Flávio Tavares critica a falta de incentivo às artes e fala sobre seu painel do - WSCOM

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Paraíba

24/05/2008


Flávio Tavares critica a falta

O artista plástico Flávio Tavares, em entrevista à Série Depoimentos promovida pelo Serviço Social do Comércio, criticou a falta de incentivo às artes no Brasil e a ausência de leis que protejam o trabalho do artista como patrimônio.A Série Depoimentos integra a programação da Bienal de Pequenos, evento que se encontra aberto na Área de Lazer do Sesc Centro João Pessoa até o próximo dia 30, no horário das 8h às 22 horas, com entrada franqueada ao público em geral.

O vandalismo contra obras públicas é um exemplo preocupante que tem crescido, sobretudo nos grandes centros urbanos. Em João Pessoa, podemos citar exemplo de casas históricas, murais e painéis que têm sido degradados ao longo dos anos por atos de vandalismo. “Com certeza existe a falta de leis que protejam as obras e murais públicos contra esses atos.”, criticou Flávio, que já teve uma de suas obras destruídas. “Certa vez eu fiz um mural em uma igreja, totalmente em cerâmica, o que me deu muito trabalho. Um dia, indo pra Recife, eu passei pela igreja e o mural estava completamente branco! O dono (a igreja situava-se em uma granja) tinha virado crente, e tinha mandado pintar mural. Em obra particular, você pode quebrar, queimar, jogar fora, não existe uma lei de preservação. E nos prédios públicos realmente existe uma lei, mas é uma lei furada”.

Flávio apontou ainda a falta de iniciativa em políticas que invistam na produção artística e que instiguem a criação de novos artistas. “Em João Pessoa, por exemplo, não existe sequer um Museu totalmente destinado às artes, e os projetos de lei que existem acabam sempre parados. Seria muito viável uma parceria entre os governos e a UFPB, por exemplo, na construção de um Museu”, afirmou Flávio. “O Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, é uma grande atração, e vive cheio, sobretudo de estudantes, que estão lá a fim de aprender”, completou.

O Museu Oscar Niemeyer é uma referência em toda a América Latina, onde a própria arquitetura, projetada por Niemeyer, já é uma grande atração, e onde são realizadas exposições simultâneas em mais de 17 mil metros quadrados de área. “Os governos deixam sempre pra depois essa história, não sei se vêm os artistas ainda de uma forma estranha”, lamentou.

Podemos notar, então, a falta de “ânimo” dos governos em relação à produção artística, sobretudo no nosso estado, onde os incentivos de produção e de descoberta de novos artistas até acontecem, mas andam a passos muitos curtos e ainda de forma muito tímida, tendo um longo caminho ainda pela frente.

O projeto do Estação Ciência

Recentemente, Flávio foi convidado pela prefeitura de João Pessoa a realizar o que virá a ser o seu maior projeto, que ficará marcado para sempre na história da cidade. Um mural de nove metros de comprimento por três de altura está em fase de acabamento, e será exibido junto à inauguração do Estação Ciência, Cultura e Arte, que recentemente foi cotado a receber o nome “Assis Chateaubriand”.

“Na verdade não é bem um mural, eu gosto de vê-lo como um painel”, argumentou Flávio. “Ele é formado por cinco módulos de madeira, onde você pode olhar cada um separadamente, mas todos têm uma amarra”, explica. O mural, que será uma pintura, trará um pouco da história de João Pessoa, partindo desde a chegada dos portugueses e focando principalmente no choque cultural com os índios nativos. Porém, Flávio decidiu inovar ao retratar fatos considerados tão importantes historicamente. “A primeira idéia era quebrar com o princípio histórico. Eu não queria chegar dentro de um livro de história e pintar o quadro”, afirmou.

Para dar vida à sua retratação histórica e ao mesmo tempo irônica, Flávio resolveu utilizar-se da influência adquirida na literatura, e misturar elementos díspares em uma mesma cena. “A antropofagia é abordada por Mário de Andrade de forma exemplar, onde você tritura tudo pra sair alguma coisa. Assim, a primeira idéia que eu tive foi de um navio chegando, mas não no mar, e sim a uma grande mesa cheia de tudo: banquete, ciganos, bichos, frutas, que é essa lembrança que eu tenho da literatura”. Através disso, Flávio realiza toda sua crítica cultural e a joga através das tintas em seu painel, como na maioria de suas obras: “Quando alguém fala algo muito serio, eu levo para o lado do humor. Não sei se isso é uma resistência, mas eu preciso fazer uma critica, é natural”, comentou Flávio. “O imaginário humano já projetou muitos discos voadores. Se um disco voador chegasse hoje na terra, ninguém iria se assustar. Mas naquela época, para nativos verem aquele navio chegando, homens todos ‘enlatados’, dando tiros pra cima, seria um absurdo. Quem era aquele povo de pele branca, vestidos, de barba?”, explica.

O quadro, que retratará essa riquíssima história da nossa cidade, ofereceu a Flávio uma de suas melhores experiências profissionais durante todos seus anos de carreira no mundo artístico. “Até hoje eu ouço a voz do mestre dizendo como fazer. Isso prova que eu ainda não consegui ultrapassar os ensinamentos, ainda estou no aprendizado. Esse painel chegou na hora certa”, afirmou. “Ele poderia até ser simples, mas um mural desse tamanho dá expansão pra desenvolver múltiplas fantasias, interligadas a um só sistema. Não tem nada leviano, supérfluo, tem toda uma verdade dentro do trabalho ornamental, e eu tenho essa responsabilidade de amarrar uma história enorme”, concluiu Flávio, mostrando que pôde ter liberdade pra trabalhar vários aspectos de uma realidade que é tão importante e que ficará marcado para sempre não só como mais uma de suas obras, mas como um marco histórico, turístico e cultural da cidade.

Quando perguntado sobre os projetos futuros, ele brinca: “Depois desse mural eu me aposento!”, disse, entre gargalhadas.

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