Governo quer blindar Palocci para tranqüilizar mercado - WSCOM

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Economia & Negócios

21/08/2005


Governo quer blindar Palocci para

A Folha apurou que, nas discussões feitas ontem de manhã por telefone entre Lula e auxiliares, a estratégia pró-Palocci se desenvolverá em três frentes: acalmar o mercado financeiro, discutir com a oposição limites para a luta política e tirar da Promotoria paulista o comando jurídico das apurações sobre o tempo em que Palocci era prefeito de Ribeirão Preto.

Intocável

“A primeira atitude importante é todo o governo demonstrar confiança em Palocci”, diz um assessor presidencial. Segundo ele, isso será fundamental para evitar que o mercado financeiro “entre em pânico ou reaja mal” amanhã, segunda-feira.

Para o governo, o comportamento dos principais indicadores financeiros, como a Bolsa, o dólar e o risco-país, na segunda e nos dias seguintes mostrarão se a estratégia de proteger Palocci terá sucesso no front econômico. A entrevista do ministro hoje terá fundamentalmente esse objetivo.

Lula repetiu ontem a auxiliares que Palocci é intocável. “Deposito toda a confiança nele”, afirmou, deixando claro que descarta eventual saída do ministro da Fazenda, ainda que temporária, como aventaram petistas e outros ministros sob o impacto da acusação feita na sexta-feira pelo advogado Rogério Tadeu Buratti, ex-assessor de Palocci quando o ministro era prefeito de Ribeirão Preto. Buratti disse que Palocci recebia propina de R$ 50 mil mensais de uma empresa, o que o ministro negou “veementemente” em nota.

Oposição e promotores

Lula deverá ainda criticar o que considera “exageros” recentes na crise cometidos por promotores, políticos e imprensa. Reservadamente, disse ser “sacanagem” os promotores terem divulgado a acusação de Buratti, e membros de CPIs e a mídia darem a doleiros como Antonio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, credibilidade para atacar o PT e o governo “sem provas”.

Em relação à oposição, Lula terá duas atitudes. Endurecerá com alguns setores, como o tucanato paulista, e tentará, por meio de emissários, estabelecer algum limite para o que ele chama de “luta política” na atual crise. Argumento: se a economia derreter, todos perderão, inclusive os oposicionistas que desejam recuperar o poder central em 2006.

Contatos

Ainda na sexta, membros do governo, como o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e o secretário-executivo de Palocci, Murilo Portugal, fizeram pontes com o PFL e o PSDB. Thomaz Bastos falou com os senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Portugal, que participou do governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, acionou seus contatos no PSDB e no PFL.

Ao longo da sexta, foi perceptível a mudança de tom de dirigentes da oposição. O próprio FHC pediu moderação aos ataques a Palocci, ciente de que uma crise política com crise econômica poderá arruinar os planos tucanos para as eleições do ano que vem.

Lula ficou contrariado com o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB). Reservadamente, assessores presidenciais dizem que o secretário de Segurança Pública de Alckmin, Saulo de Castro Abreu Filho, providenciou o transporte da gravação do depoimento de Buratti de Ribeirão Preto para a sede na capital paulista de uma rede de TV. A gravação foi feita pela Promotoria. Para o governo, a rede de TV cumpriu seu papel, mas Saulo, não.

Seria prova, na visão do governo, de que os tucanos estão instrumentalizando o Ministério Público paulista contra o PT e Palocci. O secretário de Alckmin sonha com a candidatura ao governo paulista no ano que vem. Alckmin é presidenciável tucano.

Lula pedirá ainda que o PT assuma uma discurso uniforme e forte na defesa de Palocci.

Frente jurídica

Na frente jurídica, o governo buscará transferir a investigação do Ministério Público paulista para a esfera federal. Como Palocci é ministro, pode ser processado apenas no STF (Supremo Tribunal Federal) e somente pode ser denunciado pelo procurador-geral da República.

O ministro da Justiça vai continuar a bater nos promotores paulistas, que teriam cometido abuso ao divulgar o depoimento de Buratti. Para o governo federal, o procedimento correto seria remeter tal depoimento ao STF. Auxiliares de Lula consideram que, no STF e na Procuradoria Geral da República, uma investigação a respeito das relações de Palocci com Buratti será feita com mais rigor e discrição do que pelos promotores paulistas.

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