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Cinema

06/03/2013


Filmes de ex-alunos integram mostra

Viação Paraíba

“Meu mundo era pequeno, era só Nazarezinho, e o cinema me mostrou que ele é muito maior. E foi o cinema que me despertou pra ler e escrever”. O depoimento é de Ramon Batista, ex-aluno de um projeto cultural realizado na Paraíba, que nasceu com o objetivo de ser um agente transformador no sentido existencial e social da realidade de jovens interioranos e de colaborar para a fixação deles nas suas cidades.

Criado em 2007, o ViAção Paraíba já percorreu 18 municípios do Estado, levando um minicurso intitulado “Aprendendo a Ler Imagens em Movimento”, ministrado pelo coordenador geral do projeto, Torquato Joel, e uma mostra de filmes de curtas-metragens nordestinos, com ênfase na produção paraibana. A edição 2013 será realizada, a partir deste mês de março, nas cidades de Pocinhos, Sapé e Itaporanga.

Outro ponto de destaque na concepção do ViAção tem como princípio a necessidade de expandir o acesso às produções audiovisuais feitas no Estado. O projeto é realizado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), através da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, com patrocínio do Programa BNB de Cultura – Edição 2012 – Parceria BNDES, e apoio cultural das prefeituras locais.

As inscrições para o minicurso estão abertas nas secretarias municipais de Cultura/Educação das três cidades. As aulas vão acontecer no Centro Pastoral Dom Manuel Pereira da Costa, em Pocinhos; no Centro Social Urbano Camilo de Lelis, em Sapé, e no Centro Pastoral João Paulo II, em Itaporanga.

Novos realizadores – O projeto tem rendido bons resultados, fazendo com que alunos despertem para o cinema. Muitos passaram a atuar como gestores de atividades de audiovisual, como cineclubes ou festivais, e como realizadores, inclusive, com filmes premiados não só no Estado, saindo do eixo João Pessoa/Campina Grande, mas em vários festivais nacionais.

Após o minicurso, a coordenação do ViAção envolve os jovens que se destacam em uma série de atividades ao longo do ano, incluindo participações em festivais como o Cineport (Festival de Cinema de Língua Portuguesa), que acontece bienalmente em João Pessoa, e o Comunicurtas, em Campina Grande.

Segundo o ex-aluno José Dhiones, da cidade do Congo, essa ação teve uma grande dimensão na sua vida. “Além da visão de um mundo que a gente desconhecia, que é esse mundo do cinema, eu, como “matuto” do interior, tive um choque cultural nos festivais com relação aos preconceitos e passei a ver o mundo de outra maneira. Comecei a ver o quanto o cinema pode fazer com que as pessoas vejam o mundo com outros olhos, proporcionando uma visão crítica dos conteúdos. Eu posso ser um grão de areia, mas que eu estou fazendo a minha parte com um festival em minha cidade, estou”.

Nesta edição, o Projeto foi reformulado ao apresentar para a população das cidades por onde passa obras produzidas por ex-alunos. São filmes como Travessia, de Kennel Rógis, de Coremas, que lança um olhar sobre o “mar do sertão”, um dos mais importantes reservatórios de águas do Nordeste que leva o mesmo nome da cidade. O curta apresenta três moradores, em suas longas jornadas diárias, cruzando as águas para chegar até a sede do município em busca de sonhos e necessidades.

Olhar Particular, de Paulo Roberto, de Nazarezinho, aborda uma simples contemplação da banalidade cotidiana de jovens de pequenas cidades cujo lazer, muitas vezes, é enveredar pelos matos da zona rural para chegar até um pequeno açude e se deliciar nas águas refrescantes que arrefecem o calor abrasador da região.

Assim como Metafísica, de Eduardo Gomes, de Dona Inês, ao abordar a dubiedade de uma mãe que rotineiramente prepara e leva uma refeição para o filho enterrado no cemitério da cidade. Metafísica traz à tona uma tragédia recorrente e de índices alarmantes no semiárido nordestino: a morte prematura de jovens motoqueiros nas estradas incertas da zona rural do interior da região.

Alguns dos ex-alunos se destacam com uma série de atividades audiovisuais que vão além do fazer cinema em suas localidades. Kennel Rógis organiza o Curta Coremas, evento que caminha para sua terceira edição e conta com a participação de realizadores de todo o Estado. “Depois de participar Cineport e Comunicurtas, fiquei completamente tomado pela ideia de fazer um festival em minha cidade. Eu queria mudar a mentalidade das pessoas do meu lugar e os filmes abrem portas para isso. E acho que estou ajudando hoje as pessoas de Coremas a abrir portas para um mundo mais sensível e mais crítico. Coisas que aprendi desde minha experiência a partir do ViAção”.

Na cidade do Congo, o ex-aluno José Dhiones organiza o CineCongo, evento já consolidado em sua quarta edição este ano de 2012. Na cidade de Cuité, o ex-aluno Ismael Moura atua no Ponto de Cultura Portadores de Eficiência com exibição em escolas do município e realização de filmes a partir de roteiros desenvolvidos em sala de aula, além de produzir seus próprios curtas. Ismael organiza ainda o CurtaCuité.

Segundo ele, sua seleção para a segunda edição do Revelando os Brasis, projeto do Ministério da Cultura de formação e inclusão audiovisuais para moradores de pequenas cidades, teria sido em vão se não fosse o ViAção.
Outro exemplo é o ex-aluno Ismael Moisés, de Picuí, que fundou, no ano passado, o Cineclube Bateia de Cinema. O cineclube funciona sempre às sextas-feiras, com duas sessões, sendo uma específica para alunos das escolas e outra para o público em geral.

Em Nazarezinho, o ex-aluno Paulo Roberto iniciou a atividade cineclubista com a fundação do Cineclube Nazareth. Este ano, Paulo já conseguiu aprovar um projeto no edital de cinema da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), intitulado Malha, documentário sobre a malhação de Judas em sua cidade. Ele tem ainda um novo projeto aprovado no Edital Walfredo Rodrigues, criado pela Funjope.

Eduardo Gomes, de Dona Inês, é autor do curta Metafísica, premiado em vários festivais, e fundou o Cineclube Passadouro. Após sua passagem pelas atividades do ViAção, ele foi selecionado para o Projeto Irradiar, em João Pessoa, criado por Conceição e Orlando Senna.

Desdobramentos – Outras ações são desdobramentos do ViAção, com o intuito de manter, ao longo do ano, a relação com a atividade audiovisual entre jovens interioranos. Um deles é o Jabre (Laboratório para Jovens Roteiristas do Interior da Paraíba), que acontece anualmente a partir de uma seleção de argumentos que são transformados em roteiros durante o laboratório.

Ramon Batista, morador de um sítio na zona rural de Nazarezinho, participou do Jabre e o seu roteiro, intitulado Fogo-Pagou, sobre um velho cemitério abandonado, recebeu o prêmio de realização. Um ano depois, o filme foi agraciado com o Prêmio Itamaraty, no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, e o de melhor documentário no Comunicurtas, em Campina Grande.

Em 2011, dois participantes do ViAção, o ex-estagiário Marcelo Quixaba e o coordenador administrativo Francisco José Rodrigues, elaboraram o Projeto Janela do Mundo, aprovado no Programa BNB de Cultura – Edição 2011 – Parceria BNDES.

O projeto atuou na cidade de São José dos Ramos, capacitando jovens em audiovisual durante três meses, tendo como resultado final a produção do filme O Som do Aboio, dirigido pelo aluno Adriano Roberto. Lançado em festivais em 2012, O Som do Aboio vem conquistando prêmios em vários festivais pelo país, como melhor filme documentário no II CineCipó (Festival de Cinema Socioambiental da Serra do Cipó, Minas Gerais).