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Brasil & Mundo

04/09/2018


Terapia de células-tronco pode ajudar pacientes com enfisema

Estudo envolve parceria entre universidades e recebe o apoio do Ministério da Saúde e do CNPq

Foto: autor desconhecido.

Durante a XXXIII Reunião Anual da FeSBE (Federação de Sociedades de Biologia Experimental), que acontece ao longo desta semana em Campos de Jordão, cientistas de todo o país estão compartilhando trabalhos que trarão inúmeros benefícios às vidas das pessoas. Em resumo, é um evento do bem. Para quem sofre de enfisema, por exemplo, as pesquisas da médica Patricia Rieken Macêdo Rocco marcarão um antes e um depois no que diz respeito à doença.

Professora titular da UFRJ, chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar ligado à universidade, e membro da Academia Nacional de Medicina e da Academia Brasileira de Ciências, a doutora Patricia estuda, desde 2009, a utilização de células-tronco em lesões pulmonares.

O projeto começou com um pequeno grupo de pacientes que sofria de silicose – doença degenerativa bastante frequente em quem trabalha com jatos de areia – e recebeu um transplante de células autólogas, isto é, do seu próprio organismo.

“Essas células eram injetadas diretamente no local da lesão pulmonar, através de broncoscopia”, explica a professora. Em 2015, foi a vez de pessoas com asma grave serem beneficiadas com o tratamento: “os pacientes diminuíam significativamente a quantidade de medicamentos, como os corticoides, que tinham que tomar”, acrescenta.

As células-tronco multipotentes, que são capazes de se dividir e se transformar em outros tipos de células, são primeiro retiradas da medula óssea e depois injetadas no paciente. Trata-se de uma terapia que ainda é considerada experimental, mas que já ganhou a primeira batalha contra a burocracia: atualmente, basta que os projetos sejam chancelados pelos chamados comitês de ética em pesquisa, ligados a unidades hospitalares de pesquisa. A doutora Patricia agora se dedica a um tratamento voltado para quem tem enfisema.

Há um tipo de enfisema, chamado heterogêneo, que não acomete o pulmão igualmente – ao contrário do homogêneo, que se espalha por todo o órgão. A abordagem convencional, e de prognóstico ruim, era uma cirurgia redutora para retirar a área do pulmão mais lesada, mantendo as áreas relativamente mais preservadas. Graças a uma parceria entre a UFRJ e a UFRGS, os doentes têm se beneficiado de uma técnica que combina a colocação de válvulas endobrônquicas, também via broncoscopia, e a terapia com células mesenquimais (um tipo de célula-tronco).

“Esses pacientes apresentam colônias de bactérias no pulmão, o que aumenta a predisposição para infecções. A célula-tronco tem um papel anti-inflamatório e bactericida, o que potencializa o efeito das válvulas. É emocionante ver a mudança na qualidade de vida das pessoas, como dispensar o oxigênio, ou tomar banho sozinho. Quem conhece a doença sabe a diferença que isso faz”, resume.

O estudo, realizado até agora com dez indivíduos, foi publicado no “Stem Cell Translational Medicine”. O objetivo é, ainda este ano, estendê-lo para um grupo de 34 pacientes, com o apoio do CNPq e do Ministério da Saúde. A doutora Patricia não para por aí, porque quer se debruçar sobre um tratamento voltado para quem tem enfisema homogêneo, aquele disseminado por todo o pulmão.

“Esse estudo será feito com células-tronco de outras pessoas, e não do paciente. No laboratório, descobrimos que o animal com enfisema não produz células-tronco com tanta potência, por isso queremos utilizar as de doadores saudáveis. O Brasil tem oito centros de tecnologia celular, onde essas células são cultivadas e congeladas, e vamos trabalhar com a unidade da PUC do Paraná. As células mesenquimais têm efeito anti-inflamatório, antifibrogênico e bactericida, além de auxiliar no reparo dos tecidos. Mesmo não sendo células da própria pessoa, não há risco de rejeição e o resultado pode ser algo simples para os outros, mas de enorme valor para um paciente com enfisema, como voltar a caminhar”, ela conta.

G1