O direito de ser diferente

 

O mundo contemporâneo tem nos imposto um grande desafio: conviver com a alteridade. Está cada vez mais difícil compreender o lugar do outro, aceitar as divergências, respeitar os pensamentos e opiniões discordantes. Principalmente quando o debate se estabelece na manifestação das convicções e ideias políticas.

Nessas ocasiões, movidos quase sempre por paixões, somos alcançados por sentimentos de irritação e aborrecimento, permitindo que as emoções falem mais alto. Perdemos o equilíbrio racional, e passamos a agir e falar por impulso, desprezando o necessário sentido da ponderação, do raciocínio lógico, do discernimento. As tensões políticas provocam ânimos acirrados e tendemos a definir negativamente tudo o que contrarie o nosso pensamento.

No entanto, nunca devemos dar oportunidade a que percamos o direito de ser diferente, porque assim estaremos abrindo mão do inalienável privilégio de ser livre. Desde que a colisão de ideias se dê buscando prevalecer a cultura do diálogo. Precisamos exercitar diariamente a nossa capacidade de aceitar as preferências que não se harmonizam com as nossas. Afinal de contas, pensamentos diferentes enriquecem o conhecimento. Esse é o princípio da boa convivência.

Não devemos nunca exigir que o outro se torne igual a nós. Afastar de vez o entendimento de que as diferenças sejam vistas como algo perigoso. É necessário estarmos sempre com o coração aberto para o caminho do entendimento, mesmo quando as desigualdades sejam bastante explícitas. Testarmos nossa sabedoria no enfrentamento de situações que colocam em risco as amizades por conta de discussões políticas.

Ser diferente é ter o modo próprio de refletir sobre as coisas e formar o seu juízo de valor. Ser diferente é ter a liberdade de seguir o caminho que escolheu, sem submeter-se às vontades alheias. Ser diferente é cogitar alternativas, recusando-se a assumir postura de “maria vai com as outras”, pelo receio de ser mal compreendido. Ser diferente é ter a percepção de que não deve caminhar com o rebanho, valorizando o senso crítico. Ser diferente é assumir suas singularidades como indivíduo. Ser diferente é resistir às influências ditadas pelos modismos ou pelos discursos persuasivos que desejam promover transformações na sua personalidade e na sua consciência.

Por isso, jamais abdicarei do meu direito de ser diferente. Todavia, vou, cada vez mais, procurar perceber e aceitar que os outros do meu convívio diário possam ser também diferentes. Se possível, aprender com essas diferenças. Porém, o mais importante, é não assentir que eventuais discrepâncias no pensar possam finalizar amizades.


 


O crime compensa?

 

Essa é a pergunta que me vem a cabeça toda vez que vejo um delator da Lava Jato ganhando vantagens processuais como recompensa por entregar os comparsas nos crimes que praticou. Sou de um tempo em que o ato de “delatar”, representava traição. Antes que os “apaixonados politicamente” me venham brindar com agressões e xingamentos pelo tema que trago à reflexão, devo dizer que meu intuito é apenas o de buscar uma resposta para esse questionamento.

Não consigo compreender que alguém que foi cúmplice de crimes gravíssimos seja “premiado” com a liberdade ao decidir delatar os parceiros das ações delituosas. Não me parece ético aceitar a ajuda de um criminoso. Qual o grau de confiabilidade que possa ser atribuído a um criminoso? É lícito valorizar a prova testemunhal de quem se presta ao papel de traidor apenas com o objetivo de ganhar benefícios na condenação?

Os delatores da Lava Jato estão por aí usufruindo do produto do roubo que praticaram, sem qualquer sentimento de arrependimento pelo que fizeram. Para eles, a conclusão é de que o “crime compensa”. Aqueles que continuam exercitando tais práticas criminosas, se espelham nessa evidência, para compreenderem que no momento em que forem flagrados na corrupção, poderão se valer da delação premiada para se livrarem da cadeia. Pouco importa se a atitude da delação possa ser questionada quanto aos conceitos de ética. Criminoso não tem ética, por sua própria personalidade. Bastará acusar os velhos cúmplices.

O instituto jurídico da delação premiada, ainda que se defenda a sua eficácia no desvendamento de organizações criminosas, não me parece justo, se encararmos a possibilidade de punir diferentemente pessoas que cometeram os mesmos crimes. Os traidores são beneficiados, enquanto os comparsas por eles “dedurados” cumprem penas mais rigorosas. Onde está a equidade da justiça? Além de ser um comportamento que, aceito pela sociedade, ensina que “trair” é uma saída honrosa para quem quer se livrar de condenações.

Continuo defendendo que, em nenhuma hipótese, o crime pode ser recompensado. Não vejo distinção entre o criminoso delator e o infrator delatado. Ambos devem sofrer as mesmas punições. Assistir famosos delatores gozando da liberdade, desfrutando do produto de suas práticas criminosas, é, no mínimo, ver os mais elementares princípios da ética e da moral que aprendemos ao longo do tempo, serem atacados de forma acintosa.

 


 


"O PETRÓLEO É NOSSO"

 

Na década de quarenta do século passado eram descobertas reservas de petróleo na Bahia, o que levou à deflagração de uma das mais memoráveis campanhas em defesa de nossas riquezas naturais. Uma frase pronunciada por Getúlio Vargas na oportunidade, fez nascer o lema “O PETRÓLEO É NOSSO”. O país se mobilizou no sentido de proteger esse que seria o mais novo filão de fortuna do nossos recursos naturais.

Entre os anos de 1947 e 1953, a nação assistiu uma luta entre os que defendiam a criação de uma empresa estatal que pudesse explorar com exclusividade o petróleo então descoberto e os que queriam as atividades de prospecção, refino e distribuição, entregues a empresas privadas, estrangeiras ou brasileiras. De um lado os que se proclamavam “nacionalistas”, de outro os que foram classificados como “entreguistas”.

A campanha do “PETRÓLEO É NOSSO” mobilizou o Brasil, conquistando a adesão de profissionais liberais, militares, estudantes, jornalistas e intelectuais. Destacava-se na liderança desse movimento o escritor Monteiro Lobato, sob o argumento de que assim o país poderia conquistar sua independência econômica. O debate ganhava intensa repercussão pública. Os temas do nacionalismo, do desenvolvimento e libertação econômica, ganhavam apoio político e popular.

Na época Getúlio Vargas, já eleito presidente da república, chegou a se manifestar da seguinte forma: “Somos contrários, sim, à entrega dos nossos recursos naturais, de nossas reservas ao controle de companhias estrangeiras, em geral a serviço do capital monopolista. Falemos claro, o que é imprescindível- a defesa nacional, se constitui alicerce da nossa soberania, não pode ser entregue a interesses estranhos, deve ser explorado por brasileiros com organizações preponderantemente brasileiras, e, se possível, com alta participação do Estado”.

Em 03 de outubro de 1953, oficializava-se a vitória do movimento “O PETRÓLEO É NOSSO”, com a criação da PETROBRÁS, garantindo a autossuficiência do Brasil na exploração dessa riqueza natural.

A campanha pelo petróleo foi, portanto, um dos grandes momentos da história de nosso país. A História nos ensina, embora muitos insistam em não querer aproveitar os seus ensinamentos.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II"
 


A sedução da mídia na política

 

A vida cotidiana das pessoas recebe uma poderosa influência da mídia, interferindo nos seus modos de pensar e de agir. O ser humano transforma-se em refém de suas práticas, muitas vezes desprezando a ética e o exercício do jornalismo responsável e sério. Somos, todos nós, bombardeados, a todo instante, por informações unidirecionais, objetivando formular opiniões de acordo com o atendimento de interesses políticos e ideológicos dos que se arvoram no direito de manipular consciências. Essa ação midiática contribui para o empobrecimento da capacidade de reflexão, fazendo com que o indivíduo deixe a razão de lado e seja alcançado pela sedução de sonhos e pensamentos por ela produzidos.

Por isso se diz que a mídia é o “Quarto Poder”, em razão de sua potencial força manipuladora e formadora de opinião pública. O consumidor dos relatos jornalísticos, onde não se valoriza o conjunto de informações de forma isenta e equilibrada, passa a ser vítima de um controle das notícias, que trabalha na intenção de promover conceitos e compreensões favoráveis às correntes de interesses que dominam os principais veículos de comunicação. E assim procuram oferecer legitimidade a toda e qualquer decisão política, mesmo quando ignorados princípios da ética e desconsiderados valores importantes na defesa da democracia. O propósito é formar uma maioria orientada no sentido de acreditar que as ideias propagadas representam uma realidade social e política.

A linguagem e os mecanismos dos meios de comunicação de massa, são cuidadosamente utilizados com o objetivo de promover mudanças de mentalidade e de comportamento coletivo. A dominação da mídia procura construir um pensamento majoritário, criando uma pauta de discussão da sociedade consonante com os seus interesses políticos. O psicólogo social Guareschi diz: “Temos a possibilidade de discordar do que é dito ou até mesmo criticar o que chega até nós. Mas uma coisa não podemos fazer: é saber o que foi propositalmente ocultado, o não dito, o silenciado”. Aí se aplica a maneira subliminar de influenciar a opinião pública, não se efetivando a honestidade na oferta das informações autênticas e realistas. As omissões ou desvirtuamentos nas notícias veiculadas, enganam e falseiam as verdades que precisam ser conhecidas para a definição de juízos de valor.


 


Hotel Globo, o novo centro cultural da cidade


 

O Antigo Hotel Globo, recentemente restaurado pela gestão municipal, passa a se afirmar como o mais novo centro de promoção cultural da cidade. Vasta programação de atividades está sendo montada, de forma a estimular as manifestações artísticas e intelectuais paraibanas. A prefeitura, por sua secretaria e educação e cultura e a COPAC – Coordenadoria do Patrimônio Cultural da Cidade, fortalece assim as ações que objetivam oferecer uma maior dinâmica na valorização e preservação dos nossos bens culturais, em especial no Centro Histórico.
 

Amanhã, quinta feira, dia 29, as dezesseis horas serão abertas duas exposições de artes. Uma delas, intitulada ICONOGRAFIA DE UM PATRIMÔNIO DESMATERIALIZADO, é resultado de pesquisa iconográfica sobre o patrimônio histórico da cidade de João Pessoa, em logradouros públicos que passaram por reformas e se encontram parcial ou completamente modificados. Obra do artista João Nicodemos, especialista em artes visuais, que selecionou cinco imagens sobre as quais produziu xilogravuras e infogravuras, propondo um diálogo entre as duas formas de arte. O trabalho possibilita reflexões sobre a importância da paisagem urbana enquanto referência afetiva e de pertencimento para indivíduos e comunidades.
 

A outra denominada “IGREJA DE SÃO FRANCISCO, VINTE E QUATRO HORAS”, trabalha a apresentação de vinte e e cinco fotos produzidas pelo fotógrafo italiano Alberto Banal, tendo como visão da janela de sua residência, o Campanário da Igreja de São Francisco, em flagrantes captados em diferentes horários do dia. O projeto teve como inspiração as pinturas impressionistas de Monet quando produziu trinta quadros da Catedral de Rouen em diversos momentos do dia.
 

Na oportunidade, as pessoas que comparecerem ao ato de abertura das exposições poderão presenciar o mais belo por do sol da cidade, ao som do “Quinteto de Metais da UFPB”.
 

O Antigo Hotel Globo disponibilizará espaços que serão utilizados como galeria de artes, auditório para realização de cursos, debates ou outros eventos da produção cultural pessoense. Já está confirmado para o dia treze de outubro o primeiro “POR DO SOL LITERÁRIO”, em parceria com a UFPB, sob a coordenação do historiador José Augusto, e a Livraria do Luiz (Galeria Augusto dos Anjos), quando serão, em mesa redonda, debatidas obras editadas no mês de setembro por autores paraibanos.
 


 


O cuidado com as palavras

 

Somos a todo momento alcançados pelo poder das palavras. Porque elas refletem pensamentos e sentimentos. Tanto podemos ser impactados positivamente, quanto podemos sofrer consequências negativas de palavras que pronunciamos ou que ouvimos. Há quem diga que as palavras mostram o coração. Jesus nos ensinou que “a boca fala daquilo que está cheio nosso coração”. Seja de amor ou de ódio, de solidariedade ou de hostilização, de apoio ou de aversão.

Daí o perigo de serem proferidas palavras equivocadas quando surgem no meio de uma discussão acalorada. O que é muito normal acontecer nos debates apaixonados. Emocionalmente afetados, os interlocutores, muitas vezes, partem para as ofensas, a maledicência, o julgamento indevido. O próprio tom da voz já define o nível de exaltação contida nas palavras enunciadas.

Estamos vivendo um tempo em que os ânimos estão inflamados por posicionamentos políticos, colocando em choque ideias e convicções. Nesse clima de excitação, as pessoas falam movidas por raiva, discórdia, desarmonia, e terminam atacando umas às outras impulsivamente. Amigos se desconhecem, parentes se estranham, num perigoso embate em que as palavras exercem um poder devastador nas relações sociais.

É preciso que nesses momentos procuremos desenvolver uma postura de autocontrole, construir um estado mental de equilíbrio, por maiores que sejam as provocações. Afinal, existe um velho adágio popular que diz ser impossível ocorrer brigas quando um dos interlocutores não quer.

O comedimento nas palavras define a expressão de sensatez, a prática do respeito ao próximo, e, principalmente, a manifestação da razão acima da emoção. Assim, se processa a crítica construtiva, isenta de radicalismos, contribuindo para a formação de opiniões convergentes.

Tenho sido tentado a entrar nesse conflito temperamental, quando motivado a defender meus pontos de vista, em confronto com o pensamento diferente, e me vejo saindo da calma. Percebo, até com certo retardamento, que falei o que não devia, ou ouvi o que não gostaria de escutar. A conversa amistosa transformando-se numa discussão inconsequente, imprudente, provocando mágoas e ressentimentos. Esse não é o bom caminho para quem deseja estabelecer um debate sério e responsável sobre qualquer assunto.

Então, é importante nessas ocasiões de antagonismo, refletirmos sobre a força das palavras e procurarmos agir com moderação na manifestação dos nossos pensamentos e opiniões.
 


As artes como disciplina no ensino médio

 

Tenho feito um esforço enorme para compreender as razões de retirar as artes da grade curricular do ensino médio no Brasil. Confesso que não encontrei ainda a resposta que me convencesse.

Cercear à criança ou ao pré-adolescente a oportunidade de ter acesso à arte como linguagem que expressa conhecimento, é limitar sua capacidade de raciocinar, desenvolver a inteligência. O ensino da arte estimula a criatividade, mexe com as emoções e os sentimentos, abre a porta das ideias. A educação artística promove interação social, revela talentos, potencializa a multiculturalidade. Cabe também à escola a responsabilidade de despertar sensibilidades artísticas.

No aprendizado das artes exercita-se a aptidão para a crítica, a habilidade para inovar, a disposição para dar asas à imaginação. E isso são necessidades da sociedade. Nenhuma cultura se fortalece sem que seus cidadãos sejam educados de forma a poderem descobrir suas aptidões artísticas. A arte ajuda a perceber o significado de valores nas relações humanas e a estabelecer consciência da existência social.

A arte não pode ser compreendida apenas como mercadoria, mas como fonte de educação e humanização. A arte como disciplina abre caminhos para reflexão crítica dos modos de agir na sociedade. Quem sabe esteja aí uma das razões para tirá-la da grade curricular do ensino médio. O receio de formar questionadores das relações sociais vigentes. Não estou determinando o objetivo, apenas provocando a análise da questão.

Vou continuar empenhado em captar as verdadeiras razões dessa decisão de governo, na expectativa de que, por trás dela, não existam interesses outros que não sejam a melhoria do ensino médio em nosso país. Mas retirando as artes como disciplina, fica difícil vislumbrar melhorias neste sentido.

 


 


O Prêmio do "Correio das Artes"

 

O ano de 1982 se iniciava com a Paraíba sendo agraciada com um prêmio nacional. No dia onze de janeiro, O “Correio das Artes”, o mais antigo suplemento literário do Brasil, foi escolhido pela Associação Paulista de Críticos de Artes como o órgão de imprensa que melhor atuou no âmbito cultural durante o ano de 1981. Na época era editado pelo poeta Sérgio Castro Pinto, tendo como supervisor o jornalista Agnaldo Almeida e o seu Conselho Consultivo composto por: Gonzaga Rodrigues, Antônio Barreto Neto, Arlindo Almeida, Walter Galvão, Vilson Brumel, Carlos Antônio Aranha e Anco Márcio.

A notícia, claro, deixou a todos nós paraibanos cheios de orgulho. Não imaginava naquele tempo de que um dia registraria minha participação na história desse que é considerado um dos mais conceituados suplementos culturais do país, ao assumir a superintendência do Jornal A União, no início dos anos 2.000.

O Correio das Artes, fundado em 27 de março de 1949, pelo poeta pernambucano Edson Régis, circula desde a sua origem como encarte do jornal oficial do Governo do Estado da Paraiba, “A União”. Em seu primeiro número definia no editorial o verdadeiro objetivo a que pretendia alcançar: “ emprestar uma contribuição ao atual movimento literário e artístico do Brasil e divulgar os seus valores mais representativos”.

Atualmente tem como editor o jornalista William Costa, mas durante sua trajetória histórica de circulação foi dirigido por consagrados nomes da literatura paraibana, dentre eles: Linaldo Guedes, Jurandy Moura, Antônio Mariano. Na sua longevidade consolida a posição de prestígio que conquistou nos meios intelectuais do país, prestando relevantes serviços à cultura nacional e paraibana, através dos contos, crônicas, ensaios e poemas que formam o seu conteúdo, com a assinatura dos mais expressivos nomes da literatura nacional.

Nos últimos dez anos, por iniciativa de Linaldo Guedes, ganhou o formato de revista cultural, com uma linha editorial moderna, segundo ele, com o propósito de “começar a achar caminhos para que a literatura deixasse de ser o patinho feio do jornalismo cultural”, e tornar-se uma leitura agradável e atrativa. Foi uma ação vitoriosa. O “Correio das Artes” tem ao longo de sua existência se afirmado como o mais importante veículo de expressão da literatura de nosso Estado, oferecendo espaços para novos autores. Tem, portanto, dignificado as tradições culturais da Paraiba.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 


A História com H maiúsculo



Nunca devemos desprezar a ousadia de construir a História com “H” maiúsculo. É preciso não deixar que os acontecimentos mudem os rumos das coisas projetando um porvir reacionário. Há a necessidade de trabalhar transformações de idéias objetivando formar conceitos novos, sem perder a consciência das responsabilidades inerentes a uma democracia. Gestar o futuro a partir da análise reflexiva e crítica dos acontecimentos sociais, políticos e econômicos, em obediência aos valores morais e éticos que se afirmaram na transferência de gerações.

O engajamento cívico em favor das causas que interessem ao país é, antes de tudo, uma atitude de cidadania. No entanto, é inaceitável que os envolvimentos em projetos de mudanças sociais, se façam de forma irresponsável, guiados por interesses escusos, pressionados por campanhas midiáticas patrocinadas pelos que ambicionam o usufruto de benefícios em detrimento das demandas coletivas. A História com “H” maiúsculo preza pela desapaixonada visão interpretativa dos fatos, aproveitando-os como norteadores de uma posteridade que sirva a todos e honre nossas tradições.

Os acontecimentos emblemáticos da contemporaneidade, na análise dos seus significados, devem produzir narrativas de caráter histórico que engrandeçam e valorizem a cultura do nosso povo. Elaboremos uma memória social e politica válida, de maneira que nossos descendentes se orgulhem do protagonismo que exercemos na atualidade. Que as ações do hoje sejam compreendidas no futuro como determinantes na edificação de um Brasil cada vez melhor.

Façamos então bom proveito desse clamor por moralidade no exercício do “fazer política”, mas prioritariamente nos comprometendo a combater as velhas práticas que caracterizam o comportamento nacional, já conhecido no mundo inteiro como “o jeitinho brasileiro de querer levar vantagem em tudo”. Urge uma revolução cultural, mudanças rápidas e radicais nessa forma viciada e corrupta de atuar enquanto atores sociais. Só assim, iniciando com a cobrança de nossas próprias posturas, poderemos exigir dos outros que ajam em consonância com as regras morais e éticas que nos livrarão definitivamente da chaga da corrupção.

Não joguemos por terra a oportunidade de escrever a História com “H” maiúsculo, atacando um bem conquistado através de muita luta, que é a democracia. Na História com “H” maiúsculo não se admitem retrocessos, volta às experiências que nos fizeram sofrer, fortalecimento de idéias que alienam e subvertem os conceitos que nos garantem o inalienável direito de agir e pensar livremente. A História com “H” maiúsculo não consegue registrar ocorrências que violem ordenamentos jurídicos ou preceitos constitucionais, no afã de atender interesses menores liderados por agentes políticos descomprometidos com as questões nacionais.
 

 


A vaia

 

“Feliz o país que pode vaiar um presidente”. Esta frase foi pronunciada por Juscelino Kubitschek após receber uma vaia. E ele tinha razão. Vaiar é uma manifestação coletiva de desagrado, insatisfação. A vaia faz nascer a esperança de que os detentores do Poder, que se mostram indiferentes à sorte do povo, possam compreendê-la como uma advertência, uma mensagem de desagrado, um alerta de que o povo está atento.

Ninguém vaia sozinho, porque na individualidade não produz qualquer repercussão. O ato de vaiar é demonstração pública de desaprovação. Claro que não há quem se sinta confortável ao ser “homenageado” com uma vaia. Mas ela é um legítimo direito de discordar, de criticar, repreender. Revela-se espontânea, brotando da alma do povo. Desde que não aconteça com ofensas pessoais, achincalhes, desrespeito a autoridades constituidas, é comportamento próprio do exercício da democracia.

Pode ser também entendida como uma atitude de desforra. Na impossibilidade de utilizar instrumentos mais eficazes para reagir contra determinadas situações de descontentamento, parte-se para os apupos. O sentimento de repúdio através de gritos revela-se uma linguagem coletiva adotada por todas as civilizações, desde os mais remotos tempos. Interessante é que a vaia tem um efeito contagiante, despertando emoções momentâneas sob a influência de uma maioria. A vaia é sintoma de irritação consensual, o jeito de dizer que a tolerância começa a ser extrapolada. É o juízo crítico do povão.

“A vaia é o aplauso dos descontentes”, conforme dizia Nélson Rodrigues. Portanto, por mais constrangedora que seja, a vaia tem um significado importante e que deve ser bem compreendido pelos que são alvo desse tipo de manifestação pública, o recado de que há uma forte insatisfação transmitida nos apupos. Se for alguém bem intencionado vai se valer de tal episódio desagradável adotando-o com lição de vida. Ao invés de desdenhar do acontecimento, aproveitá-lo para fazer uma autocrítica e procurar identificar os motivos que lhe deram causa. Quem sabe, as vaias de hoje possam se transformar em aplausos do futuro.