Em primeira entrevista pós-tragédia, presidente do Flamengo trata incêndio como fatalidade e defende indenizações - WSCOM

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Esporte

24/02/2019


Em primeira entrevista pós-tragédia, presidente do Flamengo trata incêndio como fatalidade e defende indenizações

Landim em coletiva na Gávea no início da tarde deste domingo — Foto: Marcelo Baltar

Demorou mais de duas semanas, mas o Flamengo, enfim, respondeu publicamente perguntas sobre a tragédia que deixou 10 garotos mortos no Ninho do Urubu. O presidente do clube Rodolfo Landim, junto do vice-presidente Rodrigo Dunshee e do CEO Reinaldo Belotti, abriu a sede da Gávea para imprensa, neste domingo.

Segundo Landim, o tempo de silêncio foi usado para reunir informações que a atual diretoria ainda não tinha dias depois da tragédia. O presidente citou que duas advogadas teriam criado um clima hostil entre as famílias e o clube. O dirigente também esclareceu dúvidas sobre indenizações, alvarás, multas, a segurança dos contêineres e outros pontos que cercam à tragédia.

– Tivemos uma preocupação muito grande com a qualidade de informações que passaríamos. Estávamos há 30 dias na gestão. Uma série de perguntas que não poderíamos responder. O foco principal era as famílias. Nossa maior concentração de atenção foi nelas. Procuramos cuidar desde o dia da tragédia, a maior dos 123 anos de Flamengo. Me reuni com as famílias no dia seguinte à tragédia em um hotel. Um trabalho carinhoso e cuidadoso, com todos os psicólogos do clube consolando as famílias dentro das nossas possibilidades – garantiu Landim, em pronunciamento antes de abrir a rodada de perguntas aos jornalistas.

Veja as principais declarações:

Valores de indenizações às famílias

“Esse processo corre em segredo. Independentemente disso, é importante não falar isso pelo impacto que isso poderia ter na segurança das famílias, falar de altos valores. Temos que levar em consideração onde essas famílias moram. Da forma como foram vazados, a resposta é não. Não foram os valores passados. Com relação ao Ministério Público, é ele quem deve informar”. (O MP do Trabalho revelou na quinta-feira a oferta de indenização do Flamengo por tragédia: de 300 a 400 mil reais)

“É sem precedentes na história do nosso país. O que nós estamos propondo não houve na história do nosso país”.

“O que foi colocado antes do processo de mediação foi um piso de discussão, que nós entendemos que é muito acima de toda e qualquer decisão que aconteceu. O Flamengo quer equacionar com valores acima, mas que já são o dobro da jurisprudência. O que não quer dizer que, se pedirem 10 vezes, 100 vezes o valor da jurisprudência, nós iremos aceitar”

Clima com advogadas e relação com as famílias

“A gente soube que duas famílias já vieram representadas por advogadas. As informações que tivemos é que durante essa reunião, e depois da saída do desembargador, houve orientação dessas advogadas falando de falta de respeito do clube. A gente entende que é um momento difícil, mas percebemos que essas duas advogadas conseguiram criar um clima dentro daquele grupo para que fosse deliberado um valor muito alto. O que a gente tem sentido de positivo é: acabado aquele momento, a gente começou a ser procurado por algumas famílias, que buscaram conversar conosco sobre o processo de mediação com o Tribunal de Justiça. Isso já está ocorrendo, já ocorreu na sexta-feira. Essas famílias já tiveram longa conversa conosco, o que nos deixa muito felizes. Não posso garantir que todas vão seguir esse caminho. Essa seria a nossa vontade, mas não posso garantir”.

“Dou minha palavra de honra que houve uma nova reunião com uma família na sexta. Não posso expor a família. E temos outras reunião marcadas”.

Boate Kiss x Ninho

“Não estou falando de nenhuma decisão judicial sobre a Boate Kiss. Estou falando de decisões mais próximas do caso que a gente está tratando, como crianças sob guarda de alguma empresa. Uma vida não tem preço, não vamos discutir precificação. Estamos falando de indenizar danos morais em relação às dores das pessoas”.

“Na conversa que tivemos com a defensoria, ficou claro que não tinha nenhum interesse de estender esse prazo de negociação com o Flamengo. A intenção do Flamengo é buscar o mais rapidamente possível uma decisão que seja justa. Sobre a negociação global, não tenho tanta certeza que isso seja a posição de todas. Pode ter sido verbalizado, mas não é o que a gente tem sentido com as famílias, individualmente querendo discutir as necessidades que essas famílias terão ao longo do tempo, para que possa melhorar a condição dessa família”.

Sobre multas ao CT

“Nós não tínhamos conhecimento disso. A última multa feita pela prefeitura foi no dia 12 de dezembro do ano passado. Nenhuma multa chegou ao nosso conhecimento. Ao longo do tempo, foram faladas de 31 multas, e a gente teve que procurar. A gente conseguiu identificar 23 multas. Dessas 23, 12 delas foram aplicadas e recebidas pelo clube após o acidente. São multas retroativas, mas foram aplicadas depois do acidente, em 11 de fevereiro”.

Tragédia vista do alto: o incêndio no Ninho do Urubu — Foto: Agência Estado

Tragédia vista do alto: o incêndio no Ninho do Urubu — Foto: Agência Estado

Alvarás e contêineres do Ninho

“O Flamengo teve, no passado, alvará para utilização do Ninho do Urubu com módulos iguais àqueles que estavam ali. Foi aprovado em 2012 pela prefeitura módulos habitacionais como aqueles, que já existiam desde 2010. As licenças foram para as novas instalações do centro de treinamento. Quando o Flamengo foi fazer as melhorias nas instalações, pediu a autorização ao Corpo de Bombeiros. Verificamos que isso foi feito em meados de 2017. Quando foi levado para os bombeiros, eles pediram que fosse feito o licenciamento do primeiro centro de treinamentos, o CT 1, que existia naquele momento. Não existia o CT 2, que começou a ser construído em 2017. Todas aquelas autuações foram em referência ao CT 1. A gente tem registro de diversas idas do Corpo de Bombeiros no CT 1, fazendo uma série de exigências que foram atendidas. Até que, na última vez que os Bombeiros foram lá, viram que já existia o CT 2. O licenciamento se estendeu por tanto tempo, que quando chegou a licença do CT 1 já existia o CT 2. Corremos depois do acidente para sanar todas as pendências e já protocolamos o pedido de licença para o CT 1 e CT 2, o projeto total de instalações”.

“Eles (contêineres) não tinham alarmes de incêndio e isso não era necessário pela legislação. Ao contrário do que saiu na imprensa, os circuitos de ar-condicionado eram totalmente independentes e tinham disjuntores”.

Monitores no Ninho e na hora do incêndio

“Não existe legislação ou orientação. Existem recomendações de práticas, muito focado no aspecto de educação, acompanhamento. Para cada 10 crianças que você tiver sob a sua guarda, uma boa prática seria você ter um monitor para ajudar a instruir. Não é uma lei, não é uma obrigação. Naquele momento, existia um monitor escalado, que deveria estar acordado, como existe sempre. Se ele estava ou não estava, a gente não sabe dizer, está na investigação da polícia”.

“A prática é na forma de atender as pessoas. No processo de educação de crianças, vou envolver pedagogos, psicólogos, que fazem parte da equipe que atende ao Flamengo. Nós vamos avaliar se as práticas foram as melhores ou não. Se acharmos que devemos modificar, vamos modificar”.

O Flamengo errou?

“Todo acontecimento traz oportunidades para melhorar. Existem sempre oportunidades para discutir os procedimentos. Não tenho dúvida de que foi uma fatalidade. Infelizmente, aconteceu. Não posso imaginar que alguma coisa poderia ter sido feita e o Flamengo não fez porque não ligou, achou que não teria importância. Há muitas coisas que vamos saber ao longo desse processo. Ele não termina aqui, ainda não terminou. Essa vai ser uma conclusão da polícia, mas, na minha percepção, foi uma fatalidade”.

Rodolfo Landim e Eduardo Bandeira de Mello na passagem de bastão da presidência do Flamengo — Foto: FotoBR

Rodolfo Landim e Eduardo Bandeira de Mello na passagem de bastão da presidência do Flamengo — Foto: FotoBR

Ausência de Bandeira e outros dirigentes

“Todas as pessoas da administração que se dispuseram a vir aqui e ajudar nesse processo, e eu cito o Flavio Willeman, último vice-presidente jurídico, são mais do que bem-vindos”.

“No momento em que eu sentei nessa cadeira, eu entendo que a responsabilidade para tocar as coisas é minha. Não estou deixando de contar com a colaboração de ninguém que de fato queria se juntar a nós e ajudar para o que for importante”.

Capítulos pós-tragédia

O Flamengo ficou exatos 16 dias indisponível para esclarecer dúvidas da imprensa e da opinião pública. Durante duas semanas, o clube optou por comunicar-se por notas oficiais, além de quatro pronunciamentos – dois do presidente Landim, um do vice-presidente Rodrigo Dunshee e outro do CEO Reinaldo Belotti. O VP foi o único que se aventurou a responder os jornalistas, mas se irritou com questionamentos e abandonou a entrevista.

Nesse meio tempo, três jovens foram internados e dois já deixaram o hospital. O clube foi intimado pelas autoridades para dar explicações e teve o CT interditado para menores de idade pela Justiça. O Ninho continua aberto para trabalhos do time profissional, apesar de ainda não contar com o alvará do Corpo de Bombeiros e acumular notificações da Prefeitura do Rio.

Na última quinta-feira, o Rubro-Negro tentou se entender com as 13 famílias das vítimas da tragédia (mortos e feridos), mas a negociação mediada pela Defensoria Pública fracassou. Os parentes saíram do encontro revoltados com os valores oferecidos e criticaram a ausência do presidente do clube: “Será que ele tinha algo mais importante para fazer?”.

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