O Rei Pelé chega à terceira idade - WSCOM

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Brasil & Mundo

23/10/2005


O Rei Pelé chega à

Quando o menino nasceu em Três Corações, interior de Minas Gerais, em 23 de outubro de 1940, a parteira olhou para ele e fez a previsão: Ele vai ser um rei. O que aparentemente parecia ser uma brincadeira, se confirmou anos depois.

Como Pelé, adaptação do apelido de um goleiro (Bilé) que enfrentou seu pai (Dondinho) nos gramados, Edson Arantes do Nascimento se tornou um dos seres humanos mais famosos do planeta. Uma pesquisa afirmou que era mais conhecido até mesmo que Jesus Cristo. Exagero ou não, seu nome virou referência para o melhor em uma atividade. Quem é o Pelé da música? E do teatro? E do basquete? Para receber esse apelido, certamente precisa ser espetacular. Acima da média. Da mesma forma que Pelé foi nos gramados.

Os feitos do Rei do futebol seguem imbatíveis: 1.281 gols, 59 títulos conquistados na carreira, único jogador a ganhar três Copas do Mundo, mais jovem campeão mundial de futebol da história (17 anos em 1958), prêmio de atleta do século concedido pelo jornal francês “L’Equipe”.

Os números impressionantes são consequência de uma conjunção de fatores positivos em único atleta. Completo. Sem deficiências aparentes. Pelé chutava de perna direita tão bem quanto de esquerda. Não é alto (1,72m), mas possuía uma grande impulsão, que lhe permitia superar os marcadores nas jogadas aéreas e marcar muitos gols de cabeça. E tinha uma força física capaz de aguentar os trancos dos adversários, que tentavam de tudo para pará-lo. Sem falar na visão privilegiada. Exames revelaram que tinha um campo visual superior ao dos ‘mortais’.

Conhecido como fenômeno em Bauru e arredores da cidade do interior paulista, Pelé chegou ao Santos em 1956 e rapidamente mostrou seu talento, conquistando espaço em um time cheio de craques. No ano seguinte, estreou na seleção com 16 anos. Logo no primeiro jogo com a camisa amarela, mostrou que não era mais uma promessa. Entrou no segundo tempo da partida contra a Argentina pela Copa Roca, no Maracanã, e fez o gol brasileiro na derrota por 2 a 1.

No ano seguinte, marcaria seu nome na história. Viajou para a Suécia machucado, mas conseguiu se recuperar e entrou em campo no terceiro jogo da Copa de 58, contra a União Soviética. Não marcou na estréia, mas balançou a rede seis vezes nas três últimas partidas da seleção (vice-artilheiro do Mundial) e chorou ao cumprir a promessa feita ao pai oito anos antes. Vendo Dondinho triste pela derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 50, o menino de apenas nove anos tentou consolar o pai, afirmando que ganharia um título para o Brasil. Ganhou três.

Em 1962, marcou um gol na estréia contra o México (2 a 0), mas sofreu uma distensão muscular ao tentar um chute de fora da área no jogo contra a Tchecoslávia. Como não eram permitidas substituições, ficou fazendo número até o fim da partida. Não voltou mais a campo na Copa do Chile e viu das tribunas a conquista do bicampeonato.

Quatro anos depois, voltou a conviver com uma lesão – desfalcou o time no jogo contra a Hungria (derrota por 3 a 1). Com a obrigação de vitória, entrou em campo sem as condições ideais contra Portugal. Sofreu faltas violentas dos defensores lusitanos e não conseguiu evitar a eliminação do time bicampeão mundial na primeira fase da Copa de 66.

Para o Mundial de 70, se preparou como nunca. Aos 29 anos, considerava que seria sua última Copa (como realmente foi). E liderou uma constelação de craques – a melhor seleção de todos os tempos, na opinião do próprio Rei – para conquistar a Taça Jules Rimet de forma definitiva para o Brasil.

A trajetória na seleção terminou no ano seguinte. Além dos três títulos mundiais, o saldo de 14 anos representando o país foi 95 gols (recorde até hoje) em 114 jogos. Em 1974, recusou os apelos para disputar a quinta Copa da carreira – afirmaria anos depois que foi um protesto contra a ditadura militar – e se despediu do Santos. Em 2 de outubro, contra a Ponte Preta, se ajoelhou no centro do campo aos 22 minutos do primeiro tempo e deu a volta olímpica na Vila Belmiro. Era o fim de um casamento de 18 anos e meio com o alvinegro praiano, marcado por 1.114 partidas, 1.086 gols e 46 títulos.

O afastamento dos gramados durou apenas oito meses. Em junho, assinou um contrato de US$ 7 milhões com o Cosmos. A transferência para os Estados Unidos serviu para reforçar suas finanças – abaladas por problemas com seu empresário, Pepe Gordo – e para tornar seu nome conhecido em um novo mercado. O mais rico do planeta. Pelé atuou por três temporadas no Cosmos, foi campeão nacional em 77 e se despediu de vez do futebol naquele ano. Depois, voltou a campo apenas para jogos amistosos e beneficentes.

O encerramento da carreira não afetou a popularidade do Rei do futebol. Sua marca é uma das mais conhecidas e estampa uma série de produtos em todo o planeta. Itens relacionados a Pelé são objeto de coleção. E 28 anos após deixar os gramados, segue sem poder andar na rua sem parar para assinar dezenas de autógrafos. E continua sendo recepcionado com honras em todos os lugares.

Mas este ano, quando entra oficialmente na categoria dos ‘idosos’, sofreu um ‘falta dura’ fora de campo: a prisão do filho Edinho, acusado de ligação com traficantes de drogas. Mais um adversário dos muitos que Pelé encontrou nos gramados da vida.

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