Rômulo Polari vê realidade brasileira afetada com medidas ultraliberais e dificuldades para aprovação - WSCOM

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Política

02/01/2019


Rômulo Polari vê realidade brasileira afetada com medidas ultraliberais e dificuldades para aprovação

O ex-Reitor da UFPB, Rômulo Polari, analisa no Portal WSCOM as perspectivas do Brasil em 2019. As propostas ultraliberais do governo Bolsonaro são vistas à luz dos grandes problemas socioeconômicos nacionais.

O autor vê um quadro bastante complexo. Mas, dependendo das ações do novo governo, o país poderá voltar à prosperidade ou ficar na mesmice dos pífios resultados.

Para ele, o governo terá muitas dificuldades para fazer as reformas fiscal, previdenciária, etc. que julga imprescindíveis. Mas quer dedicar muita energia na sua discutível atuação como definidor do padrão moral dos costumes.

Para ele, a questão básica é fazer o PIB do país crescer em ritmo forte, com base nos investimentos e consumo privados. O setor público não tem como aumentar suas despesas para dinamizar a economia.

– O governo não pode falhar no seu papel de sanar a instabilidade política e desconfiança no futuro do pais. Sem isso não florescerá a recuperação econômica possível e a retomada do desenvolvimento.

Eis a análise geral:

BRASIL 2019: CÉU DE BRIGADEIRO OU INFERNO DE DANTE?

O governo Bolsonaro quer fazer do Brasil um país economicamente ultraliberal e social, política e moralmente conservador. É uma tarefa muito difícil, que vai além do alcance do Poder Executivo. Essa guinada à direita dependerá basicamente dos Poderes Legislativo e Judiciário.

Impõe-se, isto sim, de saída, ao novo governo, enfrentar os graves problemas nacionais: desemprego e péssimos serviços públicos de saúde, educação, segurança e transportes. O malogro econômico, no último quadriênio, colocou mais sete milhões de brasileiros em extrema pobreza.

O poderoso ministro da Economia, Paulo Guedes, propôs os focos de uma revolução liberal como condição básica à volta da prosperidade econômica: eliminação do déficit fiscal, reformas tributária e da previdência, venda de patrimônio público e redução do tamanho do Estado.

Essa proposta enfrentará reação de duas forças fortes organizadas: os empresários agraciados com bilionários subsídios financeiros, desonerações fiscais, etc. e os segmentos privilegiados dos servidores públicos. Se valerem só para os pobres, as reformas não ajustarão as finanças públicas.

Os grandes empresários adoram a mão do Estado na economia, em seu favor. É para isso que os magnatas do agronegócio, indústria, finanças, educação, saúde, etc. investem pesado na formação de bancadas no Congresso Nacional. Isso não mudará com a retórica liberal do governo.

 O governo não tem como viabilizar o tão necessário maior crescimento econômico do pais. Mas crer que isso virá com investimentos privados motivados pelas perspectivas criadas com o ajuste fiscal. Como esperar essa expansão, se as empresas estão operando com alta ociosidade?

 A economia do país se encontra em fase de reversão cíclica, após a forte recessão de 2015-2018. Há, portanto, condições reais para o seu PIB crescer 3,5% a.a., no biênio 2019/20, sem grande esforço de investimentos líquidos privados. Mas como tornar efetiva essa potencialidade?

 O papel do governo será fundamental. Primeiro para superar o quadro nacional de instabilidade política e grande desconfiança e incerteza com o futuro. Depois para pôr em prática uma política econômica que seja crível quanto aos bons resultados de curto e médio prazo.

 As políticas fiscal, monetária e financeira têm que ser capazes de recuperar a economia e aproveitar as benesses da reversão cíclica. Isso requer níveis adequados de juro, inflação, câmbio, expansão do crédito, saldo da Balança Comercial, e um rumo certo no controle da dívida pública.

 Em 2019, Brasil pode ter um crescimento do PIB de 2,5% a 3%, desemprego em torno de 10% e inflação de 4%. Admite-se o clima político razoável comum ao primeiro ano de governo. Mas tem que se saber aproveitar a capacidade ociosa da economia e equacionar o ajuste fiscal.

 A retomada do desenvolvimento do país depende da sua inserção relevante na Quarta Revolução Industrial e globalização econômica. As condições indispensáveis são: modernização infraestrutural e avanços na educação, ciência e tecnologia, com vistas à produtividade e eficiência.

 Nessas ações, que são de médio a longo prazo, o governo não será, necessariamente, executor, e sim fomentador. A atuação desenvolvimentista do Estado que faz pleno sentido é promover a revolução educacional e científico-tecnológica do país, após décadas de atraso.

 O país tem problemas demais a resolver em prol do progresso e bem-estar social. Não faz sentido fazer de temas sobre gênero, raça, aborto, sexo, religião, etc. a razão de ser do governo, como suposto mentor moral dos costumes. Mas, como em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, o Inferno ou o Paraíso é uma questão de opção. O perigo é ir para o lado errado levando-nos junto.