Marcelo D2 inaugura no Brasil conceito de 'álbum visual' - WSCOM

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Música

05/09/2018


Marcelo D2 inaugura no Brasil conceito de ‘álbum visual’

Foto: autor desconhecido.

É impossível desconectar o sétimo álbum solo de estúdio de Marcelo D2, Amar é para os fortes, do filme de média-metragem também intitulado Amar é para os fortes e lançado simultaneamente com o disco. É que Marcelo Maldonado Peixoto inaugura no Brasil o conceito de álbum visual, formato em que música e imagem são indissociáveis.

A cantora e compositora norte-americana Beyoncé testou o formato em 2013, ao lançar o álbum Beyoncé com clipes correspondentes a cada uma das músicas, e o aprimorou em 2016 com Lemonade, álbum associado a um filme.

Projeto produzido por D2 ao longo dos últimos três anos em pioneira ação nacional, Amar é para os fortes é mais do que simplesmente a trilha sonora do filme homônimo roteirizado e dirigido por esse rapper carioca projetado na década de 1990 como vocalista e principal compositor do grupo Planet Hemp.

No disco, as músicas abarcam falas do filme – protagonizado pelo filho de D2, Stephan Peixoto, na pele do garoto Sinistro – e sons sampleados que podem soar como corpos estranhos para quem optou por ouvir o álbum antes de conferir o filme. Só que tudo se encaixa, do começo ao fim, se o disco for sincronizado com o filme numa narrativa única. Tanto que a Intro (Marcelo D2) do disco é, a rigor, a introdução falada do filme. Intro levada na cadência do rap dos jovens Sant e Orochi.

Capa do álbum 'Amar é para os fortes', de Marcelo D2 (Foto: Divulgação)Capa do álbum 'Amar é para os fortes', de Marcelo D2 (Foto: Divulgação)

Capa do álbum ‘Amar é para os fortes’, de Marcelo D2 (Foto: Divulgação)

O álbum visual é ambicioso projeto transmídia deste cantor e compositor que saiu em carreira solo há 20 anos, com o álbum Eu tiro é onda (1998), em discografia que atingiu ponto de coesão cinco anos depois com a azeitada fusão de rap e samba que pautou o segundo álbum solo do artista, À procura da batida perfeita (2003).

Embora sem roçar a perfeição desse disco de 2003, Amar é para os fortes se alinha com os melhores álbuns de D2. O rapper entrou nos presentes anos 2000 convertido ao samba do morro em álbum em que cantou com reverência linear o repertório do cantor Bezerra da Silva (1927 – 2005). Mas renovou o fôlego ao retornar ao rap no globalizado álbum seguinte, Nada pode me parar (2013), produzido pelo mesmo Mario Caldato Jr. que formatou Amar é para os fortescom Nave Beatz e com o próprio D2.

Cabe ressaltar que as batidas do disco atual soam fortes e também renovadas em raps como Alto da colina (Marcelo D2) – introduzido por samba batucado em caixa de fósforo – e Febre do rato (Marcelo D2), fonograma que agrega músicos como Liminha (na guitarra) e Rodrigo Amarante.

Marcelo D2 no processo de produção do disco-filme 'Amar é para os fortes' (Foto: Divulgação / Wilmore Oliveira)Marcelo D2 no processo de produção do disco-filme 'Amar é para os fortes' (Foto: Divulgação / Wilmore Oliveira)

Marcelo D2 no processo de produção do disco-filme ‘Amar é para os fortes’ (Foto: Divulgação / Wilmore Oliveira)

O discurso também soa forte, mas sem o grau de renovação das batidas porque, afinal, a chapa continua quente e a guerra travada nas comunidades entre polícia e povo – assunto recorrente no roteiro do filme e no repertório do disco – já existe desde que o rap é rap e parece longe do fim. “Viver na guerra cansa / Mas o amor traz esperança“, pondera Seu Jorge, convidado de voz aveludada, no refrão de Depois da tempestade (Marcelo D2 e Sacha Rudy), rap romântico de beat mais desacelerado. A faixa é pontuada pelo canto em francês de Anna Majdison.

No Prelúdio em rimas cariocas (Marcelo D2), o rapper se auto-perfila com “a ginga do malandro”“a alma da favela” e um toque afro no arranjo tocado por músicos como Kassin e o recorrente Liminha. Surpresa (Pros amigos) é rap cantado por D2 sobre melodia (de samba) cantarolada (sem letra) por Wilson das Neves (1936 – 2017), parceiro póstumo do rapper-sambista.

Marcelo D2 e Rincon Sapiência são parceiros no afro-samba 'Filho de Obá' (Foto: Reprodução / Facebook Marcelo D2)Marcelo D2 e Rincon Sapiência são parceiros no afro-samba 'Filho de Obá' (Foto: Reprodução / Facebook Marcelo D2)

Marcelo D2 e Rincon Sapiência são parceiros no afro-samba ‘Filho de Obá’ (Foto: Reprodução / Facebook Marcelo D2)

Do samba do asfalto carioca, D2 segue o roteiro e pega a estrada que o conduz à nação nordestina no toque da sanfona de Marcelo Jeneci em Resistência cultural (Marcelo D2 e Nave Beatz) sem se afastar da trilha do rap. A voz de Gilberto Gil, convidado do tema, acentua o tom nordestino desse rap que D2 já havia lançado em março de 2017 em (outra) gravação feita com o toque da rabeca de Siba Veloso e, no refrão, com a voz de Helio Bentes, cantor do grupo carioca de reggae Ponto de Equilíbrio.

Na sequência da trilha, a música-título Amar é para os fortes (Marcelo D2 e Nave Beatz) faz o retorno para soar como rap à moda mais tradicional que fala em ódio, sentimento recorrente e enfrentando ao longo da narrativa do disco e do filme.

No fim, disco e filme são encerrados com a melhor música da trilha, o afro-samba-rap Filho de Obá, composto por D2 com Rogê e com o mano paulistano Rincon Sapiência, convidado do canto desse tema também levado no gogó por Danilo Caymmi e por Alice Caymmi (encarnando espécie de rainha dos raios). Filho de Obá sentencia, com razão, que Marcelo D2 ainda é rei na selva de pedra. (Cotação: * * * *)

G1