Uma estrela que se apagava

 

Vez por outra somos impactados por notícias que fazem a gente perder a fome. Foi o que aconteceu comigo no dia 19 de janeiro de 1982. Preparava-me para sentar à mesa na hora do almoço, quando pela televisão tomava conhecimento da morte de Elis Regina. A informação chocou a todos provocando uma comoção nacional.

A maior intérprete da música popular brasileira, em todos os tempos, havia sido encontrada morta em seu apartamento, presumivelmente vitimada por uma parada cardíaca. O relato do acontecimento dá conta de que no momento do seu passamento estava conversando ao telefone com seu namorado e advogado, Samuel Macdowell, o que fez com que corresse ao local onde ela morava e constatasse o óbito.

O país chorou a sua perda. Ainda jovem, aos 35 anos, encerrava uma fulgurante carreira artística, em que encantava a todos com sua forma inigualável de cantar, cheia de vitalidade e dona de um repertório maravilhoso.

Apesar de demonstrar alegria nas suas apresentações, era uma pessoa que, na intimidade, vivia momentos de estresse e de angústias. Basta ver um dos seus depoimentos, num desses instantes de depressão: “Eu não entendo e talvez vá morrer sem entender as pessoas. Todos adoram os artistas. Mas, na verdade, é uma adoração superficial. A gente é olhada e recebida como objeto, um bibelô. O cara te recebe em casa para mostrar aos amigos que te conhece. Mas no momento de participar da vida dele, você verá que começa a ser criada uma barreira de distância. Não sei porque sou diferente: tomo banho como todo mundo, tive filhos como toda mulher. Quer dizer, sou igual a todas as pessoas. Mas sou cantora”. O estrelato lhe incomodava.


Foi sepultada vestindo uma camisa que trazia no peito a bandeira brasileira, com seu nome substituindo o “ordem e progresso”, feita para usar no show “Saudades do Brasil”, mas proibido pela censura no período da ditadura militar. Foi seu último protesto como ativista política. Ao seu sepultamento, além da multidão de amigos e admiradores, se faziam presentes personalidades do mundo artístico, intelectual e político, dentre eles destacava-se Luis Inácio Lula da Silva, então presidente do partido a que era filiada e uma dos seus fundadores.

Carinhosamente chamada “a pimentinha”, a súbita morte de Elis Regina deixou uma lacuna jamais preenchida na música nacional. Ela era singular, voz e performance no palco que a fazia ídolo de todos daquela geração, na mais fértil época de nossa história musical. Para matar a saudade, não me canso em, de vez em quando, colocar um vídeo em que ela, numa interpretação monumental, defendeu a música “Arrastão”, de Edu Lobo, conquistando o primeiro lugar no I Festival da Música Popular Brasileira, da Tv Excelsior.

Concluo corrigindo o título do texto. Afinal de contas as estrelas nunca se apagam. Elas podem ficar com sua luz brilhando à distância, mas jamais perdem sua luminosidade. A estrela Elis Regina, continua brilhando, porque ela se tornou imortal.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 

 


O livro que irritou Jânio Quadros

 

Ainda hoje continua sem que se conheçam as verdadeiras razões que levaram Jânio Quadros a renunciar a presidência da república, com apenas sete meses de governo. O fato já mereceu análises de historiadores e jornalistas e nunca se chegou a um consenso sobre as reais motivações de sua surpreendente decisão de entregar o cargo para o qual foi eleito, apoiado num movimento popular de muita esperança. Ele se apresentava como alguém que fazia a diferença na forma de fazer política. Traiu a confiança do povo.

Em dezessete de julho de 1981 fiz companhia a meu pai num evento cultural que marcava o lançamento em João Pessoa do mais novo livro do jornalista paraibano Marcone Formiga. Aos vinte e seis anos de idade, nosso conterrâneo e, para orgulho de meu pai, seu sobrinho e afilhado, já despontava na capital do país como um dos nomes de referência do jornalismo político nacional. Mostrava-se precocemente um vocacionado para o exercício das atividades na imprensa, com uma atuação que estimulava a polêmica, em razão da forma como levantava questionamentos relativos à vida política brasileira.

A obra literária que ele apresentava naquela tarde de sexta feira na pérgula do Hotel Tropicana, alcançou grande repercussão nacional, recebendo críticas positivas de expoentes da militância jornalística do Brasil e de importantes expressões da nossa literatura, entre eles os membros da Academia Brasileira de Letras: Josué Montello e R. Magalhães Júnior.

O próprio título do livro já chamava a atenção: “JÂNIO, HERÓI OU BANDIDO ?”. Já dava para se ter uma ideia da discussão que provocaria ao mexer com um assunto tão cheio de controvérsias e especulações. Marcone dedicou-se a um trabalho de jornalismo investigativo, entrevistando pessoas que conviveram com o presidente durante a época em que esteve no exercício do mandato. Além de políticos e integrantes do governo, Marcone também procurou conversar com motoristas, copeiros e mordomos do Palácio, na intenção de conhecer, na intimidade, como se comportava aquela autoridade durante o tempo em que esteve no comando dos destinos da nação.

O objetivo era tentar entender aquela tão inesperada decisão que chocou o país inteiro pela surpresa de que se revestiu. Daí a interrogação: Jânio assumiu postura de herói ou de bandido? Foi realmente pressionado pelas “forças terríveis”, conforme denunciou em sua carta renúncia, ou pensou em usar de uma estratégia um tanto maluca para se firmar com poderes na presidência, na expectativa de que o povo exigiria o seu retorno?

Pelo que se sabe, Jânio ao ler o livro, teve uma reação de raiva e pisoteou o exemplar que estava em suas mãos. O seu temperamento um tanto fora dos padrões de racionalidade, fez com que perdesse a tranqüilidade ao ver contestada a sua sinceridade no tocante as justificativas então apresentadas no documento em que oficializava sua renúncia. Marcone colocava em dúvida as verdades que ele insistia em defender para o seu ato.

O livro do meu primo é um documento importante para quem se dispõe a estudar esse episódio da nossa história política.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 

 


A reação contra o filme de Tisuka Yamasaki

 

A notícia de que a cineasta Tisuka Yamasaki iria colocar em filme a estória do livro “Anayde Beiriz – Paixão e Morte na Revolução de 30”, de autoria do paraibano José Joffily, provocou uma reação de protestos na Paraíba. Não em razão do tema a ser explorado, mas pelo título escolhido: “Parahyba Mulher Macho”. Havia um entendimento de que era ofensivo ao conceito das paraibanas, dando-lhe um sentido pejorativo que insinuava um padrão de comportamento bem diferente da marca de feminilidade característica da mulher nascida na Paraíba.

O presidente do Conselho Estadual da Cultura, Higino Brito, em julho de 1981, endereçou correspondência ao Presidente da empresa estatal responsável pela organização e divulgação do turismo na Paraiba, a PBTUR, o escritor e jornalista Luiz Augusto Crispim, manifestando a posição unânime dos conselheiros contra o nome que Tisuka decidira dar ao filme inspirado na obra de José Joffily. Na carta ele coloca: “Não sei de quem foi a lembrança para o batismo do filme. Sei apenas que o título é lamentável, de rara infelicidade e de integral mau gosto. Projetará uma imagem negativa da mulher paraibana e do próprio Estado”.

O presidente da PBTUR acompanhou o sentimento de contrariedade com a denominação do filme e pronunciou-se a respeito. “Não é nossa intenção vender a imagem da Paraíba à base de bizarrias. Recusamos o grotesco modo que se propõe no filme, como já recusamos a formação da imagem turística do Estado à base da matança das baleias. Não contesto a importância histórica de Anayde Beiriz, retratada no livro de José Joffily. O que se contesta é a forma grosseira como Tisuka achou de intitular a obra, levantando unanimidade dos paraibanos contra tamanha apelação. Pois até do ponto de vista das minorias sexuais a expressão parece pejorativa”.


O governador Tarcisio Burity, também incomodado com o título do filme, desautorizou que fossem rodadas cenas da posse e funeral do Presidente João Pessoa, no Palácio da Redenção e na Praça João Pessoa. A cineasta teve que tomar como cenários desses acontecimentos históricos a Praça da República e o Palácio Campo das Princesas, em Recife.

Entretanto, as reclamações não produziram efeito. O filme foi lançado em 1983, dois anos depois dessas manifestações de protesto, mantido o título que causou tanta indignação dos paraibanos.

O fato é que essa pecha de “Paraiba Mulher Macho”, nasceu de uma música feita por Humberto Teixeira com a intenção de homenagear o Estado por sua participação corajosa num movimento que transformou a história da nação brasileira. Como o nome Paraiba é feminino, ele cunhou a expressão “Paraiba Masculina, Mulher Macho sim senhor”, sem qualquer insinuação maldosa ao comportamento sexual das paraibanas.

Infelizmente, por obra e graça do preconceito que ainda perdura contra o nordestino, a expressão ganhou conotação depreciativa. O filme, então, viria reavivar essa interpretação insultuosa que se faz à graça e a beleza das paraibanas. No entanto, a mulher paraibana continua encantando pelo charme, faceirice e formosura, apesar dos preconceituosos.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 

 


O vídeo cassete

 

A grande novidade de consumo eletrônico em 1981 foi o videocassete, um aparelho capaz de gravar e reproduzir imagens registradas em fitas magnéticas condicionadas em caixas plásticas. Tornou-se a sensação da época, considerando a revolução de hábitos que impôs. Passávamos a ter a possibilidade de gravar programas e filmes veiculados na TV,

Chegou ao Brasil com certo atraso, pois já era comercializado nos Estados Unidos desde 1975. Inicialmente usado amadoristicamente, com gravações feitas em casa, permitindo a que pudéssemos assistir um programa ou filme da televisão que havíamos perdido. Com o passar do tempo foi se modernizando e tornando-se um instrumento de uso profissional, com a produção de filmes. Isso fez com que proliferassem as “locadoras de vídeo”, estabelecimento comercial onde alugávamos os filmes que gostaríamos de ver em casa. O incômodo era a necessidade de rebobinar as fitas antes de devolvê-las à locadora.

Tenho certeza de que as gerações deste século nunca viram, ou sequer ouviram falar, no videocassete. Entretanto, na inexistência de TV a cabo ou internet nas décadas de 70 e 80, era para nós o entretenimento doméstico mais moderno da época. Apresentava-se como um bem de consumo considerado chique. Ter um videocassete demonstrava que a pessoa estava atualizada com os avanços tecnológicos do novo tempo.

Dominou o mercado durante quinze anos, até que foi substituído pelo DVD, num formato digital, mais fácil de ser operado e com capacidade de armazenar dados, sons e imagens, e melhor tecnologia ótica. Os videocassetes desapareceram e são peças nostálgicas daqueles que os consideraram um símbolo da evolução eletrônica a trinta anos atrás. A inconveniência era ter de trocá-los sempre que o “cabeçote” se desgastava ou se desmagnetizava. Tinham vida útil curta.

Ainda hoje guardo um acervo de fitas VHS que certamente estão prejudicadas pelo mofo, oferecendo sérios riscos de perder verdadeiras relíquias. Preciso urgentemente fazer a conversão para DVD. Os anos passam tão rápido que a gente não se dá conta de que aquilo que foi moderno outrora, hoje é equipamento ultrapassado e sem condições de uso.

• Integra a série de crônicas “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 

 


Os "Borboletas Azuis" (II)

 

Na véspera do dia definido como o “fim do mundo” pelos “Borboletas Azuis”, o movimento era intenso no local onde funcionava o Templo Horto de Jesus, no bairro do Quarenta em Campina Grande. Os seguidores de Roldão Mangueira preparavam-se para viver os próximos cento e vinte dias recolhidos naquela Casa, durante o dilúvio que marcaria o fim da humanidade. Várias camionetes chegaram transportando mantimentos, utensílios domésticos e outros objetos indispensáveis para enfrentarem os dias de chuva que representariam os últimos de vida na terra.

A Polícia Militar reforçou a vigilância em torno do Templo, garantindo assim a integridade física daqueles que confiavam na profecia proclamada. No dia previsto para o evento que iniciaria o período das chuvas intermitentes que formariam o dilúvio, era grande a concentração de curiosos e profissionais da imprensa de todo o país nas imediações.

Enfim o dia treze de maio de 1980 havia chegado e os fanáticos da seita estavam na expectativa dos fenômenos celestes profetizados. O líder Roldão Mangueira ficou recolhido à sua residência, por decisão de familiares e recomendação médica, pois não estava bem de saúde, nem física, nem mental. Foi substituído pelo vice-presidente da Casa, o ex-taxista José Alves.

Ás onze horas da manhã veio até o portão de entrada do Templo e aos gritos falou: “Passamos dois anos dizendo que o grande dia chegaria. O povo não acreditou na verdade. Faltam poucas horas. Não adianta arrependimentos. Tudo o que se podia fazer, já foi feito. A mensagem do grande mestre foi transmitida. O povo não deu valor”.


Passaram toda a tarde de olhos voltados para o céu, na espera do extraordinário acontecimento. Porém, o dia era de pleno sol, contrariando qualquer possibilidade de chuva. As horas passavam e nada acontecia. Percebia-se com o seguir do tempo as expressões de decepção dos “Borboletas Azuis”. Até que ao final da tarde, já convictos de que nada do que acreditavam ocorreria, começaram aos poucos a abandonar o local.

Naquele instante o mundo não acabou, mas se iniciou o fim da existência da seita. Perderam a credibilidade no líder. Realmente aquele movimento se encerrou com a morte de Roldão Mangueira quarenta e cinco dias depois.

O Diário de Pernambuco numa manchete de ironia colocou: “Telegrama de Deus para Roldão Mangueira – DEFINIREI OUTRA DATA PARA O FIM DO MUNDO E LHE AVISAREI”.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.


 


Os "Borboletas Azuis" (I)

 

A imprensa nacional voltou os olhos para Campina Grande naquele dia treze de maio de 1980. Grande número de jornalistas e curiosos se postou em frente ao Templo Jesus do Horto, no bairro do Quarenta. Nesse local se concentravam os membros da seita “Borboletas Azuis”, liderada por Roldão Mangueira, um empresário algodoeiro, que pregava o resgate do cristianismo primitivo, combatendo a transformação da Igreja Católica promovida pelo Concílio Vaticano II. Andavam de pés descalços e vestiam batas azuis, com as mulheres colocando véus brancos na cabeça.

O movimento messiânico era uma mistura de catolicismo e espiritismo, pois diziam receber, através de alguns dos seus seguidores, mensagens que estabeleciam a vontade de Deus de como deveriam se comportar e faziam profecias de acontecimentos. Dentre essas visões de futuro, proclamavam que uma garota de dezessete anos, de nome Luciene Fernandes, incorporando o próprio Jesus Cristo, teria recebido a informação de que o mundo acabaria em 1980.

“Uma enorme bola de fogo cruzará o céu, o sol girará por três vezes consecutivas, um ensurdecedor trovão ecoará por toda a Serra da Borborema. Em seguida, choverá por ininterruptamente por cento e vinte dias”. Assim se daria o cataclisma que ocasionaria o fim da humanidade.

O grupo inicialmente reunia em torno de duzentas pessoas nas suas reuniões realizadas no templo. Porém, em 1977, quando da divulgação da profecia e da determinação de que seus seguidores deveriam, a partir de então, exercer abstinência sexual, abandonando hábitos como o fumo e o álcool, esse movimento ficou reduzido a cinqüenta e seis pessoas.

A menina responsável pela profecia apaixonou-se por um rapaz que também pertencia à seita e resolveu se desligar do movimento, contrariando a vontade do líder Roldão Mangueira e sua mãe. Entretanto, a crença no fim do mundo continuou e passaram a se preparar para viverem o dia do fim do mundo. O anúncio ganhou repercussão nacional a partir de uma matéria a respeito na Rede Globo de Televisão.

Embora descrentes na profecia, todos nós que acompanhávamos o noticiário a respeito, ficávamos curiosos em ver como esses fanáticos acompanhantes da seita “Borboletas Azuis” se comportariam no dia em que acreditavam aconteceria o fim do mundo.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 


 


Um olhar atento para o Centro Histórico

 

A preservação dos bens culturais de João Pessoa nunca recebeu tanta atenção quanto o que tem sido feito pela atual gestão municipal. São ações que se distribuem, principalmente, no Centro Histórico, onde está representada a nossa identidade cultural, com um patrimônio histórico que honra e orgulha a todos os paraibanos. A cidade é compreendida por seus bens materiais e imateriais, que simbolizam a memória construída pelas gerações que nos antecederam e que deverá ser protegida no objetivo de consolidar os valores que caracterizam nosso povo, afirmados no curso da história.

Vem se desenvolvendo um projeto ousado de requalificação urbana da área em que a cidade nasceu, considerando a necessidade de intervenções que garantam, não só no tocante à recuperação de monumentos que enriquecem nosso patrimônio, mas, principalmente, na intenção de dotar aquele logradouro de vida útil, trazendo oportunidades de reintegração da população à movimentação sócio-econômica do local onde a cidade teve sua origem.

No dia em que João Pessoa completou os seus 431 anos de existência o prefeito Luciano Cartaxo presenteou a cidade com a reabertura do Antigo Hotel Globo. Trata-se de um dos mais importantes monumentos do nosso acervo cultural. Lá funcionará a COPAC – Coordenadoria do Patrimônio Cultural de João Pessoa, órgão responsável pela preservação dos bens materiais e imateriais, públicos e privados, de interesse histórico. Também será instalado o memorial do hotel, apresentando mobiliário e peças utilizados pelos hóspedes. Neste sentido a prefeitura está mantendo contato com a família de Aguinaldo Siqueira, antigo proprietário do hotel, para oficializar a cessão desse acervo em comodato.

A restauração da Casa da Pólvora, e das Praças da Pedra, João Pessoa, da Independência, 1817, Galeria Augusto dos Anjos, são algumas das ações incluídas no planejamento de revitalização do Centro Histórico, já entregues à população. Importante registrar a intervenção feita na Lagoa Solon de Lucena, transformando-a num verdadeiro parque, passando a contar com 12 praças, ciclovia e píer flutuante, pondo fim, inclusive, a um histórico de inundações na área e devolvendo à cidade uma grande área de lazer, esportes, cultura, e cidadania.

Nos próximos dias serão assinadas as ordens de serviço para execução das obras de restauração do Conventinho, onde funcionarão a Biblioteca Municipal e a Escola de Artes, assim como da antiga Alfândega, local em que será instalado o Museu Colônia.

São sonhos acalentados há séculos pelo povo pessoense e que agora vê se transformando em realidade.


O projeto de lei da anistia

 

O presidente João Figueiredo cumpria solenemente a promessa de adotar medidas que revelavam seu propósito de promover a abertura democrática do país. Convocou no dia vinte e sete de junho de 1979 a classe política e a imprensa, para oficialmente apresentar o projeto de Lei da Anistia, em ato realizado no Palácio do Planalto. “Feliz o homem que, eleito, cumpre as promessas de candidato”, foi assim que o presidente iniciou sua fala de apresentação do projeto, afirmando, inclusive, que conhecia bem o sofrimento do exílio, pois viu na própria família o amargor de ser órfão de pai vivo.

Segundo ele o projeto restaurava os direitos políticos suspensos, reintegrava na vida partidária todos os que dela haviam sido afastados por crimes políticos, previa a possibilidade de reversão ou retorno ao serviço público dos servidores demitidos em virtude do ato revolucionário. No entanto, a proposta não agradava completamente a oposição, que cobrava uma anistia geral, ampla e irrestrita. Não satisfazia essa expectativa, pois não alcançava a totalidade dos que deviam ser anistiados.


O evento contou com a presença do governador Tarcisio Burity e de parlamentares paraibanos. Na oportunidade o presidente Figueiredo foi abraçado e beijado por uma criança de dez anos de idade, que inesperadamente furou o cerco da segurança e correu ao seu encontro. Tratava-se de Patrícia, filha do então deputado federal Wilson Braga.


De qualquer forma, o acontecimento deu a todos nós brasileiros a senha de que efetivamente estávamos vivendo o momento final da ditadura militar. Se não era um ganho na maneira como desejada, representava, no entanto, um avanço rumo à redemocratização.


Encaminhado ao Congresso, a expectativa passou a ser quanto a forma como o legislativo trataria a matéria. O relator já estava definido, seria o deputado paraibano Ernani Sátiro. As atenções então se voltavam, a partir de então, para o parlamento.


Fui alertado pelo amigo e jornalista Gilvan de Brito para a observação de que, segundo ele, o presidente Figueiredo teria feito a anistia com o propósito de beneficiar “os torturadores e assassinos da ditadura”, contemplando-os com aposentadoria do governo federal, minimizando, portanto, qualquer intenção sincera de promover o esquecimento dos crimes políticos dos quais eram acusados aqueles que foram punidos pelo regime. Aproveitara-se da iminência da queda do sistema de força que o alçou ao poder, para colocar num mesmo patamar, torturadores e torturados. É uma manifestação de pensamento e avaliação que merece ser considerada.

O projeto de lei da Anistia suscitou as mais diversas opiniões. Muitos criticaram o fato de que não se apresentava de forma “geral, ampla e irrestrita”, como se desejava. Entretanto, em sua grande maioria, manifestava-se a percepção de avanço no processo de redemocratização que o país começava a viver.

Daí porque no objetivo de fazer história, tenho procurado, de forma isenta, relatar os acontecimentos conforme o que me vem na lembrança e os registros colhidos nos jornais da época, apesar de saber que a imprensa ainda vivia sob censura, o que compromete muita informação obtida a partir dessas publicações.


• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 


 


O Hotel Globo

 

O turista que visita João Pessoa, procura sempre no roteiro de observação do nosso patrimônio cultural, conhecer o antigo Hotel Globo, localizado na Praça São Frei Pedro Gonçalves. Estava interditado desde setembro de 2013, em razão do desmoronamento do seu muro de arrimo e de parte do terraço.

Hoje quando a cidade completa seus 431 anos de existência, a Prefeitura entrega esse que é um dos mais importantes monumentos históricos, totalmente restaurado. Está incluído no plano de revitalização do Centro Histórico da Capital, aprovado e financiado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no qual o prefeito Luciano Cartaxo tem colocado como uma das prioridades de sua administração.

Em 1973, numa festa com coquetel e feijoada, o hoteleiro Aguinaldo Siqueira, filho de Seu Marinheiro, o responsável por sua construção em 1928, após algum tempo desativado como hospedaria, reabriu suas portas com o hotel devidamente reformulado. Foi o primeiro equipamento hoteleiro de bom nível construído na Paraíba, sendo ponto de encontro da sociedade da época, onde se realizavam bailes e banquetes promovidos pelo Governo do Estado. Ali se hospedaram personalidades como Ernesto Geisel, quando residiu em João Pessoa, Gratuliano de Brito, o casal de atores Procópio e Bibi Ferreira e Tônia Carrero. Nos anos cinqüenta funcionou muito mais como um bar de freqüência dos boêmios da cidade.

Foi tombado pelo IPHAEP – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba em 1978. Recebeu suas primeiras ações de restauração em 1994, com recursos provenientes de um convênio firmado com o governo da Espanha. Até o momento de sua interdição, no seu prédio se instalavam a Oficina Escola de João Pessoa, a Comissão do Centro Histórico e a sub-secretaria de Cultura do governo do Estado.

Tive o privilégio de participar dos trabalhos que projetaram a sua devolução à cidade, ao lado de Fernando Milanez Neto, meu antecessor na coordenadoria do patrimônio cultural de João Pessoa, graças à vontade política do atual prefeito, e vejo, com muito entusiasmo, o Hotel Globo voltando a ser atração turística e espaço para a realização de eventos culturais, sem falar na oportunidade de voltarmos a usufruir da beleza do por-do-sol, visto do terraço que vislumbra a paisagem das margens do Rio Sanhauá, local de origem da nossa cidade.


• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.


 


A cantata de Alagamar

 


A luta em defesa dos agricultores de Alagamar uniu um líder religioso, arcebispo Dom José Maria Pires, um argentino/judeu circuncidado, maestro Kaplan, e um ateu assumido, escritor W.J.Solha, na produção de um espetáculo musical intitulado “Cantata de Alagamar”. Baseado num texto do camponês Severino Izidro, conhecido como “Hino de Alagamar”, a peça artística pretendia dar maior projeção ao movimento dos trabalhadores rurais envolvidos na disputa com os proprietários das terras daquele latifúndio.


O teatrólogo Fernando Teixeira ficou responsável pela direção do jogral, que contava com os atores Buda Lira, Ubiratan de Assis e João Costa. A obra baseada em ritmos e poesia vinculados à nossa cultura, harmonizando-os com a modernidade, teve a participação de artistas da chamada música erudita, tais como solistas, tenores, coro misto e orquestra de câmara, integrantes da Universidade Federal da Paraíba.


A ópera camponesa não podia ser apresentada nos teatros, porquanto proibida pela censura em razão do seu conteúdo político de denúncia da perseguição a que estavam sendo submetidos os agricultores, pela ditadura militar. Por isso, sua estréia aconteceu no dia dezessete de junho de 1979 na Capela da Igreja de São Francisco, com um público de aproximadamente quatrocentas pessoas, que aplaudiu de pé o espetáculo. Na oportunidade também se faziam presentes como expectadores o arcebispo Dom Hélder Câmara, de Olinda e Recife e Dom Fragoso, bispo de Crateus, ambos , ao lado de Dom José Maria Pires, apontados pela imprensa aliada ao governo como os “bispos vermelhos”, pela pregação que faziam em favor dos pobres e dos oprimidos.


Gravado em disco vinil pouco depois, recebeu a apresentação de Dom Hélder, onde, entre outras colocações, afirmou: “A Cantata nos traz a boa nova de que nossa gente sofrida sabe muito bem que seria loucura pegar em armas, cujos fabricantes são seus opressores, mas não está, de modo algum acovardada e sem ação. Aprende sempre mais que a força do povo é a união, não para pisar direitos dos outros, mas para não deixar que ninguem pise direitos seus. Para quem tem ouvidos de ouvir, é cantata de esperança e de amor”.


• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.