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22/09/2017


Vida póstuma

Um espectro ronda o contemporâneo: a obsessão pelos próprios espectros.

Nunca as assombrações, os espíritos, os zumbis, e outros mortos-vivos estiveram tão presentes. Na literatura, no cinema, nas artes, mas também, inusitadamente, na filosofia.

Em uma conferência proferida no início do século XX, o filósofo belga Henri Bergson afirmou que o fantasma era a condição da filosofia. É que se concebermos os espectros como uma forma de reaparecimento no presente de um vestígio ou rastro daquilo que já viveu, podemos ver que nossa vida passada, tudo aquilo que percebemos, pensamos, desejamos, desde o primeiro despertar de nossa consciência, persiste indefinidamente em nossa existência atual na forma de traços. Reminiscências são fantasmas invisíveis que buscam a luz e tentam emergir da noite escura tão logo a porta de nosso inconsciente se entreabre. Em certas ocasiões esses espectros irrompem de assalto, como na sensação do “déjà vu”. Em outras, eles se insurgem na surdina, como nas imagens do sonho, essa imensa dança de aparições assombrosas.

Algo semelhante sobre a filosofia e os fantasmas disse também Jacques Derrida ao atuar no papel de um professor de filosofia no filme Ghost Dance, do diretor britânico Ken McMullen. Estranho ver um filósofo interpretar a si mesmo em um filme. Mais estranho ainda é vê-lo responder a uma pergunta sobre espectros dizendo ser ele mesmo um deles, e tão logo acrescentando: o futuro pertence aos fantasmas. Derrida se referia às tecnologias modernas da imagem, do cinema e da telecomunicação, é claro, mas também ao fato de que os espectros estão irremediavelmente presentes nos processos de leitura e de escrita: ler e escrever são atos fantasmagóricos, vez que deixam vestígios, fazem ressurgir outros textos, autores, lugares-comuns de leitura, na medida em que dão a reaparecer nossas próprias fantasias literárias.

Nenhum outro espaço de escrita é tão pródigo na criação de rastros quanto a internet. Matriz infinita de textos e imagens, a internet faz proliferar os traços. Quando no ano de 2015 a engenheira russa radicada nos EUA, Eugenia Kuyda, perdeu o melhor amigo em um acidente automobilístico, ela releu todos os SMS, as mensagens online, os e-mails trocados com ele e decidiu utilizar essa correspondência em um chatbot capaz de elaborar, a partir dos padrões de linguagem, mas também de acessos aos conteúdos das redes sociais do falecido, novos diálogos com o amigo morto. De lá para cá, outros programas de conversação foram criados, como o Replika, um aplicativo que assimila gradualmente a linguagem, o gosto, as expressões e as opiniões do usuário até criar uma versão virtual dele. Esse replica digital continuará a existir após a morte do dono, conversando, fluida e realisticamente, com outros utilizadores, como naquele episódio da série Black Mirror.

O surgimento dos chatbots promove o aparecimento de novos e diferentes fantasmas. Certamente isso ensejará uma transformação nos processos de luto e de perda, uma mudança da sensibilidade diante da morte, cujas consequências são ainda imprevisíveis. Alguns especialistas estimam o surgimento de alterações significativas na concepção e gestão dos funerais. Mas, o que leva alguém a ultrapassar o desejo de simplesmente deixar rastros de sua passagem pelo mundo para se transformar em bot? Por que desejar persistir no mundo na condição de fantasma? Seria uma espécie de narcisismo final, como aquele que leva o sujeito a conceber o próprio túmulo?

A antropologia ensina que em todas as sociedades humanas a relação com os mortos é crucial. O medo comum a todos os grupos humanos é ter os mortos permanentemente entre os vivos. Os ritos funerários buscam assegurar que os fantasmas fiquem no outro plano, que não retornem do invisível a não ser em circunstâncias excepcionais. A era presente parece querer romper com essa longa tradição. Em um futuro muito próximo, falar com um espectro virtual será tão natural quanto abrir o facebook. Assustadora, por um lado, essa ideia tem um aspecto positivo por outro. Que tal conversar com algumas das grandes figuras do passado. Imagine poder dialogar com seu escritor predileto e perguntar: e aí, Machado, Capitu traiu Bentinho? A resposta, em que pese não vir do além, já não faz parte desse mundo.

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