Com país dividido, Lula rejeita "impeachment administrativo" - WSCOM

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Brasil & Mundo

22/08/2005


Com país dividido, Lula rejeita

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus auxiliares mais próximos constataram que o país está dividido pela disputa política, após cem dias de crise, mas não aceitam alterar o projeto de crescimento econômico sustentado e os programas sociais que caracterizam o governo Lula.

Mesmo reconhecendo a fragilidade da situação política, o presidente Lula não está disposto a aceitar o que poderia ser chamado de um “impeachment fiscal e administrativo”, definiu um ministro da coordenação de governo que falou à Reuters no fim de semana.

A fonte resumiu as avaliações feitas por Lula com seus auxiliares ao longo desse período. A conclusão é de que a crise política não comprometeu o crescimento da economia nem a geração de empregos e a sustentação dos programas sociais, como o Bolsa-Família.

“O governo não pretende render-se aos que querem impor a reversão dos avanços sociais, sob um falso pretexto de ajuste econômico, da mesma forma que não vai ceder à tentação da irresponsabilidade fiscal, a pretexto de equilibrar a sustentação política”, disse a fonte.

O presidente e seus auxiliares ressaltam que as denúncias são muito graves, mas não autorizam o juízo de que já teriam comprometido a credibilidade do governo. “Os problemas comprovados atingem setores, franjas da administração, mas nenhuma denúncia atingiu comprovadamente o miolo do governo,” disse a fonte.

Sem nenhuma ilusão de que seria possível interferir nas investigações, da Polícia Federal, do Ministério Público e das CPIs, ou na vigilância da imprensa, o governo contabilizará o prejuízo político do envolvimento de colaboradores que estão sendo ou serão investigados.

O Palácio do Planalto trabalha, desde a semana passada, com pesquisas que indicam o aprofundamento da reprovação ao governo e ao presidente. A situação é mais grave em São Paulo e mais favorável no Nordeste. Pior entre os mais ricos, melhor entre os mais pobres.

Os colaboradores de Lula não se arriscam a prever um desfecho para a crise, mas sabem que ele passa pela apuração das denúncias com punição dos culpados e por uma reforma das práticas políticas que estão na origem dos problemas, disse a fonte.

“CACHORROS LOUCOS”

Em relação ao discurso que marcou a saída do ex-ministro José Dirceu, no mês de junho, há uma nova atitude dos ministros petistas em relação às denúncias.

Depois do que foi comprovado sobre a movimentação de pelo menos 55 milhões de reais pelo PT e aliados, não se fala mais em conspiração das elites contra o governo popular.

“Nós do PT não podemos transferir para a oposição a nossa própria crise”, disse a fonte de Reuters. “Isso se revelou artificial.”

“Tampouco a oposição pode querer transferir artificialmente para o governo os problemas que havia no PT, como fizeram alguns setores”, advertiu.

Lula e seus colaboradores concluíram que o bombardeio inicial da oposição tinha o objetivo de desgastar eleitoralmente o presidente.

Registraram que a expressão impeachment saiu do discurso das oposições quando as pesquisas confirmaram esse desgaste, mas também coincidiu com a comprovação de que políticos do PSDB e do PFL valeram-se de esquemas de financiamento ilegal semelhantes aos confessados pelo ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

Nessa situação de risco compartilhado, os colaboradores de Lula procuram diferenciar o que chamam de “oposição orgânica,” que disputa eleitoralmente e tem outro projeto para o país, dos franco-atiradores que atuam na crise.

Esses chamados “cachorros loucos” nem sempre são atores políticos formais, mas detonam episódios de consequências potencialmente graves até para as instituições.

Podem estar no campo do governo ou da oposição, são inconvenientes de qualquer maneira. Entre episódios desencadeados por “cachorros loucos” o governo lista a divulgação de acusações sem provas feitas pelo doleiro Toninho da Barcelona .

O Planalto tem coletado sinais de que também a chamada “oposição orgânica” condena essas “interferências anárquicas” numa investigação que precisa ser séria, disse a fonte.

AGENDA COMPARTILHADA

Esse país cada vez mais dividido também vai julgar o governo Lula em 2006. Para obter um julgamento positivo, o governo precisa manter a política de crescimento e os programas sociais, além de estabelecer uma interlocução política em torno de projetos de interesse geral, o que está sendo chamado no governo de “agenda legislativa compartilhada.”

É dessa agenda que Lula vem tratando nos encontros regulares com os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) e da Câmara, Severino Cavalcanti (PPB-PE), entre outros.

A aprovação pela Câmara da proposta original da medida provisória do salário mínimo, na quarta-feira, desbloqueou a pauta. Lula e Severino pretendem aprovar agora a chamada Medida Provisória do Bem, que desonera investimentos produtivos e exportações.

Entre as medidas que seriam de interesse geral, não apenas do governo, o Planalto inclui o Fundo de Desenvolvimento do Ensino Básico (Fundeb). Aprovado, o fundo promoverá a transferência de 40 bilhões de reais para Estados do Nordeste em dez anos,o que mobiliza os governadores e parlamentares da região.

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