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Brasil & Mundo

02/04/2018


Revista NORDESTE traz matéria especial sobre os 80 anos da passagem de Mario de Andrade pelo NE

Por Natália Freire*

Em mês de fevereiro de 1938, percorriam de navio pelo Mar de São Paulo até Salvador, quatro cúmplices de um amador. O objeto deste amor, não tratava-se de uma musa, ou de um canarinho. Faziam parte, príncipes e sereias, reis do congado, desbravadores, guerreiros de muitos tempos, cortadores de cana, pessoas reais da lida. Eram forças humanas, espírito de uma nação, era o Brasil real; o Brasil miscigenado.

Mário de Andrade, o Turista Aprendiz, que se encantou pelas matas da amazônia até as veredas do sertão, por meio de uma viagem em 1928. Quando assumiu o posto de diretor 1º titular do Departamento de Cultura do município de São Paulo (1935), fundou instituições culturais e de pesquisa sobre a cultura brasileira; sociologia, para revelação de uma identidade social.

O escritor, ensaísta, pianista, entusiasta, após a viagem de longa duração, que capturou longínquos brasis. Parceiro de Câmara Cascudo, Gilberto Freyre e muitos outros importantes antropólogos e folcloristas, temia que as expressões culturais escondidas nas comunidades em meio rural e espaços periféricos das cidades do Brasil, em meio ao mundo industrial, cosmopolita, tivesse deflagrado, tão logo a morte cultural. Percepção próxima de seu contemporâneo, o filósofo Adorno.

A missão de pesquisas folclóricas de Mário de Andrade, percorreu os Estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão e Pará, de fevereiro a julho de 38. Na viagem durante a missão, foram enviados junto com equipamentos técnicos de registro de imagem e som, quatro técnicos: Luiz Saia (arquiteto, engenheiro e antropólogo); Martin Braunwieser (técnico musical); Benedito Pacheco (técnico de gravação) e Antonio Ladeira como auxiliar.

Foram discos gravados, registros em fotografias, objetos colhidos, produzidos textos poéticos das peças gravadas de coco de zambê, coco de ganzá, toré, caboclinhos, congada, a barca – marujadas, tambor de crioula, cavalo marinho, Boi – bumbá, folguedos, ritos religiosos e após a abrupta saída de Mário de Andrade do Departamento de Cultura, devido a conflito político, com mais tempo, Luiz Saia registrou notas sobre a arquitetura, coleta de agua, ex votos e outros, resultando em 20 cadernetas.

Era um tempo de extremos, período do auge da II guerra mundial e do Estado Novo, ditado por Getúlio Vargas, no Brasil. Em que o mundo guerreava, com a ideia delirante, fixa eugenista, de raça pura. E Mário de Andrade, em busca de legitimar e enaltecer a diversidade étnica e cultural do Brasil. A missão, inclusive, foi adotado por anedotas, como uma missão quixotesca, com os cavalheiros otimistas, paramentados com equipamentos enormes, visto como desproposital, em sua época.

O roteiro da viagem da missão, sofreu alterações, devido a divergência entre Getúlio Vargas e Gilberto Freyre – principal cientista informante da missão. Assim, não foi possível continuar em Pernambuco e a equipe técnica passou o maior tempo da viagem, na Paraíba, durante 45 dias, até seguir rumo ao Estado do Maranhão.

A escolha da região Nordeste, realizada por Mário de Andrade, foi justificado por ele, de ser o reduto no país, onde se percebia maior concentração da diversidade cultural brasileira e de maior expressividade, após sua experiência em “O Turista Aprendiz”, experiência que possibilitou a produção da obra escrita em forma de diário, com linguagem informal e humor, com uma teoria prática da cultura brasileira, de sua viagem iniciada sozinho pelo Nordeste, para realização de pesquisa etnográfica (1928). Teve contato com a florestas, mares, brejo e sertão, manifestações culturais, cultos religiosos, folguedos, danças, músicas, sincretismo e superstição, que proporcionou a visão de nacionalidade abrangente. Esta viagem ficou impresso um marco no nacionalismo modernista, da estética Pau Brasil, que tinha também, protagonistas Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, avesso ao regionalismo.

Trechos: “Mais advertência que prefácio. Durante esta viagem pela Amazônia, muito resolvido a… escrever um livro modernista, provavelmente mais resolvido a escrever que a viajar, tomei muitas notas como vai se ver. Notas rápidas, telegráficas muitas vezes. Algumas porém se alongaram mais pacientemente, sugeridas pelos descansos forçados do vaticano de fundo chato, vencendo difícil a torrente do rio. Mas quase tudo anotado sem nenhuma intenção da obra-de-arte ainda, reservada pra elaborações futuras, nem com a menor intenção de dar a conhecer aos outros a terra viajada. E a elaboração definitiva nunca realizei. Fiz algumas tentativas, fiz. Mas parava logo no princípio, nem sabia bem por que, desagradado. Decerto já devia me desgostar naquele tempo o personalismo do que anotava. Se gostei e gozei muito pelo Amazonas, a verdade é que vivi metido comigo por todo esse caminho largo de água”. “consciência lógica e consciência poética” “Sento em mim”.

Mário de Andrade, próprio de uma persona plural, do erudito ao antropofagismo cultural, atemporal, faz-se contemporâneo ainda hoje. Conceptor de ideias amplas sobre a arte ameríndia e popular, dos saberes, das paisagens e das práticas – que hoje são dotados de nomenclaturas. O brasileiro que antecipou urgências e tratados, que hoje se apresentam nas convenções da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO), assim como, na Carta de Veneza (1964), referência para políticas de preservação do patrimônio cultural ao mundo.

Nota: Mário de Andrade foi um dos mentores e fundadores do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Dirigiu o Congresso da Língua Nacional Cantada, evento folclórico e musical. Em 1941 retornou para São Paulo e também para o cargo, no Departamento de Cultura. Faleceu, em 1945, em sua residência em São Paulo devido, em decorrência de um enfarte, na data de 25 de fevereiro de 1945.

Do legado ao registro das dinâmicas das transformações

 

A Revista NORDESTE segue em 2018 o rumo de seus mestres e lança no primeiro semestre de 2018, a expedição etnográfica ACERVO VIVO NORDESTE.

O projeto aprovado pela Lei Rouanet, com co-patrocínio da Caixa Econômica Federal, trata-se de uma série etnográfica do Nordeste brasileiro, em jornada intensa de campo, por 45 cidades, entre os nove estados, com técnicos da área de antropologia, história, jornalismo e com participação do fotógrafo paraibano, Gustavo Moura.

Entendemos que a diversidade cultural cria um mundo plural e mais pacífico, com capacidade de potencializar valores humanos, à constituir um território possível ao desenvolvimento sustentável das comunidades, povos e nações.

A expedição etnográfica tem como objetivos: realizar interculturalidade, engajado na construção de pontes entre diversos povos; Promover a diversidade das expressões culturais nordestinas; Contribuir para a preservação da memória cultural do Nordeste; Reconhecer a natureza específica dos bens, atividades e expressões culturais enquanto próprios de identidades e significados; Abrir fronteiras entre a região nordeste e demais regiões do Brasil; Difundir a cultura do Nordeste do Brasil, através das imagens do fotógrafo paraibano Gustavo Moura e textos fluídos, dinâmicos, com tradução bilíngue para distribuição à europa, américa, áfrica e ásia; e inserir a cultura Nordestina em um patamar significativo para difusão dentre outras estéticas artísticas e culturas.

O Acervo, será composto primeiramente por 5 títulos:

1) Águas do Nordeste: As águas protagonizam a história da formação de territórios, sendo o meio utilizado pelos navegadores para sua chegada ainda em lugares inexplorados. Entre rios e mares: Faz-se a ruptura de margens, culmina o encontro entre nativos e desbravadores, aldeia novas identidades, gera novas culturas. O que chegara e se aportava; não seria mais o mesmo daquele do ponto de partida. O que recebera; não seria mais o nativo, antes de sua terra vista. São Francisco; Cariús; Paraíba; Uruçui – Preto; Gurupi; Pericumã; Mearim; Capibaribe; Una; Pajeú; Sergipe; Moxotó… Mar. O livro narra a história; apresenta a formação geográfica, portos e traços identitários cultural dos povoados, cidades e estados nordestinos através das Águas do Nordeste brasileiro.

2) Pontes afro indígena da Zona da Mata ao Sertão: A obra busca através de uma ampliação do espaço de pertencimento original e construção de uma memória, representar a identidade Nordestina, por meio de estudo na arquitetura, falas, danças e costumes, à constituir o elemento crucial de integração e redescoberta de um território de afinidades para a afirmação de uma cidadania plural.

3) Jangadeiros: Uma abordagem antropológica e poética dos pescadores de Mar aberto, que com sua intimidade com a vida pesqueira aperfeiçoou a construção do tipo de embarcação em jangada. Homens livres, atuantes desde o século XVI, fora do controle imperial português, manteve sua autonomia de vida e sua subsistência. Distinguindo-se de uma vida com costumes arraigados na modernidade, participam de todas as etapas de seu trabalho, desde a produção de sua embarcação, até a escolha do dia, hora e frequência da pesca. A Jangada originária da Índia, desde que chegou ao Brasil é ligada ao setor econômico da pesca, e não à guerra ou ao transporte comum, como as canoas, as igaras e ubás. Surgem no trecho da costa do Nordeste do Rio Grande do Norte ao Piauí por razões históricas, quando do início da Colônia brasileira, sobretudo para forjar o sistema de controle de navegação que eram realizadas pela Coroa portuguesa, no período de franca exploração das Minas Gerais, com intuito de evitar o contrabando do ouro. Essa faixa do litoral do nordeste brasileiro era despovoada e imprópria para portos dos barcos transatlânticos à vela, devido a poderosa corrente oceânica da Guiana, que dificultava terrivelmente a chegada de barcos vindos da Europa. Segundo Câmara Cascudo, o pescador é um homem que tem na profissão o exercício da liberdade individual.

4) Mercado Público: Uma Ontologia do Povo Nordestino brasileiro estutado a partir das epresentações dos seus Mercados públicos. Os Mercados públicos existentes desde a antiguidade tem suas origens nas feiras. Local que materializa a cultura, exprime a identidade local, representado pelos seus produtos, comerciantes e circundantes. Pelo concreto, em sua arquitetura, percebe as influências da colonização; as riquezas e matérias primas locais, as influências ancestrais e caprichos de governantes. Os comerciantes com suas falas, sotaques, vestimentas e abordagem, carrega toda história da formação de sua identidade. Assim no Mercado Público uni o real e imaginário de um povo, expressados pelas cores, grãos, frutas, raízes, artesanato, carnes, iguarias expostos e comercializados.

5) Tempero nosso de Todos os dias – Culinária Nordestina: Um mergulho apetitoso nos temperos, sabores e cores da culinária do Nordeste do Brasil, através de uma abordagem etnográfica. A Culinária Nordestina tem sabor marcante pela característica de temperos fortes e pimentas. Com o seu bioma da caatinga, os pratos adquiriram um paladar apimentado e com teor calórico elevado. Própria de uma riqueza de diversidade e misturas, a refletir as condições econômicas e produtivas das diversas paisagens da região. Influenciada pelas comidas oriundas da África e portugal, os pratos geralmente são constituídos de vegetais, peixes e frutos do mar, carne bovina e caprina. Em seu litoral é predominante o sabor carregado, com ingredientes coloridos, e destacam -se os pratos de frutos do mar , como o bobó de camarão, as moquecas de peixe ou de moluscos e crustáceos. Abará, acarajé, caruru, vatapá e elementos típicos como o azeite de dendê, coco, pimenta de cheiro e quiabo são clássicos da cozinha baiana. No sertão, de clima quente e seco, a carne-de-sol, feijão, milho, rapadura e raízes, como a mandioca são os mais populares. No Maranhão são famosos os pratos: cuxá, o arroz de cuxá, o bobó, o peixe pedra e a torta de camarão. Já no Maranhão é forte a presença lusitana.

Alguns pratos típicos portugueses se perpetuaram pelo tempo, tais como: sarapatel; buchada e galinha ao molho pardo, originária da famosa galinha à cabidela. No Ceará, predomina o mugunzá salgado, e em Pernambuco predomina mugunzá doce. Queijo de coalho, sururu, baião de dois, feijão verde, panelada, buchada de bode, canjica, arroz de coco, doces de jerimum, laranja, frutas como a seriguela, buriti, cajarana, macaúba, umbú, cajá, bacuri, juçara, cupuaçu e a pitomba representam a vasta composição da genuína culinária desse imensidão do Nordeste.

Fica a homenagem e referência da Nordeste aos 80 Anos da Missão Folclórica de Mário de Andrade e todo seu legado.

*Natália Freire é coordenadora do projeto ACERVO VIVO NORDESTE que tem a direção geral do empresário Walter Santos

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