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19/03/2019


A arte da Liberdade

Por Romye Schneider

 

No mês em que celebramos as mulheres, me veio inspiração pra falar das que estão privadas de liberdade.

 

Recentemente, entrevistei duas delas num presídio de João Pessoa. Em meio às perguntas de praxe – Nome? Filhos? Há quanto tempo na penitenciária? – uma cena me chamou a atenção: uma delas estava com um batom desses que deixam os lábios parecendo uma fulô bem encarnada. O que realçava os traços da boniteza e juventude próprias de quem tem 25 anos. Mas, ainda havia algo que a diferenciava das demais e chamava muita atenção. Pelo menos, a minha.


Embora estivesse com a farda do presídio, o que não é lá nenhum modelito que seja exemplo de beleza, havia uma diferença: na barra daquela calça roxa, tinha um detalhe bem colorido. Logo percebi e perguntei sobre o enfeite em questão. De um fôlego só, ela respondeu orgulhosa da sua cria: “Eu que fiz. É de crochê. Adoro fazer!”.


Saí dali pensando: como pode um detalhe tão simples e minúsculo provocar uma reação tão feliz numa pessoa?


Será que ela precisa se agarrar a algo que lhe dê prazer, enquanto não sai para reencontrar o filho, de dois anos e oito meses?


Quem sabe, de forma inconsciente, ou não, à medida que vai produzindo o seu artesanato, ela sonhe que a sua vida seja igual a uma peça de crochê, cheia de cores, formas, possibilidades e iniciada a partir de fios que se entrelaçam formando correntes.


Talvez, o crochê seja a única coisa que a faça sonhar com algo que está bem longe de seu alcance, no momento: a liberdade. De repente, ela também se dê conta de que, por enquanto, a única liberdade possível seja esta mesma, a traduzida na arte.

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