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02/09/2018


Janelas do Futuro

Projeto social através da informática dá exemplo de como modificar o futuro de jovens de comunidades carentes

O princípio da educação como forma de ocupar e instruir e encaminhar, e viabilizar o futuro de jovens nos faz lembrar as tantas experiências,  uma passagem nos idos dos anos 90, em Recife, Pernambuco, quando resolvemos criar um curso voluntário para ensino/aprendizado de informática, com acompanhamento profissional, palestras, exposições, e diversas outras atividades.

Inicialmente conseguimos o local, o Centro Espírita Esperança e Caridade, localizado na comunidade do Coque, uma das maiores e mais carentes daquela metrópole, com 4,5 mil famílias carentes. Era uma casa adaptada que cabia media de cinquenta ao máximo de oitenta pessoas. Ali, com apoio do jornalista Rildo Mouta (in memorian), ex-perseguido da ditadura militar de 64, e sua esposa, a caridosa Dona Assunção, partimos para uma das tarefas até hoje mais dignas de minha vida.

A informática caminhava no Brasil ainda a passos lentos, mas já se ouvia falar no projeto social de Rodrigo Baggio, no Morro Santa Marta, Botafogo,Rio de Janeiro, que coletava máquinas usadas, reciclava e abria cursos nas favelas, vindo depois a receber apoio milionário da Microsoft, a empresa de Bill Gates, e ser reconhecido por instituições internacionais, hoje atendendo 1,64 milhões de pessoas beneficiadas desde 1995. Foi Rodrigo Baggio o fundador presidente do Comitê para a Democratização da Informática. No nosso caso, escolhemos propor o curso sob o título de Janelas do Futuro, baseado na palavra Windows, a grande plataforma. Então convidamos algumas professoras de uma escola pública que havia próximo e propusemos orientação pedagógica para que nossos voluntários aprendessem a se comportar em sala de aula, um tipo de capacitação básica. Criamos apostilas e em contrapartida ensinávamos o básico de informática àquelas profissionais da educação.

Estávamos entrando no ano 2000. Fomos à procura de doadores e lembro-me de ter corrido na época mais de cento e cinquenta empresas, acabando por encontrar uma no bairro da Boa Viagem, que fornecia computadores para grandes escolas do circuito privado e fazia anualmente a manutenção e renovação do maquinário. O empresário me chamou, mandou sentar e disse que eu era um louco. Referia-se a ideia de querer montar um curso básico de informática  social na maior favela do Recife. Mas achou interessante a nossa proposta em realizar algo em favor dos adolescentes em risco, e resolveu nos ajudar doando dez máquinas do modelo 246. Quase não acreditei na conquista, no dia que ele, o empresário, nos confirmou atender nosso pedido. E assim foi feito, e conseguimos a adesão de técnicos e voluntários.

Estava dada a largada no sentido de trocar a visão marginal dos jovens da comunidade por chances dignas de futuro. As primeiras turmas era uma festa só. As pessoas juntavam-se ávidas ao aprendizado, traziam colaborações em forma de lanche, material escolar, papel para impressão de nossas apostilas, e tudo valia. Organizamos, conseguimos móveis, um técnico veio para instalação eletrônica, e uma famosa construtora doou tijolos, ferro, madeira, cimento, material de construção para a edificação de mais duas salas no terreno.

A principal lição que aprendi vivenciar foi a de que a boa vontade prevalece sempre que nos colocamos à disposição do bem. É batendo portas que acharemos a solução… Nunca estaremos sós. Quem é solidário não fica solitário. Ali, pela primeira vez senti-me verdadeiramente útil ao próximo. Havia garotos da faixa etária de oito aos 18 anos. Meninas que estavam em fase de iniciar namoro e sofria atentado sexual, garotos aproximando das drogas, violência, enfim… Entre as regras estabelecidas não se podia parar as atividades para usar drogas. Quem fizesse uso teria que respeitar o ambiente, e que procurasse outros horários fora do local. Dessa forma mantínhamos harmonia e todos ocupados, o que adoravam e sentiam prazer dado o clima de alegria e aprendizado.

As atividades eram compostas também por eventos comemorativos  entre as turmas, palestras de psicólogos, e outros profissionais da educação, passeios, etc.

Anos depois, andando por uma rua me deparo com uma mocinha que me pergunta se eu estava lembrado dela. Infelizmente, não. Ela se identificou dizendo que havia participado do curso Janelas do Futuro e que ali fora um momento decisivo na vida dela. Que atualmente trabalhava em uma construtora no bairro nobre da Boa Viagem e que havia conseguido o emprego porque tinha informática no currículo. Falou-nos de outras colegas que a partir do curso se distanciaram da prostituição, das drogas, da ociosidade. Uns seguiram carreira e até partiram para o exterior… Hoje são mais de dois milhões de voluntários no mundo trabalhando em causas que auxiliam desde crianças, adolescentes, anciãos, doentes, pessoas carentes em geral. Fazer o bem faz bem, fazer o bem abre janelas para o futuro.

Gil Sabino é jornalista e gestor de marketing. –  g.sabino@uol.com.br

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