ENTREVISTA: Germano Romero analisa eleição na APL/PB, fala de méritos e expõe sua posição na história - WSCOM

menu

Paraíba

15/05/2019


ENTREVISTA: Germano Romero analisa eleição na APL/PB, fala de méritos e expõe sua posição na história

Romero revelou que sua candidatura a membro da Academia Paraibana de Letras da Paraíba (APL-PB) decorre de diversos fatores.

O cronista, arquiteto, músico de formação e multimídia Germano Romero revelou em entrevista ao Portal WSCOM, que sua candidatura a membro da Academia Paraibana de Letras da Paraíba (APL-PB) decorre de diversos fatores, muito além do parentesco com o titular da cadeira, o seu pai e imortal Carlos Romero.

No decorrer do bate-papo, Germano Romero faz revelações importantes.

Leia a entrevista na integra:

WSCOM – Quais as razões que lhe fizeram pensar em concorrer a uma vaga na Academia Paraibana de Letras, logo na cadeira de seu pai?

GERMANO ROMERO – Não há sucessão familiar, mas a continuidade de afinidades e princípios intelectuais. Por dois motivos essenciais. Quando minha mãe desencarnou, muito jovem, com 55 anos, eu tinha apenas vinte e poucos.

Meu pai já escrevia desde garoto, quando fundou um jornal manuscrito, chamado “O Grito”, nos tempos de infância na antiga Rua Nova. E assim, embora tenha sido magistrado, professor universitário, chefe da Casa Civil, diretor da Tabajara, conselheiro de cultura, da OAB, membro da APL, entre outras importantes funções, era apenas de “cronista” que ele adorava ser chamado. E foi na crônica que se identificou literariamente, por onde expressou toda a sua “fé e encantamento lírico”, como bem definiu a professora Ângela Bezerra de Castro. Suas crônicas, publicadas em livros e, mais ainda, em jornais, eram todas revisadas por minha mãe, muito habilidosa com a redação. Com sua precoce partida, ele perdeu a amada “revisora”, cargo que foi logo ocupado por mim, o seu caçula, que desde garoto aprendeu, por influência dele, a gostar de ler.

WSCOM – Onde o Sr. quer chegar?

GERMANO ROMERO – A solidão da “Tristíssima Trindade”, como o cronista se referia aos “três órfãos” – eu, ele e meu único irmão – nos aproximou muito, após o desenlace de minha mãe, Carmen.

E passei a ter em meu pai, o meu maior amigo, companheiro de letras, jornalismo e viagens. Um companheirismo intensificado com a posterior ausência do primogênito, Carlos Romero Filho, para se dedicar ao mestrado e doutorado em Cosmologia, no Rio de Janeiro, por vários anos.

WSCOM – Onde o Sr. se encontra com o estilo dele?

GERMANO ROMERO – Olha, a partir de certo tempo veio a afinidade com a crônica, esse estilo leve e coloquial que muito caracteriza o jornalismo brasileiro. As crônicas de Carlos Romero, mesmo dentro de uma forma literária sujeita à delimitação contemporânea, fogem do instante e fazem-se eternas. Principalmente por guardarem a mensagem poética, da sábia observação cotidiana, dos ensinamentos de fé e espiritualidade que contornaram o seu modo de vida. Foi com seu exemplo de ser humano íntegro e verdadeiro, humilde e profundo que aprendi a viver e a escrever. Ao deleite desfrutado na revisão de todo o seu trabalho intelectual – diário, durante anos –, somou-se ainda mais empatia com a crônica.

WSCOM – E daí?

GERMANO ROMERO – Há valores que transcendem muito além da condição de filho e pai. Estimulado a escrever, por amor ao hábito e pela intimidade com o meio jornalístico, fui convidado a colaborar com os dois maiores jornais da cidade – Correio e A União. Assim, por cerca de uma década e meia, eu e Carlos Romero formamos uma situação praticamente inédita na Paraíba, de pai e filho escrevendo colunas semanais, simultaneamente, nos maiores veículos de comunicação impressa da cidade. Depois, veio o convite para escrevermos, idem juntos e concomitantes, no jornal Contraponto e na revista Tribuna Espírita, por outros anos. Com a chegada da “boadrasta”, a doce violinista Alaurinda, após 5 anos sem a presença feminina em casa, a “Tristíssima Trindade” se dissolveu e foi substituída por uma enorme gratidão ao ver o cronista renovado e ainda mais dedicado à literatura. Nossa identidade no mundo das letras cresceu e nos proporcionou a oportunidade de lançarmos livros de crônicas juntos, na mesma ocasião, e de sermos condecorados com significativas medalhas, também na mesma data, por nossa reconhecida contribuição cultural.

WSCOM – Mas isso é foco exclusivo de contexto local, provinciano?

GERMANO ROMERO – Absolutamente. Juntos, também desbravamos o além-mar, em muitos périplos que se tornaram oportunidades de escrever crônicas de viagem, além de aprendermos com a diversidade da história e da cultura distribuída pelo planeta. Fazem parte desse trabalho literário, cerca de 50 matérias que formaram uma série intitulada “Arquitetura pelo Mundo”, publicadas na revista D&A (Design e Arquitetura), todas ilustradas com fotos captadas pelo olhar de arquiteto e cronista.

E à medida que meu pai avançava na idade, com limitação física e redução da independência, a nossa amizade só aumentou. Ao ponto de nos confundirmos nos papéis de pai e filho. Passei a acompanhá-lo com mais frequência nos eventos culturais, inclusive na Academia de Letras, em várias ocasiões, chás, eleições, posses, homenagens, almoços e outros encontros. Encantavam-me o apreço e a consideração que os acadêmicos demostravam ter por ele. Um afeto que progredia com seu amadurecimento.

WSCOM – Qual o efeito disso?

GERMANO RAMALHO – Veja bem. Muitas vezes, ele me cochichava ao pé do ombro: “Quero você, na Academia de Letras. Junto comigo ou me sucedendo. Você já tem bagagem mais do que suficiente”. Isso me lisonjeava, pois eu via sinceridade e não um mero paparicado. Além dele, outros confrades acadêmicos costumavam me incentivar a pensar no futuro acadêmico. Mas, eu tergiversava, tanto com o cronista quanto com eles, dizendo sempre um “quem sabe, quem sabe…” Além da admiração pela Academia, que frequentei bastante, esse foi, obviamente, um dos motivos que me fizeram pensar em ser candidato. Principalmente depois de ele ter partido. Contudo, a razão primordial se solidificou ao verificar através das normas da APL que eu preenchia os critérios e possuía as credenciais concorrer. Além de todos estes anos de produção e publicação literária, está a ampla contribuição dada à Arquitetura Paraibana com, modéstia à parte, significativo reconhecimento por parte da população, tanto por quem entende de arte e estilo, como pela comunidade em geral. Como já frisei em entrevistas exemplo de meu avô materno, admirável arquiteto Clodoaldo Gouveia, sinto que deixo uma marca de expressão singular na história e no cenário urbano da cidade. A minha formação como diplomado no Bacharelado em Música e a produção de diversos trabalhos videográficos com foco em turismo e cultura, amplamente divulgados nas TVs locais, também enriquecem os motivos pelos quais decidi me candidatar.

Obviamente, eu não estaria sendo sincero se omitisse o desejo de que a Academia de Letras pudesse prestar talvez a maior das homenagens ao seu mais longevo membro, escolhendo, para sucedê-lo, o filho com quem ele tem grande afinidade literária, estilística, cultural, musical e espiritual. Embora a APL seja uma instituição de caráter reservado, hoje tornou-se bastante conhecida nos diversos meios e camadas sociais. Daí ser fácil perceber na crescente receptividade de meu nome, e que também é essa homenagem a Carlos Romero, o que, de certa forma, a comunidade paraibana espera acontecer no próximo pleito, mediante as muitas manifestações já registradas pessoalmente, publicamente ou nas redes sociais.

WSCOM – Em que momento decidiu que estava na hora de ser candidato?

GERMANO ROMERO – Assim que meu pai desencarnou, no início do ano, ocorreram várias manifestações de amigos, jornalistas, intelectuais, sugerindo meu nome para sucedê-lo, divulgadas espontaneamente nas malhas e veículos de comunicação. Recebi apoios e telefonemas até de acadêmicos me incentivando. Tanto quanto de pessoas que pensavam em se candidatar, mas queriam saber se eu concorreria, pois, se assim fosse, desistiriam, dizendo julgar mais justo o meu intento; “que eu era a pessoa mais indicada para esse instante”, que “era a minha vez”, o que me sensibilizou bastante. E a bem da verdade, depois soubemos da desistência de alguns pretendentes, ao tomarem conhecimento de que eu anunciara minha candidatura, o que novamente me gratificou.

WSCOM – Mas, como tudo gerou desdobramento de candidatura?

GERMANO ROMERO – O sabor da saudade e do significado que o desenlace de um pai daquela lavra tinha nas nossas vidas, naquele momento, não me abriam espaço para pensar em quaisquer planos futuros. Ainda que me sentisse grato pela lembrança, não estava preparado emocionalmente para tratar de qualquer outro assunto que fugisse da sintonia espiritual que nos envolvia diante da nova situação e do vazio deixado por ele em nossa rotina cotidiana. Papai foi, é, e sempre será o centro de todas as nossas atenções, metas, atitudes, sobretudo com o irretocável e inesquecível perfil de sabedoria, caráter e gentileza a ser seguido.

WSCOM – Só que é preciso assumir a candidatura. Quando isso se deu?

GERMANO ROMERO – Somente 30 dias após a sua partida, me decidi por tentar uma vaga na APL, e, antes de qualquer coisa, comecei a fazer contato com os acadêmicos para, em primeira mão, lhes comunicar sobre minha intenção. Confesso que me regozijei imensamente com a receptiva acolhida ao dar a notícia, a cada um, primeiro por telefone. Procurei fazê-lo da forma mais gentil e elegante, sem nenhum tipo de insinuação ou influência sobre a escolha. Apenas para lhes comunicar e pedir a sua criteriosa avaliação, com a promessa de lhes enviar, posteriormente, os apontamentos e informações curriculares, o que pretendo fazer pessoalmente, após me inscrever e for aceito pela comissão de acadêmicos que analisa as candidaturas. Um fato, porém, me surpreendeu. Quando comecei a lhes telefonar, alguns membros da APL lamentaram, logo de início, não terem tomado conhecimento prévio de que eu me inscreveria, informando que já haviam se comprometido, há algum tempo, com outra candidatura. Caso contrário, me apoiariam inquestionavelmente. Ao que tentei explicar que jamais haveria condições emocionais que me permitissem refletir sobre essa possibilidade com meu pai enfermo e hospitalizado.

WSCOM – Como assim?

GERMANO ROMERO – Pois é. Evidentemente que estranhei, pois nem havia sido declarada a vacância e nem abertas as inscrições. Mesmo assim, continuei e permaneço esperançoso em poder contar com a avaliação sábia e judiciosa dos ilustres acadêmicos, trilhando por uma conduta digna, dentro de uma campanha íntegra e legítima, ao nível do que uma relevante instituição cultural deste quilate deve abrigar.

NORDESTE – Na sua opinião, que importância tem para o Brasil, e outros países, as academias de letras dentro do contexto histórico, político, social e cultural?

GERMANO ROMERO – Uma importância preciosa! Numa época em que o caráter pragmático e imediatista da civilização moderna tem afastado o ser humano da reflexão filosófica, espiritual, da comunhão com os valores históricos, culturais, verdadeiramente artísticos, a preservação das obras caracterizadas por relevância e singularidade é fundamental. Mormente quando se constata uma deterioração da expressão artística, musical, da linguagem falada e escrita, com menos envolvimento da juventude nos campos do conhecimento erudito.

NORDESTE – As academias abrigam valores de outras áreas de produção intelectual, que não só a literatura?

GERMANO ROMERO – Sim. As academias promovem todas as vertentes do pensamento humano, no mundo inteiro. Sua missão, no entanto, é imortalizar a obra dos acadêmicos, e não imortalizar pessoas. Daí, no caso das Academias de Letras, ser de extrema importância o valor da contribuição cultural, artística ou literária dos seus membros que será objeto redivivo com permanente estudo, divulgação e interpretação. Essa função tem como essência basilar homenagear os autores que se notabilizam por sua singularidade, com a manutenção e perpetuação de seus trabalhos, compartilhando com o mundo e dando estímulo às novas gerações.

É preciso entender que a atribuição mais nobre da instituição acadêmica é imortalizar o conhecimento humano e sua produção cultural, valorizando as virtudes e os talentos de quem produza algo de relevo ímpar, distinto, inédito. Nesse caminho, é impossível não conferir um alto grau de magnitude às academias de letras.

NORDESTE – O que acha da aura possível de interesse de políticos e de personagens que não do mundo das letras pela academia buscando influir?

GERMANO ROMERO – Pode existir, sim. Assim como a vaidade pessoal de um título honroso. Mas não é o tipo de formação, atividade profissional ou política, que deve classificar o ingresso de quem quer que seja nas academias. E sim o valor de seu trabalho intelectual. No caso da Academia Paraibana de Letras, os estatutos recomendam aos seus quadros a escolha de pessoas que tenham criado e produzido com singularidade nos campos das letras, das artes ou da ciência. Tanto é que lá já se imortalizaram não só escritores, mas, médicos dedicados a ciência, como Lauro Neiva, Higino Brito, Maurílio de Almeida, e notáveis artistas plásticos, como Flávio Tavares e Chico Pereira.

WSCOM – Traduza toda significação da análise do mérito?

GERMANO ROMERO – O mais importante para a preservação da legitimidade, do respeito e do elevado conceito que goza uma instituição desse gênero é que seus objetivos jamais sejam maculados por outros interesses ou influências. No caso específico da vaga a ser preenchida, que pertenceu a Carlos Romero, coincidentemente, há dois ex-senadores pleiteando-a, ambos com atividades desenvolvidas no campo das letras. Mas que poderiam estar no campo das artes, da ciência, da música, sendo igualmente bem-vindos. O que merece preponderar nos critérios de escolha é o que está muito bem definido na expressão dos estatutos pelos quais e para os quais a APL foi criada: Os seus membros devem ser escolhidos pela “singular contribuição às letras, às artes ou à ciência”. Vale reforçar o esclarecimento de que na definição de “singularidade” reside o atributo daquilo que é único, pessoal, ímpar, peculiar, distinto, incomum, particular.

WSCOM – Para que serve as Letras, a Academia dentro dessa simbologia?

GERMANO ROMERO – A Academia é uma casa que valoriza, premia, preserva e divulga cultura, letras e artes. A minha impressão é de e os nobres acadêmicos e acadêmicas têm feito o possível para manter a sua imagem. É uma instituição muito especial. Mesmo assim, sinto uma certa névoa no entendimento por parte da sociedade em classificar ou interpretar o tipo de contribuição dada às letras, às artes ou à ciência, recomendada pelo regimento acadêmico. Por exemplo, o proprietário de uma rede de livrarias, de uma grande editora de livros, de uma universidade, de um precioso museu, de um laboratório de pesquisas científicas, pode contribuir significativamente com a divulgação da literatura, das artes, ou da ciência, mas, não há singularidade, talento ou virtude incomum em sua produção profissional. Portanto, não é a atividade funcional preponderante de uma pessoa, mesmo comprometida com a cultura, por mais destacada que seja, que deva classificar ou lhe identificar um perfil acadêmico. Mas, sim, o valor cultural de sua criação individual, pessoal.

WSCOM – Onde você quer chegar com todo processo?

GERMANO ROMERO – Veja só, eu professo inteira confiança e continuo nutrindo a firme esperança de que os membros da insigne Academia Paraibana de Letras se utilizarão de seus mais nobres valores íntimos, humanos, espirituais, ideológicos, morais, para se embasar nos princípios da justa análise, no momento de avaliar os méritos de todos os que pretendem honrosamente nela ingressar. A absoluta e sigilosa discrição do ato de votar, que sempre se houve secreto, mesmo após as eleições, lhes dará a liberdade para agir de acordo com seu alto grau de honradez e de privilegiada sabedoria que os notabiliza como imortais. Além de poderem contar com o prazer de uma consciência tranquila e em paz. O que, para Carlos Romero, é o travesseiro mais macio em que pode uma alma digna repousar.

 


Portal WSCOM