"Vitória de Pirro"

 

Muitas vezes vemos pessoas comemorando vitórias que podem ser consideradas inúteis. Se analisarmos bem, elas trazem mais prejuízos do que vantagens. Rapidamente se desperta para a consciência de que não valeu muito a pena sua conquista. O esforço empreendido pode até, circunstancialmente, parecer algo merecedor do sacrifício exigido, mas seu resultado produz consequências irreparáveis.

A expressão nasceu da manifestação do rei Pirro, após a batalha de Ásculo, quando perdeu um número considerável de soldados. Ao felicitar seus generais teria afirmado: “se formos vitoriosos em mais uma batalha contra os romanos, estaremos completamente arruinados”.

Existem lutas que são abraçadas por influências emocionais ou pelo simples desejo de vencer o inimigo a qualquer custo, mesmo que isso não traga qualquer benefício. Ou até pior, sabendo que terão efeitos contrários ao que efetivamente se deseja. Mas, o que importa na hora da batalha é aquela ânsia de derrotar o adversário, por pura jactância, a necessidade de mostrar que tem o poder e que deterá o controle da situação.

O mais trágico é que a maioria dos que se incorporam na contenda, não tem noção dos riscos que corre no “day after”. São “inocentes úteis” monitorados por quem tem objetivos pessoais que se distanciam das motivações a que são induzidos para abraçarem a causa. Quando percebem o erro, é tarde demais. Só resta lamentar e purgar os pecados cometidos.

Fico triste quando vejo as comemorações das “vitórias de pirro”. Aquelas que não pertencem a muitos que se julgam vencedores, porque em nada se apresentará como ganhos efetivos. É quase como se tivesse dando um salto no escuro, mas na sensação de que é a alternativa que lhe sobra. Uma aposta alta. O triunfo com gostinho de derrota, uma vez que não há perspectiva evidente de proveitos. Pelo contrário, há sinalização clara de perdas, danos.

Quando estivermos prestes a enfrentar um combate, é imprescindível que analisemos todos os perigos e ameaças que ele nos oferece, evitando assim possíveis arrependimentos, mesmo que as vitórias sejam alcançadas. As celebrações das “vitórias de pirro” são momentâneas, desaparecem com uma rapidez impressionante. Somos impactados muito cedo pela realidade que teimamos em não enxergar no tempo certo.


 


O debate propositivo

 

Faz muito bem o prefeito Luciano Cartaxo quando decide manter-se no discurso propositivo durante os debates que tem participado na atual campanha. É natural que os candidatos que lhe fazem oposição provoquem a discussão, a partir de ataques, muitas vezes irresponsáveis e desprovidos de informações verdadeiras, com o intuito único de tentar desconstruir a imagem positiva da sua gestão, formada perante a opinião pública. É uma armadilha que está sendo bem enfrentada.

A população quer ouvir proposituras que sinalizem a melhoria da qualidade de vida do cidadão. O eleitor deseja conhecer do atual prefeito a prestação de contas da gestão que está por encerrar, na divulgação do que fez em favor da cidade, ao mesmo tempo em que espera a apresentação de novas ideias para o eventual segundo mandato.

E é isso que tem procurado fazer, impondo-se numa postura de elegância, não se permitindo descer ao nível do debate simplesmente da troca de acusações. As agressões gratuitas e oportunistas não ajudam em nada a prática da democracia. Pelo contrário, contribuem para que se desvirtuam os reais propósitos de um debate que tem o objetivo de mostrar ao eleitor quem melhor está preparado para governar a cidade.

O atual prefeito não se recusa a responder as críticas que lhes são feitas, oportunizando a que possa esclarecer equívocos estrategicamente divulgados no período eleitoral. Entretanto, tem se negado a ir ao confronto puramente de ataques pessoais, evitando oferecer combustível para incendiar uma discussão estéril que só interessa aos apaixonados políticos. A tranquilidade é a arma mais eficaz para vencer as ofensas. Já se foi o tempo em que as pessoas ficavam ansiosas em ver nos debates as brigas, as explosões de raiva, o desrespeito. Nos tempos atuais existe uma consciência cívica que reclama a apresentação de planos objetivos de governo, ideias que convençam os eleitores de que o seu voto será bem definido na hora de escolher quem poderá ser o melhor prefeito de sua cidade.

O que me surpreende é que existem candidatos que apresentam ataques sem perceberem que têm efeito bumerangue. Quem conhece a história política recente sabe que a prática da acusação posta, melhor se enquadra no comportamento de seus correligionários. O equívoco é facilmente percebido por quem está assistindo o debate.

A troca de farpas é demonstração de falta de propostas para execução de um governo que se pretenda assumir. O bem intencionado concentra o foco de seus pronunciamentos na definição de como será seu comportamento enquanto gestor do município, ficando longe das querelas alimentadas pela inveja e pela ausência de propostas.


 


A crise

 

A palavra da moda é crise. Todos a usam com os mais diferentes interesses. Alguns por motivos políticos, outros por circunstâncias de sobrevivência econômica. O fato é que realmente estamos num momento de crise. E todos são afetados por ela.

A crise faz com que acendam as divergências orientadas pelas preferências políticas. É normal que se faça proveito das dificuldades para fazer o proselitismo político em favor de uma causa. O discurso preparado na oportunidade da discordância. A oposição construída no caos, na falta de perspectiva de saída dos embaraços. O afirmar-se do contra no ensejo do desacreditado. O contrário daquilo que se prega como verdade.

E assim caminha a humanidade. Somos todos provocadores da crise, porque falta à maioria a autocrítica do senso de responsabilidade e da observância dos princípios elementares da ética. Pouca gente pode bater no peito e dizer: “eu sou um incorruptível”. Então somos todos, de certa forma, responsáveis pela crise que estamos vivendo.

Antes de apontarmos o dedo acusando alguém de comportamento desviado da ordem moral, façamos um ¨mea culpa¨. Cabe a cada um de nós trabalhar no sentido de resgatar a consciência do que seja viver com dignidade e respeito à moralidade e à ética.

Muita gente quer, na verdade, agravar a crise, ao compreender que “quanto pior melhor” para atender objetivos políticos e alimentada pelas paixões que fazem perder o equilíbrio no raciocínio. Esses vivenciam também a crise da falta de sensatez e do comportamento pautado na moderação.


A crise é da humanidade porque somos todos vitimados pela doença da vaidade, da necessidade de poder e da ganância. Estamos todos contaminados pela doença do pensamento individual, esquecendo o bem coletivo. Em agindo assim, as crises são avaliadas a partir do sofrimento pessoal, deixando de perceber o que possa estar afetando a sociedade. O individual se sobrepondo ao interesse comunitário. Atendendo nossas vontades, alimentadas pelo egoísmo pessoal, terminamos por contribuir para o agravamento das crises sociais e políticas. Pior ainda quando somos usados para estimular as crises estrategicamente provocadas, assumindo a posição de inocentes úteis.
 

 

 

 


Quando a vaidade compromete a competência e os resultados

 

Nenhum brasileiro com o mínimo de bom senso pode deixar de reconhecer a importância da operação Lava Jato no processo de transformação da cultura política de nosso país. Já passa a hora da necessidade de promovermos uma faxina no sistema político nacional, passar o Brasil a limpo, como costumamos dizer. E a Lava Jato tem atuado de forma preponderante nesse despertar de consciência ética e moral, no combate a corrupção. Não tenho receio em afirmar que se trata de um divisor de tempo na nossa história, quando analisamos o aspecto revolucionário dos objetivos a que, originalmente, se propunha.

Todavia, os resultados seriam muito mais consistentes e válidos se alguns dos condutores dessa operação não tivessem sido contaminados pelo sentimento da vaidade, a incontida ansiedade de se tornarem celebridades nacionais, reconhecidos como heróis, reverenciados como os “salvadores da pátria”. Essa preocupação primeira em se tornarem protagonistas de espetáculos midiáticos que potencializam suas qualidades, tem feito com que adotem atitudes precipitadas, equivocadas e, algumas vezes, destoantes dos princípios que regem o exercício de suas atividades.

É nesse olhar crítico que, lamentavelmente, constatamos que a vaidade exacerbada compromete o desempenho da competência e fragiliza o conceito de equilíbrio que se exige de autoridades a quem se confiam missões de tão grande relevância.

Machado de Assis chegou a afirmar que “a vaidade é o princípio da corrupção”, ao tentar fazer compreender que esse sentimento transforma mentes brilhantes, conduzindo-as a agir em desacordo com os valores que sempre defenderam ou declaram defender. Os vaidosos são pessoas apaixonadas pela glória e por isso terminam por perder a virtude da nobreza na análise das coisas com isenção, quando percebem que prioritariamente deve prevalecer a decisão que lhe possa oferecer fama, renome, deferência.

Aí está, o grande risco dessa operação Lava Jato. Os verdadeiros objetivos tragados pela vaidade exagerada dos que querem se valer de suas estratégicas e circunstanciais posições, para se autoafirmarem, se projetarem, se vangloriarem, mesmo que a custo de procedimentos que atentem contra os mais elementares ordenamentos da ética e da legalidade. Os fins justificam os meios, haverão de argumentar em obediência a esse ensinamento de Maquiavel.

Necessitamos sim, de uma varredura na política nacional, de uma revolução cultural que nos faça ter orgulho da nossa cidadania, expurgando os corruptos, banindo de uma vez por todas do cenário político aqueles que encaram o exercício da atividade pública em favor próprio e em detrimento do coletivo. Mas que seja um processo todo ele orientado na estrita observância da legalidade, sem ferir os critérios de igualdade de tratamento, oferecendo de maneira isenta e equilibrada o julgamento relativo às ilicitudes descobertas.

A justiça não pode ficar a reboque de vaidades doentias, prejudicando sua sublime função de praticar a equidade entre os homens, não favorecendo, nem lesando direitos, conforme as emoções do julgador. Queremos e precisamos de uma justiça apartidária, desapaixonada politicamente, cujas balanças nunca se inclinem só para um lado, colocando a espada sobre as cabeças de todos que se portarem em contrário ao que se define como legal, moral e ético, indistintamente.

Não podemos perder a oportunidade de passar essa página nefasta de nossa história, onde impera a corrupção, a indecência e a desonestidade, por conta de posturas inaceitáveis de quem coloca a vaidade acima dos interesses maiores da nação. Esperemos que a Lava Jato seja, no futuro, registrada pelos historiadores como um marco importante na reconstrução da nossa cultura política, sem anotações de desvios de conduta que possam maculá-la.
 


 


Precisamos ter fome da verdade

 

Este é um momento em que devemos ter fome da verdade. Para isso é necessário nos blindarmos contra a técnica utilizada pela grande mídia objetivando causar um curto-circuito na nossa consciência crítica, explorando o aspecto emocional. É preciso termos o cuidado de não permitir que nossas mentes sejam moldadas de acordo com os interesses nefastos de veículos de comunicação que se apresentam como instrumentos de manipulação das massas. É importante buscar compreender o que pode estar por trás da produção da notícia, enxergar as mensagens sublimares que ela contêm, perceber o que se intenciona transmitir nas entrelinhas.

O que se observa na programação diária da mídia, seja ela televisada, falada ou escrita, é uma pauta cuidadosamente dirigida a exercer influência na sociedade, tornando-a vítima de artimanhas ideológicas dos poderes políticos e econômicos. Qual a estratégia mais eficazmente adotada? Deturpar o conteúdo da informação veiculada, procurando ajustá-la aos interesses do que defendem. Invadir a mente de cada um, num efeito anestésico que prive a liberdade de pensar por si mesmo. Injetar medos, idéias, desejos, que façam com que muitos acreditem que são seus próprios pensamentos e sentimentos.

O ideal é bombardear o público de informações que não lhe dê tempo de pensar e criar situações que justifiquem reações apressadas. Evitar oferecer notícias boas que possam amenizar a ansiedade em responder aos fatos precipitadamente. Quanto maior o comportamento compulsivo melhor. Gerar um aparente consentimento democrático de suas idéias propagadas. Assim acreditam intimidar os que forem contrários.

Já houve um tempo, entretanto, em que essa força midiática foi muito mais dominadora. Hoje as grandes empresas de comunicação, geralmente propriedades de poderosos conglomerados empresariais, enfrentam o rebate da internet, através das redes sociais. O contraponto não tem direcionamento de um patrão, a não ser a consciência crítica dos que teimam em proteger a verdade em nome da liberdade de pensamento e do respeito ao exercício da democracia.
 


 


A guerra da informação

 

No mundo moderno uma das mais perigosas armas utilizadas é a comunicação. Por isso mesmo a mídia torna-se ferramenta essencial para alcançar objetivos previamente traçados. Através dela se consegue no uso da informação influenciar a população. Tendo a mente como alvo, procura-se gerar opiniões e consolidar convicções, atendendo as conveniências da estratégia montada.

Pouco interessa se a informação transmitida seja irrelevante ou não possua conteúdo real, o que importa é o objetivo subliminar a que se propõe atingir. A repetição da notícia colocada como narrativa de fatos reais, ainda que através de “meias-verdades” ou mentiras inteiras, tem a intenção de formar uma consciência coletiva de aceitação do que se divulga. E faz isso propositadamente com uma velocidade impressionante, sem qualquer preocupação em apurar a informação, porque o importante é o “furo jornalístico”, ainda mais quando se ajusta aos interesses políticos a que se submete.

Nessa guerra da informação fica desprezada qualquer notícia alternativa ou que favoreça o campo contrário. Funciona como uma espécie de adestramento mental coletivo. Em outras palavras, se estabelece a tática da terceirização do pensamento político. Muitos emocionalmente passam a raciocinar de acordo com o que ouve ou lê, sem perceber que estão sendo manipulados.

As grandes redes de noticias, numa perfeita articulação, cuidam em produzir a desinformação. E se blindam ao promoverem um rigoroso controle de sua pauta jornalística no sentido de evitar que se coloque alguma notícia, ainda que verdadeira, contrária à linha editorial estabelecida. E nós consumidores somos intoxicados por informações direcionadas para “fazer nossa cabeça”.

A única forma de enfrentar o poderio da mídia institucionalizada é na utilização da internet, postando nas redes sociais as informações que ela se recusa a oferecer. Não deixa de ser uma luta desigual, mas pode representar um contraponto interessante que permita as pessoas bem intencionadas fazerem livremente o seu juízo de valor e analisar onde está a verdade. Nessa guerra cada um faz uso das armas que possui.

 

 


Uma estrela que se apagava

 

Vez por outra somos impactados por notícias que fazem a gente perder a fome. Foi o que aconteceu comigo no dia 19 de janeiro de 1982. Preparava-me para sentar à mesa na hora do almoço, quando pela televisão tomava conhecimento da morte de Elis Regina. A informação chocou a todos provocando uma comoção nacional.

A maior intérprete da música popular brasileira, em todos os tempos, havia sido encontrada morta em seu apartamento, presumivelmente vitimada por uma parada cardíaca. O relato do acontecimento dá conta de que no momento do seu passamento estava conversando ao telefone com seu namorado e advogado, Samuel Macdowell, o que fez com que corresse ao local onde ela morava e constatasse o óbito.

O país chorou a sua perda. Ainda jovem, aos 35 anos, encerrava uma fulgurante carreira artística, em que encantava a todos com sua forma inigualável de cantar, cheia de vitalidade e dona de um repertório maravilhoso.

Apesar de demonstrar alegria nas suas apresentações, era uma pessoa que, na intimidade, vivia momentos de estresse e de angústias. Basta ver um dos seus depoimentos, num desses instantes de depressão: “Eu não entendo e talvez vá morrer sem entender as pessoas. Todos adoram os artistas. Mas, na verdade, é uma adoração superficial. A gente é olhada e recebida como objeto, um bibelô. O cara te recebe em casa para mostrar aos amigos que te conhece. Mas no momento de participar da vida dele, você verá que começa a ser criada uma barreira de distância. Não sei porque sou diferente: tomo banho como todo mundo, tive filhos como toda mulher. Quer dizer, sou igual a todas as pessoas. Mas sou cantora”. O estrelato lhe incomodava.


Foi sepultada vestindo uma camisa que trazia no peito a bandeira brasileira, com seu nome substituindo o “ordem e progresso”, feita para usar no show “Saudades do Brasil”, mas proibido pela censura no período da ditadura militar. Foi seu último protesto como ativista política. Ao seu sepultamento, além da multidão de amigos e admiradores, se faziam presentes personalidades do mundo artístico, intelectual e político, dentre eles destacava-se Luis Inácio Lula da Silva, então presidente do partido a que era filiada e uma dos seus fundadores.

Carinhosamente chamada “a pimentinha”, a súbita morte de Elis Regina deixou uma lacuna jamais preenchida na música nacional. Ela era singular, voz e performance no palco que a fazia ídolo de todos daquela geração, na mais fértil época de nossa história musical. Para matar a saudade, não me canso em, de vez em quando, colocar um vídeo em que ela, numa interpretação monumental, defendeu a música “Arrastão”, de Edu Lobo, conquistando o primeiro lugar no I Festival da Música Popular Brasileira, da Tv Excelsior.

Concluo corrigindo o título do texto. Afinal de contas as estrelas nunca se apagam. Elas podem ficar com sua luz brilhando à distância, mas jamais perdem sua luminosidade. A estrela Elis Regina, continua brilhando, porque ela se tornou imortal.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 

 


O livro que irritou Jânio Quadros

 

Ainda hoje continua sem que se conheçam as verdadeiras razões que levaram Jânio Quadros a renunciar a presidência da república, com apenas sete meses de governo. O fato já mereceu análises de historiadores e jornalistas e nunca se chegou a um consenso sobre as reais motivações de sua surpreendente decisão de entregar o cargo para o qual foi eleito, apoiado num movimento popular de muita esperança. Ele se apresentava como alguém que fazia a diferença na forma de fazer política. Traiu a confiança do povo.

Em dezessete de julho de 1981 fiz companhia a meu pai num evento cultural que marcava o lançamento em João Pessoa do mais novo livro do jornalista paraibano Marcone Formiga. Aos vinte e seis anos de idade, nosso conterrâneo e, para orgulho de meu pai, seu sobrinho e afilhado, já despontava na capital do país como um dos nomes de referência do jornalismo político nacional. Mostrava-se precocemente um vocacionado para o exercício das atividades na imprensa, com uma atuação que estimulava a polêmica, em razão da forma como levantava questionamentos relativos à vida política brasileira.

A obra literária que ele apresentava naquela tarde de sexta feira na pérgula do Hotel Tropicana, alcançou grande repercussão nacional, recebendo críticas positivas de expoentes da militância jornalística do Brasil e de importantes expressões da nossa literatura, entre eles os membros da Academia Brasileira de Letras: Josué Montello e R. Magalhães Júnior.

O próprio título do livro já chamava a atenção: “JÂNIO, HERÓI OU BANDIDO ?”. Já dava para se ter uma ideia da discussão que provocaria ao mexer com um assunto tão cheio de controvérsias e especulações. Marcone dedicou-se a um trabalho de jornalismo investigativo, entrevistando pessoas que conviveram com o presidente durante a época em que esteve no exercício do mandato. Além de políticos e integrantes do governo, Marcone também procurou conversar com motoristas, copeiros e mordomos do Palácio, na intenção de conhecer, na intimidade, como se comportava aquela autoridade durante o tempo em que esteve no comando dos destinos da nação.

O objetivo era tentar entender aquela tão inesperada decisão que chocou o país inteiro pela surpresa de que se revestiu. Daí a interrogação: Jânio assumiu postura de herói ou de bandido? Foi realmente pressionado pelas “forças terríveis”, conforme denunciou em sua carta renúncia, ou pensou em usar de uma estratégia um tanto maluca para se firmar com poderes na presidência, na expectativa de que o povo exigiria o seu retorno?

Pelo que se sabe, Jânio ao ler o livro, teve uma reação de raiva e pisoteou o exemplar que estava em suas mãos. O seu temperamento um tanto fora dos padrões de racionalidade, fez com que perdesse a tranqüilidade ao ver contestada a sua sinceridade no tocante as justificativas então apresentadas no documento em que oficializava sua renúncia. Marcone colocava em dúvida as verdades que ele insistia em defender para o seu ato.

O livro do meu primo é um documento importante para quem se dispõe a estudar esse episódio da nossa história política.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 

 


A reação contra o filme de Tisuka Yamasaki

 

A notícia de que a cineasta Tisuka Yamasaki iria colocar em filme a estória do livro “Anayde Beiriz – Paixão e Morte na Revolução de 30”, de autoria do paraibano José Joffily, provocou uma reação de protestos na Paraíba. Não em razão do tema a ser explorado, mas pelo título escolhido: “Parahyba Mulher Macho”. Havia um entendimento de que era ofensivo ao conceito das paraibanas, dando-lhe um sentido pejorativo que insinuava um padrão de comportamento bem diferente da marca de feminilidade característica da mulher nascida na Paraíba.

O presidente do Conselho Estadual da Cultura, Higino Brito, em julho de 1981, endereçou correspondência ao Presidente da empresa estatal responsável pela organização e divulgação do turismo na Paraiba, a PBTUR, o escritor e jornalista Luiz Augusto Crispim, manifestando a posição unânime dos conselheiros contra o nome que Tisuka decidira dar ao filme inspirado na obra de José Joffily. Na carta ele coloca: “Não sei de quem foi a lembrança para o batismo do filme. Sei apenas que o título é lamentável, de rara infelicidade e de integral mau gosto. Projetará uma imagem negativa da mulher paraibana e do próprio Estado”.

O presidente da PBTUR acompanhou o sentimento de contrariedade com a denominação do filme e pronunciou-se a respeito. “Não é nossa intenção vender a imagem da Paraíba à base de bizarrias. Recusamos o grotesco modo que se propõe no filme, como já recusamos a formação da imagem turística do Estado à base da matança das baleias. Não contesto a importância histórica de Anayde Beiriz, retratada no livro de José Joffily. O que se contesta é a forma grosseira como Tisuka achou de intitular a obra, levantando unanimidade dos paraibanos contra tamanha apelação. Pois até do ponto de vista das minorias sexuais a expressão parece pejorativa”.


O governador Tarcisio Burity, também incomodado com o título do filme, desautorizou que fossem rodadas cenas da posse e funeral do Presidente João Pessoa, no Palácio da Redenção e na Praça João Pessoa. A cineasta teve que tomar como cenários desses acontecimentos históricos a Praça da República e o Palácio Campo das Princesas, em Recife.

Entretanto, as reclamações não produziram efeito. O filme foi lançado em 1983, dois anos depois dessas manifestações de protesto, mantido o título que causou tanta indignação dos paraibanos.

O fato é que essa pecha de “Paraiba Mulher Macho”, nasceu de uma música feita por Humberto Teixeira com a intenção de homenagear o Estado por sua participação corajosa num movimento que transformou a história da nação brasileira. Como o nome Paraiba é feminino, ele cunhou a expressão “Paraiba Masculina, Mulher Macho sim senhor”, sem qualquer insinuação maldosa ao comportamento sexual das paraibanas.

Infelizmente, por obra e graça do preconceito que ainda perdura contra o nordestino, a expressão ganhou conotação depreciativa. O filme, então, viria reavivar essa interpretação insultuosa que se faz à graça e a beleza das paraibanas. No entanto, a mulher paraibana continua encantando pelo charme, faceirice e formosura, apesar dos preconceituosos.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 

 


O vídeo cassete

 

A grande novidade de consumo eletrônico em 1981 foi o videocassete, um aparelho capaz de gravar e reproduzir imagens registradas em fitas magnéticas condicionadas em caixas plásticas. Tornou-se a sensação da época, considerando a revolução de hábitos que impôs. Passávamos a ter a possibilidade de gravar programas e filmes veiculados na TV,

Chegou ao Brasil com certo atraso, pois já era comercializado nos Estados Unidos desde 1975. Inicialmente usado amadoristicamente, com gravações feitas em casa, permitindo a que pudéssemos assistir um programa ou filme da televisão que havíamos perdido. Com o passar do tempo foi se modernizando e tornando-se um instrumento de uso profissional, com a produção de filmes. Isso fez com que proliferassem as “locadoras de vídeo”, estabelecimento comercial onde alugávamos os filmes que gostaríamos de ver em casa. O incômodo era a necessidade de rebobinar as fitas antes de devolvê-las à locadora.

Tenho certeza de que as gerações deste século nunca viram, ou sequer ouviram falar, no videocassete. Entretanto, na inexistência de TV a cabo ou internet nas décadas de 70 e 80, era para nós o entretenimento doméstico mais moderno da época. Apresentava-se como um bem de consumo considerado chique. Ter um videocassete demonstrava que a pessoa estava atualizada com os avanços tecnológicos do novo tempo.

Dominou o mercado durante quinze anos, até que foi substituído pelo DVD, num formato digital, mais fácil de ser operado e com capacidade de armazenar dados, sons e imagens, e melhor tecnologia ótica. Os videocassetes desapareceram e são peças nostálgicas daqueles que os consideraram um símbolo da evolução eletrônica a trinta anos atrás. A inconveniência era ter de trocá-los sempre que o “cabeçote” se desgastava ou se desmagnetizava. Tinham vida útil curta.

Ainda hoje guardo um acervo de fitas VHS que certamente estão prejudicadas pelo mofo, oferecendo sérios riscos de perder verdadeiras relíquias. Preciso urgentemente fazer a conversão para DVD. Os anos passam tão rápido que a gente não se dá conta de que aquilo que foi moderno outrora, hoje é equipamento ultrapassado e sem condições de uso.

• Integra a série de crônicas “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.