Professor de Economia fala sobre desemprego no Brasil - WSCOM

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Brasil & Mundo

10/05/2018


Professor de Economia fala sobre desemprego no Brasil

Para o especialista, "não existe milagre para a questão do desemprego. Mas é inegável que os PeTralhas aumentaram de maneira significativa esse problema, quando nos penalizaram com uma passagem rumo ao passado e destino um pouco além do inferno"

Foto: autor desconhecido.

O professor de economia da Universidade Federal da Bahia (UFBa), Wilson F. Menezes, explana em novo texto, sobre o desemprego no Brasil. O artigo semanal é uma parceria do Departamento de Economia da UFPB com o Grupo WSCOM.

Para o especialista, “não existe milagre para a questão do desemprego. Mas é inegável que os PeTralhas aumentaram de maneira significativa esse problema, quando nos penalizaram com uma passagem rumo ao passado e destino um pouco além do inferno”.

Confira o artigo na íntegra:

NÃO EXISTE MILAGRE PARA O DESEMPREGO NO BRASIL

Wilson F. Menezes

Professor da UFBa

Mais uma vez a taxa de desemprego impressiona os brasileiros. A estimativa oferecida pela Pnad Contínua do IBGE para o primeiro trimestre deste ano foi de 13,1% da população economicamente ativa. Uma taxa menor em relação ao mesmo trimestre 2017, quando os cálculos apontaram um percentual de 13,7%. Ainda a título de comparação é bom lembrar que o trimestre anterior apresentou uma taxa de 11,8%, ou seja, houve um aumento de 1,3 pontos percentuais. Uma taxa de desemprego dessa dimensão, é sem dúvida um número expressivo pela magnitude e surpreendente, na medida em que o governo anunciava o início de uma recuperação econômica.

Esse índice de desemprego aponta a existência de 13,7 milhões de pessoas na condição de desemprego no país. É muita gente. O comércio desempregou 396 mil pessoas, uma perda de 2,2% de suas vagas de trabalho; a construção civil perdeu 389 mil postos de trabalho, uma diminuição de 5,6% em seu contingente e a indústria diminuiu 327 mil postos de trabalho, representando uma redução de 2,7% de seu emprego. Apenas esses três setores eliminaram 1,112 milhões postos de trabalho nesse primeiro semestre.

Dentre os novos desempregados figuram 2,9 milhões de trabalhadores formais com carteira de trabalho assinada, sem contar o emprego doméstico também com carteira. Com esse crescimento do desemprego é natural que se espere uma redução do ganho médio do trabalhador brasileiro. O esperado aconteceu. Esse rendimento foi estimado em R$ 2.169, ou seja, em média, foram quatro reais a menos em relação ao último trimestre de 2017.

A complexidade do problema do desemprego é muito grande, mesmo porque são muitos os fatores que exercem influencias sobre esse fenômeno socialmente desagradável. O desemprego resulta, antes de tudo, da taxa de ocupação, representada pela relação entre ocupados e população economicamente ativa, ou seja, resulta da dinâmica do mercado de trabalho proporcionada pelos movimentos conjunturais do processo econômico. Nesse ponto, o governo no mínimo se equivoca ao afirmar que a sensação do desemprego aumentou com o retorno do crescimento econômico, isso porque um maior número de pessoas foi estimulado a sair da condição de inatividade econômica em busca de uma ocupação. Mas, nesse mesmo instante, o mercado anunciava uma diminuição da projeção de crescimento do PIB para este ano. Assim, o principal elemento redutor do desemprego não está sendo suficientemente acionado. Nesse requisito o Brasil tem fracassado nos últimos anos.

Outro importante fator que influencia o movimento do desemprego é a taxa de participação econômica. Essa taxa estabelece uma relação entre a população economicamente ativa (PEA) e a população em idade ativa (PIA), ambas tomam como referência as pessoas entre 15 e 64 anos. A PEA, por sua vez, é constituída de pessoas que se encontram ocupadas ou desempregadas, enquanto a PIA incorpora os inativos a esses ocupados e desempregados. A taxa de participação recebe uma influência indireta proveniente da dinâmica econômica, mas é uma medida eminentemente estrutural da população. O movimento dessa taxa é muito tênue no curto prazo, mas encerra importantes efeitos para o longo prazo.

Pois bem, no Brasil esta taxa vem apresentando leve declínio desde novembro de 2017. É bom ressaltar que, desde o ano 2000, a taxa de natalidade vem declinando no país, enquanto a taxa de mortandade se mantém muito estável. Significa dizer que a participação do jovem na PIA relativamente diminui, ao tempo em que o idoso mantém sua participação. Esse tipo de movimento é próprio de uma população em vias de envelhecimento, cuja consequência é um menor quantitativo de pessoas economicamente ativas para sustentar um maior número de inativos. Essa situação se complica ainda mais, quando se sabe que aumenta a participação dos desocupados no seio dos economicamente ativos. Tem-se, portanto uma amplificação do problema, na medida em que a trajetória estrutural da população, que já apresenta dificuldade, recebe um condicionante econômico que alarga o problema.

A queda na participação da indústria de transformação no produto interno bruto (PIB) também contribui, ainda que de maneira indireta, para a formação de desemprego. A indústria brasileira apresentou elevação dessa participação até 1985, quando representou 21,8% do PIB nacional. Desde então, essa participação vem declinando até alcançar 11,8% em 2017. A consequência disso é a imediata redução percentual do emprego industrial no emprego global do país. Em 1985, a indústria de transformação era responsável por 27,1% de todo emprego formal, desde então essa proporção vem diminuindo até alcançar 15,7% em 2015. Essa perda de peso da indústria nacional caracteriza um processo de desindustrialização do país, que volta pouco a pouco à condição de primário exportador, com grande perda da competitividade internacional de nossos produtos industriais. Esse processo se acentuou nos últimos governos. Ora, a indústria é o setor que paga os mais elevados salários, de maneira que essa desindustrialização acaba por desacelerar as influências positivas que a indústria emite para o resto da economia.

Além disso, deve-se adicionar alguns fatores que dificultam uma dinâmica econômica. Debilidade da infraestrutura, principalmente no que diz respeito aos portos e estradas, excessiva burocracia para se ativar e desativar empresas, alta carga tributária, vasto e complexo sistema fiscal e mais recentemente uma crise política, social e econômica. Assim, o vazamento da renda através do uso privativo dos impostos, bem como uma debilitada estabilidade jurídica, condição necessária para a montagem de um bom sistema contratual e de negócios. Isso naturalmente vem pondo em xeque as relações e processos econômicos internos e externos, dificultando os investimentos nacionais e problematizando a atração de capitais internacionais.

É interessante lembrar que a produtividade dos fatores econômicos exerce forte influência sobre a dinâmica econômica. Por produtividade pode-se entender como sendo a capacidade de se produzir mais com a mesma dotação de fatores ou produzir um mesmo nível de produto com menor quantidade desses mesmos fatores. O aumento da produtividade do capital deriva diretamente do avanço e da inovação tecnológica, bem como dos condicionantes das formas organizacionais dos processos produtivos. Já o aumento da produtividade do trabalho tem a ver com a elevação do nível de escolaridade da população, além de uma adequação dessa escolaridade às necessidades impostas pela dinâmica econômica. No Brasil, esses dois aspectos são problemáticos. O processo de desindustrialização responde por si mesmo ao problema relativo ao capital. A ausência de solução definitiva para nosso caótico sistema educacional completa o problema, fechando a sociedade e a economia brasileira em um loop de atraso e pobreza.

Por fim, não se pode esquecer que uma dinâmica econômica deve incorporar aspectos de modernidade tecnológica e organizacional. Isso faz com que inexoravelmente firmas e setores econômicos tornem-se obsoletos e passem a serem substituídos por outros tantos que apresentam resultados mais criativos e positivos. Esses movimentos contrários e simultâneos induzem a elevação do nível de produção e de bem-estar do país, em que destruição e criação de empregos passa a ser um corolário lógico. Melhoria e degradação do mercado de trabalho e dos rendimentos são movimentos opostos que sacodem a todo momento o mercado de trabalho e, por via de consequência, toda a sociedade. Aqueles de perdem seus postos de trabalho passam a enfrentar o desemprego, muitas vezes de longa duração ou de maneira definitiva; enquanto os incorporados a essa nova dinâmica passam a usufruir melhores condições de vida, mas certos de que a incerteza os acompanhará sempre. A imperfeição desse mundo econômico nos alimenta de aflições, angústias e ansiedades, mas também nos fornece novas capacidades e destrezas para enfrenta-las. Paradoxalmente esse tipo de problema encontra-se apenas latente na economia brasileira, isso porque o processo recessivo que estamos enfrentando nos tem deixado apenas o lado da destruição de postos de trabalho e fechamento de firmas.

Não existe milagre para a questão do desemprego. Mas é inegável que os PeTralhas aumentaram de maneira significativa esse problema, quando nos penalizaram com uma passagem rumo ao passado e destino um pouco além do inferno. Roubo e rapina como prática e uma utopia como discurso. Oferecem o sublime, mas nos entrega desespero e desilusão. Ainda bem que o percurso em direção a Venezuela vem sendo sistematicamente obstruído.

 

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