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06/04/2017


Terra Incógnita

David Hume observou que os amantes, tanto quanto os comerciantes, os cozinheiros e os alfaiates, são grandes enganadores. Os comerciantes iludem os compradores sobre a qualidade da mercadoria, os cozinheiros enganam os comensais sobre as propriedades da comida, os alfaiates bajulam os clientes sobre a medida das roupas, e os amantes, por fim, mentem a eles mesmos.

Claro, não se deve acreditar em tudo que os intelectuais escrevem sobre o amor. Embora alguns deles tenham sido grandes amantes, a maior parte fracassou nos relacionamentos amorosos, como mostrou Andrew Shaffer em um bem-humorado livro sobre o assunto. Alguns, como Louis Althusser, chegaram até mesmo a esganar a mulher. Outros, como Schopenhauer, contentaram-se em empurrar a companheira escada abaixo. Mesmo assim, o conhecimento do que os grandes pensadores escreveram a propósito do amor pode nos ensinar algumas coisas importantes sobre o tema.

A leitura de textos antigos, como “O Banquete” de Platão, revela que o amor não é um sentimento singular, mas uma série de emoções, relacionamentos e ideias. Tudo parece ser uma questão de vocabulário. Entre os antigos gregos o amor podia ser vivido como desejo ou paixão (eros), mas também como amor fraterno (philia), amor caridoso (ágape), e mesmo como a realização de um projeto em comum (pragma). Na teoria tudo funciona. Na prática, a dificuldade consiste em reunir todas essas classes de amor em uma só pessoa. Em algumas ocasiões há muito eros e pouca philia. Em outras, é exatamente o contrário. Por vezes há pragma, mas falta eros, e assim por diante.

Se o leque semântico dos gregos nos parece hoje excessivo, assim como as diversas marcas de cerveja nas prateleiras dos supermercados, é bom lembrar que existe ainda, nas culturas antigas, o amor “brincalhão” dos latinos, chamado de ludus por Ovídio, e o amor por todas as criaturas sensíveis propugnado pelo budismo (metta). O primeiro é muito frequente nas crianças, que inventam jogos de amor diversos, tais como o “pera, uva e maça” de minha infância. O segundo, creio, seria uma versão mais ampliada do ágape, já que esse amor divino atingiria o conjunto dos seres sencientes.

Baruch Espinoza dizia os seres humanos amam por conta da alegria que o amor provoca, regozijo que tem uma causa externa e que faz com que o amante queira o outro mais do que a si mesmo. Concepção aparentemente simples e ingênua. Afinal, quem já sofreu por amor sabe que este não é necessariamente uma alegria. Contudo, para Spinoza, os sofrimentos do amor não decorrem da essência deste, mas da qualidade dos objetos que recebem nosso amor. Em outros termos, não podemos culpar o amor se é o nosso dedo “podre” que aponta para as pessoas erradas.

Nos últimos anos, muitos livros sobre o amor foram publicados. Com eles aprendemos que o amor é ao mesmo tempo história e cultura. A neurobiologia, por exemplo, mostrou que, ao contrário do que pensavam os poetas, o amor não vem do coração, mas do cérebro. Ao liberar uma série de substâncias químicas, o sistema neuronal é responsável pelo que chamamos de amor em suas várias formas. Porém, para produzir a sensação amorosa, o cérebro precisa realizar um tratamento complexo das sensações fisiológicas e psíquicas dos indivíduos, levando em consideração a experiência pessoal e a cultura em que eles estão inseridos.

Alguns historiadores investiram no que poderia ser chamado de uma história “do” amor. Ao investigar a infância, Philipe Ariès, por exemplo, acabou por apontar elementos importantes do amor materno, no que foi seguido pelo interessante livro de Elisabeth Badinter a propósito do instinto maternal. Edward Shorter, por seu turno, descreveu a mutação sentimental que deu lugar no mundo moderno à família nuclear e ao amor filial. Já as cientistas sociais Viviana Zelizer e Eva Illouz escreveram sobre as mutações do amor na era do capitalismo avançado.

De todos os trabalhos recentes que li sobre o tema, o mais interessante foi o de Tobias Natham. Psiquiatra, Nathan recolheu ao longo de sua atuação clínica inúmeros casos de pessoas que sofreram por amor. Atuando na universidade no campo da etnopsiquiatria, Natham decidiu escrever uma obra sobre a magia do amor, ou melhor, sobre as “magias do amor”: feitiços, amuletos, divindades, entidades etc. Um livro que certamente deixaria feliz nosso querido Câmara Cascudo, pois este, embora não tenha produzido, ao menos que eu saiba, um trabalho sistemático sobre o assunto, minutou várias lendas e crendices existentes em torno do amor.

Em tom de ironia, Tobias Nathan se propôs em seu livro a ensinar como despertar no outro o frenesi da paixão, no melhor estilo das cartomantes que se propõem a trazer os nossos amores de volta. Para tanto, tomando por base o relato de seus próprios pacientes, Nathan investigou o largo inventário disponível de práticas existentes sobre o assunto, do mundo antigo até o século XVIII, especialmente aquelas contidas na tradição literária e em narrativas etnográficas: talismãs em barro, fios de cabelo amarrados em fitas, perfumes variados, comidas e bebidas as mais diversas, pedaços de unhas colocados em travesseiros, evocações de entidades diabólicas etc.

O autor, claro, não garante que os recursos irão funcionar caso o leitor queira testá-los, porém alerta para os riscos dessas praticas: é mais fácil trazer um amor de volta do que dele se livrar! Os filtros do amor, alerta o psiquiatra francês, devem ser usados com precaução, pois não há antídotos contra eles.

O livro de Tobias Nathan não é uma blague. Acreditemos ou não na força das práticas culturais e históricas de captura amorosa, o fato é que elas muito ensinam sobre quem busca o amor. Isso é o que importa. Com efeito, se amor é desejo, pode-se perguntar: o que se deseja finalmente aquele que busca o amor? Não seria amar, como disse Lacan, apenas querer ser amado pelo outro? Não seria o amor impossível, na medida em que, em última análise, ele seria a busca de realização de si mesmo através do outro? Não há respostas satisfatórias a essas perguntas. Em tempos de “love me tinder” o amor continua a ser uma imensa terra incógnita. 

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