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27/09/2018


Uma situação ruim pode ficar pior? Parte 2

Em artigo publicado em semanas anteriores tentei analisar o impacto de acontecimentos ocorridos na semana do atentado ao candidato Jair Bolsonoro no possível desempenho futuro da economia brasileira. Argumentei que o nível de incerteza gerado pelo atual processo eleitoral tinha potencial de afetar negativamente a formação das expectativas dos agentes econômicos e, por sua vez, no desempenho futuro da economia brasileira. Hoje tentarei fazer conjecturas sobre este desempenho usando informações atuais da economia mundial.

Infelizmente, para nós brasileiros, a economia mundial apresenta um comportamento muito diferente do período vivenciado nos governos Lula 1 e Lula 2. Nestes a China decidiu ser compradora de commodities como soja, minério de ferro, carnes, etc. Tudo que o Brasil tinha condições de oferecer no mercado mundial a preços competitivos. Estimasse que o impacto positivo desta decisão na economia brasileira foi, em média, de 8% do PIB.

Agora a economia mundial mudou para pior. O governo Trump acirrou as tensões políticas, está promovendo uma guerra comercial até com aliados históricos, como a Europa, a Turquia, o Canadá e o México, isto sem excluir a China, seu principal alvo. Nesta semana começou a vigorar o aumento das tarifas de vários produtos oriundos deste país. Em comício na Assembleia da ONU Trump acirrou ainda mais a situação política.

O acirramento é tanto que o ministro das relações exteriores da Alemanha, Heiko Maas, em artigo publicado na imprensa internacional, expressou o desejo de estabelecer uma nova ordem mundial, onde a dependência europeia em relação aos EUA em várias questões, principalmente em relação a segurança via OTAN, deveria diminuir. Deixou claro o desejo de aumentar os gastos militares dos países europeus e da não aceitação da quebra do acordo nuclear com o Irã. Exortou os governos da França e da Alemanha no sentido de que deveriam encabeçar este movimento. Um ambiente político conturbado gera mais incertezas. Nesta situação os agentes econômicos sempre procuram adquirir ativos menos arriscados para investir. Títulos da dívida de países emergentes, Brasil incluído, quase sempre não são classificados como seguros.

A economia da Argentina, nosso principal parceiro no Mercosul e destino de grande parte de nossas exportações, está dando mostras de entrar num processo de recessão. Ontem mesmo houve uma greve geral por lá em protesto contra a situação econômica. Ou seja, o escoamento da produção interna pode enfrentar dificuldades em momento futuro.

Juntos desses problemas, um outro pode impactar mais fortemente a economia brasileira. Todos os dados indicam que a economia americana está aquecida. O PIB do segundo trimestre foi maior e o desemprego menor do que os especialistas previram. Tal desempenho pode ser uma consequência de uma política fiscal muito expansionista, dado que o déficit fiscal americano tem trajetória ascendente já a alguns semestres.

Contribuiu para tal desempenho o seguinte fato. O governo Trump deu uma diminuída na carga tributária das empresas americanas com a expectativa que tal alívio aumentasse os investimentos. Apenas as empresas ligadas a área de tecnologia e petróleo aumentaram os mesmos. Os outros setores preferiram aumentar os dividendos dos seus acionistas. Estes, por sua vez, canalizaram os recursos provenientes da diminuição dos impostos para gastos em bens de consumo, imóveis e ativos financeiros. A consequência é o aumento da inflação, embora ainda que lentamente. Tal movimento levou o Federal Reserve Americano (Banco Central dos EUA) a rever sua política monetária, sinalizando aumentos futuros da taxa de juros.  Ao fazer isto, o diferencial dos juros dos títulos da dívida pública americana se reduzirão em relação aos seus similares de vários outros países. A atração de capital para a economia americana será irresistível, pois os títulos americanos são considerados extremamente seguros. A consequência já vimos atualmente, que é a valorização do dólar americano frente as outras moedas, o real aí incluído.

Pode-se dizer que os efeitos deste cenário da economia mundial na economia brasileira serão dúbios. A guerra comercial com a China abre espaço para que alguns setores da economia brasileira se aproveitem, notadamente o setor de agronegócios.  A Europa, para atrair aliados para a formação de uma nova ordem mundial, pode querer acelerar a assinatura do acordo comercial com o Mercosul, que está a anos parado. Inclusive já houve pronunciamentos europeus no sentido de dar uma nova roupagem a organização mundial do comércio.

O aumento da taxa de juros dos títulos da dívida americana terá efeitos na taxa de câmbio brasileira. Setores exportadores podem ser beneficiados por verem seus produtos ficarem mais baratos no mercado internacional, muito embora a indústria sempre pense em termos de câmbio como descreve a lei de Sauer. Wolfgang Sauer foi presidente da Volkswagem do Brasil na década de 70 e, para ele, o câmbio, independente do patamar que estiver, sempre estará com a moeda local valorizada em 20%. Ou seja, os industriais nunca estarão satisfeitos com a taxa de câmbio no Brasil e sempre pedirão mais desvalorização da moeda local.

Os perdedores com o dólar alto serão os importadores, que terão que despender mais reais para adquirir as mercadorias no exterior. Produtos a base de trigo terão impacto nos seus preços. O pãozinho de cada dia vai ficar com preços mais salgados. Os combustíveis, mantida a atual política de preços da Petrobras, vão aumentar de preços, como já está acontecendo hoje. Vislumbro aí novos embates com os caminhoneiros. Para a indústria nacional o efeito será o aumento dos preços dos bens de capital importados, podendo afetar sua modernização, embora isto não seja tão forte, dado que existe uma enorme capacidade ociosa.

Pesando e medindo tudo, parece que junto do nó que a eleição atual tende gerar,  dado que últimas pesquisas eleitorais indicam que os dois candidatos que vão ao segundo são os que mais geram incertezas, dado o clima de acirramento de suas militâncias, soma-se mais um, que são as condições mundiais. Ou seja, o que está ruim parece que vai ficar ainda pior 2.

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