Acompanhamento em tempo real dificulta pizza em CPIs - WSCOM

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Brasil & Mundo

10/08/2005


Acompanhamento em tempo real dificulta

Investigar corrupção é uma prática antiga na arena parlamentar, mas nem sempre ela produz os resultados desejados. É o cheiro da pizza no ar. Na história recente, ela levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, que, no final das contas, foi julgado inocente dos 103 processos pelo Supremo Tribunal Federal por falta de evidências de seu envolvimento nos casos de corrupção.

As investigações sobre as denúncias de um suposto esquema comandado pelo PT de pagamento de mesadas a parlamentares aliados levaram a diversas comparações entre a Collor com o momento atual vivido pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A vida do Congresso Nacional há dois meses voltou-se para as investigações das principais CPIs, a dos Correios e a da Compra de Votos também chamada de Mensalão. Até agora, elas se se desdobraram em duas frentes: o caixa dois em campanhas eleitorais e o questionamento da idoneidade tão bradada pelo PT.

Mas qual a diferença entre os dois momentos políticos e o que será fundamental para se evitar que o Congresso volte a ter cheiro de pizza, quando os resultados das investigações forem concluídos?

A avaliação de parlamentares é que o acompanhamento em tempo real, através da Internet e das transmissões ao vivo dos depoimentos em ambas CPIs determinará o andamento dos trabalhos. “Não há clima para pizza neste momento. Na época do Collor não havia esse tipo de tecnologia disponível”, resumiu o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB).

O deputado ACM Neto (PFL-BA), membro da CPI dos Correios, concorda com a avaliação de Suassuna, porém acrescenta que para se incrementar o resultado das investigações é preciso limitar cada vez mais as investigações das Comissões Parlamentares de Inquérito.

“Precisamos de foco e esse é o nosso desafio. Com a população acompanhando e cobrando resultados isso vai ser possível”, afirmou. “Através dos meios de comunicação de massa, das mídias mais setorizadas, online e a cabo, há uma soma de esforços que pode ser vista em um amadurecimento da democracia brasileira”, acrescentou.

Uma dessas tentativas de dar transparência ao andamento é a idéia de se fazer uma entrevista coletiva semanal com os principais integrantes da CPI dos Correios para “mostrar para a sociedade” os resultados das investigações.

Para o presidente da Comissão, senador Delcídio Amaral (PT-MS), ninguém vai aceitar uma pizza nesse momento político. “Basta fazer tudo isso que estamos fazendo que não haverá pizza”, afirmou.

“O que o coração não vê, os olhos não sentem”

O que os parlamentares querem demonstrar é que o acesso da mídia e da população aos trabalhos das CPIs dá muito mais transparência do que na época Collor. Mas, na prática, a história é outra, a impressão é que tudo se vê… mas não é bem assim.

O andamento de uma CPI, como em qualquer trabalho congressual, também é feito atrás de portas fechadas, respeitando a ordem e o peso político de cada decisão. No final, é a composição política que vai dar o gosto da pizza do mensalão.

“Acordos políticos sempre são possíveis, ainda mais nessa conjuntura. Vai ter gente propondo quais serão os nomes dos cassados, quais as empresas que serão denunciadas. Esse é o jogo político aqui”, afirmou um deputado governista que pediu para não ser identificado.

ACM Neto discorda: “A população não vai aceitar isso. Os parlamentares responsáveis pelas investigações vão pagar o preço se vier a pizza.”

Um exemplo de investigação recente que acabou em pizza devido a um acordo político foi a da CPI do Banestado. Uma disputa entre PT e PSDB levou à proteção de envolvidos, a uma investigação enviesada e à impossibilidade de se produzir um único relatório. Todo inquérito aguarda algum andamento em uma das salas cofres do Congresso. “Isso mostra que essa história de maior acompanhamento da população é pura balela”, afirmou o deputado governista.

Verdade seja dita, a operação do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e do empresário Marcos Valério de Souza, tem recebido maior atenção da imprensa. As TVs Senado e Câmara, além das redes a cabo, não acompanhavam em tempo real os andamentos da CPI do Banestado e da época Collor, como fazem com as CPIs da Compra de Votos e dos Correios.

Basta que os parlamentares não tentem acordos de última hora para salvar sua vida política que o cheiro de pizza vai se esvair do Congresso

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