Professor Erik Figueiredo analisa as recentes declarações do General Hamilton Mourão - WSCOM

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Política

20/09/2018


Professor Erik Figueiredo analisa as recentes declarações do General Hamilton Mourão

Foto: autor desconhecido.

O professor Erik Figueiredo analisa, nesta terça-feira (20), as recentes declarações do candidato a vice-presidência do Brasil pelo PSL, General Hamilton Mourão, sobre como a dissolução familiar tende a prejudicar o futuro dos filhos, conduzindo-os, inclusive, ao crime.

O artigo semanal é uma parceria do Departamento de Economia da UFPB com o Grupo WSCOM.

Confira na íntegra o artigo:

Lares mono-parentais e crime. Absurdo ou falta de conhecimento sobre o tema?

Por Erik Figueiredo

A composição familiar tradicional, constituída por Pai, Mãe e Filhos não tem prevalecido por acaso; ela sobreviveu aos diversos testes empíricos ao longo dos séculos, driblando contratempos, sistemas de produção e mudanças tecnológicas. No curso desse processo, a família se firmou como a instituição mais importante do sistema capitalista e a razão para a prosperidade de países inteiros. Diante dessa reflexão, torna-se natural que a observação dos desvios dessa norma se tornem temas de investigação para pesquisadores sérios.

Dito isso, trago para o debate as repercussões da declaração do candidato a vice-presidência do Brasil pelo PSL, General Hamilton Mourão. Em uma fala para a Associação Comercial de São Paulo, o candidato afirmou que a dissolução familiar tende a prejudicar o futuro dos filhos, conduzindo-os, inclusive, ao crime.  A reação da imprensa e da sociedade foi imediata. De pronto, jornalistas classificaram sua declaração como preconceituosa e sem lastro algum com a realidade. Será mesmo?

Vasculhando a literatura internacional, encontramos inúmeras evidências de que o jornalismo é que está errado. Uma pesquisa recente no prestigiado International Journal of Law, Crime and Justice, intitulada  “The effects of single-mother and single-father families on youth crime: Examining five gender-related hypotheses” (Os efeitos das famílias mono-parentais na criminalidade juvenil: examinando as cinco hipóteses relacionadas a gênero)  e investiga a relação entre lares mono-parentais (filhos criados por pais ou mães solteiras) e criminalidade. Suas conclusões são claras: “single-parental families have a strong effect on youth crime” (famílias mono-parentais têm forte efeito na criminalidade juvenil).

Em resumo, há uma associação clara entre famílias mono-parentais e criminalidade nas comunidades canadenses.  Em verdade, essas evidencias só confirmam achados anteriores da literatura. O pontapé inicial foi dado pelo professor de Illinois at Urbana-Champaign, Robert Sampson. Em seu artigo seminal, “Urban Black Violence: The Effect of Male Joblessness and Family Disruption” (Violência urbana: os efeitos de pais desempregados e ruptura familiar) publicado no American Journal of Sociology (v. 93, n2, 1987). Sampson é enfático: “Family disruption is considered an important predictor of youth crime” (Ruptura familiar é considerada um importante indicador de violência juvenil futura).

Um grande número de estudos – inclusive nacionais – poderiam ser citados, mas esse não é o objetivo dessa coluna. Isso não me impede de dizer que a relação causal desses estudos pode ser contestada. Mas que seja usado argumentos acadêmicos e não de preconceito contra os que tocam no assunto. Trocando em miúdos, a mensagem central aqui é: os jornalistas deveriam se informar antes de emitir opiniões. Ou pelo menos buscar evidências fora da cartilha do politicamente correto. Assistimos a morte lenta do jornalismo da grande imprensa e uma das razões é sua completa incapacidade de encarar a notícia como se deve. Se preocupam muito mais em difundir sua visão de mundo do que pesquisar e discutir, de fato, a natureza dos problemas.

Por fim, ressalto o obvio: é evidente que os achados da literatura não tornam todos os filhos de lares mono-parentais criminosos; tampouco os casos pontuais invalidarão a regra estabelecida em média. Debater problemas sociais requer maturidade intelectual e conhecimento no assunto. Palpiteiros politicamente corretos prestam um desserviço à sociedade.