Impacto da entrada da Venezuela preocupa Mercosul - WSCOM

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Economia & Negócios

16/06/2006


Impacto da entrada da Venezuela

As medidas formais para a entrada da Venezuela para o Mercosul serão um dos principais assuntos da reunião de ministros das Relações Exteriores, nesta sexta-feira, em Buenos Aires.

A chegada do país ao bloco foi sugestão do Uruguai, segundo autoridades uruguaias, e tem o apoio político dos quatro governos do Mercosul, de acordo com diferentes diplomatas.

Mas ainda existem preocupações, inclusive entre negociadores brasileiros, sobre como o bloco passará a negociar, principalmente, com os Estados Unidos, após a incorporação do país presidido por Hugo Chávez.

“Sem dúvida, a chegada da Venezuela é um componente político desestabilizador para o bloco”, admitiu um negociador brasileiro no Mercosul. “Imagine como seria uma reunião do bloco com os Estados Unidos? Complicado, não?”, raciocinou.

Habitantes – Com a entrada da Venezuela, o bloco passará a ter cerca de 250 milhões de habitantes e a expectativa, nos quatro países do Mercosul, é de aumento das exportações, especialmente dos produtos industriais ao mercado venezuelano – o país de Chávez é produtor de petróleo, mas importa praticamente tudo que consome.

Os ministros das Relações Exteriores do Mercosul e da Venezuela discutirão, além dos trâmites formais desta integração, diferenças internas do bloco atual. O objetivo é tentar “acertar os ponteiros” antes do encontro dos presidentes, nos dias 20 e 21 de julho, na cidade argentina de Córdoba. Os quatro presidentes dos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e Chávez já confirmaram presença.

Os governos destes dois menores sócios do bloco – Paraguai e Uruguai – defendem, ao mesmo tempo, maior liberdade para negociar acordos bilaterais, principalmente com os Estados Unidos.

Uma ameaça que passou a ser freqüente, através de declarações de alguns integrantes dos dois governos, além do “namoro” confirmado por diplomatas americanos.

“Queremos poder negociar com os Estados Unidos e outros países e blocos. Mas se for com o próprio Mercosul, melhor”, disse à BBC Brasil, pelo telefone, de Montevidéu, o subdiretor geral de Integração do Mercosul, Nelson Fernández Bracco.

Para ele, não há contradição em incorporar a Venezuela ao bloco e ao mesmo tempo tentar se acelerar negociação com os Estados Unidos.

Relação – Nos últimos meses, Chávez vem intensificando a relação com os países da região. Depois da compra de bônus da dívida argentina (que andam cotados em alta) ofereceu ao Uruguai e Paraguai – entre outros países – facilidades na venda de petróleo. Para o Paraguai sugeriu ainda, segundo assessores do Ministério das Relações Exteriores, em Assunção, o intercâmbio de alimentos pelo combustível.

Mas para o Uruguai a prioridade na reunião desta sexta-feira é outra e mais urgente: as diferenças com a Argentina.

“O Uruguai vai demonstrar seu mal estar com esta situação, reiterar que a Argentina violou o tratado do Mercosul, que defende o livre trânsito de produtos entre os quatro países, e vai pedir aos ministros que se expressem formalmente sobre o assunto”, afirmou a autoridade uruguaia.

O governo uruguaio acusa ainda a Argentina de “omissão”, segundo palavras de Fernández Bracco, por não ter atendido pedido formal do Uruguai para convocar o conselho extraordinário do Mercosul.

Atualmente, o governo argentino exerce a presidência temporária do bloco – posto que vai transferir para o Brasil em julho. Nos últimos seis meses os dois países enfrentam disputas pela construção de duas fábricas de celulose às margens do rio Uruguai, que os divide.

“Queremos garantias de que (os manifestantes argentinos) não voltarão a interromper o trânsito (de uma rodovia federal uruguaia) a qualquer momento. Queremos o respeito às regras do Mercosul e do livre trânsito de produtos”, insistiu Fernández Bracco. Essa queda de braço entre os dois países foi enviada ao Tribunal Internacional de Haia e desde então, há cerca de dois meses, foi liberado o trânsito numa das três estradas federais do Uruguai.

A expectativa é de que as discussões entre Argentina e Uruguai marquem o momento mais tenso da reunião.

Além do processo de adesão da Venezuela, das queixas formais do Uruguai contra a Argentina e das insatisfações dos dois menores sócios – Uruguai e Paraguai – com os resultados concretos do bloco, a pauta da reunião dos ministros incluirá ainda, segundo informação do Itamaraty, a tentativa de afinar o discurso para a reunião de ministros da OMC (Organização Mundial de Comércio), no âmbito das negociações da Rodada de Doha, que será realizada no fim do mês em Genebra.

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