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18/04/2017


Medicina sentimental

Embora Shakespeare tenha entendido ser o sonho, penso que é o sofrimento a matéria-prima da qual são feitos os seres humanos. Por uma razão simples: a vida é feita de separações. Na condição primatas que um dia encontraram comida e afeto no seio materno, sofremos permanentemente pela perda desse estado paradisíaco do qual desfrutamos na primeira infância. Todas as separações e perdas seguintes, pelas quais tanto sofremos – um amor, um ente próximo, um país, um ideal, um emprego – evocam essa privação inicial que perdura indefinidamente.

Não existe cura definitiva para o sofrimento humano, salvo a auto-aniquilação, é claro, mas há um paliativo chamado consolo. Este consiste no simples gesto generoso de abraçar o sofredor, enxugar suas lágrimas, fazer com que ele enxergue sua perda de um outro modo ou oferecer a ele algo passível de compensar a falta do objeto perdido. Quase sempre funciona, até porque aquele que sofre, no mais das vezes, precisa apenas do tempo e da presença do outro para voltar a existir, de uma escuta, um gesto, um sorriso, para se reconectar com a vida que parecia ter sido perdida. Porém, convém lembrar que existem também, como faz Michaël Foesse, aqueles inconsolados incorrigíveis, como a personagem Antígona de Sófocles, criaturas que não aceitariam, em qualquer hipótese, serem confortadas, posto que considerariam todo consolo um verdadeiro ato de traição aos seus propósitos.

Os inuit, povos da nação indígena esquimó que habitam as regiões árticas do Canadá, descrevem a paisagem gelada em que vivem a partir de nuances cromáticas inexistentes em nossa língua. Lá onde vemos um simples bloco de gelo branco ou cinza, os inuits conseguem distinguir onze tonalidades diferentes. A dificuldade de consolar reside por vezes nesse aspecto vocabular. Falta-nos um léxico mais largo para descrever a riqueza das tristezas humanas. Por isso, não é raro acontecer que quando queremos consolar uma pessoa afligida por alguma desgraça as palavras costumem nos faltar.

Aparentemente, essa dificuldade não devia existir entre os antigos filósofos gregos e latinos, já que eles dispunham de uma larga tradição consolatória a que podiam recorrer, começando pelo texto da Consolação a Hipocles, escrito por Crantor para reconfortar um pai pela perda do filho e considerada a primeira do gênero. Muito dessa tradição consolatória foi perdida, inclusive o próprio trabalho de Crantor, do qual restam apenas poucos fragmentos, porém, por sorte ainda podemos ler o célebre escrito de Boécio, no qual a deusa da filosofia, em pessoa, vem consolar o filósofo que havia sido injustamente condenado à morte, as Cartas consolatórias de Sêneca, especialmente a carta à Marcia, uma mãe melancólica que não conseguia superar o luto pela morte do filho, e as reflexões de Cícero e Plutarco sobre o tema.

No prosaico mundo moderno, o gênero consolatório entrou em declínio junto com a ideia de que a filosofia poderia ser uma “medicina da alma”. A verdade trágica da vida passou a ser enfrentada pelas religiões e principalmente pela psicologia, com auxílio de terapia, medicamentos, diversões e da detestável ideologia da “resiliência”. E assim, pouco a pouco o consolo literário ou filosófico foi deixado de lado, considerado como simples resquício da antiga retórica greco-latina. Contudo, creio que há muito mais sabedoria nos discursos literários do que se pode encontrar na maior parte dos consultórios.

Não podendo abordar todas as melancolias e de seus respectivos “remédios”, examinarei rapidamente aqui apenas uma delas, talvez a mais banal e fácil de ser tratada: a tristeza pela perda de um amor. Sobre esta, a tradição latina nos legou um clássico absolutamente incontornável, escrito pelo poeta Ovídio, um profundo conhecedor dos prazeres humanos. Em seu poema Os remédios do amor, Ovídio, após ter ensinado como se faz para amar em um livro anterior, intitulado A arte de amar, propõe-se a ensinar aos jovens como enfrentar os infortúnios causados pela perda do amor: queimar as cartas e bilhetes de amor (hoje em dia seriam os e-mails e mensagens eletrônicas), afastar-se dos retratos, evitar os lugares que foram palco dos encontros amorosos e ter sempre em mente os inevitáveis defeitos do outro e os momentos ruins vividos com a pessoa amada.

Tendo eu mesmo já utilizados o método de Ovídio, posso assegurar que funciona. Mas existe outra terapia filosófica que recomendo, proveniente de uma autoridade verdadeiramente insuspeita, o Padre Vieira. Trata-se do Sermão do Mandato, pregado na Misericórdia de Lisboa no ano de 1655. Escrito para os enfermos de um hospital, o sermão trata dos remédios do amor e do amor sem remédio, no caso deste último, o amor por Deus. Retomando as ideias clássicas dos textos consolatórios gregos e latinos, Vieira propõe quatro grandes antídotos contra o amor: o tempo, a ausência, a ingratidão e a melhoria do objeto amado.

O amor, escreve Vieira, não resiste ao tempo. Por isso os artistas antigos retrataram o amor como um deus menino e não como um senhor de barbas brancas. Não há amor tão robusto que chegue a ficar velho. O tempo, prossegue Vieira, despe o cupido de todas as suas armas: “Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge”. Curiosamente, é o próprio amor, portanto, que busca sempre a novidade, o desencadeador de seu fim.

O segundo remédio para o amor tem relação com o espaço, sendo ele a própria ausência. O amor, diz o padre, exige a presença constante do outro. Longe do objeto amado o amor se extingue. Se os mortos, escreve Vieira, são tão esquecidos havendo tão pouca terra entre eles e os vivos; que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos; tantas léguas, que farão? Em outros longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor”.

O terceiro remédio é a ingratidão. O tempo e a ausência diminuem amor, mas a raiva diante de uma ferida provocada pelo ser amado acaba de vez com esse estado emocional. “O tempo, escreve Vieira, tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado: se o deixamos de amar, não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo ódio”.

Se nada disso funcionar, conclui o padre, resta substituir o objeto amado por algo melhor. Um amor é curado com outro. Apenas o amor transcendente e infinito, o amor pelo Cristo, conclui Vieira, não tem remédio nem substitutivo, mas ele é o próprio remédio para todas as nossas loucuras. Não sendo versado em discussões teológicas, deixo essa exortação final de lado. Fico com a simplicidade do pregador e sua precisão irretocável ao tratar da paixão humana. Dizem que padres não sabem falar do amor por conta do celibato. Vieira é uma exceção. Pelo que vi ultimamente, o que os padres parecem não saber mais fazer nos dias de hoje é sermão. E contra essa pobreza exegética das palavras de Deus, também farta em pastores e sacerdotes, não há conforto que baste.

É bem verdade que quando alguém tem fome, conversar, em vez de dar-lhe de comer, é prova de burrice. Mas é verdade também que sofrer em boa parte é simplesmente não entender, como Édipo atônito em Tebas, sem saber porque tudo aquilo lhe acontecia. Certamente a literatura e a filosofia podem não ser remédios que aliviam o sofrimento físico, mas ao menos ajudam o consolador e o inconsolado a colocarem a dor em seu devido lugar.

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