Figueiredo: presidente e Burity: governador

 

A data de 15 de março de 1979 trouxe aos brasileiros a expectativa de que começaríamos a viver um novo tempo. Tomavam posse o novo presidente da república e os novos governadores. Era unânime nos discursos proferidos ao assumirem, o compromisso de agirem em favor da redemocratização, ainda que todos tenham alçado o poder beneficiados pelas regras da ditadura militar.

João Batista Figueiredo prometia manter-se no “inabalável propósito de fazer do Brasil uma democracia”. Afirmou empenhar-se por desenvolver ações que oferecessem melhores condições de vida para o povo, assim como promover uma distribuição menos injusta da riqueza nacional. Jurou trabalhar para diminuir as desigualdades sociais e buscar o equilíbrio da dívida externa. Comprometeu-se em “sustentar a independência dos poderes do Estado e sua harmonia, fortalecendo para que chegasse à sua plenitude”.

Poderia ser um discurso demagógico de político, o que estávamos acostumados a ouvir, mas, de qualquer forma, nos dava a esperança de que finalmente estaríamos saindo do regime totalitário a que fomos subjugados pelo golpe militar de 1964. Soprava o vento da liberdade e do respeito à cidadania.

Sentimento igual nos proporcionou o pronunciamento da solenidade de posse do novo governador da Paraíba, Tarcisio Burity. Nem parecia um discurso de arenista, eleito pelo voto indireto. Começou dizendo que governaria com o povo, pois somente o povo poderia ser o juiz de sua administração, porquanto dele emana o poder político da Nação. Exaltou a democracia e pregou a liberdade. Defendeu as garantias individuais e de segurança coletiva. Apresentou-se como um governante que se afirmaria implacável no combate à criminalidade. Fez um chamamento à unidade partidária e reconheceu a legitimidade da oposição. Assegurou prestígio ao funcionário público.

A composição do seu secretariado oferecia credibilidade, considerando o nível técnico e profissional dos que havia convocado para ajudá-lo a governar. Podemos destacar nomes como Marcos Ubiratan nas Finanças, Amaury Pinto no Planejamento, Hermano Almeida nos Transportes, Humberto Freitas na Agricultura, entre outros.

A história nos mostrou que nem todas as promessas foram cumpridas. Entretanto, não há como negar de que a partir daquele dia passamos a respirar os ares da democracia. Estava findando a ditadura. Foram os últimos governantes eleitos sem que representassem a manifestação de escolha popular através do voto direto.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 


Sivuca

 

Pesquisando jornais dos últimos anos da década de setenta me deparo com uma declaração do teatrólogo, cineasta e escritor José Bezerra Filho, sobre a personalidade do paraibano Severino Dias de Oliveira, internacionalmente conhecido pelo nome artístico de Sivuca. Assim ele se expressou: “Quero manifestar a enorme alegria em receber mais uma vez a figura simples de um gênio transformado em sanfoneiro que ainda não perdeu o sotaque do continente de Itabaiana. Tanto faz ele estar no Rio, em seu apartamento de Copacabana, oferecendo uma rede de franjas nordestina, como estar em Nova Iorque, ou aqui em minha casa, bebendo água de côco, que ele mesmo faz questão de tirar do pé, ou então comendo feijão verde com carne de sol, no alpendre da casa de Félix Galdino”. O que representava dizer que nunca se deslumbrou com o sucesso, mantinha o mesmo comportamento simples tão próprio dos nordestinos.

José Bezerra falava de Sivuca com a autoridade de quem desfrutava de uma relação muito próxima. Tomei conhecimento recentemente que ele e dona Aracy foram os responsáveis por promoverem o seu casamento com Glorinha Gadelha. A afirmação publicada na imprensa paraibana vinha a propósito da chegada de Sivuca à nossa Capital em dezembro de 1978 para um show artístico no Teatro Santa Roza. O famoso artista paraibano sempre que voltava à Paraiba ia visitá-lo.

Veio à lembrança de que me fiz presente àquele espetáculo musical que, como não poderia ser diferente, provocou em todos os que se encontravam no auditório um sentimento misto de admiração pelo extraordinário talento do sanfoneiro paraibano e de orgulhosa satisfação pela oportunidade de presenciar sua performance artística.

Nosso conterrâneo, em razão da sua excepcional desenvoltura no uso de um instrumento eminentemente nordestino, fez com que a sanfona se tornasse apreciada na Europa e nos Estados Unidos. Em fins dos anos cinqüenta decidiu aventurar-se no Velho Continente: “Fui só com a coragem. Não conhecia ninguém, mas não foi difícil porque estava no auge da bossa-nova e o artista brasileiro era muito bem recebido”. Fez enorme sucesso ao tempo em que morou na França, onde chegou a lançar cinco discos.

A saudade de sua terra motivou a volta ao Brasil em 1964. Chegou num péssimo momento, nosso país vivia a turbulência política consequente do golpe militar que atingia de morte nossa democracia. Isso fez com que aqui demorasse pouco. Mudou-se para os Estados Unidos, onde permaneceu por onze anos.

Em 1976 retornou em definitivo, período em que já se enxergava claras sinalizações de que estávamos a caminho da redemocratização. Passou então a vir mais vezes à Paraiba, uma vez que nunca perdeu sua identidade com as origens.

Alguns anos mais tarde, por ocasião dos eventos comemorativos do IV Centenário da Paraíba, quando atuei como Secretário Executivo da Comissão Organizadora da programação, sob o comando do historiador José Otávio de Arruda Mello, tive a honra de acompanhá-lo numa viagem a Campina Grande, oportunidade em que pude conhecê-lo mais de perto. Mas isso é assunto para quando relatar os acontecimentos do ano de 1985.

Precisamos prestar a esse conterrâneo ilustre as homenagens que ele fez por merecer. Há em curso um esforço no sentido de instalar em nossa cidade um museu que resgataria a memória de sua vida e de sua obra. Esse projeto está capitaneado pelo jornalista e empresário cultural Walter Santos. Faz-se necessário o apoio de todos os paraibanos a essa iniciativa, principalmente dos poderes públicos de nosso estado.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II"


 


A eleição que deu início à redemocratização

 


Em outubro de 1978 assistíamos mais uma eleição indireta para Presidente da República. No entanto, havia um clima de esperança no futuro próximo, porque era evidente que a ditadura estava acabando. O regime militar se via acossado pela oposição que se organizava com apoio popular e pela grave crise econômica que o país enfrentava.


Entre as forças militares já havia uma forte dissidência e o governo percebia que tinha perdido a unanimidade que lhe dava sustentação. O general Hugo Abreu liderava a movimentação política dos oficiais que divergiam da cúpula que governava a nação. Surgia então o nome do general Euler Bentes como opção de candidatura oposicionista pelo MDB.


Ulysses Guimarães e Tancredo Neves compreenderam que o lançamento de uma chapa comandada por um militar facilitaria a transição democrática e dividiria os militares. Criaram a Frente Nacional da Redemocratização, confirmaram a candidatura do general Euler Bentes, tendo como companheiro na disputa o senador Paulo Brossard, e foram às ruas como se a eleição fosse pelo voto direto. Mas era uma forma de pressão sobre os membros do colégio eleitoral.


Por um lado o general da oposição apresentava a proposta de que “teríamos um governo de três anos, que iria operar, a partir de março de 1979, a transição do estado de arbítrio para o estado de direito, pleno e, sobretudo, legítimo (o que hoje querem acabar), e tão logo assumisse o poder, revogaria todas as exceções e restauraria todas as liberdades, promovendo a mais ampla e livre discussão dos grandes problemas nacionais”. De outra parte, os acenos pela volta á democracia já eram sentidos desde a declaração de Ernesto Geisel em executar a transição lenta, gradual e segura, promessa reafirmada por seu candidato, o general João batista Figueiredo. Isso alimentava uma expectativa otimista, pois ambos os postulantes à presidência, se comprometiam em serem os últimos militares a exercer a chefia do executivo nacional.


No dia quatorze de outubro o Colégio Eleitoral aprovou a escolha do candidato escolhido pelo presidente Geisel, com o registro de 355 votos em favor de Figueiredo e seu vice Aureliano Chaves, contra 226 sufrágios de apoio à chapa Euler/Brossard.


Já eleito, Figueiredo foi interpelado por um jornalista sobre quais eram os seus propósitos em relação à abertura democrática, ao que respondeu, bem ao seu estilo: “Você acha que sou um mentiroso? Há quatro meses que não faço outra coisa, a não ser prometer a abertura. Na hora em que sou eleito, você vem me perguntar se é verdade! Imagine o que o brasileiro pensaria se dissesse que iria refletir melhor. É para abrir mesmo, e quem quiser que não abra, que eu arrebento, não tenha dúvida”.


A verdade é que, apesar da forma em que se procedeu aquela eleição, sem a participação do povo pelo voto, o Brasil iniciava ali um novo tempo da sua história, e começávamos, efetivamente, a caminhar em direção ao retorno da vida democrática.


• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.



 


A boate "Pasárgada"

 

O espírito empreendedor e a ousadia empresarial que Marcos Pires herdou de seus pais Adrião e Creusa Pires, foram responsáveis pela idéia da construção da boate Pasárgada, que marcou época na vida noturna de nossa cidade nos anos setenta. Ela nasceu com seu tempo de existência já definido, duraria apenas um ano, conforme declara o próprio Marcos Pires: “Na verdade a intenção era executar uma estratégia de marketing voltada para divulgação do futuro Parque Residencial Pasárgada, a ser construído no terreno onde seria instalada a boate, na Avenida Epitácio Pessoa. Não havia o interesse comercial tão comum nas casas desse ramo”.


Durante o período em que reinou absoluta na programação social da noite pessoense, entre setembro de 1977 e dezembro de 1978, a boate Pasárgada tornou-se uma referência em ambientes do gênero no Nordeste. Foi projetada de forma a ser desmontada quando cumprisse seus objetivos. Os responsáveis por sua concepção arquitetônica foram o ex-prefeito Luciano Agra e o pernambucano Jorge Ho-chi-min. Construida abaixo da superfície, portanto enterrada. Seu dancing de forma ovalada, era ladeado por cachoeiras, com piso transparente sobre um lago artificial, o que lhe dava características singulares.


Funcionava apenas nas noites de sexta e sábado. O serviço de bar oferecia aos seus freqüentadores apenas uísque escocês e vinhos finos importados. Aos que permaneciam até a madrugada era servido um espaguete como cortesia. Foi a primeira boate com ar refrigerado da Paraíba e também pioneira na oferta de manobrista para seus usuários.


A sua inauguração teve cobertura jornalística da Revista Manchete que enviou o seu fotógrafo oficial Idalécio Wanderley, acompanhado das cinco mulheres mais bonitas do Brasil na época, entre elas Rose de Primo.


Entre as candidatas a Miss Paraiba de 1977 estava uma linda jovem de nome Luciana Cantisani, representando a Boate Pasárgada, ficando entre as três primeiras classificadas.


No final de 1978 a boate foi desmontada para dar lugar à construção do Parque Residencial Pasárgada, sendo o primeiro edifício com apartamentos tipo “duplex” na Paraíba. Como era de se esperar, o empreendimento imobiliário foi um sucesso vendendo todas as unidades em tempo recorde, graças principalmente ao prestígio conquistado pelo sucesso da boate, conforme previra o seu idealizador, Marcos Pires.

Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.


 


Paraibanos reagiam à prisão de um seu conterrâneo

 

Embora fossem claras as manifestações de vontade do presidente Geisel em promover a abertura democrática no país, de vez em quando éramos surpreendidos com a repetição de prisões e torturas de pessoas sob o argumento de que seriam subversivas. Foi o que aconteceu em Recife com o estudante paraibano Edval Nunes da Silva.

Cajá, como era conhecido por sua condição de cajazeirense, foi seqüestrado pelas forças militares da ditadura no dia treze de maio de 1978 e estava sendo mantido em regime de incomunicabilidade, certamente submetido a sessões de tortura. Ele era aluno da Universidade Federal de Pernambuco. Integrava a Equipe Pastoral da Juventude Regional do Nordeste e participava da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife.

Ao tomar conhecimento do fato, a Arquidiocese da Paraíba decidiu realizar um ato público de protesto, sob a coordenação de Dom Marcelo Carvalheira, bispo auxiliar. Na Assembléia Legislativa o deputado Bosco Barreto, conterrâneo do jovem preso, discursou convocando os paraibanos a se incorporarem a essa manifestação, programada para a noite do dia vinte. O parlamentar lamentava que “ainda existissem no país essas aberrações jurídicas, com pessoas sendo injustificadamente sendo presas e torturadas”. O deputado Paulo Gadelha também convidava todos a participarem “desse ato de fé e solidariedade humana”.

O chamamento de Dom Marcelo para o evento dizia que a prisão de Cajá era “uma atitude contra toda a Igreja do Nordeste e todos aqueles que lutam em defesa dos oprimidos. Esse ato de violência deixa evidente para todos nós que ainda vivemos em tempos de perseguição e de negação dos direitos humanos mais elementares”.

Às dezenove horas, após a celebração de uma missa, o grande público que se fazia presente ao Adro da Igreja São Francisco, iniciou uma passeata pela rua Duque de Caxias até o Ponto de Cem Réis, retornando pela General Osório até a Praça do Bispo. Os religiosos caminhavam com suas vestes litúrgicas. Uma comitiva de estudantes pernambucanos veio para participar da atividade de protesto contra a prisão do seu colega e a exigência da sua soltura. Os manifestantes cantavam as canções “Caminhando” e “Disparada” de Geraldo Vandré durante todo o trajeto da caminhada.

Era a demonstração de que estava cada vez mais acesa a chama da luta em favor da redemocratização e que a população não aceitava mais os procedimentos truculentos e cruéis que marcaram os anos sombrios da ditadura militar.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 


 


O dia em que Zé Américo ameaçou deixar a Paraíba

 

A notícia caiu como uma bomba no Estado. No dia cinco de maio de 1978 o Ministro José Américo de Almeida, em entrevista concedida a um jornal do sul do país, manifestava seu desejo de deixar a Paraíba, anunciando que estaria no propósito de vender sua mansão no Cabo Branco e fixar residência em Petropólis, no Rio de Janeiro. A decisão teria sido tomada em razão de algumas declarações de aliados políticos de Milton Cabral e Antônio Mariz, preteridos na escolha para o governo estadual. Acusavam o Ministro de ter trabalhado em favor da indicação de Burity, queimando os dois outros nomes.

Assim se expressou José Américo ao declarar sua mágoa com a acusação que lhe faziam: “Nessa altura da vida, preciso, acima de tudo, de paz de espírito. Por isto abandonei a política que é, por seu estilo, trepidante. O pior dos desgostos emocionais é a indignação. E nada nos fere mais que a injustiça. Tenho feito tudo para alhear-me da vida partidária, que não tem nada a oferecer-me, por que não aceito. Esperava levar aqui uma vida tranqüila, lendo e escrevendo. Infelizmente, porém, por mais que vivesse retirado da política, sem nenhuma ambição, lançam-me a culpa de atos que sou incapaz de praticar. Na idade extrema em que estou, preciso resguardar-me de emoções e a pior delas é a indignação”.

Como era de se esperar, a proclamação de desgosto feito por ele publicamente, causou preocupação em todos os paraibanos que o consideravam uma referência política e intelectual do nosso povo. Foram imediatas as reações no sentido de dissuadi-lo dessa intenção. Parlamentares de todos os partidos formularam apelos para que o Ministro reconsiderasse a decisão tomada, num impulso emocional de desencanto com a política praticada em nossa terra.


Na Assembléia Legislativa, seu presidente, deputado Nominando Diniz, liderou movimento nesse sentido, afirmando: “José Américo, que é nosso orgulho, não pode deixar a terra que o viu nascer e que a serviu com amor e devotamento. O meu apelo traduz os anseios de toda a Paraíba”. O deputado Manoel Gaudêncio, um dos mais destacados aliados de Antônio Mariz, declarou: “Em conseqüência de um mal entendido, não se pode pensar em José Américo deixando a Paraíba”. Seguiram-se manifestações de apoio ao pedido para que o Ministro desistisse dessa idéia de abandonar nosso Estado por vários parlamentares, entre os quais, Antônio Montenegro, Soares Madruga, Francisco Soares, Frei Marcelino, Rui Gouveia e Edme Tavares.

O presidente da Academia Paraibana de Letras, Aurélio de Albuquerque, organizou uma comitiva de acadêmicos que se direcionou à residência de José Américo, na tentativa de demovê-lo dessa vontade. O grupo era formado pelo Ministro João Lyra Filho, desembargador Mário Moacir Porto, escritor Juarez da Gama Batista, poeta Celso Novaes, professor Afonso Pereira, Lauro Xavier e Eugênio de Carvalho. Ao final do encontro o presidente teria perguntado: “Ministro, o senhor não pode dar uma declaração assim como o “Fico”?. Ao que ele respondeu: “Fico não, ficaram-me”.

Enfim parecia que José Américo havia se sensibilizado com o apelo dos paraibanos e decidira permanecer morando no Cabo Branco, no local onde hoje funciona a Fundação que leva seu nome. E foi o que efetivamente aconteceu.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.


 


O adeus a Ruy Carneiro

 

Durante todo o mês de julho de 1977 a Paraíba acompanhava com preocupação as notícias sobre o estado de saúde de um dos mais importantes líderes políticos de sua história, o senador Ruy Carneiro. Mas no dia vinte chegava a informação que todos temiam, ele havia falecido às dezessete horas no Hospital de Base de Brasília, vítima de uma diverticulite.

O clima em nosso Estado foi de consternação. A população passou então a esperar a chegada do corpo para prestar-lhe as últimas homenagens. Antes porém do deslocamento do féretro para a nossa Capital, Ruy Carneiro foi velado no Senado, onde seus companheiros de parlamento ofereceram-lhe honras póstumas. Embora atuando politicamente em oposição ao governo, o Presidente Geisel foi também reverenciar a figura daquele destacado homem público paraibano.

Às onze horas do dia seguinte à sua morte, o esquife foi transladado para João Pessoa, em avião da FAB. Acompanharam na aeronave, além dos parentes mais próximos, os senadores Petrônio Portela e Leite Chaves. O médico Carneiro Arnaud, que esteve presente junto ao seu leito de hospital nos seus últimos dias de vida, também se incorporava à comitiva do avião.

Por volta de quinze horas a aeronave pousava no aeroporto Castro Pinto, onde já era aguardada por um público estimado em torno de quatro mil pessoas. O caixão mortuário, coberto por uma bandeira da Paraíba, foi transportado em carro aberto, em cima de um caminhão do Corpo de Bombeiros, sendo aclamado e aplaudido nas ruas em que passava. A Avenida Cruz das Armas ficou tomada nos dois lados, com as pessoas acenando e chorando na saudação ao seu líder. Permaneceu em câmara ardente no Palácio da Redenção pelo resto do dia e toda a noite. Filas intermináveis foram formadas para que o povo pudesse dar-lhe o último adeus. Os deputados Bosco Barreto e Ruy Gouveia ficaram todo o tempo ao lado do esquife.

Na manhã seguinte, a cidade, com o comércio, repartições públicas, escolas e bancos fechados, assistiu ao funeral do Senador Ruy Carneiro. Uma multidão calculada em cinqüenta mil pessoas acompanhou o séquito até o cemitério Senhor da Boa Sentença. Em alguns instantes cantavam a música Maringá, composta por Joubert de Carvalho, em 1931, a seu pedido quando exercia o cargo de oficial de gabinete do Ministro da Viação, José Américo de Almeida, que abordava o problema da seca do Nordeste e citava sua terra natal, Pombal. O arcebispo Dom Marcelo Carvalheira presidiu as cerimônias religiosas encomendando o corpo.

O presidente Geisel telefonou para o Governador Ivan Bichara solicitando que o representasse no sepultamento, oportunidade em que fez uso da palavra. Falou também na ocasião o deputado Marcondes Gadelha.

Expressões da política paraibana declararam sentimento de pesar com o falecimento do senador paraibano, entre eles alguns adversários políticos. Ernany Sátiro: “Ruy Carneiro foi o maior fenômeno eleitoral que a história da Paraíba registrou desde a época da redemocratização”. João Agripino: “Poucos homens puderam igualá-lo em bondade e vocação para o serviço público”. Pedro Gondim: “Ruy simbolizava a imperecível força da bondade em contraposição ao poder eventual da força”. No Senado foi substituído por Ivandro Cunha Lima.

Uma frase proferida na sua campanha para governador ficou gravada na memória popular e até hoje é tida como referência da sua personalidade política: “Forte é o Povo”.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 


O novo Botafogo, com a estrela vermelha

 


A inauguração do estádio Almeidão fez com que se levantasse uma expectativa de melhoria das equipes de futebol da Capital, com participação em certames regionais e nacionais, uma vez que já dispúnhamos de uma praça de esportes com capacidade para receber grande público.


Coincidentemente nessa época, em meados dos anos setenta, o empresário paulista José Flávio Pinheiro Lima instalava em João Pessoa uma grande indústria de adesivos. Aqui chegando demonstrou interesse em participar da diretoria do Botafogo, nosso time de maior torcida na Paraíba. Era um apaixonado por futebol, sendo, inclusive, conselheiro do São Paulo, clube do qual era torcedor fanático.


Era tudo o que o Botafogo precisava. Alguém com experiência na administração de um time de futebol, disposto a investir na formação de uma equipe competitiva e muito bem relacionado com a imprensa nacional dedicada ao noticiário esportivo. O Conselho Deliberativo do “Belo” percebeu a excelente oportunidade que se apresentava e o elegeu Presidente do clube.


Ao lado de José Flávio, compondo a nova diretoria, estavam: Sérgio Penazzi como vice-presidente, o radialista Laerson de Almeida na diretoria de futebol, Luis Duarte (Luisão) como diretor de patrimônio e Fernando Milanez Filho na diretoria de relações públicas. A posse dos novos dirigentes do Botafogo aconteceu numa tarde de domingo em pleno estádio, antecedendo a partida amistosa em que o “Belo” enfrentou o Santa Cruz de Recife, cujo placar ficou no zero a zero. Prestigiaram o ato, o governador Ivan Bichara, diretores do São Paulo Futebol Clube, cronistas esportivos paulistas, especialmente convidados, e um grande público que lotou as arquibancadas.


Foi um dia inteiro de festa. Iniciado com a celebração de uma missa em ação de graças na Catedral, por iniciativa da TOB – Torcida Organizada do Botafogo, que inclusive presenteou o novo presidente com uma caneta banhada a ouro para assinatura do termo de posse. Após a missa os torcedores saíram em ruidosa e animada passeata até o estádio Almeidão, ao som da Orquestra do Maestro Vilôr.


Iniciava-se, portanto, na primeira semana de fevereiro de 1976, a “era José Flávio” no Botafogo. Contratou vários jogadores do cenário futebolístico nordestino, entre os quais Salvino (goleiro), Fantick (que viria a jogar no Santos de Pelé depois), Evandro, Benício, Baltazar. Usando de seu prestígio junto à diretoria do São Paulo trouxe de lá, por empréstimo, quase que um time inteiro: Zé Carlos, Piau, Péres e Mauro, e alguns atletas que estavam despontando na categoria de base da equipe, como Vinicius, Zé Luis, Lucas, Roberto Viana e Muller.


Na condição de tricolor paulista, acatou com muita satisfação a idéia do radialista Ivan Tomás em dar cor vermelha à estrela do seu escudo, diferenciando-o do seu homônimo carioca.


Esse time realmente marcou um novo tempo na história do futebol paraibano, dirigido por Pedrinho Rodrigues. Foi um ano de glória para o “Belo”, ensejando a que passasse a ser conhecido e respeitado em todo o Brasil. Pode se dizer, sem medo de errar, que a história do Botafogo paraibano se divide em dois períodos distintos: antes e depois de José Flávio.
Quando voltou para a capital paulista, deixou seu filho como herdeiro dessa paixão pelo Botafogo, chegando inclusive também a presidir o clube.


Estive presente na festa da posse e ,a partir de então, acompanhava o time onde ele fosse jogar, no interior ou fora do Estado. Boas recordações.

A “estrela vermelha” então passou a brilhar.


• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.

 


A instabilidade emocional

 

A pressão do mundo moderno, onde a sociedade de consumo nos impõe formas de viver, faz com que estejamos sempre com o estado de ânimo afetado pelos eventos do cotidiano. Perdemos o equilíbrio emocional por qualquer motivo. Somos vítimas do estresse, do cansaço, da tensão, da ansiedade, e por isso mesmo vivemos em constante variação de humor.

A instabilidade emocional é um mal da contemporaneidade. Há uma tendência muito forte de nos deixarmos influenciar por acontecimentos transitórios, o que nos faz sair de um sentimento de alegria para o de tristeza em momentos, reagir com intolerância facilmente, revidar ofensas e cultivar rejeições com frequência. Em conseqüência, adoecemos física e mentalmente. E o que é pior, passamos a duvidar da nossa própria identidade, perdemos a autoestima.

Convivemos diariamente com pessoas que têm um comportamento explosivo permanente. E fica difícil adotarmos uma postura de compreensão nesses momentos de conflito, então entramos também na mesma situação de instabilidade emocional dos que não sabem controlar suas atitudes. Essa flutuação de temperamento concorre para que ajamos de forma imprevisível e por impulsos, sem medir consequências de nossos atos.

A melhor forma de evitar essa inconstância de humor é estabelecer a capacidade de diálogo como determinante no modo de viver em sociedade. Como também ser realista quanto às expectativas construídas e se esforçar para entender a personalidade das pessoas com quem convive.

Assim, com certeza, nos ajudaremos a manter um comedimento nas emoções. A tranquilidade de espírito só se alcança quando estamos estabilizados emocionalmente, não permitindo que as sensações negativas, expressadas por outros, nos atinjam buscando nos contagiar com os sentimentos positivos manifestados ao nosso redor.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”.

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O casal Adrião e Creusa Pires

 

Sempre tive uma admiração muito grande pelo casal Adrião e Creusa Pires. Conheci ambos ainda quando o ponto de comércio deles era na esquina da Avenida Maciel Pinheiro com a Barão do Triunfo. Nunca perderam o jeito simples de serem, mesmo nos tempos áureos como empresários. Seu Adrião era mais tranqüilo, mais contido nas suas manifestações emocionais. Dona Creusa, transbordava alegria, seu entusiasmo em tudo o que fazia era contagiante.

Em 1974 entregaram a João Pessoa sua primeira grande loja de departamentos: o Gran Pires. Lembro de ter presenciado um acontecimento bem interessante, que marcava a sensação de que nossa capital estava adquirindo ares de metrópole, progredindo, modernizando-se. Um grande caminhão desfilou pelas ruas do centro exibindo a escada rolante que seria instalada no estabelecimento comercial prestes a ser inaugurado. Uma grande novidade para todos nós. O público via aquele equipamento com curiosidade e ansiedade em vê-lo funcionando.

Em dezembro o casal promoveu a inauguração da loja, que a população passou a apelidar de “Pirão”. O prédio foi construído no Parque Solon de Lucena, onde até pouco tempo funcionava a Esplanada, cujo projeto tinha a assinatura do arquiteto Carlos Alberto Carneiro da Cunha. Um avião da Transbrasil foi fretado para trazer os inúmeros convidados vindos do Rio e São Paulo. Ficaram hóspedes do Hotel Tambaú e cumpriram uma movimentada agenda no dia do evento de abertura festiva daquele centro comercial. Almoçaram no Bar de Onaldo e jantaram no restaurante O Circo, finalizando a noite participando de um coquetel nas dependências da loja.

Houve uma época em que a mansão em que residiam, em Miramar, tornou-se o primeiro hotel de luxo de João Pessoa. Foram seus hóspedes os presidentes Castelo Branco e Costa e Silva, além de artistas famosos como Jô Soares, Vincius de Moraes, Roberto Carlos, Toquinho, Maria Creusa, etc. Embora recebendo em sua casa visitas tão ilustres, dona Creusa continuava a mesma, com sua forma de vestir sem ostentações, dando provas de que a singeleza pode muito bem conviver com a opulência, sem afetar a personalidade das pessoas. Eles faziam isso com uma extraordinária e impressionante competência.

Faço registro desse acontecimento na intenção de prestar minha homenagem a esses paraibanos que muito contribuíram para o desenvolvimento de nossa cidade e nos ofereceram o valioso ensinamento de que a fortuna não modifica os seres humanos do bem, nem os circunstanciais fracassos abatem os fortes, os que entendem que a riqueza patrimonial é apenas um detalhe, na verdade o que enobrece o indivíduo é sua formação moral e espiritual. . Vivenciaram o apogeu e a decadência, sem jamais perderem a postura digna de quem faz as coisas certas, convictos de que as adversidades devem ser encaradas com altivez, coragem e persistência.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.