Simone Vasconcelos confirma empréstimos e saques ao PT - WSCOM

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Brasil & Mundo

03/08/2005


Simone Vasconcelos confirma empréstimos

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga denúncias de corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) ouve nesta terça-feira o depoimentos de Simone Reis Lobo de Vasconcelos, diretora de Administração Financeira da SMPB, agência de Marcos Valério.

Simone entregou uma lista à PF na segunda-feira em que relaciona 31 pessoas, representantes de partidos (PT, PP, PL, PTB e PMDB) e empresas que, por indicação do PT, teriam recebido 55,8 milhões de reais entre fevereiro de 2003 e outubro de 2004. A lista inclui também como beneficiário de 1 milhão de reais o secretário-executivo do Ministério da Integração Nacional, Márcio Araújo de Lacerda.

Um dos coordenadores da campanha presidencial do ministro Ciro Gomes em 2002, Lacerda pediu exoneração do ministério na tarde desta terça-feira depois de reconhecer, em nota oficial, que recebeu parte desse dinheiro para o pagamento de uma empresa que trabalhou na campanha de Ciro.

A lista dos beneficiários foi obtida pela Reuters com uma fonte do Ministério Público, na tarde desta terça. De acordo com essa fonte, a mesma lista foi entregue ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, em depoimento dia 14 de julho.

Os 55,8 milhões, de acordo com o depoimento de Simone, corresponderiam aos empréstimos tomados, junto aos bancos BMG e Rural, pelas empresas Grafitti Participações e SMPB Comunicação, ambas com participação acionária de Marcos Valério, investigado como suspeito de ser operador do chamado “mensalão”.

No depoimento ao procurador-geral, Valério disse que a SMPB e a Grafitti tomaram seis empréstimos, a pedido do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, dos quais apenas um foi pago. Os empréstimos somaram 57,5 milhões de reais.

De acordo com a lista, a maior destinatária dos recursos foi Zilmar Fernandes da Silveira, sócia do publicitário Duda Mendonça na Duda Propaganda, com 15,5 milhões de reais.

Os recursos para Zilmar eram entregues a três intermediários, segundo Simone: os policiais civis de Minas Gerais David Rodrigues Alves e Luiz Carlos Costa Lara, além de Antônio Kalil Cury, diretor financeiro da Duda Propaganda.

Procurada pela Reuters, a Duda Propaganda não se pronunciou.

O segundo maior beneficiário foi o PT, com 12,2 milhões de reais, para o diretório nacional, diretórios regionais e parlamentares.

Intermediários do Diretório Nacional teriam recebido 4,9 milhões de reais. O diretório do Rio teria recebido 2,6 milhões de reais, destinados a Manoel Severino, presidente da Casa da Moeda, e Henrique Pizzolato, ex-diretor do fundo de pensão do Banco do Brasil (Previ).

Também foram feitos repasses, de acordo com a lista, para os diretórios do PT de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas e Distrito Federal e para os deputados João Paulo Cunha (SP), João Magno (MG), Professor Luizinho (SP) e Josias Gomes (BA), além dos deputados estaduais José Guimarães (CE) e Paulo Fernando dos Santos, o Paulão (AL).

O terceiro maior destinatário da lista é o Partido Liberal, com 10,8 milhões de reais, entregues ao ex-tesoureiro Jacinto Lamas, a Antônio Lamas e à Guaranhuns Participações, sempre por indicação do presidente do PL, o ex-deputado Valdemar Costa Neto (SP), segundo o depoimento de Simone Vasconcelos.

A lista de Simone também inclui João Cláudio de Carvalho Genu como destinatário de 4,1 milhões por indicação, segundo o depoimento, do líder do PP na Câmara, deputado José Janene (PR).

O tesoureiro do PTB Emerson Palmieri teria recebido 2,4 milhões em sete parcelas, valendo-se também de dois intermediários, segundo Simone.

Para José Carlos Martinez, presidente do PTB morto em acidente de avião em 2003, teria sido destinado 1 milhão de reais pago em cinco parcelas, ao longo de 2003, entregues a seu motorista Jair dos Santos, de acordo com a lista de Simone.

O ex-líder do PMDB na Câmara, José Borba (PR), seria o destinatário de 2,1 milhões de reais pagos em seis parcelas, entre setembro de 2003 e julho de 2004, utilizando dois intermediários.

O deputado Romeu Queiroz, presidente do PTB de Minas Gerais, aparece como destinatário de 250 mil reais em 2003 e 2004. Em comunicado, Queiroz disse que encarregou um assessor de retirar quantias indeterminadas em dinheiro em duas ocasiões no Banco Rural por determinação do presidente nacional do partido, Roberto Jefferson. Segundo ele, o dinheiro a Emerson Palmieri.

“Em momento algum recebi via DOC, cheque, transferência bancária ou moeda a quantia de 350 mil”, disse Queiroz na nota.

O ex-líder do PL, deputado Carlos Rodrigues (RJ), teria recebido 300 mil reais. Funcionários de seu gabinete informaram que ele não poderia ser encontrado nesta terça-feira para comentar as informações.

Palmieri, e Genu e Lamas, em depoimentos à Polícia Federal, já admitiram ter recebido dinheiro dessas contas, por determinação de dirigentes do PTB, PP e PL, respectivamente.

Valdemar Costa Neto renunciou ao mandato de deputado segunda-feira, também admitindo que o PL recebeu recursos do PT para pagar dívidas de campanha eleitoral.

José Borba renunciou à liderança do PMDB em julho, depois de ter sido acusado por Roberto Jefferson de também ter recebido dinheiro do esquema.

A assessoria de imprensa da SMPB confirmou à Reuters que a diretora financeira entregou ao delegado Luiz Flávio Zampronha, reponsável pelo inquérito da Polícia Federal, a relação dos beneficiários dos empréstimos feitos por Marcos Valério a pedido do PT.

Simone disse à Polícia que foi a encarregada, durante todo o período, pelo repasse dos recursos em espécie aos beneficiários, de acordo com instruções que recebia de Marcos Valério.

A maior parte dos repasses, contou Simone, eram feitos na agência do Banco Rural em Brasília, quase sempre mediante recibo.

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