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Artes

13/06/2018


Rita Lee destila mel ácido no livro de arte ‘favoRita’

Foto: autor desconhecido.

Rita Lee tem afirmado em entrevistas que, antes de escrever a autobiografia que virou fenômeno de vendas no mercado editorial assim que foi lançada em novembro de 2016, ela já tinha idealizado favoRita, livro que lança oficialmente hoje, 13 de junho de 2018, em tarde de autógrafos em livraria de São Paulo (SP), cidade natal dessa artista multimídia de 70 anos completados em 31 de dezembro de 2017.

Pode até ser. Mas o fato é que, se a autobiografia da roqueira não tivesse se revelado tão irresistível a ponto de ter seduzido mais de 300 mil leitores, o livro favoRita possivelmente estaria sendo lançado sem o luxo e sem o acabamento artístico da edição posta pela Globo Livros no mercado. Sim, favoRita é livro de arte direcionado ao enxame que devorou Rita Lee – Uma autobiografia (2016) como pote de mel e que sorveu com menor ardor a doçura ardida de Dropz (2017), o anterior livro de contos da escritora.

Capa do livro 'favoRita', de Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)Capa do livro 'favoRita', de Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)

Capa do livro ‘favoRita’, de Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)

favoRita é um livro de arte calcado na beleza de imagens de várias fases da carreira da artista e também de inéditas fotos atuais produzidas com esmero por Guilherme Samora. Entre as imagens, há os textos. E, por mais que estes sejam curtos, todos têm o toque espirituoso de uma artista hábil na arte de escrever bem, com humor e leveza, e de soltar os veneninhos nas entrelinhas.

Em favoRita, a eterna Ovelha Negra posa de abelha na capa do livro. E, na condição de abelha-rainha do rock brasileiro, destila mel ácido nos textos e em (algumas) legendas que ilustram e legitimam as fotos, muitas rebobinadas de sessões de estúdio para capas de discos ou extraídas de cliques de shows de Rita antes da aposentadoria dos palcos em 2012.

Aliás, é assumindo a pele de outro bicho, jabuti, que a escritora discorre sobre a implacável ampulheta do tempo que a transformou numa senhora grisalha que ainda faz muita gente feliz quando escreve textos com fina ironia e com a habitual irreverência.

Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)

Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)

Esse texto sobre a velhice, intitulado justamente Jabuti, é o mais longo (ou o menos curto) de favoRita. Nele, Rita põe pimenta no mel ao discorrer sobre a vizinhança feminina da velha infância vivida na Sampa que a traduz com perfeição ao lado de família dominada pelas mulheres. Rita escreve em cor-de-rosa choque. E provoca, para deleite do enxame de leitores.

Em Jabuti, sem dar nome aos bois, Rita alfineta as Irmãs Baptista – como costuma se referir jocosamente aos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias – ao refletir sobre a saída (expulsão, para a dona da história) do grupo Os Mutantes sob o benefício da perspectiva do tempo-rei. “… Não percebi a sorte que tive quando fui expulsa de uma banda da qual fazia parte e me desesperei com ideias suicidas. Quanto chororô à toa, quanto sofrimento inútil”, pondera, revolvendo mágoas e feridas que ainda parecem estar à flor da pele alva.

Rita teve sorte mesmo ao sair dos Mutantes. Ao lado de Roberto de Carvalho, de quem Rita se tornou parceira na música e na vida a partir de 1976, a cantora e compositora construiu obra superior ao cancioneiro dos Mutantes e fez o Brasil se apaixonar por ela, e ela pode significar tanto a obra quanto a artista.

Rita Lee sempre foi uma das cantoras favoritas do Brasil. Por isso, a censura imbecilizante dos anos 1970 e 1980 implicava de forma irracional com as letras libertárias de Rita, a roqueira que exprimiu na música o prazer que sentia na vida. Uma artista de voz ativa que empoderou a mulher no rock e no Carnaval do Brasil quando o patriarcado dava (quase todas) as cartas no jogo das guitarras.

Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)

Rita Lee (Foto: Divulgação Globo Livros / Guilherme Samora)

O livro favoRita abre os arquivos dessa censura à obra composta por Rita Lee sem e (sobretudo) com Roberto de Carvalho. No Dossiê Rita Perigosa, o capítulo de maior importância histórica do livro, favoRitadocumenta para a posteridade a existência de músicas nunca lançadas – casos de Gente fina (Rita Lee, 1973) e de Prometida (1978), uma das primeiras parcerias de Rita com Roberto – e detalha as alterações feitas nas letras de sucessos como Banho de espuma (1981) e Barriga da mamãe (1982).

O valor documental do dossiê é alto. Mas o mel ácido que escorre dos textos da abelha-rainha do rock é mais valioso. Rita encara os 70 anos com mix de humor e resignação. “O que mais assusta na nova condição de velha é a pele que vai secando feito uva-passa, mas o que anda pegando é a coitada da coluna…”, se diagnostica, aos 70 anos. “Assim que a raiz ficou branca, encarei a primeira visão de minha aparência meio caidaça, mas fiquei firme e segurei a onda, fiz um corte à la Beatles para apressar o processo, mas cada vez mais ficava a cara do Ray Conniff”, graceja a “grisalha transviada”, como Rita se caracteriza na legenda de uma das belas fotos inéditas do livro.

Mesmo sem saciar o apetite de quem queria um maior pote de mel, favoRita vai atrair enxame de admiradores por conta das fotos, textos e devaneios de Madame Lee.

G1

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