Germano Romero admite campanha precoce e que escreveu para Roberto Cavalcanti pedindo para ele desistir de candidatura na APL - WSCOM

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07/04/2019


Germano Romero admite campanha precoce e que escreveu para Roberto Cavalcanti pedindo para ele desistir de candidatura na APL

Foto: autor desconhecido.

Por Walter Santos

EXCLUSIVO – O arquiteto e escritor Germano Romero revelou em conversa com o portal WSCOM, ao decidir se candidatar à Academia Paraibana de Letras, um mês após a morte de seu pai, Carlos Romero, que se surpreendeu que já houvesse uma campanha em torno da candidatura do empresário Roberto Cavalcanti, dono do Sistema Correio de Comunicação.

Segundo Germano Romero, a surpresa veio de informações dadas por alguns acadêmicos que disseram que já haviam se comprometido, há algum tempo, com o nome do empresário, à época em que seu pai ainda estava hospitalizado.

A realidade posta levou Germano Romero a encontrar razões que lhe levaram a tentar sensibilizar o empresário escrevendo-lhe uma carta, no início de fevereiro, na qual sugeriu que Roberto pudesse pensar em deixar para se candidatar na próxima oportunidade, tornando-se mais forte a possibilidade de ele se eleger para a
cadeira que foi de seu pai, o que, para Germano, seria uma grande homenagem da própria Academia à memória de Carlos Romero.

CAUSAS – “O primeiro motivo baseou-se na admiração e consideração que eu tenho por Roberto, de quem sempre recebi o tratamento mais cordial possível, assim como por sua esposa, minha colega de profissão, Sandra Moura, de quem ainda sou contraparente (sua mãe foi casada com um primo nosso)” – disse Germano.

E continuou: “Na certeza de que Roberto, como homem realizado no âmbito familiar e conhecedor dos valores de sua respectiva afinidade, teria a sensibilidade de entender as razões que lhe expus, não hesitei em fazê-lo.

“Não sou absolutamente vaidoso” – prossegue Germano. “Como conhecedor e estudioso da Doutrina Espírita, integralmente baseada nos ensinamentos cristãos, além de observador contumaz e contemplativo do fenômeno da criação Divina, não me considero superior sequer a um mosquito. Nada há na Natureza que não possua o mesmo valor dentre o fenômeno da
existência. Assim, nenhum sentimento de orgulho me impediria de escrever atal carta e torná-la púbica, pois o fiz de alma e coração inteiramente abertos por toda a pureza que me estimulou.

Ele acrescentou: Apesar do valor emocional do desejo expresso de meu pai, para que eu o sucedesse na APL, a hereditariedade entre nós, como já foi dito, é mera coincidência. A minha história de vida, em sua grande parte dedicada à produção cultural, seja como cronista, arquiteto ou bacharel em música, me credencia à legitimidade do pleito ora pretendido. Além das notórias afinidades literárias, culturais, musicais, facilmente observadas em nossa produção intelectual ao longo de muitos anos, publicada simultaneamente.

CONJUNTURA – Conforme observou, “nem jornais e revistas da cidade, nosso trabalho priorizou a forma da crônica, sempre pautado na similaridade de essência poética e filosófica. Esse conteúdo histórico presente em nossas vidas, acrescido do amor incondicional que se superou, mesclando-nos e alternando-nos as condiçõesde pai, filho e vice-versa, sobretudo com o avanço de sua idade, causou na comunidade paraibana uma admiração efusiva e carinhosamente expressa por todos.

Inclusive no ambiente da APL, muito frequentado em sua companhia, em cujas oportunidades pude constatar a imensa e fraternal consideração que os acadêmicos lhe dirigiam. Assim como o desejo manifesto, pessoalmente, de que eu, no futuro, pudesse integrar seus honrosos quadros”.

MAIS DETALHES – Ele revelou ainda: “Vislumbrei, da mesma forma, uma oportunidade ímpar de que a Academia pudesse homenagear o seu tão querido confrade, a exemplo do que fizera com J. Veiga Júnior, e vi que chegara o momento de me candidatar, em decisão que só pude consolidar um mês após seu falecimento. Entretanto, como já disse, fui informado pelos próprios membros da Academia de que Roberto havia se antecipado para o mesmo pleito, com bastante antecedência. E ocorreu que, coincidentemente, a cadeira tornada vaga veio a ser a de Carlos Romero”.

Diante da realidade ele disse que “por isso, vendo-me inserido em uma corrida, de certa forma injusta, e ouvindo alguns imortais me confessarem que lamentavam profundamente que eu não tivesse anunciado antes a minha intenção, a qual seria
inquestionavelmente apoiada por eles, mas que já haviam se decidido por apoiar Roberto, julguei que seria oportuno apelar para a sensibilidade dele, no sentido de adiar a sua candidatura para a próxima oportunidade. Tanto quanto para que ninguém se constrangesse pelo fato de se colocar em dúvida perante o anúncio de minha candidatura, ou ser tentado a quebrar uma palavra possivelmente já assegurada. De toda forma, isso tornaria mais fácil, sem dúvida e sem constrangimentos, a escolha de meu nome para a sucessão”.

Ele informou ainda:

– Assim, movido pelo sentimento de conexão e afinidade ideológica, literária, intelectual e artística com a obra e o estilo de Carlos Romero, encaminhei a tal carta a Roberto, entendendo-a como justa e oportuna. Tendo presenciado, inúmeras vezes, a maneira efusiva e amável com a qual meu pai era
invariavelmente tratado pelos confrades, no meio acadêmico, e, sabedor do seu desejo expresso para que eu me candidatasse à sua sucessão, cujo processo eleitoral será, em breve, aberto, também entendi que esse era o momento de a Academia homenageá-lo com a merecida gratidão, caso os meus méritos sejam devidamente reconhecidos.

FINALMENTE – Por estas e outras razões,” me permiti tornar público, em primeira mão ao WSCOM, o teor da correspondência, escrita de maneira sincera e desprovida de vaidade, igualmente na esperança de sensibilizar os integrantes da Academia, acerca de um pedido que considero extremamente justo e legítimo. Permaneço absolutamente convicto de contar com a compreensão dos membros da APL, acerca dos motivos que me conduziram, pedindo-lhes desculpas por externar minha iniciativa, além de deixar claros os meus anseios para que os ilustres acadêmicos a interpretem e procedam de acordo com seus princípios e critérios de foro íntimo”.

E acrescentou: “Espero ter sido claro, principalmente àqueles que externaram uma possível resistência ao excesso de minha humildade. Afinal, essa é uma virtude da qual tentarei jamais me separar e de que nunca me envergonharei.

Para ele, “ tampouco do meu grande amor por meu pai, por quem eu seria capaz de tudo para poder lhe homenagear, sobretudo da forma mais legítima e genuína possível, como a que ora me proponho” – Conclui Romero.

A seguir, na íntegra, a carta revelada ao Portal WSCOM:

Roberto, meu amigo, deixe eu lhe perguntar, ou mesmo lhe contar uma coisa, muito “cá entre nós”, como dizia nossa amiga Rose Silveira.

Vivi com meu pai uma história de amor como poucas que o mundo conhece.
Sinceramente. Creio que você sabe um pouco dessa saga. Foram 95 anos da mais pura felicidade, entre o nascimento, passando por seus dois perfeitos casamentos, até a sua morte, em um clima do mais elevado amor familiar. Também sei do sentimento semelhante que liga você a seus filhos,
idem numa vida plena de afeto, e, assim, acredito que você conhece bastante o valor que isso representa.

Quando minha mãe partiu, com apenas 55 anos, passei a ocupar o seu lugar de “revisora” das crônicas do amado pai, estilo literário com que ele se afeiçoou desde os vinte e poucos anos, idade que eu tinha quando fiquei órfão de mãe. A partir desse convívio maduro com as letras, nossa afinidade se estendeu ao mundo da literatura e comecei a escrever, muito sintonizado com sua forma e sua filosofia de vida.

 

Daí, o destino foi-nos mantendo juntosnesse ambiente intelectual e passamos, de forma inédita na cidade, a assinar colunas em vários veículos, simultaneamente, pai e filho. Foi assim com A União, com o Correio da Paraíba, no Contraponto, na revista Tribuna Espírita, por muitos longos anos. Chegamos a lançar livros de crônicas juntos, na mesma noite de autógrafos, e juntos recebemos títulos de reconhecimento pela contribuição cultural à cidade, na Câmara e na Assembleia.

Mundo afora, batemos pernas pelos cinco continentes, viajando ao exterior três, quatro vezes por ano, durante décadas, o que me rendeu, inclusive,material para vários programas culturais de viagem que dediquei à RCVT, por alguns anos, no programa Parada Obrigatória. Essas viagens marcaram muito as nossas vidas, em momentos abençoados com raro privilégio, pois,
ter no pai o seu melhor amigo é possuir um tesouro incalculável.

Disso você é ciente, pois seus filhos também lhe nutrem notória e incondicional afeição.

Agora meu pai partiu, após viver 95 anos de extrema felicidade, graças a Deus. Nas ternas lembranças por ele deixadas, uma me veio à memória de forma especial, após desencarnar. Foi de quando ele me confessava ter desejo de que eu o sucedesse na Academia de Letras. Não só pela afinidade literária, no estilo e na forma de escrita, mas por ser uma cadeira ocupada inicialmente pelo Padre Azevedo, sucedida por um espírita excepcional, Lauro Neiva, e depois por ele. Como juntos também militamos na Doutrina Espírita, era mais um motivo pelo qual ele nutria a fraternal esperança.

Evidentemente que eu cortava essa conversa e dizia: “Vamos mudar de assunto? – Já que isso implicava em sua partida. E assim se passou…

Somente após um mês de seu desenlace, ocorrido no último dia 6 de janeiro, me senti confortável para, a partir dessas lembranças e do apoio familiar, decidir me candidatar. Foi quando, ao contatar os acadêmicos, tive asurpresa de que você já era candidato e que sua campanha corria há muito tempo na frente. Também me senti surpreso de que membros da Academia já se houvessem comprometido antecipadamente com você, bem antes de que se abrissem as inscrições, e terminei por me ver inserido em um pleito iniciado sob condições desiguais e, portanto, injustas.

Depois, tomei conhecimento de outras possíveis candidaturas, como a do professor Milton Marques, e dos advogados Wilson Aquino e Cleanto Gomes Pereira, já desfeitas, por desistência pessoal.

Então, nos contatos realizados com os membros da Academia, apenas para informar que concorreria e pedir que contasse com a avaliação deles, passei a receber considerável apoio de cada um, sobretudo dos que antes estavam inclinados a votar nos que desistiram. Contudo, Roberto, sei que não será um pleito fácil, e, por isso, considero não ser possível satisfazer o antigo sonho do amado pai. Até porque, eu não tinha condições emocionais de pensar ou decidir nada a respeito de uma campanha. Muito menos, de forma antecipada.

Estimulado por amigos e até por acadêmicos confiantes na sensibilidade de um homem como você, na condição de pai feliz e realizado, fui convencido a lhe pedir para que analisasse a possibilidade de adiar, apenas um pouco mais, a sua candidatura à imortalidade, que, sem dúvida será concretizada, agora ou quando você bem desejar.
Faço isso humilde e exclusivamente imbuído do sentimento de respeito, amor, devoção e admiração por um pai, homem puro, de espírito elevado, a
quem eu não negaria absolutamente nada e por quem eu faria qualquer coisa.

E também, por total desencargo de consciência, em atender a um pedido de concorrer à sua vaga, não me interessando por nenhuma outra, nofuturo acadêmico. Um ambiente que, se eu não adentrar dessa vez, me despeço com a alma leve e limpa, lembrando sempre do que ele me dizia, afetuosamente: “Meu filho, não há travesseiro mais macio do que uma consciência tranquila”.

Por fim, Roberto, despeço-me convicto, pelo que conheço de suas virtudes, de que contarei, ao menos, com alguns momentos de sua reflexão. Todavia, esteja absolutamente certo de que não ficarei desapontado, de forma alguma, se o que aqui lhe expus, de maneira tão sincera, não o sensibilizar.

Mesmo que não consiga realizar o desejo do amado pai, terei o prazer de sua convivência no trajeto de uma campanha sob o nível que todos merecemos. Assim como, fique igualmente certo de que os acadêmicos mais sensíveis e virtuosos, já comprometidos com você, entenderão e admirarão qualquer que seja a decisão que lhe ilumine a consciência.