Turnê “Todo Mundo Vai Mudar”, da Dingo Bells, chega a Sousa - WSCOM

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Entretenimento

01/10/2018


Turnê “Todo Mundo Vai Mudar”, da Dingo Bells, chega a Sousa

Foto: Rodrigo Marroni

Em abril de 2018 a Dingo Bells fez um convite para a mudança. Desde a primeira música, faixa-título, Rodrigo Fischmann (voz e bateria), Diogo Brochmann (guitarra e voz), Felipe Kautz (baixo e voz) e Fabrício Gambogi (guitarra) ‘jogaram as certezas no fogo e deixaram-as queimar’. “Todo Mundo Vai Mudar” (Natura Musical) é o segundo full album do agora quarteto, uma vez que em em 2015 conquistaram seu espaço na cena indie brasileira com “Maravilhas da Vida Moderna”. Entregues às estradas, seguem viagem levando seu som na atual turnê que passa em 18 de outubro, quinta-feira, em Sousa. A apresentação é às 19H30, gratuita, com lotação de 158 lugares, e faz parte da programação do Centro Cultural Banco do Nordeste. Os ingressos serão distribuídos no local 1 hora antes do show.

O disco de dez faixas é decorrência do projeto selecionado pelo edital Natura Musical 2016 com apoio da Lei Pró-Cultura/RS. “O Natura Musical foi criado para valorizar a diversidade da produção contemporânea e a identidade da música brasileira”, diz Fernanda Paiva, gerente de Marketing Institucional da Natura. “Desde 2005, a plataforma já contemplou mais de 360 projetos, como os últimos discos de Elza Soares, Paulo Miklos, Johnny Hooker, Xênia França, entre outros artistas em diferentes estágios de carreira, que representam essa música brasileira pulsante, diversa e apresentam novas expressões e linguagens, assim como o novo álbum do Dingo Bells”, complementa.

Faixa a Faixa

A faixa que dá título ao álbum é também a que abre o disco “Todo Mundo Vai Mudar” e traz características Power pop, é potente e marcante. Baixo, bateria, guitarra e violão de aço fazem os jogos rítmicos necessários para ditar a pulsação envolvente que constrói a canção. No refrão, a percussão se encarrega de colocar a batida pra frente, trazendo ares da fase disco de Michael Jackson e David Bowie. A letra relata as atividades mundanas que acontecem em um dia decisivo na vida do personagem, quando esse personagem tem sua epifania: “Um dia todo mundo vai mudar/ Jogo as certezas no fogo e deixo queimar”. A frase muda toda a visão de mundo do nosso protagonista. Uma máxima que, acima de tudo, é libertadora. Tudo que ele tinha deixado de fazer, tudo que tinha pensado, seus medos, seus anseios, nada mais é tão decisivo frente à constatação de que um dia todo mundo vai mudar. Basta aceitar e ficar em paz. Afinal, todo mundo sempre muda. Por curiosidade, essa música passou por, no mínimo, quatro versões diferentes até chegar no seu arranjo final e foi escolhida para ser o segundo single do disco.

A comunicação ruidosa é o tema da segunda música, “Ser Incapaz de Ouvir”. Em um mundo onde a empatia e a compreensão se tornaram pouco estimados, fala-se porque se presume a necessidade de falar, sem buscar, de fato, um diálogo: “Nem mastiga e diz que está alimentado / fala e mata a fome de ser escutado / seu problema é não sentir-se satisfeito / mesmo devorando o mundo desse jeito”. A tensão da temática da letra é correspondida pelo instrumental, claustrofóbico e obstinado. Ao final, um novo tema melódico abre a última sessão da faixa, em intensidade crescente, na qual Fischmann insiste na mensagem da canção: “Seu problema é não sentir-se satisfeito…”.

“Meias Palavras” pode ser considerada a balada do disco. Ela lembra as canções calmas do álbum Pet Sounds, dos Beach Boys, e foi nessa referência que a banda buscou a sonoridade. É uma música introspectiva que dialoga com o ouvinte, trazendo-o para perto. Isso se faz presente por, além da letra, uma soma delicada entre melodia e cadência, que buscam juntas esse envolvimento. O arranjo instrumental tem como base duas guitarras cheias de reverb e ambiência, que preenchem a harmonia, ritmados por um jogo entre baixo e bateria que mantém o clima aéreo do som. O arranjo de vozes nos refrões e as sessões de sopros da metade para o final brindam a canção com uma delicadeza sublime. Destaque para o naipe de sopros que se complementa – para além do trombone, sax e trompete – com a trompa: instrumento sinfônico que agrega tons dramáticos ao arranjo. A letra é sobre encontrar o seu lugar e estar confortável com esse lugar no mundo. Ela é feita para os introvertidos que se transformam através da arte, através da música. É um convite à contemplação e ao olhar atento às sutilezas e belezas do mundo, assim como também é uma convocação. “Meias-palavras” é sobre o cantar silencioso. É a música cantada pela alma.

Em “Tudo Trocado” um universo de contradições e paradoxos vem à tona: briga-se pra ficar tudo bem e trabalha-se para comprar descanso. “Buscamos explicação para o inexplicável, em vão. Viajamos por um caminho incerto ao encontro de nós mesmos e relativizamos o tempo na esperança de que o tempo não passe“, diz Felipe Kautz. O violão de nylon e o piano assumem um papel importante na canção, este último tocado pelo excelente Murilo Moura, pianista gaúcho que contribuiu com artistas como Pata de Elefante e Gustavo Telles & Os Escolhidos. Com ares de Gilberto Gil anos ‘70, “Tudo Trocado” trata das contradições da vida de um ponto de vista leve. Destaque para o arranjo de sopros elegante e vibrante ao mesmo tempo, criado em conjunto com o arranjador Fabricio Gambogi.

Chegando no meio do disco, a letra da quinta faixa, “O Que Não Se Vê de Cara”, flerta com o oculto, com aquilo que é anterior à lógica, ou a ultrapassa. Trata da beleza das coisas que não podemos explicar, do que não é reto, de trajetórias erráticas. O que não tem porquê, em um terreno onde a lógica não impera. O “que não se sabe” e o “que não se saberá” são as entidades celebradas por esta canção. No contexto do disco, no mundo onde temos que ter respostas pra tudo, temos que ter opiniões e caminhos lógicos, celebramos a poesia do que não tem explicação. A beleza do que não se vê de cara. O ritmo envolvente, dançante e suave ao mesmo tempo, nos remete às incursões de Caetano Veloso nos ritmos africanos, comum nos seus celebrados discos do segunda metade dos anos 70 e 80.

“Tem Pra Quem” relativiza a passagem do tempo: em uma cachoeira ou preso no trânsito, as durações são elásticas, dependem da nossa apreciação. Com um clima de soul Brasil anos ‘70 misturado com a neo soul de D’Angelo, o vocal tranquilo de Rodrigo nos imerge nessas reflexões, entre o espaço que há entre os instrumentos. Além disso, tem como base uma performance envolvente da banda, na qual o groove é marcado pelo violão de nylon, wurlitzer, baixo, bateria e efeitos sonoros, cada um no seu espaço, respeitando os silêncios da batida. Ao declarar que não há porque se apegar às certezas da vida, paradoxalmente levantamos a certeza mais antiga de todas – O tempo é finito. “Tempo que não tem mais”.

Primeiro single do álbum, “Sinta-se em Casa” é a porta de entrada para a temática que predomina no novo trabalho do grupo: a mudança. A vida, ilustrada pela figura da casa, passa por diferentes momentos ao longo da canção: vai da inércia frente às insatisfações pessoais ao enfrentamento de novos cenários, acompanhadas das rotinas e dos pequenos hábitos que cultivamos diariamente. “Com essa música, celebramos a mudança e o nosso poder de adaptação à ela. Afinal, ‘se a verdade dói, dançamos em brasa’. E, assim como no álbum anterior, há espaço para a reflexão de como o mundo funciona e de como as pessoas moldam esse contexto, há um paralelo entre a casa/lar e o estado de espírito da personagem. Ele prepara a sua casa assim como prepara a sua mente. Pronto para abraçar suas verdades mais temidas, mesmo que isso signifique um processo penoso: “Se a verdade dói, dançamos em brasa.” É um convite à aceitação das imperfeições e incoerências da vida, como um processo natural de mudança”, afirma Diogo Brochmann.

Musicalmente, a música apresenta um pop groove que é conduzido pela voz – caracterizada por um desenho melódico inusitado e cativante – e pelo piano marcado. O arranjo é seguido por uma trama rítmica encaixada entre as guitarras, o baixo e a bateria e culmina com uma textura intensa de um naipe de sopros assinado por Fabricio Gambogi. O resultado é uma sonoridade que mistura traços de brasilidade, da soul music e do power pop; transitando entre o vintage e o moderno.

A sétima música éAos Domingos (Quando Eu Resolver) e traz um lado sombrio e claustrofóbico, da temática do álbum: uma mudança desejada que não se realiza, que fica guardada em promessas que não se cumprem e, frente à inércia, tornam-se incômodos. Um terreno fértil para a experimentação sonora, nessa canção foram utilizados diversos recursos até então inéditos para a banda: a linha de baixo é tocada por Felipe Kautz em um sintetizador, enquanto no refrão o sequenciador “Volca FM” aparece ao fundo em diversas sobreposições. Nela também foi utilizado o E-bow, dispositivo que produz um efeito de sustain na guitarra que aproxima seu som ao de um arco de violino. É Diogo Brochmann quem assume a voz principal dessa faixa, agregando mais sutilezas e fragilidades em contraponto ao universo soturno e denso da faixa.

A canção “Na Carona” tem em seu protagonista um viajante que se direciona a um encontro com ele mesmo, mas naturalmente, cheio de dúvidas e desculpas. Na carona rumo ao próprio encontro, com previsão de atraso rumo ao desconhecido. É a jornada clássica do autoconhecimento tratada de uma forma mais realista e menos romântica. Ele traz em sua bagagem apenas a consciência de seus medos e alegrias. Conta com a participação sublime de Murilo Moura no piano elétrico Wurlitzer e Fabricio Gambogi, que assume a bateria desta vez. No violão de aço, Rodrigo Fischmann também entrega uma das performances vocais mais emocionantes do disco, remetendo aos melhores momentos de cantores de soul music como Bill Withers e Otis Redding.

E para fechar o disco, na canção “A Sua Sorte”, em um diálogo melancólico com uma montanha, o protagonista revela seus anseios: “a sua sorte é ver o tempo devagar, com toda a calma de quem fica no lugar”. A ausência do “tempo dos homens”, a proximidade com os deuses e a tranquilidade atraem o narrador ao contemplar a distante montanha, cansado das dificuldades do mundo terreno. Mas ainda há o que ser feito entre seus pares, e ao final de sua reflexão o protagonista conclui: “eu vou seguir por aqui, ainda é cedo pra não tentar”.  Intensa e potente, “A Sua Sorte” propõe uma sonoridade à la David Bowie na época de Mick Ronson, com toques de leveza à cargo dos sutis Mellotron e piano de parede. É interessante notar as camadas de guitarras que conduzem a música, no

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