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07/05/2017


Figuras da alma

Do latim subtilis, sutil é um termo que remete à tecelagem, designando um fio que atravessa a trama do tear. Em sua origem, o sutil está ligado à leveza, à ausência de peso e densidade. Para os alquimistas, o fogo, por exemplo, era sutil, tanto quanto parecia ser o processo de destilação que permitia a separação de elementos. No mais, o sutil se definia por seu componente etéreo ou espiritual, designando o oposto à materialidade. Mas o termo também possuía um sentido pejorativo, referindo-se ao engano, à dissimulação e às invenções diabólicas.

De subtilitate, é o título de um livro de Girolamo Cardano, astrólogo, médico, filósofo e matemático italiano. Publicada em 1550, essa obra é uma verdadeira enciclopédia, abrangendo todos os conhecimentos científicos disponíveis no século XVI, além da alquimia e de inúmeras superstições medievais. Em que pese o título, o tratado de Cardano aborda menos a sutileza propriamente dita e mais o conhecimento das coisas “muito obscuras”, como são os sonhos, os presságios de morte e o rosto de uma pessoa. Essas coisas “sutis” só podiam ser percebidas por um espírito ágil, capaz de um elevado grau de abstração.

Cardano foi considerado um gênio em sua época. Além de ter sido o primeiro a descrever clinicamente a febre tifoide, o alquimista italiano anteviu o uso na matemática dos números negativos, também por ele considerados “sutis”. Contudo, Cardano foi censurado e perseguido por suas ideias, em particular quando procurou fazer o horóscopo do Cristo. Reza a lenda, aliás, que sua devoção à astrologia era tão grande que tendo previsto o dia de sua morte, Cardano se suicidou, de modo a preservar a reputação do zodíaco.

Dizem que o alquimista italiano escreveu mais de 200 livros, um deles especificamente dedicado ao público feminino: Vênus hermética ou tratado de cabala amorosa. Esse pequeno livro contém uma descrição das distintas categorias de mulher, que vão da mais baixa e numerosa de todas elas, aquelas cuja figura irregular lembra um peixe, às mulheres menos numerosas, que exalam um perfume de lírio, passando por aquelas cujo corpo parece uma violeta. Porém, no meu modo de ver, o livro mais estranho de Cardano é a Metoposcopia, obra em que ele propôs um curioso método de interpretação das rugas faciais.

A metoposcopia estaria para o rosto como a quiromancia estaria para as mãos, Para Cardano, além de determinar o temperamento e o caráter de uma pessoa, algumas rugas, como aquelas que se encontram na testa, revelariam a posição dos planetas e imprimiriam o destino daqueles que as carregariam. Apesar de ter sido considerada uma pseudociência, servindo a propósitos socialmente preconceituosos, como aqueles de Lombroso, a metoposcopia tem para mim algo muito interessante que é essa ideia do rosto como assinatura, mapa da pessoa ou mesmo figura da alma.

O rosto é sutil. Para além da beleza e da feiura, que não suscitavam interesse no alquimista italiano, o rosto expressa a tensão existente entre o interior e o exterior, o privado e o público, o visível e o invisível, algo que só pode ser interpretado por um espírito sutil. Por isso o rosto se presta a tantos enganos. Afinal, ele é uma parte do corpo humano que não pode ser percebida diretamente pelo sujeito, mas apenas com ajuda de alguma superfície espelhante.

Essa limitada intimidade entre o semblante e o dono dele, como bem lembra o médico mexicano Gonzáles Crussí, precisa ser respeitada. É como se o rosto dissesse a nós mesmos que nos encontramos diante do espelho e aos outros que nos observam: “sejam sutis, sou um completo desconhecido para mim, tanto quanto és para ti. Sou uma máscara visível e um interior que ama se esconder, uma ponte entre esses dois mundos”. Por isso, apenas muito sutilmente quem vê cara pode enxergar o coração.
 

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