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Economia & Negócios

15/03/2018


Professor de economia, Wilson Menezes, fala sobre papel do empresário no arremate à atividade econômica

"O empresário, figura esquecida ou simplesmente ignorada por muitas abordagens econômicas, vem sendo redescoberto e recuperado enquanto conceito analítico. Para tanto, o retorno à escola austríaca tem desempenhado importante papel"

Foto: autor desconhecido.

O professor de economia da Universidade Federal da Bahia (UFBa), Wilson Ferreira Menezes, em novo artigo nesta quinta-feira (15), destaca o trabalho do empresário que integra e arremata a atividade econômica.

“O empresário, figura esquecida ou simplesmente ignorada por muitas abordagens econômicas, vem sendo redescoberto e recuperado enquanto conceito analítico. Para tanto, o retorno à escola austríaca tem desempenhado importante papel”.

Leia na íntegra:

O EMPRESÁRIO É QUEM DECIDE, INICIA, INTEGRA E ARREMATA UMA ATIVIDADE ECONÔMICA. VIVA O EMPRESÁRIO!

Wilson F. Menezes

Professor da UFBa

Uma rápida visualização nos ensinamentos da microeconomia tradicional permite dizer que essa disciplina tem como fundamento o estudo da formação dos preços e da alocação dos recursos escassos. Para tanto, seria de se esperar que a firma ocupasse um lugar central, mas não é bem assim que a banda toca. A firma em verdade sempre foi para a economia uma espécie de caixa preta, no interior da qual apenas os administradores punham os pés. Isso acontece por alguns motivos: o estado da técnica é considerado como dado e a informação a seu respeito é tida como perfeita entre os agentes econômicos; a maximização do lucro constitui o objetivo principal da firma, bem como há uma predominância da análise das trocas sobre a da produção. Dessa forma, em condições de concorrência perfeita e com ausência de progresso técnico a firma pouco pode fazer além de transformar as matérias primas e a mão de obra em produto.

Todo o arcabouço arquitetônico dessa teoria pode ser representado por modelos de equilíbrio parcial ou geral. Nasce assim um reino encantado de bem-estar, lucro e sobretudo de equilíbrio. Esse é um mundo de racionalidade, sem lugar para as incertezas, onde o progresso técnico e as inovações são parâmetros exógenos. Por um lado, têm-se preferências, escolhas e aquisições por parte dos consumidores, buscando maximizar seus níveis de bem-estar; por outro, têm-se as condições técnicas e os custos explícitos e implícitos, considerados para efeito de maximizar os lucros. O grande equilíbrio desse mundo maravilhoso se dá quando consumidores e firmas alcançam conjuntamente a condição de ótimo social. Tudo se transforma em prazer e elevação.

A percepção do limite analítico desse mundo permite contestações, quando aparecem novos conhecimentos sobre as relações entre os produtores. Novos tipos de mercado são então identificados, são os mercados imperfeitos que adentram no campo das interrelações entre os produtores. A firma ganha então um novo relevo, na medida em que se verifica sua capacidade de agir sobre os preços, seja fixando-os acima do custo da última unidade produzida, seja discriminando-os em diferentes segmentos de demanda, seja ainda através da diferenciação dos produtos ou por meio de políticas específicas de venda.

Interações entre concorrentes foram ainda elucidadas pelo reconhecimento das capacidades de ação e reação de grandes e poucas firmas em um mercado. Aqui, a informação não pode mais ser vista como sendo de conhecimento de todos, podendo perfeitamente estar distribuída de maneira imperfeita ou assimétrica entre os agentes. Barreiras à entrada no mercado podem ser erigidas; uso da pesquisa e desenvolvimento para aprimorar ou elaborar novos produtos; lançamento de ameaças críveis e não críveis aos concorrentes; até mesmo cooperações podem ser estabelecidas, quando relações amistosas podem ser erguidas onde antes eram disputas e contendas, desde que as partes vejam possibilidades de ganhos. Os sinais e as reputações são então considerações importantes para uma boa percepção do terreno em que se pisa. Jogos e estratégias passam a ser logicamente modelizados como instrumentos auxiliares para boas decisões.

Não obstante, ainda que a firma seja uma entidade coletiva e mesmo que muito se tenha avançado no seu conhecimento, fica uma grande questão no ar: quem personifica essa entidade? É como se faltasse um Asterix naquela remota aldeia gaulesa dos anos 50 AC, que resistia bravamente aos ataques de Júlio Cesar. A vida para esses gauleses era vista como um jogo cooperativo com apenas duas opções: matar ou morrer. Matar romanos passou a ser o jogo preferido dos pequenos combatentes, tudo isso porque “ils sont fous, ces romains!”. Verdadeiramente falta nosso Asterix nesse mundo econômico perfeito e/ou imperfeito. Falta o empresário.

Antes mesmo de colocar em funcionamento os mecanismos da produção, alguém decide o que fazer. Após essa primeira decisão, é preciso saber por antecipação quais matérias primas são necessárias e em que quantidades, quais e quantos trabalhadores devem compor a equipe de trabalho, que rotina organizacional deve ser fixada para que a produção aconteça, que logística distributiva deve ser seguida para que o produto chegue nos postos de venda, dentre outras tantas questões importantes. Alguém tem que decidir antes mesmo de executar qualquer atividade relativa à produção, esse alguém é o empresário.

São três as funções que um empresário exerce: 1) inovar e criar, que acontece quando a firma exerce um papel de transformação com novas combinações dos fatores, novas formas de organizar o processo produtivo, lançamento de novos produtos etc. Essa função tem sido bem estudada pelos evolucionistas, na sequência de Schumpeter; 2) organizar e coordenar o processo produtivo da maneira mais eficiente possível. Liebenstein muito contribui para esclarecer essa função, com seu pioneiro trabalho sobre a Eficiência-X; 3) enfrentar as incertezas, principalmente as não probabilizáveis, quando os métodos de cálculo enfrentam muitas dificuldades. Aqui aparecem Mises, Hayek e Kirzner que apresentam uma explicação mais abrangente em relação à figura do empresário, o que proporciona uma com grande vantagem analítica sobre a natureza e o funcionamento da economia. O empresário, figura esquecida ou simplesmente ignorada por muitas abordagens econômicas, vem sendo redescoberto e recuperado enquanto conceito analítico. Para tanto, o retorno à escola austríaca tem desempenhado importante papel.

Podemos perfeitamente chegar à conclusão que o empresário é um tomador de decisões quanto aos fins e aos meios do que estima ser boas oportunidades. Ele vê e revê as informações que o mercado emite a todo instante, não apenas na busca de maximizar a diferença entre receita e custos daquilo que já produzem, mas também tendo em vista a possibilidade de se lançar em aventuras que buscam grandes oportunidades através de novas descobertas para alcançar bons e merecidos lucros. É essa capacidade de agir, melhor ainda agir antes de outros, identificando novas possibilidades para os negócios. Esse personagem age, portanto com olho vivo e faro fino, percebendo, iniciando, desenvolvendo os elementos para sua exploração, integrando todas as partes de uma nova atividade e arrematando-a para chegar aos esperados lucros. Parafraseando Chandler, é a mão visível do empresário que constitui a fonte de novas riquezas.

Nesse momento, deixa a cena econômica o homo economicus que tudo racionaliza e maximiza e entra o homo agens de Mises, que decide e age em tempo hábil. Nem sempre acerta, nem sempre erra, o que conta é a experiência e o aprendizado. Sem auxílio de cálculo econômico, no exercício de suas atividades e funções, considerando os sinais de alerta quanto ao risco, e principalmente em busca de ganhos que justifiquem a temporalidade de seus investimentos, o empresário é, sem dúvida, o agente que inicia o movimento das peças do grande jogo do mercado. Tudo isso por uma simples unidade adicional de lucro, palavra cuja sonoridade soa como uma melodia aos seus ouvidos. Glória ou demérito o aguarda: “ao vencedor as batatas”. Que assim seja!

Não esqueçamos que a PeTralhada, que tudo confunde, trocou a figura do empresário pela de chefe de bando. Nosso Dom Corleone da Silva, juntamente com outros petits leaders latino-americanos, montou “L’armata Brancaleone San Pablo’s Foro”. Não aprenderam muita coisa na área da economia, mas desenvolveram grande arte no roubo e no logro. Mas isso é tema de polícia e não de economia.

 

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