientador é determinante de última instância. A seleção deixa de ser focada em qualificações inequívocas sobre a matéria do concurso e passa a visar ampliar a hegemonia de um pensamento único. Nessa linha o Plano Orientador, no capítulo Modelo de Sustentabilidade, tenta ressignificar os conceitos de ecodesenvolvimento e de desenvolvimento sustentável, a partir de uma reflexão endógena, negligenciando todo o trabalho e esforço intelectual até então feito pela comunidade científica e pela sociedade civil em toda a Região Cacaueira. A seleção baseada na interpretação do Plano Orientador sugere ser mais relevante para UFSB contar com docentes mais formadores de militância que com professores com reais contribuições para o avanço do conhecimento e para empreendedorismo e o spin off universitário. 

 

A opção por inserir em concurso de docentes, para as diferentes disciplinas, a análise de um plano institucional, termina por diminuir a importância do conhecimento específico no tema da disciplina e matéria, do concurso per se. Seleciona-se um conjunto de professores-candidatos que em seus planos de trabalho denotem uma clara conformidade em não contrariar (nem no presente, nem no futuro) o establishment em construção na UFSB. Não se tratou, pois, de uma avaliação do potencial do professor e de suas futuras contribuições no tema da disciplina escolhida, mas sim da sua capacidade de se amoldar ao Plano Orientador. Tal conduta permitiria inferir se o professor teria ou não uma visão de mundo adaptada à UFSB e esse julgamento viria antes de saber se ele tem capacidade para ensinar e pesquisar em matemática, biologia, química, filosofia etc.

 

Frise-se que a proposta de intervenção do candidato deveria estar aderente de modo acrítico ao Plano Orientador da UFSB, sem nenhuma sugestão de mudança ou ampliação, indicando caminhos alternativos que não se enquadrem nesse paradigma. Assim, estando este Plano acima de qualquer reparo, o professor que for crítico à proposta, mesmo com todas as qualificações acadêmicas, jamais passará em algum concurso organizado pela UFSB. Ao implantar esse método de seleção, a administração superior da UFSB se mostrou menos atenta em identificar talentos e as potencialidades e mais preocupada que os candidatos estivessem em concordância com os princípios contidos no Plano Orientador. Em seu conspícuo dogmatismo o Plano Orientador da UFSB afirma: “educar é ato político e aprender é uma experiência social compartilhada (sic).”

 

Em realidade, tal procedimento revela um conjunto de contradições das ditas intenções de que a UFSB venha a ser um centro de pensamento que faça avançar a discussão sobre o desenvolvimento regional. O mais paradoxal é que não é a capacidade de ser um docente qualificado que interessa, mas sim a capacidade do professor adaptar-se a um o ambiente universitário com a menor diversidade ideológica possível. Não é de admirar, portanto, que a UFSB seja hoje irrelevante nos ranking universitários, que venha a ter grandes dificuldades de aderir ao Future-Se e que não seja um caso isolado na “safra” de novas universidades criadas nos últimos 15 anos.

 

Amilcar Baiardi – DSc em Economia, professor da Universidade Católica do Salvador (UCSAL) e professor titular aposentado da Universidade Federal da Bahia e da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Bruna Frascolla  – DSc em Filosofia pela UFBA e pesquisadora colaboradora da Unicamp.

 

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