Professor Paulo Amilton analisa escolha do 'eleitor mediano' na eleição presidencial; leia - WSCOM

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Política

26/10/2018


Professor Paulo Amilton analisa escolha do ‘eleitor mediano’ na eleição presidencial; leia

Foto: autor desconhecido.

O professor Paulo Amilton, chefe do Departamento de Economia da UFPB, analisa em artigo, nesta sexta-feira (26), a tomada de decisão do ‘eleitor mediano’ na corrida presidencial brasileira deste ano. Ele discorre pelas escolhas de eleições passadas dos brasileiros diante dos principais problemas do país e comenta sobre o panorama de 2018 da disputa.

O artigo semanal é uma parceria do Departamento de Economia da UFPB com o Grupo WSCOM.

Leia:

‘O teorema do eleitor mediano e as atuais eleições presidenciais

Por Paulo Amilton Maia Leite Filho

No domingo passado estava em Recife e fui pegar minha filha em um evento da escola na praia do Paiva. Uma das alternativas para voltar era passar pela Avenida Boa Viagem. Neste lugar estava havendo um evento de campanha do candidato do PSL. A Avenida estava repleta de pessoas vestidas de amarelo. Minha filha de 12 anos, que é o maior presente que deus me deu, me questionou, pai por que um candidato tão brabo, que fala tanta grosseria contra negros e homossexuais, está tendo tanto apoio? Minha filha é negra, teve um natural medo daquela cena. Sou economista de formação, então é natural que me venha na cabeça alguma resposta proveniente da teoria econômica.  Então, me indaguei, como a teoria econômica poderia ser utilizada para explicar aquela situação?  

Procurando meus alfarrábios sobre teoria econômica, encontrei a teoria das escolhas sociais. Esta tenta entender como a coletividade, no caso uma sociedade, faz suas escolhas. Utiliza elementos teóricos da economia de mercado para tentar entender como a sociedade escolhe quais bens públicos são escolhidos para serem oferecidos à sociedade, dado que não se pode ter tudo que se quer devido a escassez. Esta área tem uma interfase bastante grande com ciência política. Dentre os achados teóricos contidos naquela teoria, tem um que se presta muito bem para explicar a atual situação, que é o teorema do eleitor mediano.

Este teorema diz que num sistema de eleição baseado em votação majoritária, o resultado eleitoral espelha mais o que deseja o eleitor mediano. A mediana é uma medida estatística, chamada de medida de posição, que divide a amostra em duas partes iguais. Numa amostra simétrica, a mediana é igual a média.  A média representa o valor padrão, o valor comum,  o que se espera de uma amostra a princípio. Em termos políticos, a média representa o pensamento, ou a escolha, mais comum da sociedade. Representa a solução do problema que afeta de forma mais comum a população.  O candidato que tiver a solução mais próxima do que pensa o eleitor mediano é que tende a ser eleito.

Vamos verificar a validade deste teorema para o caso brasileiro. Na eleição de 1994 o problema mais comum era a inflação. O candidato que apontou uma solução considerada mais adequada para debelar este problema foi eleito. Ou seja, FHC com o plano real. Mesmo fato aconteceu na eleição de 1998. Controlada a inflação, a população se voltou para a questão da distribuição de renda. Então o candidato que se propôs combater a desigualdade de renda, mas preservando a estabilidade de preços, logrou êxito. Lula e a carta aos brasileiros prometeram isto em 2002, 2006. Em 2010 e 2014, a questão da pobreza extrema foi colocada a baila e à eleita propôs um “distributivismo primitivo e tosco” e foi eleita.

Mas agora qual o problema que afeta de forma mais comum a população brasileira? Parece que a questão da violência e o combate a corrupção de forma generalizada é a que mais aflige um percentual grande da população brasileira.  

O partido do candidato que se opõe ao do PSL desdenhou das acusações de que era conivente com a corrupção. A sua presidente disse certa vez que a Petrobrás tinha um valor de centenas de bilhões de reais, e que o surrupio de seis bilhões apenas era reclamação de idiotas.

No entanto, quando falo em combate a corrupção, não falo apenas de roubo de dinheiro pelos políticos. Mas de uma forma mais geral. Acho que no Brasil atual está havendo uma corrupção de valores. A tentativa de corromper e desconstruir valores que o grosso da população brasileira acha que são imprescindíveis. 

Um desses valores é um conceito arraigado de família. Numa população que 87% se autodeclara cristã, certos valores são muito caros. Vamos a eles, 59% da população não aprova o aborto, pois tem a vida como princípio absoluto, 87% da mesma não concorda com o ensino de ideologia de gênero nas escolas.  No tocante ao combate a violência, a população observa que a autoridade policial vem sendo costumeiramente desrespeitada. Contra esta tendência, 66% da população é a favor de um tratamento mais incisivo da polícia em relação a meliantes, 84% apoiam a redução da maioridade penal.

Pergunta-se: Qual o candidato que se mostra mais antenado com a opinião da mediana da população?   No segundo turno, as pesquisas indicam, o candidato do PSL. Além do mais, por mais grosseiro que o candidato fale, a linguagem se parece muito com o grosso da população, principalmente o estrato proletário. Esta população é fortemente evangélica e acredita nos valores da família e detesta a violência, por que ela está na sua porta, reside no seu bairro. Seus valores são parecidos com os que o candidato do PSL diz seguir.

Nossa esquerda, que supostamente defende o proletariado, não tem padrão de consumo proletário, não reside em bairros proletários, não tem a estrutura de valores proletários. Quando um membro desta esquerda, que é proletário, consegue ser eleito, ou obtém um emprego melhor, tem como primeira providência sair da vizinhança proletária. Resumo, nossa esquerda não vive no meio daqueles que supostamente defendem e não tem a sua cultura. Vivem no meio daqueles que supostamente combatem, que é a burguesia. Aquela cantilena de que o capitalismo explora só encontra eco em alunos de universidades, principalmente universidades federais.  O proletário parece que encontrou na boca de um membro da direita a defesa de seus valores.   Isto explica minha filha aquele mar amarelo na avenida Boa Viagem.’