Núcleo lulista aprova apelo às massas, mas vê exageros - WSCOM

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Brasil & Mundo

07/08/2005


Núcleo lulista aprova apelo às

Núcleo lulista aprova apelo às massas, mas vê exageros

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VALDO CRUZ

diretor-executivo da Folha de S.Paulo, em Brasília

A mudança no ritmo da agenda e no tom dos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bem mais agressivos nos últimos dias, foi uma decisão “acertada” do próprio petista, mas ele “exagerou na dose” e provocou “mau humor”. Dado o recado de que “não é Collor” por ter apoio popular, porém, é hora de contatos com a oposição.

Essa é a avaliação de integrantes da nova cúpula do governo petista, formada por um grupo de cinco ministros –Antonio Palocci Filho (Fazenda), Márcio Thomaz Bastos (Justiça), Jaques Wagner (Relações Institucionais), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Luiz Dulci (Secretaria Geral).

O “grupo dos cinco” tem se reunido para debater a crise e procurado auxiliar o presidente. Segundo esses ministros, foi o próprio Lula, de forma “intuitiva”, que decidiu intensificar sua agenda popular, com viagens para inaugurações e contatos diretos com movimentos sociais e a população.

O erro, segundo análise ouvida pela Folha dentro do governo, foi o tom adotado pelo presidente nos últimos discursos feitos em viagens ao Nordeste. Ele chegou a soltar frases do tipo “vão ter de me engolir”, num estilo considerado arrogante por alguns por se considerar quase imbatível numa disputa presidencial.

Ao tornar suas falas mais agressivas, atacando a oposição e as “elites”, Lula acabou “carregando a crise” com ele, contribuindo para acirrar os ânimos entre governo e oposição, em vez de usar suas viagens pelo país para se afastar das turbulências.

Os ministros do “grupo dos cinco”, porém, rebatem os ataques da oposição e de empresários à mudança no estilo presidencial. “O que eles queriam, que ele apanhasse e ficasse quieto, calado?”, questiona um dos auxiliares do presidente Lula.

Apesar da “overdose” dos últimos dias, o balanço da reação presidencial foi considerado positivo no Palácio do Planalto. Serviu, na visão de um ministro, para mostrar que o presidente “tem raízes, inserção e base social, bem diferente do ex-presidente Fernando Collor”.

A expectativa, agora, é que o presidente adote uma atitude mais moderada, depois de até ter “exagerado na dose, mas conseguido passar seu recado, de que não é um presidente fraco”. Alguns ministros iriam conversar com o chefe sobre a necessidade de recolher as armas.

Abriria, assim, espaço para que seus articuladores buscassem uma interlocução com a oposição em busca da volta da “normalidade institucional”.

Na sexta-feira passada, por sinal, Lula já mostrou uma agenda bem diferente da dos últimos dias, reservando boa parte do dia para dois encontros com pesos-pesados da economia no Palácio do Planalto. Numa dessas reuniões, chegou a dizer que “a crise não é tão grande como dizem”.

Lula, porém, não pretende reduzir o ritmo de viagens. Promete mantê-las. Seus auxiliares esperam, no entanto, que ele não volte aos discursos raivosos e deixe a crise em Brasília.

Pente-fino

Segundo auxiliares de Lula, a decisão do chefe de adotar um estilo mais radical não significa que estivesse se sentindo “ameaçado” no cargo. A informação obtida dentro do governo pela Folha é que o presidente está tranqüilo, certo de que nada será encontrado que possa ligá-lo ao escândalo do “mensalão”.

Essa certeza, segundo a Folha apurou, viria de uma “operação pente-fino” montada pelo Gabinete de Segurança Institucional, com agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e da Polícia Federal. Os agentes vasculharam todas as operações que poderiam envolver o presidente com os negócios armados pelo ex-tesoureiro petista Delúbio Soares. Nada teria sido encontrado contra Lula.

Teriam passado pelo crivo da Abin e da PF os cartões de crédito corporativos da Presidência, que poderiam ter sido utilizados para gastos pessoais de familiares do presidente Lula.

Também foram analisados gastos pessoais da mulher do presidente, Marisa Letícia, e dos seus filhos, que estavam sendo citados reservadamente por membros da oposição como suspeitos de terem sido pagos com dinheiro vindo do esquema Marcos Valério.

Os agentes também verificaram a agenda do presidente no Palácio do Planalto, no Palácio da Alvorada e na Granja do Torto, para checar possíveis audiências que pudessem comprometê-lo.

A operação, feita com o consentimento de Lula, foi montada para dar segurança ao presidente. Segundo a versão obtida pela reportagem, o temor era que, por “um deslize ou completo descontrole”, algo fosse detectado ligando o petista ao escândalo.

Até uma dívida de R$ 29.436 atribuída pelo PT ao presidente teria sido analisada. A CPI dos Correios suspeita da operação de quitação da dívida, mas segundo a investigação do governo tudo não passou de uma confusão contábil do partido, um “ajuste de caixa” para zerar o débito.

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