Violência por armas é familiar a 51% dos brasileiros - WSCOM

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Brasil & Mundo

19/06/2006


Violência por armas é familiar

Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira por ONGs pró-desarmamento revelou que um em cada dois brasileiros foi ou conhece alguém que foi vítima de arma de fogo.

O levantamento comparou os dados de Brasil, Guatemala, África do Sul, Índia, Canadá e Reino Unido. Em média, 30% dos entrevistados nos seis países disseram ter sido ou conhecer vítimas de armas de fogo.

Proporção semelhante ao Brasil só se observou na Guatemala – país que viveu uma guerra civil até os anos 90 – e na África do Sul: 51% e 54%, respectivamente.

Mas a preocupação de tornar-se vítima é mais disseminada entre os brasileiros: 94% disseram temer esta possibilidade, em proporção maior aos guatemaltecos (88%) e sul-africanos (72%).

Na Índia, onde apenas 3% da população declararam ter sido, ou pelo menos conhecer, vítimas de arma de fogo, o nível de preocupação é de 41%. No Canadá, essas proporções alcançam 9% e 36%, respectivamente.

A pesquisa foi divulgada pela campanha Control Arms, uma semana antes da Conferência da Nações Unidas sobre Armas Leves, que começa no próximo dia 26 em Nova York.

Controle redobrado

ONGs que fazem parte da iniciativa, como a Oxfam, Anistia Internacional, IANSA (rede de ONGs pró-controle de armas) e, no Brasil, o Instituto Sou da Paz, usarão os dados para pressionar os países da ONU por um tratado internacional que possibilite e regularize maior controle do comércio mundial de armas de fogo.

Medidas nesse sentido seriam bem recebidas pela população brasileira, acredita a diretora do Instituto Sou da Paz Mariana Montoro. Proporcionalmente, o Brasil foi o país onde mais entrevistados se declararam a favor de mais rigor na exportação e importação de armas: 93% e 96%, respectivamente.

Para ela, a estatística divulgada nesta segunda-feira reflete com mais precisão o sentimento dos brasileiros em relação às armas de fogo, apesar de quase dois terços do eleitorado (63,94%) terem votado contra a total proibição das vendas de armas e munição, em outubro do ano passado.

Nesta pesquisa, 91% dos brasileiros classificaram com “fácil demais” a obtenção de armas de fogo no Brasil. Outros 91% concordaram que a alta disponibilidade de armas é um dos principais fatores a contribuir para o aumento da insegurança.

“À época do referendo, ouvimos muita gente dizer que não adiantava o Brasil agir isoladamente, se medidas semelhantes não fossem tomadas regionalmente ou mundialmente”, explica Mariana.

“Os brasileiros não querem ter armas em casa, mas o problema da segurança pública se tornou tão angustiante que a população deseja resolver o problema em vários aspectos, e de maneira integrada.”

Ação mundial

O apoio ao endurecimento do controle sobre o comércio de armas de fogo é alto tanto nos países mais afetados pela violência quanto naqueles onde esse problema preocupa menos. Em média, 87% dos entrevistados nos seis países defenderam maior controle sobre as exportações desses produtos; 89% apóiam mais rigor nas importações.

“Com cerca de 14 bilhões de balas sendo produzidas a cada ano, suficientes para matar todas as pessoas do mundo duas vezes, não será hora de que os governos concordem em regular as exportações de armas?”, questionou em nota o diretor da Oxfam International, Jeremy Hobbs.

Na semana passada, um relatório da ONG – que também faz parte da Campanha Control Arms – criticou o fato de vários países, entre eles o Brasil, não divulgarem nenhuma informação sobre suas exportações de munição e de não identificar os projéteis produzidos.

De acordo com a Oxfam, a falta de informações e controle alimenta o comércio ilícito de munições, que acabam abastecendo guerras e violência urbana em todo o mundo.