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27/04/2017


Os amantes de Sofia

Embora alguns pensadores gostassem muito de caminhar, a imagem que as pessoas comumente fazem do filósofo é a de alguém que não se movimenta, de uma criatura que pensa em estado de completa imobilidade, ensimesmado em suas especulações. Essa representação habitual do filósofo como um ser inerte e absorto encontrou sua maior expressão na famosa escultura O Pensador, de Auguste Rodin, que apesar do título, é, ao que parece, uma representação do próprio Rodin meditando sobre a Divina Comédia de Dante.

Reconhecida hoje como uma das mais importantes obras do escultor francês, o Pensador foi considerado grotesco pela crítica quando de sua aparição pública no Salão nacional de belas-artes de Paris, em janeiro de 1904. Alguns anos antes de vir à publico em sua forma definitiva, uma versão de O Pensador foi exposta em Copenhague, numa grande exposição de arte francesa, à qual compareceu o artista Edvard Munch, então o mais importante pintor e gravador norueguês de sua geração. Munch, que em razão de suas cores intensas é para mim um Gauguin triste, ficou tão impressionado com a escultura de Rodin que acabou por retratá-la em uma obra chamada O Pensador de Rodin no parque do Doutor Linde em Lübeck.

Além de ter pintado O grito, quadro que se tornou um verdadeiro ícone cultural na era contemporânea, Munch é também o pintor de uma imagem colorida de Nietzsche em que o filósofo alemão repousa contemplativo sobre um parapeito, tendo ao fundo as paisagens dos montes Pforta e Naumburg, e o rio Saale. Há muitas coincidências entre o retrato de Nietzsche e a tela do grito: o pôr-do-sol ao fundo, as cores quentes do céu que contrastam com o azul frio do rio, e o abismo que parece aguardar os personagens. Porém, enquanto a figura dramática de O grito revela angústia e desespero, o filósofo que enlouqueceu em Turim está sereno, completamente compenetrado em seus pensamentos.

Como mostrou Régine Pietra em seu livro dedicado às imagens da filosofia, por muitos séculos esta última não teve uma cara, em que pese a existência das representações da deusa Atenas, divindade dos filósofos, e do símbolo da coruja, animal capaz de enxergar em situações sombrias e obscuras. Na verdade, a filosofia só começou a ter um rosto específico a partir da Idade Média, quando passou a ser esculpida ou pintada, muito por influência do livro de Boécio, como uma senhora celestial usando um vestido claro transparente, como se pode ver numa pintura da época que se encontra na catedral de Paris.

Ao longo dos séculos, uma série de quadros famosos retrataram a filosofia: Os três filósofos, de Giorgone, a Escola de Atenas, de Rafael, e o Filósofo em Meditação, do pintor holandês Rembrandt. Na arte contemporânea, duas obras se destacaram: As férias de Hegel, tela de Magritte, e o retrato de Heráclito feito por A. Masson. No entanto, apesar dessa variedade de representações, é certamente O Pensador de Rodin que nos vem ao espírito quando pensamos na figura do filósofo.

Mas é bom lembrar que Rodin, adepto do non finito, deixou várias obras inacabadas, dentre elas O Pensamento, escultura em que se vê o rosto de Camille Claudel em movimento, inclinado para a frente, fazendo sombra, como se estivesse a sair do bloco quadrado de mármore que lhe aprisiona. A sensação do espectador é a de que ele está a assistir o nascimento de uma bela criatura que aflora sutilmente do calcário, trazendo consigo um olhar triste e sonhador.

A primeira vez que vi no Museu d’Orsay a cabeça de Claudel brotando da pedra fiquei paralisado, como se estivesse diante do rosto da Medusa. A imagem da artista, que parecia desabrochar sem qualquer esforço do mármore, fazia-me pensar nas tensões existentes entre o informe e a forma, o visível e o invisível. Talvez as duas esculturas, O Pensador e O Pensamento, venham a expressar a tensão erótica que existiu entre o escultor e sua jovem amante. O pensador está imóvel. Como sempre, é a energia criativa feminina que faz vibrar as coisas e transforma o dólmen adormecido em menir.
 

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