Polícia sabia que brasileiro não era "ameaça", diz "The Observer" - WSCOM

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Internacional

21/08/2005


Polícia sabia que brasileiro não

Os principais jornais britânicos destacam o caso da morte, por engano, do brasileiro Jean Charles de Menezes, baleado pela polícia em julho, em uma estação de metrô de Londres.

A edição deste domingo do “The Observer” afirma que os policiais envolvidos na operação que resultou na morte de Jean Charles não acreditavam que ele representasse uma “ameaça imediata”.

O jornal cita fontes importantes dentro da Polícia Metropolitana de Londres, que afirmaram que membros da equipe de vigilância que seguiram o brasileiro dentro da estação de metrô de Stockwell acharam que ele não estava prestes a detonar uma bomba, não estava armado e não estava agindo de forma suspeita.

Segundo o jornal, as fontes afirmaram que foi apenas quando a equipe de vigilância se juntou aos oficiais armados que Jean Charles foi avaliado como uma ameaça tão grande que julgou-se necessário atirar sete vezes contra ele.

As fontes afirmaram ao “The Observer” que a equipe de vigilância queria deter Jean Charles de Menezes, mas recebeu instruções de entregar a operação nas mãos da equipe de oficiais armados.

O jornal descreve como Jean Charles foi imobilizado por um policial quando já estava sentado dentro do vagão do trem em Stockwell e como, logo em seguida, outros policiais chegaram ao vagão e dispararam contra ele.

Em em um editorial neste domingo, o “The Observer” pede: “fale a verdade sobre de Menezes”, afirmando que o que está em jogo não é apenas a integridade de Jean Charles de Menezes, mas que a morte de um inocente atinge o coração da democracia britânica.

‘Houston, temos um problema’

O tablóide “News of the World” traz na capa deste domingo a entrevista exclusiva com o chefe da Polícia Metropolitana de Londres, Ian Blair.

Falando sobre o momento em que foi comunicado do erro na morte de Jean Charles de Menezes, Blair afirmou: “Alguém veio por volta das 10h30 da manhã e disse o equivalente à ‘Houston, temos um problema’. E eu pensei que era terrível”.

Na entrevista, Blair nega novamente as tentativas de encobrimento e também se recusa a atacar a Comissão Independente sobre Queixas contra a Polícia (IPCC).

Blair também afirma que não pretende renunciar ao cargo e que tem um trabalho a fazer: “encontrar os terroristas”.

Questionamento

O jornal “The Independent” afirma em sua edição de domingo que o chefe da Polícia Metropolitana de Londres, Ian Blair, será questionado pela Comissão Independente sobre Queixas contra a Polícia (IPCC) a respeito da série de erros cometidos na operação que resultou na morte de Jean Charles de Menezes e seu papel nos eventos seguintes.

E, apesar de citar as tensões entre o IPCC e a polícia e revelar que menos de 90 minutos depois do brasileiro ser baleado, Blair escreveu ao Ministério do Interior pedindo o atraso do inquérito do IPCC, em seu editorial deste domingo, o “The Independent” afirma que Blair deve permanecer no cargo, por enquanto.

O “The Independent” também traz a informação de que a família de Jean Charles de Menezes rejeitou “enojada” a oferta da polícia de Londres, de 15 mil libras para pagamento de despesas, além de trazer a comparação entre a versão dos fatos inicialmente divulgada e o que os documentos vazados nesta semana afirmam sobre a morte do brasileiro.

O jornal também traz uma reportagem que revela que, desde 2003, o Ministério do Interior britânico tem uma políticia secreta de barrar a entrada de jovens brasileiros no país, depois de ter recebido uma denúncia de que gangues estariam colocando estes jovens no Reino Unido para trabalho ilegal.

“Boicote”

O jornal “Times” afirma que o conflito entre a Polícia Metropolitana e a Scotland Yard aumentou depois que fontes alegaram que a polícia está boicotando a investigação do IPCC.

Uma fonte importante da polícia afirmou que o IPCC não conseguiu convencer nenhum oficial a ajudar na investigação ou mesmo ajudar a descobrir quem revelou os documentos que revelaram a versão diferente da morte de Jean Charles de Menezes.

A alegação feita pela fonte da polícia gerou uma reação furiosa de John Wadham, vice-presidente do IPCC, que, segundo o jornal, afirmou que “tudo é uma bobagem, o IPCC decidiu não usar a ajuda da força policial” na investigação.

Em outro artigo sobre o assunto, o “Times” afirma que a controvérsia deve aumentar pois o político George Galloway, do partido britânico Respect, se juntou ao grupo que de organizações que defendem o caso de Jean Charles de Menezes, com o objetivo de ajudar a aumentar as manifestações contra a polícia e o governo.

“Parem os terroristas”

O “Telegraph” afirma em um editorial deste domingo que é preciso “parar os terroristas e não a polícia”.

O editorial do “Telegraph” afirma que, apesar da morte de Jean Charles de Menezes ser uma tragédia, não sugere que o chefe da Polícia Metropolitana, Ian Blair, está envolvido em uma tentativa de encobrimento e que o pedido dos advogados da família de Jean Charles – a renúncia de Blair – não tem mérito.

O jornal afirma que os procedimentos da polícia para identificação de suspeitos precisam ser revistos, e é extraordinário que, no dia 22 de julho não foram feitas tentativas mais detalhadas parar checar se Jean Charles de Menezes era mesmo um terrorista.

O editorial termina afirmando que os oficiais não saíram para “executar um inocente” e que o Reino Unido não precisa de advogados que se aproveitam da tristeza de uma família, mas sim de uma polícia confiante.

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