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Política

04/10/2018


OPINIÃO: Professor da UFBA fala sobre o cenário da política brasileira

Foto: autor desconhecido.

O professor de economia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Wilson F. Menezes, fala em novo texto, sobre o cenário da politica brasileira.

Confira na íntegra:

A atualidade Política Brasileira para um bom entendedor ….

Mais do que nunca, se sentir bem com as atuações dos últimos governos é como olhar o lado bom de uma catástrofe. Não desista de olhar, pois ela (a catástrofe) não desistirá de continuar lá, no mesmo lugar. Se tudo depende das condições iniciais. As nossas foram os muitos direitos e os poucos deveres proporcionados pela Constituição Mãe de 1988, que ainda isolou em uma redoma de vidro uma classe política que tudo pode. Saudades da aristocracia! Nossas aberrações institucionais têm mais poderes e nossos poderes têm mais gana de rapina.

 O momento político brasileiro resulta do comportamento dos agentes políticos e sociais de um passado recente. A redemocratização do país é talvez um bom ponto de partida para explicar o momento atual. A análise histórica retroativa apresenta facilmente o encadeamento de todos os elos que explicam os resultados presentes. Não se tem a mesma possibilidade em uma análise prospectiva, isso porque em cada instante do tempo tem-se várias possibilidades de escolhas e decisões. A histórica é, portanto, em si mesma limitada, dado que não se pode jamais projetar o futuro a partir do passado ou do presente. Não dispomos de uma grande bola de cristal, que pena.

 Em qualquer democracia que se prese os impostos e políticas de gastos governamentais são decididos de maneira indireta através da representação política. Votamos pelo sistema de maioria para deputados e senadores e eles, pelo mesmo critério da maioria, votam pelos interesses de “todos”. O executivo é também escolhido por maioria, que quando não alcançada em um primeiro escrutínio, vai-se ao segundo, com os dois mais votados. Surpresas ocorrem, quando o mais votado em um primeiro momento, perde em um segundo; daí a necessidade de prestarmos atenção ao grau de rejeição do candidato, já que no segundo escrutínio aquele que tem menor recusa do eleitorado pode acabar se dando melhor. Assim, nem sempre sair na frente é a condição de ser laureado com a vitória. Novas alianças e conquista de mais votos constitui então o grande objetivo dos dois candidatos mais votados no primeiro turno, quando os eleitores dos demais candidatos passam então a escolher, cada um à sua maneira, uma segundo melhor opção.

 Nesse processo, os candidatos movimentam suas plataformas políticas, tentando com isso alcançar maior número de votos. O voto é a moeda de um sistema eleitoral, logo quanto mais melhor. Para atraí-la, os candidatos usam as pesquisas eleitorais, quando voltam seus discursos para a conquista do eleitorado. Com a divulgação dos resultados pesquisados, os candidatos vão em direção de um eleitorado, mas também atraem esse eleitorado para um determinado discurso. Invertem-se assim as variáveis de uma equação política, variáveis dependentes e independentes ficam agora misturadas e a serviço dos mais hábeis. Estamos falando de pesquisas com uma amostragem representativa e escolhida aleatoriamente, garantindo resultados estatisticamente significativos e salvos de vieses interesseiros. Claro que manipulações são possíveis, é um vale tudo.
Discursos são inventados para alcançar segmentos eleitorais específicos. Essa é uma prática largamente utilizada nas democracias representativas. O candidato move-se então para a direita, quando em verdade ele é de esquerda ou para a esquerda quando ele é de direita. Esse fenômeno pode ser perfeitamente observado quando as mesmas promessas partem de candidatos ou partidos diametralmente opostos no espectro político-ideológico. Assim, candidatos de direita ou de esquerda caminham em direção ao centro, em busca do eleitor mediano, aquele que separa o eleitorado na metade entre direita da esquerda. É na mediana ideológica que se encontra a maior densidade de eleitores. Claro que esse procedimento funciona de maneira mais fácil com apenas dois partidos políticos. Esse não é nosso caso. Claro também que cada tema político apresenta seu eleitor mediano. O jogo é pesado, cheio de juramentos, pactos, trapaças e ilusões. Ser um líder político não é para qualquer um, tem que ter sangue de barata, saber engolir sapo e comer muito buxo de porco ao longo de uma travessia política em direção ao sucesso ou à derrota. Tudo é muito incerto, mesmo que seja uma incerteza diferenciada entre os candidatos. Tudo é muito complexo, tudo é muito caro, tudo é muito ilusório. Mas funciona. Como no mercado de compra e venda de bens e serviços, o mercado do voto também funciona. Os candidatos têm seus interesses próprios e para alcança-los faz promessas ao eleitorado, esse por sua vez esperando o atendimento de suas expectativas vota. E assim vai…

 Ora, ora, no presente momento os brasileiros inverteram essa ordem. O Brasil possui um sistema de arrecadação ultramoderno e eficiente para um retorno bem próximo ao de Uganda (no tempo do General Idi Amin Dada, é claro). Haja dinheiro nas mãos do governo, sem retorno garantido para a sociedade. O eleitorado, em decorrência das atrocidades políticas e econômicas da era PeTralha, vem se comportando diferentemente. O país está, sem sombra de dúvida, politicamente polarizado, de um lado, encontram-se as forças diretas da população que se comunica através da rede e, de outro, aparecem praticamente todos os candidatos e suas mídias com alguma implicação na Lava Jato. Ainda que com diferentes discursos, estão todos unidos com um único acorde: EleNão. Uma união sem cara definida, que apenas nega o outro, sem nenhuma alternativa confiável e de peso político. Esse momento político tem-se mostrado socialmente perverso, ineficaz e ineficiente, que apenas pleiteia a continuidade da rapina ou salvamento jurídico de seus componentes. É nesse contexto que o curso de uma mudança, até então impensável, vem impondo uma reviravolta política no país. Antes Maomé ia à montanha, agora a montanha vai ao Messias.

 Nesse redemoinho político, os candidatos deixam de caminhar em direção às ideias medianas ou de centro, mesmo porque todos perderam seus matizes ideológicos, todos agora são pardos e se confundem uns com os outros. Agora é o eleitorado que se posiciona em uma das pontas, ao tempo em que aqueles que mantinham possibilidades de escolhas diferentes dos dois polos, começam a se posicionar em busca de uma segunda melhor opção. O resultado disso tudo tem apontado que o Messias avança em indicações de votos, maior índice de fidelidade do eleitorado cativo e tendencialmente menor rejeição, fato esse que eleva a possibilidade de captura de novos votos. O Messias (não é o Bessias) aparece, portanto, como o atual garoto do Brasil, com fortes possibilidades de encerrar o jogo sem necessidade de um segundo tempo.

 Como não dispomos de bola de cristal, tudo que se pode esperar de um próximo governo é um afastamento contínuo e seguro de uma América Latina toscamente revolucionária, com chefetes sacripantas, trogloditas, analfabetos e inescrupulosos. Devemos estar longe de uma ideologia falaciosa que o mundo já rejeitou. A terra prometida sempre foi uma grande ilusão. Os engenheiros sociais estavam chegando, mas o resultado eleitoral do próximo domingo deve mudar as coisas, abrindo a possibilidade para uma retomada da economia, bem como dos valores morais e comportamentais que o aparelhamento institucional dos governos PeTralhas vinha fazendo tabula rasa. Não teremos um aprazível paraíso, mas estaremos livres de uma possível tormenta à la Venezuela.

 Que cheguem nossos napoleões para dar um basta nessa falcatrua totalitária chamada Foro de São Paulo. Só nos resta parodiar o poeta: auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil, assopre esse vermelho biltre e gatuno para as profundezas do inferno. Sem rima, sem melodia e sem perdão, mas que deixem nossas crianças, nossos sexos, nossas melaninas, nossas cores e nossos cofres na paz do Senhor. O país deseja novas posturas políticas e quiçá uma mentalidade não utópica (no pior sentido do termo). Afinal o esquerdismo não é uma doença infantil?