Consumo de bebida entre jovens indígenas reflete mudanças no estilo de vida dess - WSCOM

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Saúde

06/04/2011


Mudança: bebida entre jovens indígenas

Riscos

Foto: autor desconhecido.

Iauaretê é uma “cidade” indígena localizada às margens do maior afluente do Rio Negro, no noroeste amazônico. Lá foi realizada a pesquisa “Modos de vida e modos de beber de jovens indígenas em um contexto de transformações”, publicada ano passado na Ciência & Saúde Coletiva.

Escrito por Maximiliano Loiola Ponte de Souza e Luiza Garnelo, do Instituto Leônidas e Maria Deane (AM), da Fiocruz, juntamente com Suely Ferreira Deslandes, do Instituto Fernandes Figueira (RJ), também da Fiocruz, a pesquisa partiu da percepção constante, entre moradores de Iauaretê, de que “os jovens bebem cada vez mais cedo, de modo mais frequente e violento, e que há dificuldades coletivas em se lidar com este comportamento”.

Segundo os pesquisadores, que realizaram observação de campo na cidade para chegar às suas conclusões, a vida em Iauaretê se caracteriza por uma sequência de transformações que está afastando jovens de ritos tradicionais. Na cidade, funciona um externato desde 1986, e um grande número de famílias de localidades vizinhas se mudou para lá para “dar continuidade à escolarização dos filhos”. Ao mesmo tempo, houve aumento da urbanização local. “Atualmente, (Iauaretê) dispõe de eletrificação, telefonia, comércios, quartel do exército e agência dos correios que presta serviços bancários”, contam os autores no artigo.

 

Dessa maneira, se antes o consumo de bebida se relacionava necessariamente a situações especiais, hoje este está deixando de ser o padrão. Os autores explicam que a bebida local é o caxiri – a base de mandioca e frutas –, consumido em festas de troca ou dabucuris (festas-rituais, fortemente associadas às trocas matrimoniais) e em rituais de iniciação masculina. Se, antes, a permissão de participar de tais festas só era concedida depois de realizado o ritual de iniciação (entre os doze e treze anos), a cidade se depara hoje com jovens que “inserem-se em múltiplas redes de interação”. Assim, surge a possibilidade de criação de “ambientes juvenis de consumo de álcool, (de) beber longe dos pais e (de) comprar bebidas industrializadas”, dizem os pesquisadores. Ao mesmo tempo, sem o ritual de iniciação que ditava quando o jovem poderia começar a beber – abandonado por vários grupos -, há dúvidas quanto às “normas sociais de consumo de álcool”.

 

O artigo relata que jovens tomam caxiri quando visitam casas de colegas ou vão a festas realizadas em um dos dez bairros ou vilas nos quais Iauaretê se divide. Além disso, é comum que comprem cachaça, bebida que, ainda que proibida em terra indígena, é facilmente encontrada. “Para comprar cachaça, os jovens podem valer-se das amizades com militares indígenas; vender produtos extrativistas; ludibriar aposentados ou coagir parentes idosos que ‘não vêm seu dinheiro, porque os netos pegam tudo’, conforme um septuagenário”, relatam os autores no trabalho.

Para os pesquisadores, a questão se relaciona com um tema maior, que seria o próprio papel do jovem na comunidade indígena, pois com as mudanças ocorridas nos últimos anos, ele ainda não se estabeleceu de maneira clara. “A inserção da juventude no tecido social é precária, situando-se a meio caminho entre a posição chancelada pela tradição (recém-iniciado, na ausência de iniciação) e aquela gerada pela colonização (estudante-infantilizado)”, acreditam os autores. Com a urbanização e afastamento de antigos ritos tradicionais, nascem novas relações sociais, nas quais “sai do primeiro plano o pertencimento à descendência de ancestrais comuns e se tornam preponderantes os grupos de vizinhança (vilas, formadas por parentes e não parentes que se tornam coresidentes), de amigos da escola (moradores dos diferentes bairros) e outros”.

Dessa maneira, os autores acreditam que os novos padrões de consumo de bebidas entre a população indígena de Iauaretê é reflexo direto de “importantes transformações na organização social e nas condições de vida”, e seus efeitos não podem ser ignorados.

Para ver o artigo na íntegra, acesse.

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