Não me preocupo com a sexta-feira, 13

 

O dia de hoje, sexta-feira, 13, deixa muita gente assustada. Os supersticiosos preferem nem sair de casa, porque acreditam que essa é uma data de maus agouros. Essa crença está associada a alguns acontecimentos que têm referência ao dia da semana, sexta feira, e ao dia do mês. 13. Foi numa sexta-feira que Cristo foi crucificado. Eram treze os participantes da última ceia e um deles manifestou-se traidor. Foi num dia 13 de dezembro que o Brasil recebeu o impacto da maior violência já praticada contra a democracia, a edição do AI 5. Numa sexta feira, 13, nasceu um dos mais cruéis ditadores do mundo, Fidel Castro.

Tudo isso não passa de coincidências que alimentam o espírito fraco dos que se deixam influenciar pelas superstições. Mas muitas pessoas comprometem sua rotina nesse dia, temendo que algo de ruim aconteça. Elas tornam-se reféns do medo. Eu, particularmente, procuro fugir dessas crendices. Não acredito que um simples número possa atrair coisas negativas.

Em caminho contrário dos que insistem em adotar o número treze como aziago, muita gente faz dele o símbolo da sorte. Zagalo, o ex-jogador da seleção brasileira e técnico de futebol muitas vezes campeão, elegeu o treze como o seu número favorito. Aqui na Paraíba muitos são torcedores de um time que traz no seu nome o número treze. O treze, representando o PT, foi responsável por grandes conquistas políticas em nosso país, embora, no momento, esteja passando por uma crise, por erros que seus militantes cometeram.

O que quero afirmar é que não existe sorte ou azar, tudo é resultado de oportunidades bem ou mal aproveitadas. Entendo até que se apegar a essas superstições só concorre para que os sucessos e êxitos no que se pretende fazer tenham dificuldades em ser alcançados. Quando Deus está no comando, não há a menor possibilidade de que números ou datas possam definir os acontecimentos.

Portanto, para mim, sexta-feira, treze, é um dia como outro qualquer. Só para não perder o bom humor que teimam em retirar de nós neste dia, eu diria que prefiro uma sexta-feira, treze, do que uma segunda-feira com qualquer número.
 


A conflagração

 

O pesadelo de uma iminente conflagração nacional tem feito com que muitos brasileiros estejam perdendo noites de sono nos últimos dias. Assusta-nos as conseqüências desse acirramento que domina o cenário político em nosso país. A animosidade das ruas vem sendo insuflada de forma acelerada. Já não se vê nos debates as posições argumentativas e sim o confronto de interesses. Deixaram de existir os diálogos, dando lugar a confrontos, altercações verbais e virtuais.

Fica cada vez mais distante sonharmos com uma solução pacífica e legalista. Os conflitos estão nos levando a uma instabilidade institucional muito perigosa. E o que é mais assustador é a percepção de que irresponsavelmente não se verifica preocupação com o futuro. O que prepondera, a essa altura, é o desejo de tornar-se vencedor na contenda, seja a que custo for.

A democracia conquistada com muito sacrifício, após um tenebroso período de ditadura militar, está ameaçada por essa beligerante disputa pelo poder. O Estado de Direito vem sendo atacado em nome de um processo de combate à corrupção. Chega até a ser risível, se não fosse trágico, observar que a luta contra os desvios éticos, vem sendo feita no cometimento de ilegalidades e desrespeito à ordem constitucional, na observância do preceito maquiavélico de que “os fins justificam os meios”.


Esse ambiente de ódio e intolerância é combustão para a conflagração. Não se pode transformar justiça em justiçamento. Atores políticos, agindo na condição de representantes do povo, prestam um desserviço à construção das cidadanias, quando violam garantias constitucionais, a pretexto de que estão querendo combater a corrupção. Muitos dos que assim atuam, não podem jogar pedras no vizinho, porque têm vidraças de vidro. Na verdade, estão despertando os fantasmas da ditadura que vivenciamos nas décadas de sessenta e setenta.

Resta-nos rogar a Deus que derrame sobre todos nós brasileiros as bênçãos que façam reavivar o espírito da serenidade e do patriotismo, de forma a que não sejamos protagonistas de uma conflagração nacional.
 


O prejulgamento

 

O prejulgamento é tão grave quanto o preconceito. Existe uma afirmação do Padre Fábio de Melo que define bem essa interpretação: “A pessoa vê a capa e acha que leu o livro. Cuidado, o julgamento preconceituoso pode lhe privar de perceber a verdade”. O hábito do prejulgamento é cada vez mais usual no mundo contemporâneo. As atitudes de prejulgamento induzem à suspeição, por que são adotadas a partir das aparências, sem a devida comprovação da veracidade das informações recebidas.

Temos uma facilidade muito grande de julgar as pessoas pelas circunstâncias, influenciados por deduções alheias, sem que sejam originadas da nossa própria consciência. E o pior é que essas posições críticas se tornam implacáveis, rígidas, inflexíveis, como se fossemos donos da verdade.

Nenhuma informação pode ser utilizada para condenar alguém sem que antes lhe seja dado o direito de se defender e que se concluam as investigações que ofereçam uma conclusão que revele a verdade dos fatos. A maior injustiça é um julgamento precipitado. É quando nosso olhar analisador surge com a predisposição para condenar por antecipação.

Levados pelo lado emocional costumamos pensar e verbalizar proferindo sentenças condenatórias antes de constatarmos reais motivos para penalizar alguém. Não faz mal algum adotarmos cautela nesses procedimentos de deliberar em desfavor de outro, sem que antecipadamente façamos uma análise cuidadosa e justa do que estamos avaliando. Isso fará com que emitamos nossa opinião de julgamento com a consciência tranqüila.

• Integra a série de textos “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”.


 


Procurando resgatar a verdade histórica

 

A propósito de uma postagem que li hoje nas redes sociais, que transcrevo a seguir, decidi republicar um texto do meu livro ‘1968 – O Grito de uma Geração”, editado em 2013, na intenção de repor verdade histórica, de forma a relembrar aos apaixonados políticos de que o passado truculento e violento não pode ser homenageado como exemplo para o mundo hoje. Eis a postagem:

“Falem o que quiserem, mas os presídios brasileiros da época do regime militar deveriam ser exemplo para o resto do mundo. Eles sim recuperavam os presos... Entravam sequestradores, assassinos, ladrões de banco... Sairam deputados, governadores, ministros... e até dois presidentes"

A TORTURA COMO POLÍTICA DE ESTADO

A tortura de presos políticos aconteceu durante 21 anos no Brasil, no período compreendido entre o golpe de 64 e o ano de 1985. No entanto, a partir do AI-5, começou a ser aplicada como política de Estado. Eram práticas que, quando não matavam, deixavam sequelas irreparáveis, tanto no aspecto físico, quanto psicologicamente. Eram meios intimidatórios que visavam inibir agentes políticos a se manifestarem contra a ditadura e, conseguir confissões das pessoas envolvidas na militância contra o governo militar. A pretexto de que estavam defendendo a segurança nacional, montaram um sistema repressivo para combater a subversão e reprimir qualquer atividade considerada suspeita.

 

Os carrascos da ditadura eram pessoas especializadas no emprego de técnicas de tortura, cujos suplícios eram duradouros, repetindo-se diariamente por longas horas, em interrogatórios que visavam a obter informações sobre os movimentos políticos contrários ao regime. Militares e agentes de segurança passaram por treinamento na Escola das Américas, nos Estados Unidos, instituição que depois viria a ser chamada Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança.

Cometeram-se crimes contra a vida e a dignidade humana, com aplicações de choques elétricos, afogamentos e muita pancadaria.

As salas de interrogatórios tinham suas paredes revestidas de material isolante, de forma que não se permitisse ouvir os gritos dos presos quando torturados.

Impressiona a frieza com que o tenente Marcelo Paixão, de Belo Horizonte, narra sua experiência de torturador, em entrevista concedida à revista Veja, em dezembro de 1988:

'A primeira coisa era jogar o sujeito no meio de uma sala, tirar a roupa dele e começar a gritar para ele entregar o ponto (local usado para encontros políticos) e os militantes do grupo. Era o primeiro estágio. Se ele resistisse, tinha o segundo estágio, que era mais forte. Um dava tapa na cara. Outro, soco na boca do estômago. Se não falava tinha dois caminhos. Dependia muito da forma como se aplicava a tortura. Eu gostava muito de aplicar a palmatória. É muito doloroso, mas faz o sujeito falar. Você manda o sujeito abrir a mão. Ele já está tão desmoralizado que obedece e abre. Ai se aplicam dez, quinze, bolos na mão dele com força. A mão fica roxa. Ele fala. A outra era o famoso telefone das Forças Armadas. É uma corrente de baixa amperagem e alta voltagem. Eu gostava muito de ligar nas duas pontas dos dedos. Pode ligar numa mão ou na orelha, mas sempre do mesmo lado do corpo. O sujeito fica arrasado. O que não podia fazer era deixar a corrente passar pelo coração. Aí mata. O último estágio em que cheguei foi o “pau-de-arara” com choques. Isso era para aqueles a quem chamávamos de “queixo duro”, o cara que não abria nas etapas anteriores.

O mais triste é que, até hoje, não se tem notícia de qualquer punição aplicada aos que torturavam e matavam em nome da ditadura militar.

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Que se defenda a ideologia de direita que avança atualmente por força da mídia e das instituições ultraconservadoras do país, isso é um direito de manifestaçao livre de opinião, mas defender as práticas da ditadura e coloca-las como exemplo para o mundo é exagerar na paixão política. Desconhecer a História e desrespeitar a memória de milhares de brasileiros que foram torturados e assassinados nos porões da ditadura. Paciência, tudo tem um limite!


Pronto para encarar 2017

 

Sou um otimista por natureza. Não me abato com circunstâncias desfavoráveis. Continuo mantendo acesa a chama da esperança, mesmo que conspirem contra, os produtores do mal e os eventos que fogem ao nosso controle. O primeiro dia do ano me ofereceu, logo pela manhã, viver um sentimento de profundo pesar. Recebia a notícia do falecimento de alguém a quem considerava um dos melhores amigos que construí no curso da vida. Orlando Xavier foi quem deu o primeiro impulso na minha carreira profissional. Contrariando paradigmas que exigiam para nomeação do cargo de gerente de crédito geral do Paraiban, alguém com mais maturidade e com o perfil de um homem que não usasse cabelos grandes, nem se vestisse de acordo com a moda jovem da época, ele insistiu e me galgou a essa posição de destaque na hierarquia do Banco. Devo a ele essa oportunidade de ascenção profissional, me escolhendo para tao importante e responsavel missão aos vinte e um anos de idade. E creio que não decepcionei.

A tarde tive que buscar atendimento médico, em razão de dores fortes que passei a sentir na região lombar e nas pernas. Passei a tarde na Unimed, o que me impossibilitou de participar da solenidade de posse do prefeito Luciano Cartaxo e seu vice Manoel Júnior. Estou medicado e pronto para a luta do ano, procurando dedicar toda minha capacidade intelectual e física no sentido de contribuir para conquistas e avanços, não só no aspecto individual, Mas, principalmente, no coletivo, como coordenador do patrimônio cultural da cidade, função que me foi confirmada a permanência pelo prefeito, como também produzindo energia positiva para vencermos a crise nacional que estamos vivendo. Que venha 2017 com seus benefícios ou desafios. Estou pronto para encarar.


 


O que há por trás da notícia



Vivemos um tempo em que somos bombardeados a cada instante por uma avalanche de informações. Por conta disso, muitas vezes, sem tempo de procurarmos conhecer o inteiro conteúdo da matéria, nos deixamos ser influenciados apenas pelas manchetes. Tudo o que deseja a imprensa manipuladora que domina os veículos de comunicação em nosso país.

Raríssimas são as exceções em que ao lermos os jornais, escutarmos as emissoras de rádio ou assistirmos a televisão, sejamos brindados com a verdade integral dos fatos noticiados. Se prestarmos atenção, percebemos claramente as distorções informativas, as notícias sendo deformadas conforme os interesses mercadológicos e políticos dos proprietários das empresas de comunicação. Os fatos descritos com o objetivo de levar o receptor da informação a definir opiniões condicionadas ao que deseja o responsável pela elaboração da notícia. A realidade artificial substituindo a realidade verdadeira.

As pessoas que não se dão ao trabalho de garimpar as notícias, terminam sendo usadas como massa de manobra, e passam a repetir conceitos e ideias propagandeadas pela mídia instrumentalizada. Não conseguem pensar por si próprias. Raciocinam de acordo com o que recebem de informações, sem a preocupação em verificar a comprovação necessária dos fatos como são oferecidos. Tornam-se submissos à cultura política predominante na empresa detentora da veiculação da notícia, assumindo uma postura passiva e acrítica diante da realidade que teima em ignorar. Todos os temas de interesse social são tratados com o viés político.

Estamos, portanto, expostos ao perigo da manipulação de nossas consciências. As pautas jornalísticas são elaboradas de forma a influenciar na interpretação dos fatos, desprezando o interesse em atuarem a serviço da verdade. E não é fácil ficar imune ao poder de interferência na nossa capacidade de formar juízos de valor a respeito dos acontecimentos que nos são transmitidos por essa mídia manipuladora. Por trás da notícia tem muita coisa que propositadamente nos é negado o direito de conhecer.
 


Meu coração não se cansa de ter esperança

 

Há uma declaração de Paulo Coelho que eu acho genial: “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que realize o desejo”. Por isso que a chama da esperança nunca pode se apagar. É preciso acreditar, encarar os projetos idealizados com otimismo. Não deixar nunca ser dominado pelo tempo do medo. A esperança nascida da consciência ganha força.

Não há nada pior do que perder a fé no futuro. Nada se faz realidade quando não se corre o risco de viver os sonhos imaginados. Jamais devemos perder a coragem de lutar contra os desafios do momento. As dores circunstanciais não podem servir de desculpas para desistências ou omissões. Antes pelo contrário deverão servir de experiências que fortaleçam o ânimo.

Vivemos hoje um momento de preocupações, a angústia de não saber para onde estamos caminhando. Daí a razão de estabelecer a esperança como elemento de energia para a luta. Não se dobrar ao peso das desilusões e das decepções. O Brasil passa por uma fase de sua história que assusta. No entanto, não é hora de baixar a guarda. È ocasião para acreditar nas mudanças, na retomada do caminho de felicidade nacional, na reconquista da autoconfiança.

Eu não quero, sob hipótese alguma, perder a esperança. Ainda que os acontecimentos teimem em fragiliza-la, eu não me curvarei diante das intempéries. Termino pois essa proclamação de otimismo fazendo uso de uma estrofe da canção revolucionária de Vandré: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. A esperança não combina com passividade, ela exige esforço, entusiasmo, intrepidez, no enfrentamento das contrariedades. Meu coração então não se cansa de ter esperança, apesar dos pesares.


 


As instituições em frangalhos

 

Tomo por empréstimo o título do histórico editorial do Estadão, publicado no dia em que era baixado o Ato Institucional número 5 (AI-5), escrito pelo jornalista Júlio Mesquita Filho, para refletir um pouco sobre a atual situação que estamos vivenciando no Brasil. Muito mais do que uma crise política ou econômica, o mais preocupante é a percepção de que estamos diante de uma grave crise institucional.

Nada mais perigoso para os ideais democráticos do que constatar que as instituições passam por um processo de rápido descrédito perante o povo. Estão se desfigurando, perdendo a noção de suas verdadeiras funções, comprometidas pela prática de ações que contrariam a ética e a moral. Os escândalos que se sucedem ferem de morte a credibilidade do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. A judicialização na política fragiliza os valores das instituições democráticas.

A Praça dos Três Poderes é cenário de um espetáculo que inquieta a todos. Ora se estabelecem confrontos entre eles, ora se associam na definição de posturas que atendem às conveniências políticas. Lamentavelmente ficam expostos a uma relação de promiscuidade no atendimento de interesses que nem sempre são, necessariamente, os da ordem constitucional, como deveria ser.

O povo começa a ficar sem saber a quem recorrer na busca da satisfação de suas demandas. E aí reside o grande perigo. As experiências pretéritas de crises institucionais ocorridas ao longo da nossa história não tiveram bons desfechos. A democracia no seu sentido mais verdadeiro não convive com as crises institucionais. Se as instituições não funcionam da forma como se espera e de acordo com o que está definido como responsabilidades e competências de cada uma delas, promove-se a desordem, o caos, a anarquia. No momento em que elas deixam de cumprir bem as suas funções, põem em risco o Estado Democrático de Direito e o exercício pleno da cidadania.

Não quero fazer uma previsão apocalíptica do nosso futuro, mas não podemos fugir de um sentimento de desassossego com o que estamos assistindo. Tomara que nossos agentes políticos, em todos os níveis de exercício de poder, despertem para essa realidade e se ajustem na observância de respeito aos valores das instituições que formam os pilares de nossa democracia, os poderes executivo, legislativo e judiciário. Independentes, autônomos, mais aliados num só objetivo: trabalhar em favor do Brasil e dos brasileiros.
 


Os primeiros efeitos do AI-5

(vale a pena relembrar para que ninguém deseje que a história se repita)

O Brasil amanhecia o dia quatorze de dezembro de 1968 mergulhado nas trevas da ditadura militar. Marco zero de um tempo da nossa história onde por dez anos 1.577 cidadãos foram punidos de alguma forma, 454 políticos tiveram seus direitos suspensos ou mandatos cassados, inclusive 3 ministros do STF, 548 funcionários públicos foram aposentados compulsoriamente, 334 demitidos, 241 militares reformados, mais de 500 filmes e telenovelas foram proibidos, 450 peças teatrais, 200 livros e 500 letras de música censurados.

A ação repressora começou, na verdade, bem antes da edição do AI-5. No dia treze, agentes da Polícia Federal já visitavam as residências de lideranças estudantis e sindicais na Paraíba. À noite, o estudante Francisco Barreto, fora procurado em sua casa, refugiando-se na casa de amigos, ao tomar conhecimento de que estavam procurando localizá-lo.

As emissoras de TV, as rádios e redações dos principais veículos de comunicação do país foram ocupados por censores. Mesmo assim, o Jornal do Brasil e o Estado de São Paulo encontraram formas de ludibriar a censura. O JB na sua seção de meteorologia colocou: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx. 38 graus em Brasília; 5 graus nas Laranjeiras”. Em sua primeira página, editada por Alberto Dines, que viria a ser preso depois, lembrava que a véspera tinha sido o “dia dos cegos”. O Estadão trouxe um editorial “Instituições em frangalhos”, considerado um libelo
pela liberdade da imprensa. O cartunista Maurício de Sousa, o “pai” da Mônica, nas suas tirinhas publicadas na Folhinha, colocava, naquele dia, quadrinhos em que Cascão ao entrar na tenda de um adivinho e pedir para ler seu futuro, ouve como resposta de que não vai ter adivinhação, pois uma nuvem preta apareceu na bola de cristal. Eram formas subliminares de protestar contra o AI-5.

O humorista Ary Toledo, na estreia do espetáculo A CRIAÇÃO DO MUNDO SEGUNDO ARY TOLEDO, encerrou seu show com uma piada: “Quem não tem cão, caça com ATO”. Foi o bastante para ser convidado para uma “conversa” no DOPS, intimado por dois agentes que invadiram seu camarim. Ficou por cinco horas trancado na
delegacia. Por sorte, o coronel com quem manteria a “conversa” revelou-se seu fã e o liberou não sem antes passar-lhe um pito.

Sobral Pinto, aos setenta e cinco anos, foi preso em Goiânia, no hotel, onde se encontrava para paraninfar uma turma de concluintes. O ex-presidente Juscelino Kubitscheck participava, também, de uma solenidade de formatura em que era paraninfo da turma, quando ao sair do Teatro Municipal do Rio de Janeiro recebeu ordem de prisão e foi levado para um pequeno quartel em Niterói, lá permanecendo incomunicável por vários dias.

Carlos Lacerda conta no seu livro de memórias que acordou no dia seguinte ao AI-5 com o médico Jaime Rodrigues sentado à cabeceira da sua cama. E ele foi logo dizendo: “Tenho uma notícia desagradável para o senhor. Estão lá embaixo dois homens da polícia que vieram com ordens de prendê-lo. Mas o senhor está doente e não pode ir para a prisão no estado em que se encontra. Exigi que viesse um médico da polícia para examiná-lo e verificar que o senhor não está em estado de saúde para ser preso”. Lacerda ouviu, trocou de roupa e disse que não queria alegar doença. E o médico foi junto com ele numa Kombi da polícia. Estava sendo preso por ordem do General Jayme Portella. Após uma semana de greve de fome foi libertado.

Mário Covas foi preso ainda em Brasília, ficando num quartel do Exército, ali permanecendo por oito dias. Libertado, manifestou preocupação pelo fato de que seu nome não constava da lista dos primeiros políticos cassados pelo regime, o que só viria a acontecer em 16 de janeiro de 1969. Temia, naquele instante, que a opinião pública entendesse que ele teria feito algum acordo com os militares.

• Esse texto integra o livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”, de minha autoria, lançado em 2013, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba.
 


Calou-se a voz que a ditadura não conseguiu silenciar

 

Encerrou-se ontem a vida terrena de um dos mais dignos brasileiros, Dom Paulo Evaristo Arms, conhecido como o Cardeal da Resistência. Só a morte poderia fazer silenciar a voz de quem se dedicou durante toda a vida pastoral a defender os pobres, os oprimidos, os perseguidos pelos poderosos. Tornou-se o ícone da igreja progressista no Brasil.

Foi durante o período da ditadura militar que protagonizou os mais importantes episódios em defesa dos direitos humanos, ao reagir contra a repressão política de época, assumindo a posição de combate à truculência que marcava a forma de administrar dos que estavam no poder. Com sua voz mansa, transmitindo em qualquer situação um espírito de tranquilidade, não temia em denunciar as arbitrariedades do regime, nem se submetia às intimidações dos generais.

Houve uma ocasião em que procurou o presidente Médici para reclamar da forma violenta com que os agentes do Estado agiram ao prender dois servidores da pastoral. Recebeu uma resposta enfurecida do general-presidente: “Não temos o que conversar. Sabemos o que temos que fazer. O seu lugar é na igreja, na sacristia, e o meu é aqui para governar o país”. Essa reprimenda mal-educada em nada intimidou o prelado, que continuou na sua luta contra as torturas e os assassinatos que aconteciam no Brasil de então.

Em 1975, ao lado do pastor presbiteriano Jaime Wrigh e o rabino Henry Sobel, realizou um culto ecumênico em homenagem póstuma ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI de São Paulo, levando mais de dez mil pessoas para assistir à cerimônia. Nasceu ali a ideia do projeto BRASIL – NUNCA MAIS, que produziu farta documentação sobre a história do Brasil, nos anos finais da ditadura militar implantada na década de sessenta. São mais de um milhão de páginas, 707 processos do Superior Tribunal Militar, que permitiram a edição do livro que recebeu o mesmo título do projeto.

Não conseguiu viver em palácios, vendeu o que lhe era reservado quando arcebispo de São Paulo, e utilizou o dinheiro na construção de casas de assistência social na periferia. Gostava mesmo de conviver com os humildes,

Sua obra humanitária recebeu o reconhecimento do mundo inteiro. Se a sua voz destemida em favor dos humildes e dos oprimidos não mais será ouvida, fica seu exemplo de vida, onde ressalta uma energia vibrante de coragem, quando pregava a esperança aos que estavam sofrendo, postando-se ao lado dos que estavam sendo injustiçados, tornando-se companheiro dos que estavam desamparados. Pena que essa voz veemente em favor da democracia cale-se exatamente num momento em que vivemos uma crise ética e moral tão grave, que nos oferece insegurança quanto ao futuro da nação. Ficamos órfãos de um dos guardiões da democracia brasileira.