Caetano Veloso saúda a 'família de inspirações' que gerou show com os filhos - WSCOM

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Música

04/06/2018


Caetano Veloso saúda a ‘família de inspirações’ que gerou show com os filhos

Foto: autor desconhecido.

Sempre hábil com as palavras, seja quando encadeia versos em letras de música ou quando escreve textos em prosa, Caetano Veloso tomou para si a função de apresentar Ofertório ao vivo, CD e DVD recém-lançados com o registro do show que reúne o cantor, compositor e músico baiano com os filhos Moreno Veloso (de pé na foto de Marcos Hermes), Tom Veloso (à direita) e Zeca Veloso.

No texto, Caetano saúda a “família de inspirações” que gerou o fértil show – ainda em turnê pelo Brasil – e conta a razão de o espetáculo ter ganhado novo título, Ofertório, quando já estava na estrada com o nome Caetano, Moreno, Zeca e Tom Veloso.

Ofertório é também o nome do tema religioso (de beleza capaz de converter até ateus como Caetano) incluído entre as 28 músicas do roteiro. Esse tema foi composto pelo patriarca do show em 1997, a pedido da irmã Mabel Velloso, para a missa em homenagem aos 90 anos da mãe, Claudionor Viana Teles Veloso (1907 – 2012), a Dona Canô, cuja voz matricial ecoa nesse recital que reforça os afetos e o laço musical do clã de origem baiana.

Eis o texto escrito por Caetano Veloso para contextualizar o show captado ao vivo em outubro de 2017 em apresentação na cidade de São Paulo (SP):

“Decidimos pôr o título Ofertório no CD/DVD do nosso show (que, até então, era conhecido apenas pela lista dos nossos nomes em ordem de idade e de número de sílabas: Caetano Moreno Zeca Tom – Veloso) quando ele já tinha sido apresentado em temporadas no Rio e em São Paulo, além de uma ida a BH. É que a canção que fiz para a missa de 90 anos de minha mãe toca no cerne do nosso feixe temático: as relações familiares, a família de inspirações que assaltam os quatro modestos mas entusiasmados criadores, a visão total que, como nenhuma outra dimensão do conhecimento, a religião expõe.

Esse canto ritual escrito por mim, que sou o único não-religioso do grupo, ilumina a entrada de Reconvexo, o desaforado brado do Recôncavo Baiano que, no roteiro, vem logo em seguida. Mas também expande seus raios sobre Um passo à frente, de Moreno, Todo homem, de Zeca, Clarão, de Tom, meu Jenipapo absoluto ou Tá escrito de Xande de Pilares – enfim, a todo o repertório do show. Tanto que forçamos impor o novo título ao próprio espetáculo.

Tudo isso foi um sonho meu, acalentado por longo tempo. O show que fiz no Sesc de São Paulo com Moreno em 2006 voltava sempre à minha cabeça. Zeca e Tom se chegando para a música também, imaginei armar um com os três, num modo de estar mais perto deles depois de crescidos. E de clarear – para mim, para eles e para os outros – o sentido da presença de Bethânia e minha, assim como as de Gil e Gal, no cenário da música popular do Brasil. Tom, que vai direto à essência das coisas, logo disse, ao saber do plano, que queria que cantássemos O seu amor, canção de Gil escrita para os Doces Bárbaros.

Na nossa cabeça não tínhamos um “produto” para oferecer. Tratava-se sempre de uma delicada e vulnerável experiência existencial que enfrentamos com alegria e preocupação. A estreia logo nos colocou mais do lado da alegria. Mas continuamos atentos. Agora temos um produto para apresentar. Que nosso grupo semi-amador, mas de alma sofisticada, apareça nessas gravações fiel a seu espírito.

Todo homem, canção de Zeca, tornou-se conhecida e amada por mais de um milhão de pessoas. Nossas apresentações despertam emoções novas em espectadores surpresos. Nossos colegas sentem carinho pelo que veem e ouvem de nós. Esperamos que todas as pessoas que virem e ouvirem, no CD/DVD que se lança agora, possam também se enternecer com nossos sons e imagens. Que nossa aventura familiar contribua com a construção do Brasil.” Caetano Veloso

G1

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