Parreira diz que não está preparado para perder - WSCOM

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Brasil & Mundo

22/06/2006


Parreira diz que não está

Carlos Alberto Parreira, 63 anos, desce a escadaria do Castelo Lerbach com um sorriso no rosto. Mãos nos bolsos do agasalho. Passos lentos. À sua frente, um enorme jardim, um pequeno lago. E seguranças, dezenas deles. Um mundo de absoluta tranqüilidade para o técnico da Seleção Brasileira e para as estrelas do futebol mundial. Mas também um mundo blindado, de solidão e de decisões que impactam de forma apaixonada e até doentia o cotidiano de 180 milhões de brasileiros e outros tantos no planeta. Um mundo de extrema ansiedade, que promete atingir seu momento mais crítico na fase do mata-mata da Copa do Mundo que começa na próxima segunda ou terça-feira para o Brasil. Nesta quinta-feira, já classificada, a Seleção enfrenta o Japão, às 16h, em Dortmund.

Sentado em uma das cadeiras do idílico jardim, pernas cruzadas, Parreira, por trás do sorriso malicioso, bem que tenta, mas não consegue sair do clima gerado pela competição. Diz em entrevista exclusiva ao Terra que dorme pouco e só pensa nisso. Até trouxe na bagagem livros de ficção para relaxar, mas não conseguiu e nem conseguirá abri-los. Está cercado de jogadores e de membros da comissão técnica e de uma multidão imaginária, mas se afirma solitário. “Você tem que ter convicções e nessas convicções você acaba, às vezes, ficando sozinho. Aí vem o solitário, você acaba ficando sozinho contra a opinião pública”, desabafa.

Pressionado para que a seleção ganhe e dê show, ele desfere o seu pragmatismo de resultados. “Show é ganhar os jogos”, prega, ao ressaltar que Copa é competição, e não um campeonato, onde mesmo perdendo, se chega a campeão. E proclama, com a irônica ajuda de uma manchete de jornal da Argentina após a fraca atuação contra a Croácia, que os jogadores são humanos, e não galácticos e extraterrestres. “Com todas as virtudes, com tudo que a gente tem de bom e com as nossas fraquezas, vamos viver esse momento como humanos”, entoa, feliz, por ter encontrado um argumento eficiente para combater o “delírio” criado em torno da Seleção Brasileira. O treinador, convicto de suas ações e sem medo de arrependimentos, confessa ainda que não está preparado para perder. “Não adianta ficar chorando pelo que já aconteceu. Não consigo pensar. Se acontecer, a gente cai na real. Não estou preparado, só a partir do momento que ocorrer – e espero que não ocorra”.

Confira a seguir a íntegra da entrevista exclusiva concedida ao Terra na tarde da última terça-feira:

Terra – O time que enfrenta hoje o Japão já está escalado?

Parreira – Na minha cabeça, sim. Será anunciado no vestiário, momentos antes do jogo.

Terra – Surpresas?

Parreira – No vestiário. Nenhum comentário a mais. Vocês, durante 40 dias, tiveram o time de bandeja, treinamento para a Copa do Mundo. Não tem o que reclamar de nada. É estratégia do treinador.

Na entrevista após a vitória sobre a Austrália, você disse que conversaria com a comissão técnica sobre a possibilidade de poupar jogadores. Você fez isso?

Parreira – Não, eu não disse, eu não falei. Me perguntaram e eu respondi: é muito cedo, o jogo acabou há 30 minutos, vou conversar com a comissão técnica, com o departamento médico e depois vou resolver o que for melhor para o Brasil. Conversei com o departamento médico, conversei com o departamento de preparação física, falei com todos e tenho convicção do que vai ser feito.

Terra – Em relação ao primeiro jogo, você acha que o Brasil foi melhor, foi no mesmo patamar, diminuiu em algum setor, subiu em outro?

Parreira – Eu acho que disse isso para vocês reiteradas vezes: o primeiro jogo é o mais difícil da competição, porque nós estamos sem jogar há oito meses. Jogamos só em Moscou, nos juntamos só na véspera, jogamos a 20 graus abaixo de zero, o campo escorregadio. Somou muito pouco aquele jogo. E nós fizemos só dois jogos de preparação, porque preferimos dar prioridade ao treinamento, porque sabemos que será a Copa da saúde, a gente está vendo como as equipes estão correndo. Então nós tínhamos que dar uma base física para essa equipe. Optamos por jogar menos e treinar mais. E, evidente, que isso ia se refletir no jogo de estréia, contra um time que é bom, experiente, organizado, que joga junto há muito tempo e que fez cinco jogos de preparação. Teve uma estratégia diferente da nossa. Falei que o importante era ganhar o primeiro jogo, e nós ganhamos. Falei que o resultado foi excepcional, a performance pode melhorar, e vai melhorar. Tenho certeza que vai. Já melhorou no segundo jogo e, com certeza, nessa progressão, vai melhorar mais um pouco para chegar num ponto satisfatório, bom, nas oitavas.

Terra – Há opiniões que entendem que esta sua estratégia deixou o time travado, sem jogo, ou você não entende que foi isso?

Parreira – O ritmo de jogo é função do adversário também.

Ninguém joga sozinho. O time estava menos travado e teve a mesma dificuldade contra a Austrália. Contra o Brasil, todo mundo muda. Quem viu o jogo com análise crítica, tática, não só com o coração, com a emoção, analisando criticamente, enxerga isso. A Austrália botou uma linha de 10 jogadores da intermediária para trás. É uma muralha que você tem que ter muita paciência. Os jogadores são experientes, fisicamente fortes, que jogam no futebol europeu. Não tem ninguém mais bobo em futebol. O time da Austrália, se você for analisar, simplesmente eliminou o Uruguai da Copa do Mundo, empatou com a Alemanha, empatou com a Holanda. Tiveram uma preparação boa, são jogadores experientes, tiveram bons resultados. Acho que nós jogamos dentro do necessário para antecipar a classificação. Chegar em uma Copa do Mundo, em um grupo equilibrado como o nosso, é difícil, porque não são equipes exponenciais, nunca venceram Copa do Mundo, mas equipes que sabem jogar, que dão trabalho, que têm um estilo que incomoda o adversário, com muita condição física e muita marcação. O Japão não vai ser diferente. Das três (seleções), é o time que mais corre, é o time que mais joga em velocidade, incomoda todo mundo, porque são muito rápidos, muito ágeis, têm muita agilidade e uma certa qualidade técnica. São três adversários distintos que, dentro das características, vão incomodar o Brasil, ou qualquer adversário. O Japão, outro dia, estava ganhando de 2 a 0 da Alemanha, aqui. A Alemanha foi empatar no final, com dois gols de bola parada, já quase no desespero. É um time que sabe o que faz em campo. Eu fiquei satisfeito com o rendimento inicial, é claro que, para ser campeão do mundo, nós temos que progredir e melhorar essa escadinha, na parte física, na parte tática, na parte técnica. Com certeza nós queremos, e muito, e essa progressão vai continuar. Não é uma ciência exata igual à matemática, que dois e dois são quatro. A idéia é que melhore, e tem melhorado. A gente só espera que suba mais um degrauzinho contra o Japão.

Terra – Por que existe esta expectativa do Brasil ter que dar show sempre?

Parreira – A Alemanha não tem (que dar show), a Inglaterra não tem, a Itália não tem. Todo mundo joga “retrancado” e é bonito. Na Copa do Mundo, vocês querem show ou querem voltar para casa? Eu quero ganhar a Copa. Ganhar a Copa do Mundo com show eu nunca vi ninguém ganhar. Vamos combinar o seguinte com a Fifa e com os adversários: quando a gente for jogar a Copa do Mundo, não vale três pontos, não vale perder e voltar para casa, não vale falta, o adversário deve jogar no ataque… Então, show para mim, na Copa do Mundo, é ganhar. O que é show e futebol? Por que nós temos que ganhar de 10 a 0? Nós não temos essa obrigação, nós temos a obrigação de ganhar. Eu sou favorável ao futebol bonito. Se possível, quero ganhar todos os jogos de 6, 7 a 0. Em não podendo, me satisfaço com dois, três, ou quatro (gols). Vamos deixar claro: se pudermos conciliar beleza, futebol e resultado, eu quero isso tudo. Em não podendo, em função do adversário (não se joga sozinho), então vamos ganhar os jogos. Show é ganhar os jogos.

Terra – Este espetáculo não existe mais, ou eventualmente pode surgir?

Parreira – Primeiro defina o que é dar espetáculo em futebol.

Terra – Jogar bonito. É show.

Parreira – E tem obrigação de ganhar?

Terra – Sempre

Parreira – Dá para conciliar – show, espetáculo e ganhar?

Terra – É complicado…

Parreira Então você prefere o que? Eficiência?

Terra – Eu prefiro pontos conquistados

Parreira – Eu prefiro eficiência, que é pontos conquistados. Se der para jogar bonito, nós não somos contra. Nós temos o Kaká, Ronaldinho, Adriano, Ronaldo, Roberto Carlos… Temos dezenas de jogadores que sabem jogar bonito, mas tem que ser eficiente, senão volta. Nós tivemos equipes que jogavam bonito e voltaram. Foram sétimos, oitavos em Copa do Mundo. Nós queremos ganhar. Pergunte ao torcedor se ele está satisfeito. Se perdemos um jogo para a Austrália, haveria festa na rua? Não. Só tem, porque ganhamos, e queremos que continue assim até o final.

Terra – O time será assim até o final, ou pode mudar?

Parreira – Pode (mudar), acho que se tem que estar preparado para ter alternativas. Em uma Copa do Mundo, normalmente, o time vem pronto, depois da eliminatória, depois de alguns jogos amistosos, se tem uma base. Mas se houver necessidade, nós mudamos, tem que mudar, até dentro do jogo se tem que mudar. Nós já mudamos, não o esquema tático, mas mudamos. Até porque nosso time começa no limite da ofensividade. Então, não se pode tirar um meio-campista, colocar um atacante e ficar com cinco atacantes. Não dá. O que se pode fazer é equilibrar o time, tirar um atacante, colocar um meia, ou um jogador descansado na mesma função que o outro. O que acaba fazendo a diferença. Como nós temos jogadores no banco muito talentosos, entrando em campo com vontade, disposição, muda o esquema tático, a maneira do time se comportar. Eu diria que muda até a velocidade, o ritmo de jogo. O que para nós é sempre fundamental no segundo tempo, nos últimos 20 minutos. A Espanha foi ganhar (contra a Tunísia) faltando 15 minutos. Quando se coloca três jogadores descansados, faz a diferença contra um adversário um pouco cansado. Então, isso é uma arma que se tem usado bem. O Brasil usou também na última partida, contra a Austrália, e se deu bem.

Terra – Como você administrou esse momento do Ronaldo?

Parreira – Exatamente com essa bagagem, com essa experiência e com algumas convicções. Não é todo mundo que tem um jogador como o Ronaldo. Mas veja bem, não basta ter o Ronaldo apenas no nome, pois não vai decidir jogos, não vai ganhar. Eu preciso que o Ronaldo esteja presente física, técnica, taticamente, com disposição, vontade. Me parece que foi muito conturbada essa preparação (da Seleção). Ele acabou não jogando aquilo que esperávamos na estréia. Acabou não aproveitando para ganhar ritmo, mas a partir do jogo contra a Austrália, por tê-lo mantido, já vimos que ele ganhou um alento. A cara do Ronaldo mudou e estamos pensado a longo prazo. O Brasil não pode projetar uma Copa pensando em três, quatro, cinco jogos. Temos que projetar para sete partidas. Mesma que não ocorra. Então, ao longo dessa caminhada, o Ronaldo pode ser útil, por tudo que ele é, representa, e pelo respeito que impõe aos adversários.

Terra – Em que nível está o Ronaldinho neste momento?

Parreira – Está bem. Não podemos comparar o Barcelona, que é clube, com a Seleção Brasileira. Campeonato Espanhol com a Copa do Mundo. É diferente. Ele está solto, com vontade, muito marcado em cada partida. Os adversários colocam dois, três (marcadores) em cima dele. É diferente. Os espaços não são os mesmos que ele tem lá no Barcelona, mas, no último jogo, todo time já foi melhor. Esperamos que essa seqüência se mantenha ao longo da competição: que a gente cresça um pouco ao longo de cada partida.

Terra – Você pensa que há 32 anos estava na Alemanha e agora voltou?

Parreira – Há 42 anos atrás, eu estava na Alemanha estudando. Eu passei 4 anos em Hannover, em uma escola de futebol. Depois voltei na Olimpíada de 1972, voltei na Copa de 1974. É ótimo voltar aqui em mais uma Copa do Mundo, sendo técnico da Seleção Brasileira. Ainda mais para quebrar esse desafio que é ser campeão na Europa. O Brasil conseguiu em 1958. Em 10 Copas (disputadas na Europa), só o Brasil conseguiu, uma vez, nunca mais ninguém conseguiu. Agora, são dois, ou três times sul-americanos já bem presentes. Estes são: o Equador, a Argentina, com todo o potencial, e o Brasil. Não vai ser fácil, mas estamos todos preparados para uma final. Vamos torcer para que tenha ao menos um sul-americano na final, e que seja o Brasil, claro.

Terra – É possível se preparar para perder?

Parreira – Eu não consigo. Não passa pela minha cabeça. Se um dia acontecer – e pode acontecer. Veja bem, quem está no futebol sabe que tudo pode acontecer em uma Copa do Mundo, a partir das oitavas-de-final. Até o time mais forte pode ficar fora da Copa, como já aconteceu em muitas oportunidades. Porque, às vezes, o resultado de um jogo não reflete a superioridade futebolística de um país sobre outro. Foi apenas o resultado de um jogo. Se jogasse 10 vezes, você ganharia nove e perderia uma, e perdeu aquela que não poderia perder. Não, eu não consigo me preparar. Se acontecer, é evidente que vamos analisar. Não adianta ficar chorando pelo que já aconteceu. Não consigo pensar, se acontecer, a gente cai na real. Não estou preparado, só a partir do momento que ocorrer – e espero que não ocorra.

Terra – No primeiro jogo do Brasil, 965 jornalistas estavam na fila de espera. No segundo jogo no ranking, havia apenas cerca de 230 jornalistas na espera. Só para você sentir o peso da Seleção Brasileira

Parreira – Foram vocês que criaram isso e querem que dê show. Isso aqui é Copa do Mundo. Isso é uma competição e não um campeonato. Um campeonato se joga 38 partidas, pode se perder cinco (jogos) e ser campeão, como aconteceu com o Real Madrid, com os campeões brasileiros, que perderam sete, oito partidas. Copa do Mundo não. Na Copa, perdeu a partir das oitavas, vai embora para casa. É uma competição diferente, muda tudo. Tem que ser mais consciente dentro de campo. Não quero arriscar menos, mas tem que ser mais consciente. Então, pode voltar para casa, só isso. Como aconteceu com o Brasil em 24 anos. O Brasil ficou sem chegar a uma final em 24 anos, e sempre tivemos o melhor futebol, os melhores jogadores.

Terra – No momento, chama a atenção a seleção do Equador, ela é uma das surpresas da Copa?

Parreira – Não, o Equador para mim não. Na verdade, já tinha feito uma boa eliminatória na Copa de 2002. Confirmou as boas atuações na eliminatória de 2005. Para mim, não foi surpresa, para mim não, ele está confirmando aquele bom momento, aquela evolução que teve o futebol equatoriano ao longo desses oito anos.

Terra – A sua sensibilidade diz o quê? Vamos enfrentar qual adversário na próxima fase e qual seria o melhor?

Parreira – Não, não tenho. Quem quer ser campeão do mundo tem que se preparar para qualquer adversário. Já tivemos analisando, vendo, tanto é que nossos observadores vão acompanhar os dois jogos. Vão acompanhar Estados Unidos x Gana e Itália x República Checa, porque pode dar qualquer um. A Itália pode entrar em primeiro, a Itália pode ser eliminada. A República Checa pode ficar em primeiro e pode ser eliminada. Gana pode ficar em primeiro e pode ser eliminada. Até os Estados Unidos têm possibilidade, dependendo de outros resultados. Você tem que estar preparado para os quatro. Não tenho escolha, quem quer ser campeão do mundo não pode escolher adversário. Tem que enfrentar qualquer equipe.

Terra – Quesito solidão. Embora você esteja cercado por “uma multidão”, em alguns momentos o técnico é só, tem que decidir sozinho. No quarto tem que pensar o melhor caminho. Achamos que você é um solitário. É exagero isso?

Parreira – Eu acho que é, a palavra é apropriada. O técnico é um solitário porque tem determinadas decisões, momentos em que você está sozinho e tem que partir com as suas convicções. O que a gente não pode ter aqui e eu não terei com certeza, é arrependimento. Na vida você não pode ter arrependimento. Então de minha parte, acredito que dos jogadores também. A gente está vendo aqui, acompanhando o interesse de todos. Fazemos o melhor. Se vai dar certo ou não, eu não tenho bola de cristal. É um jogo e eu já falei: uma vitória eventual de uma equipe sobre outra em uma Copa do Mundo não significa superioridade futebolística de um país sobre o outro. Significa apenas um eventual resultado de um jogo, que em uma Copa do Mundo é danado. Elimina uma potência, elimina um grande time.

Terra – Ninguém é tão forte suficiente que possa abrir mão de um ouvido, de um ombro. Parreira, Você tem nesse instante uma pessoa para ouvi-lo?

Parreira – Aqui a comissão técnica é muito experiente. O Moraci (Sant’Anna, preparador físico) já está indo para a quarta Copa do Mundo. O Jairo (Leal, auxiliar técnico) está indo para a primeira Copa do Mundo, mas acompanha futebol, o Jairo é um obcecado pelo futebol, sabe tudo, conhece, é o homem que faz o meu bastidor e todos os relatórios. Lê, analisa o adversário, já me dá tudo mastigado. O Zagallo que está ali sempre atento, observando, um comentariozinho aqui, outro comentariozinho ali. O Américo (Faria, supervisor), os jogadores. De vez em quando a gente conversa com o Cafu. Não é opinião, o conversar já tem essa interação, entende? No jogo e antes do jogo, do adversário, uma palavrinha às vezes é o suficiente. Nós estamos aqui e eu acho que o trabalho de equipe é muito bom. Isso dá consistência a tudo que a gente faz.

Terra – O Cafu é seu líder dentro de campo?

Parreira – O Cafu, ele é líder pelo que ele representa para esse grupo, pela história do Cafu. Então, hierarquicamente ele já se coloca em uma posição em que todo mundo observa. Dentro de campo ele fala bastante, mas nós temos ali o Dida que fala muito. O próprio Emerson, quando está em campo fala muito. O Kaká, apesar da juventude dele, ele cobra, fala. O Ronaldinho. O time, agora, eu estou achando, que com o esquentar da competição, está todo mundo mais participativo e tem que ser assim.

Terra – O que te magoa?

Parreira – Olha eu não tenho mágoa não. Graças a Deus. Só agradeço a Deus.

Terra – O que te deixa triste?

Parreira – Não, não tenho. Veja bem, nós temos uma outra percepção do futebol, o que eu acompanho em Copas do Mundo, no futebol brasileiro, no futebol mundial, desde os anos 70 e tal. O crescimento do futebol, este delírio que se criou fora de campo, felizmente não ataca a gente, porque a gente não sabe onde vai parar isso. Novecentos na lista de espera. Foi criado um monstro, vocês criaram um monstro, difícil de digerir. Então a gente não pode participar disso. Vão lá cinco mil caras no treino, dez mil caras esperando, então a gente não pode entrar nessa.

Terra – Você não acha isso bom?

Parreira – Bom? Bom para vocês que estão lá fora, se divertindo. Vem aqui para o nosso lugar, com a responsabilidade.

Terra – É muita pressão?

Parreira – Muita pressão, porque criou-se uma coisa falsa. Show? Show é para quem paga para ver o show. É diferente. Quem está dando show não tem compromisso com a vitória, não tem compromisso com a emoção. Não tem compromisso com nada. O cara vai lá, está doente, está com dor de cabeça, vai lá e dá o show. Futebol é eficiência, é resultado, então não tem nada a ver com show. Essas coisas são coisas que realmente não podem atingira gente e não vai atingir.

Terra – Você fala isso para os jogadores?

Parreira – Falamos, vamos falar e vamos continuar ratificando. Tem que ganhar. Show é ganhar.

Terra – Por que podem achar que com malabarismo se vence no futebol e não é assim?

Parreira – Com eficiência, com qualidade técnica. Colocado a disposição do futebol coletivo, sozinho ninguém ganha. Quem ganha é a equipe.

Terra – Você demora para dormir?

Parreira – Não. Eu depois de um certo tempo, de uma certa idade, a gente dorme menos. Se eu dormir umas cinco horas, seis horas, eu estou bem. Estou inteiro. Aqui, ninguém consegue dormir antes de uma hora da manhã. A gente tem um lanche dez e meia, onze horas. Ficamos na resenha até meia-noite e meia. Ficamos vendo o jogo da Espanha até o final, vendo os gols. Eu vou dormir uma hora, sete horas eu já estou de pé.

Terra – Você lê alguma coisa no quarto?

Parreira – Trouxe para ler, mas não consigo abrir nada. Trouxe alguns livros de ficção.

Terra – Você gosta de livros?

Parreira – Gosto, mas não consigo abrir. Não tenho concentração para abrir um livro sequer, incrível. O negócio de Copa do Mundo absorve você de uma maneira tal.

Terra – Não dá tempo?

Parreira – Não, tempo até você teria, mas a cabeça não está preparada para nada a não ser Copa do Mundo. Acompanhar os jogos, o adversário. Eu, particularmente, vejo todos os jogos quando estou no hotel. Só não vejo aqueles quando nós estamos treinando, fora do hotel ou em viagem. Como aconteceu em dois ou três jogos que a gente tava em viagem e a gente não viu. Mas estando no hotel, com disposição, eu vejo todos os jogos.

Terra – Por que livros de ficção?

Parreira – Porque é descompromissado. Para relaxar. Gosto muito de aventuras e não gosto de terror. Gosto de filmes de ficção, onde tem casos de julgamento, detalhes, minúcias. É negócio de treinador. Denúncias, emoção, advogado, mistério.

Terra – Você fala muito com a sua casa?

Parreira – Diariamente.

Terra – Você fala com a sua mulher, com seus filhos, agora que você é um avô coruja?

Parreira – Mas não consigo falar com a minha netinha que ela só tem um ano e quatro meses (rindo). Mas de vez em quando ela faz um barulhinho, manda um beijinho. Minha mulher de lá: manda um beijinho pro vovô! E ela faz ‘smack’ (Parreira imita a neta mandando um beijo), aí eu ganho o dia.

Terra – A sua esposa, eu sei que não pergunta muito sobre a Seleção. Mas seus filhos perguntam alguma coisa? “Pai, como é que vai ser? Vamos ganhar?”

Parreira – Não, não. Mas elas botam a camisa do Brasil, torcem, lá em casa junto a minha família toda.

Terra – E os genros?

Parreira – Um deles está aqui na Alemanha, acompanhando os jogos. O outro está lá. Vai todo mundo pra minha casa, no telão. Todo mundo com a camisa do Brasil. Todo mundo gosta e vibra, evidente, a emoção é muito grande, não há como não participar e elas participam bastante, mas sem palpites. Já chega o que a gente recebe fora de casa.

Terra – Parreira, como é que você acha que o torcedor do Brasil vê você?

Parreira – Eles vêem da maneira que vocês descrevem.

Terra – E como é que você que a gente te descreve?

Parreira – Se vocês descreverem bem, eles vão ver bem. Veja, o torcedor não tem opinião própria. Vamos voltar àquele assunto recorrente: torcedor é o que ele ouve, é caixa de ressonância. Torcedor não tem opinião própria. Se você disser que está tudo bom, ele vai dizer que está tudo bom. Se você disser que está tudo ruim, ele vai dizer que está tudo ruim.

Terra – E, na sua opinião, está tudo bom?

Parreira – Está tudo dentro do previsto.

Terra – É aquela história sua: tijolinho atrás de tijolinho?

Parreira – Mas é. A natureza não dá saltos, você não aprendeu isso na vida? Em nada, em nada, a natureza não dá saltos. E no futebol não é diferente.

Terra – Algumas perguntas que chegaram por e-mail…

Parreira – Não, isso eu não quero responder. Não quero nem saber, se são boas ou são ruins. Não participo. Não, não quero. Isso eu não quero.

Terra – Mas eles dizem o seguinte…

Parreira – Não, também não quero saber. Eu quero saber a opinião de vocês.

Terra – Então, vamos perguntar. Eles dizem o seguinte: que não é fácil para uma pessoa, comandar um grupo como esse, que é um grupo importantíssimo. Jogadores mais caros do mundo, que não fomos nós que criamos. Você diz que nós que criamos, não fomos nós que criamos. São jogadores caríssimos…

Parreira – Não, não estou dizendo que vocês criaram jogador. Esse momento, essa coisa de 900 (jornalistas) na lista de espera de um jogo. Você tem setecentos no campo mais novecentos na lista de espera, esse é um negócio impressionante.

Terra – Que você ajudou a construir…

Parreira – Eu sei que não foi por acaso. Primeiro, eu sei que os jogadores são realmente estrelas exponenciais nos seus clubes e têm muita projeção na Europa e repercute no Brasil. A Champions League repercute muito no Brasil. Campeonatos alemão, espanhol, italiano repercutem muito lá. Todos os jogos passam ao vivo, a gente não tem como não participar. E os próprios resultados da Seleção Brasileira, que ganhou a Copa América, ganhou a Copa das Confederações e terminou em primeiro lugar na eliminatória. Tudo isso reforçou e fez que esse balão subisse de uma maneira tal que agora nós temos que administrar isso. Porque a realidade é diferente. A realidade do campo é outra. Se você for lá, achando que é tudo uma maravilha. A melhor manchete que eu recebi aqui, que eu inclusive usei foi dos “hermanos” (argentinos), sempre com aquela malícia deles. Quando nós ganhamos da Croácia de 1 a 0, a manchete do Olé, no dia seguinte, foi: “Eles são humanos”. Que maravilha isso. Eu falei: “gente, nós somos humanos. Vamos olhar esse lado prático das coisas. Nós não somos galácticos, interplanetários. Nós somos humanos”. Com todas as virtudes, com tudo que a gente tem de bom e com as nossas fraquezas. Vamos viver esse momento como humanos. Dentro de campo, com toda a carga de emoção que cada um leva para o jogo. Foi ótimo. Que coisa linda, nós somos humanos. Se eles quiseram dar uma outra conotação, só ajudaram.

Terra – Depois do jogo com a Austrália, a manchete do Olé, que você está se referindo, que gosta de provocar e sempre provocou o futebol brasileiro…

Parreira – Essa outra eu não soube. Não me mandaram, é porque não teve o mesmo frisson do outro, que alguém me mandou.

Terra – Eles colocaram duas palavras na primeira página: “Poquito, Poquito”, tipo, jogamos muito pouco. Em cima dessa manchete, o que você pode falar?

Parreira – Não tem nada que comentar. É provocação. Então não tem nada o que falar, não tem nada o que comentar. A outra comentei porque achei interessante.

Terra – E essa vitória da Argentina de alguma maneira te impressionou? De goleada.

Parreira – Não, até porque olha só. Até o 2 a 0 foi um espetáculo, eles marcaram, jogaram. Depois o time sérvio largou. Jogou a toalha e foi diferente. Até os 2 a 0, eles jogaram. Os sérvios ainda tentaram fazer alguma coisa. Tomaram o terceiro gol, o zagueiro perdeu a bola bisonhamente. Tava com a bola dominada e o Saviola foi lá e roubou dele e tal. E saiu o terceiro gol e eles largaram e largaram mesmo, aí não conta mais. Mas, veja bem, ninguém desconhece a força e a qualidade do futebol argentino, ninguém desconhece. Nós nunca deixamos de considerar a Argentina uma grande potência do futebol mundial. Aliás, eu fico muito feliz, porque antes da Copa eu dizia: “há pelo menos oito favoritos”. E desses oito, todos passaram para a segunda fase. Todos passaram para a segunda fase.

Terra – Você gostou quando o Olé nos trouxe à Terra, porque segundo eles somos seres-humanos. O que te emociona nessa função tão difícil?

Parreira – Tudo, tudo. Mas a sensibilidade fica muito sedimentada quando você está aqui nessa função.

Terra – Você fica muito blindado?

Parreira – Eu me abro, claro. Mas você fica muito blindado, sem dúvida alguma. Você não pode participar desse envolvimento todo, como é que você vai participar?

Terra – Como você consegue ficar fora?

Parreira – É Deus, é força interior. Você tem que se blindar, porque senão você não faz nada. Se você for tomar em conta ou levar em consideração tudo que falam sobre a Seleção Brasileira, você não faz nada.

Terra – Por isso que você não ouve muito?

Parreira – A gente ouve só o que interessa ouvir ou as coisas que podem ser aproveitadas. Imagina se você for ao sabor das opiniões? Ao longo dos quatro anos, o que eu já ouvi, não vou nem definir o que eu já ouvi. Se foi bom se é ruim, se é tolice se não é, deixa para lá. Nos últimos quatro anos, se a gente tivesse levado em consideração. Só para terminar, inclusive a entrevista, que já está se alongando muito, vamos lá. Se a gente fosse se deixar levar pelas opiniões, cinco ou seis jogadores não estariam nem aqui. Não estariam nem aqui no grupo de 23. Você tem que ter convicções e nessas convicções você acaba, às vezes, ficando sozinho. Aí vem o solitário, você acaba ficando sozinho contra a opinião pública. Tem o intermediário, tem o intermediário. Você acaba ficando sozinho, não tem jeito. Quem ocupa esse cargo, tem que estar consciente disso.

Terra – Você não quer se arrepender? Você disse: “eu não quero me arrepender de nada”.

Parreira – Eu não quero ter arrependimentos. Tudo o que eu acho que tem que ser feito, foi feito e será feito, na escalação, na coerência da escalação, porque a escalação do time brasileiro é um problema para qualquer treinador, até pela qualidade dos jogadores. De repente dizem: “fulano tem que entrar, não pode ficar fora”. Mas só que não dizem quem tem que sair. Não pode jogar com doze, aí complica. Então existe toda uma coerência, todo um trabalho e nós não estamos aqui por acaso. Então, temos que seguir de acordo com as nossas opiniões, com as nossas convicções, com a nossa filosofia, que não foi formada de ontem para hoje, é forjada ao longo de muitos anos.

Terra – Voltamos ao tijolinho por tijolinho…

Parreira – Eu acredito. Uma coisa que aprendi desde os tempos de ginásio, com os professores, é que a natureza não dá saltos, em nenhum setor da vida. Criança nasce uma “coisinha”, uma sementinha. Outro dia minha filha me ligou – ela está grávida de dois meses – e falou assim: “pai, o seu neto já está com meio centímetro”. Veja como isso exemplifica que a natureza não dá saltos. Você vê depois aquele adulto formado tendo filhos e netos. Outro dia minha filha fez uma ultra-sonografia: “pai, o seu neto está com meio centímetro”. Que coisa linda. Depois você vê uma criança, crescendo. A natureza não dá saltos. O culpado é o Kaká, o culpado de tudo é o Kaká, o culpado de tudo é o Ricardo (Parreira brinca ao ver o jogador Kaká se aproximando do local da entrevista)

Passando a primeira fase, o que você pode falar para o torcedor?

Parreira – Que agora é a hora da verdade, a hora do tudo ou nada. E que para nós seja tudo. Com a emoção, com aquele carinho deles, com a corrente para frente, porque nós aqui queremos também chegar à final.