Ministério da Educação antecipa para esta 2a feira posse do professor Loureiro - WSCOM

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Paraíba

11/07/2016


MEC antecipa posse do professor Loureiro

PARA ESTA 2a

Foto: autor desconhecido.

O Ministério da Educação (MEC) resolveu promover hoje (11) e não na próxima quarta-feira (13), a posse dos 12 Conselheiros Nacional de Educação. Entre eles está o professor Doutor José Loureiro Lopes, único paraibano a ocupar o seleto Colegiado.

Em texto exclusivo no Portal WSCOM, ele aborda o uso do Latim na formação educacional. Leiamos:

O Latim na Educação Básica

José Loureiro Lopes*

 Não é nostalgia. Não é saudosismo. Não é desejar aquilo que o fado português sugere, quando canta: “… oh, tempo, volta pra trás”! É ser atual, é ser moderno. Falar em fado, o Brasil também tem fado. Mas, aqui, o fado não é canção, é destino. “Esse projeto está fadado ao sucesso”; “aquela iniciativa está fadada ao insucesso”.

O inglês também tem fado! Ali, ele é fate, destino. Destino, porém, em inglês, não seria destiny?
Tudo isso é latim, um idioma conhecido já no século VI antes de Cristo.

Ali, encontramos fatum, substantivo neutro, que significa predição, vaticínio, profecia, oráculo. E o nosso idioma português vai referir “fatalidade”, como termo eloquente do fatum latino.

E o inglês aditou fate, que, neste idioma, é também “fatalidade”.

O verbo latino destinare é a base do destiny, do destino.

E é a raiz do destinatio, destinatus e termos semelhantes.

Pode-se, então, dizer que o português e o inglês são línguas neolatinas? Quanto ao português, sim.

Quanto ao inglês, o que se tem como geralmente aceito é que cerca de 60% de seus vocábulos são provenientes do latim: direction, information, administration, construction, interpretation, explanation, science, activity, natural, observartion, experiment, subject… e muitos outros.

A força do latim na língua inglesa é explicitada de muitas formas, a exemplo da presença nas chamadas “catedrais da modernidade” (os shoppings centers de todo o mundo), nos aeroportos, nas estações ferroviárias e rodoviárias, nas aeronaves, enfim, nos ambientes públicos com grande circulação de pessoas, da palavra EXIT, saída. Pois, novamente, aqui, o latim nos ajuda: é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo EXIRE, sair: éxeo, éxis, Éxit, exímus, exístis, exiérunt.
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* Doutor em Educação, Professor da UFPB e do UNIPÊ.

Com a informática, veio o verbo “deletar”. Seria do inglês delete? De forma próxima, é possível que sim. Na raiz, porém, está o verbo latino delere, que significa apagar, suprimir, destruir, fazer desaparecer.

Esse termo ficou famoso na história do Ocidente, com a expressão latina: Carthago delenda est (= Carthago deve ser destruída), comum à época das Guerras Púnicas, entre Roma e Carthago (hoje, Tunísia, norte da África).

Informa-se que os romanos chamavam de Punici (= púnicos) os habitantes de Carthago, porque eram, em sua maioria, fenícios (Punici = púnicos, fenícios).

Com a vitória de Roma, deu-se grande expansão dos latinos pelo Mediterrâneo, seguindo até a Península Ibérica e Grã-Bretanha, onde permaneceram por cerca de 300 anos (a.C.), exercendo, assim, forte influência sobre o idioma inglês.

No mais, sabe-se que foi a grande influência do Cristianismo, representada pela Igreja Católica, que marcou a forte presença do latim no Ocidente, durante a Idade Média e no Renascimento. Essa presença vai dando lugar aos idiomas nacionais, que se expandem com as Grandes Navegações e as guerras de conquista. 

Recentemente, publicados os resultados do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) pelo Ministério da Educação, foi divulgada a informação de que 52 mil candidatos haviam zerado a prova de língua portuguesa.

É lamentável. Acredito, porém, que, figurando o latim como matéria obrigatória do curriculum da Educação Básica, jamais aconteceriam fatos dessa natureza.
A propósito do tema, transcrevo tópicos do meu texto “Latim: uma língua atual”, prefácio da obra “Lições de Latim”, de autoria do meu conterrâneo Prof. Pe. João Gomes da Costa.

Língua oficial da República de Roma e, posteriormente, do Império Romano, o latim adquire força com a conversão do Imperador Constantino ao cristianismo (séc. IV) e torna-se, praticamente, universal, durante toda a Idade Média. Com efeito: as leis francesas são escritas em latim até o século XVI; no idioma do Lácio, estão os tratados de músicas de Boécio, os livros de medicina, de veterinária, de culinária, de conservação de alimentos e, sobretudo, os tratados dos grandes teólogos da Igreja Católica e os textos religiosos. Estes últimos, é claro, recebendo significativa influência da tradução da Bíblia feita por São Jerônimo (347-420), do grego antigo e do hebraico para o latim, a conhecida Vulgata, ainda hoje o texto bíblico oficial da Igreja Católica Romana.

No Renascimento, o modelo sintético, lógico e de estilo para o desenvolvimento das línguas foi o latim. Dele derivam diretamente as chamadas línguas românicas: o francês, o espanhol, o italiano, o romeno, o galego, o provençal e o português. Esta última, nossa língua pátria, foi denominada pelo poeta brasileiro Olavo Bilac (1865-1918) de “última flor do Lácio, inculta e bela”, em soneto dedicado à língua portuguesa, que ele tanto cultivou e cultuou.

Até recentemente, não só os textos Litúrgicos (missa, sacramento, etc.), mas também as descrições da Zoologia e da Botânica eram todas em latim; os nomes científicos, todavia, ainda o são.

Vê-se, pois, que de língua morta o latim não tem nada. Várias expressões latinas são usadas na ciência do Direito. Quem nunca ouviu falar de habeas corpus, alibi, data venia, ex nunc, ex tunc, per capita, lato sensu, honoris causa, conditio sine qua non, a priori, a posteriori, alter ego, e tantas outras desse gênero?

O latim é atual e tem uma lógica disciplinada e disciplinadora. Termos, como deletar, estar in, fecundação in vitro são pura e simplesmente o latim de hoje e do amanhã. O P.S. que muitas vezes usamos ao final de uma carta nada mais é de que abreviação do post scriptum latino. 

Às vezes, o latim se confunde com nossa língua: idem, grosso modo, supra summum, et caetera (etc.), alter ego, causa mortis, in loco, status quo, e assim por diante. Até, mesmo, o temido mosquito da dengue, o Aedes Aegypti, é referido em latim.

Portanto, aprender ou não o latim não é a questão. Ele já convive conosco, pois é a alma da nossa língua. 

Finalmente, é de indagar-se: como um país, que é latino, não tem o latim em seu currículo?

Proponho, portanto, a inclusão, ou melhor, o retorno do latim no Currículo Mínimo da Educação Básica, a ser adotado no sistema educacional, como disciplina optativa.
 

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