A vontade de ser "pop star"

 

Tem gente que não sabe viver distante das câmeras, dos refletores, da mídia que adota o espetáculo como pauta jornalística. São pessoas que adoram pousar como celebridades. Adoram ser reverenciadas, homenageadas, receberem comendas, medalhas, troféus. Se sentem os diferentes. Consideram-se fora dos padrões normais da humanidade, quase deuses.

Eu desconfio daqueles que se arvoram excepcionais apenas por cumprirem o que é devido enquanto exercem o que lhes compete como ofício. Pensam se colocar como distintos no mundo dos normais, unicamente porque imaginam fazer o que todo mundo sabe que não passa de obrigação. São figuras que almejam os aplausos fáceis, a veneração.

Fico observando administradores públicos que exaltam a honestidade como se fosse uma virtude a ser qualificada. Juizes que se proclamam paladinos da justiça e, na verdade, agem unicamente pensando em se tornar destaques, ainda que contrariando princípios éticos e legais.

Triste perceber isso. Observar que algumas personalidades estão muito mais preocupadas em aparecer, do que verdadeiramente exercer sua função com simplicidade e sem a necessidade de se transformarem em “pop star”. No Brasil isso se tornou moda. Juiz é estrela de eventos, personagem central de acontecimentos públicos, atração maior de festas.

Quero acreditar num país em que as celebridades sejam pessoas que se distingam por possuírem dons que se afirmam diferentes. Ser honesto e ser justo não é mais do que uma obrigação. E o pior é quando nem honesto, nem justo a pessoa se afirma e se acha o melhor, o singular, o extraordinário.

A vontade de ser famoso e bem sucedido pode transformar a personalidade do homem e fazê-lo diferente do que deveria ser. A vaidade prejudicando o racional, o orgulho modificando a forma de ver e analisar o que estar á sua volta. Deixa de ser o equânime, para agir conforme o que determina a exigência do sucesso.

Não costumo prestar homenagens a esse tipo de gente. E, além disso, estabeleço distância no respeito que ele possa merecer. Falei em juiz? Talvez tenha sido pela insistente repercussão da mídia de alguém que insiste em ser mais pop estar do que um julgador isento.

 

 


O abuso de autoridade

 

O tema é muito atual e ganhou repercussão em razão do contexto político em que se viu envolvido. Todo mundo sabe que o “abuso de autoridade” é atitude tipificada como crime desde há muito tempo. Sua prática é percebida no cotidiano do cidadão e as maiores vítimas são sempre os pobres, os que vivem na esfera desprotegida da sociedade.

Foi preciso que os ricos, ou os poderosos, se vissem ameaçados, para que pudesse ser encarado como uma questão que merecesse uma maior atenção. Tanto dos que podem sofrer por arbitrariedades cometidas pelos aplicadores da justiça, quanto pelos que querem torna-lo uma ação de competência legal seletiva. Nem os fortes querem correr o risco de serem alcançados por cometimentos de abuso de autoridade, ainda que nunca tenham se preocupado com os inúmeros casos verificados diariamente em desfavor do cidadão comum, assim como os aplicadores da lei querem se amparar na possibilidade de ficarem imunes a qualquer punição se resolverem adotar procedimentos que se caracterizem como tal, desde que atendam às suas convicções pessoais. Na verdade o que se observa é uma guerra de egos. Uma batalha de poderosos, ambos buscando privilégios e proteção legal.

Independente das motivações políticas circunstanciais alegadas, não consigo aceitar a prática do abuso de autoridade como algo normal. No meu entendimento é exorbitar de suas funções, é se prevalecer do poder de mando para decidir e atuar contra os fracos ou sob o império de vontades individuais, nem sempre compatíveis com o espírito de justiça. Todos somos iguais perante a lei. Ninguém pode ganhar poderes excepcionais para arbitrar em dissonância com a lei, no atendimento exclusivo de interesses pessoais ou de grupos. Isso ensejaria oferecer legalidade às famosas “carteiradas”. Nada justifica tal comportamento. O abuso de autoridade é conduta típica dos regimes de exceção, postura própria da tirania, desrespeito ao princípio elementar da igualdade de direitos dos cidadãos. Não tenho dúvidas de que tudo isso não passa de uma briga para manutenção de poderes. Ou até de conquista de maior poder.

Concordo que o assunto necessita de uma maior análise e adequação legal, mas, nunca, atribuindo capacidade distinta para alguns terem o poder de exercer o abuso de autoridade sem que possa ser classificado como infração que se constitui crime. A aplicação da lei e da justiça não pode ser determinada pelas circunstâncias, nem pelos interesses políticos temporais. Como o próprio nome já define, abuso é o uso excessivo e injusto de atribuições, portanto inaceitável. Está na hora de começarmos a acabar com os privilégios e não aumenta-los para alguns.
 


A espontaneidade

 

Os padrões de comportamento ditados pela sociedade fazem com que nossas ações obedeçam regras estabelecidas, normas e procedimentos definidos por valores culturalmente aceitos. Isso nos inibe a fazer algo diferente, com receio de sermos mal interpretados ou objetos de censura. Fugir dos rótulos, quebrar paradigmas, romper com o convencional, pode ser compreendido como desobediência a princípios de formalidade, conduta social.

Somos desestimulados a exercer a capacidade de sermos espontâneos. A espontaneidade se manifesta pela criatividade. É a forma de darmos resposta nova a situações já antes vivenciadas, mesmo que contrariando o habitual. As vezes é preciso reinventar nosso modo de agir, viver o nunca antes experimentado, deixar que a intuição, com a ajuda da inteligência, nos ofereça a decisão do caminho a seguir.

Na espontaneidade vivemos uma sensação de liberdade, porque não nos permitimos a dependência ao que nos é imposto. Nada que se faça por obrigação traz felicidade. Recusamos os condicionamentos, rejeitamos a afetação, a artificialidade. Os atos de espontaneidade são autênticos, naturais, porque não se manifestam com intenções preconcebidas. O espontâneo dispensa o planejamento, a elaboração prévia da ação.


Somos espontâneos por natureza. A sociedade é que nos impõe observância de normas de procedimento, tentando impedir que sejamos espontâneos. Toda criança é espontânea porque ela desconhece essas regras sociais, e por isso mesmo são puras e nem sempre inconseqüentes. A medida que vamos amadurecendo vamos perdendo a espontaneidade no agir. Vale a pena refletir sobre isso: até que ponto estamos deixando de ser espontâneos, aprisionados num mundo em que os outros pensam por nós e determinam como devemos nos comportar?

• Integra a série de crônicas do livro “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”, a ser publicado no final deste ano.


 


A falta de um pulso firme

 

O que se espera de um líder é que ele saiba exercer a autoridade que lhe é conferida. Quem assume a responsabilidade de comandar não pode jamais passar a imagem de alguém que hesita em tomar decisões. O chefe precisa ter firmeza de atitudes para que seja respeitado. A percepção de fragilidade na postura de mando pode provocar a ingovernabilidade. Há uma célebre frase de Camões que diz: “um rei fraco, faz fraca a forte gente”.

Quando o medo de entrar em conflitos leva o comandante ao conformismo pessoal, evitando administrar com pulso firme as querelas que lhes são apresentadas, passamos a vislumbrar um perigoso vácuo de autoridade. Nos momentos de crise é que se faz necessária a determinação de um comando forte, corajoso. Só assim o coletivo se energiza para enfrentar as tempestades, porque confia no seu condutor. Tem a convicção de que a orientação do caminho a seguir foi feita com a segurança de uma personalidade que sabe liderar.

Ou será que a frase de Camões pode ser compreendida em sentido contrário: “uma gente fraca pode produzir um rei fraco”? Sim, porque a passividade e a submissão sem qualquer reação, autoriza o governante a ser um “vacilão”, um comandante que age de forma a não causar desgosto a alguns que defendem interesses particulares, ainda que em detrimento das demandas sociais. A massa desprovida de consciência crítica termina por aceitar lideranças incompetentes e incapazes.

A coragem moral, o respeito à ética e o carisma, são características essenciais para quem quer exercer o poder. Na falta de qualquer um destes atributos, caímos na assustadora percepção de que estaremos num temporal, com o barco à deriva, sem ter a quem confiar vencer as ondas bravias e nos levar de volta ao mar calmo e tranquilo.

A liderança tem que se apresentar como exemplo de segurança no que faz e no que diz, competência para decidir. Ter pulso firme na hora em que for preciso adotar resoluções que possam circunstancialmente desgostar pessoas do seu círculo íntimo de governança, mas que se fazem necessárias para garantia dos princípios da austeridade e da justiça social. Pensemos nisso.

 

 

 


 


Quero ver as estrelas na escuridão

 

Não, eu não aceito que a escuridão me dê a sensação da cegueira. Recuso ficar sem enxergar. Quero buscar a luz, mínima que seja, mas que me traga esperança, me conduza no caminhar da vida. Por mais que tentem me jogar num mundo sem claridade, sem perceber como posso dar um passo adiante, eu busco a luz de uma estrela.

Quando vivenciamos momentos de crise, instantes sombrios da vida, nos sentimos em meio a uma escuridão que amedronta. E assim entramos em pânico, sem orientação, desnorteados, querendo encontrar uma luz que nos permita visualizar o caminho a seguir. Esse brilho que se busca evita que tropecemos, esbarremos nos obstáculos sem conhecer como vencê-los. A luz que se encontra, por mais ínfima que seja, permite orientação. Era dessa forma que os navegadores se guiavam nas noites escuras.

No Brasil contemporâneo experimentamos a atordoante impressão que estamos mergulhando numa escuridão, o caos se instalando. Me nego a aceitar essa realidade. Quero enxergar uma saída, desejo visualizar uma luz no fundo do túnel. Na verdade preciso procurar pelo menos uma estrela que me anime a acreditar no amanhã. Não podemos ser tragados pelas trevas da escuridão que teimam em nos colocar.

Há quem diga que as estrelas são os olhos de Deus. Acredito nisso. A imensidão do firmamento nos proporciona luzes que são guias. Nessa visualização evitamos nos perder, sabemos como sair das tenebrosas ameaças da escuridão.

Portanto, quero ver as estrelas na escuridão. E que ninguém me impeça disso. Desejo mais, coloco fé que todos os brasileiros haverão de se libertar da venda nos olhos que querem nos colocar. Quero continuar enxergando. Quero continuar avistando o que possa ser considerado danoso para a nossa democracia, identificando o inaceitável. Quero ver as estrelas na escuridão.
 


Coisas que eu quis ser e não fui

 

Ao alcançar o estágio da maturidade (melhor do que dizer o tempo da velhice), lembro que já construí muitos sonhos que não consegui realiza-los, fantasiei muitas vivências que deixei de torna-las realidade, imaginei conquistas e vitórias que não foram alcançadas. Chego à conclusão de que desperdicei inúmeras e maravilhosas oportunidades. São coisas que eu quis ser e não fui.

Arrependimento por isso? Nenhum. Sou um homem que gosta de lidar com o improviso, o desafio. E, graças a Deus, não tenho porque reclamar dos caminhos que decidi seguir na vida. Nunca estive onde planejei. Tudo aconteceu naturalmente, sem que eu tivesse estabelecido como meta, objetivo. A história de minha vida foi moldada de acordo com as circunstâncias, as chances surgidas, a percepção dos momentos. Em tempo algum tive a preocupação de ficar rico. Aliás, me considero dono de uma riqueza inestimável: a família que formei (esposa, filhos e netos).

Quando criança, tempo em que nossas aspirações são desejos produzidos pela imaginação, cheguei a pensar em ser padre. Ainda hoje me pergunto porque alimentei essa ideia. Talvez tenha sido pela influência de um vizinho que me convenceu a participar como coroinha na Igreja do Rosário, em Jaguaribe. Descobri, depois de três anos, que passava longe de ter vocação para o sacerdócio. Mas valeu a pena o período em que fui aluno do seminário. Serviu, certamente, como base sólida da minha formação cultural.

Já quando me iniciava na vida adulta, pressionado pela exigência de definir uma profissão, decidi que seria advogado. Fiz vestibular, passei, e comecei a frequentar a faculdade. Não concluí o curso, porque me entusiasmei com a rápida ascensão como bancário, ocupando a gerência geral do PARAIBAN aos vinte e um anos de idade.

Herdei de meu pai a paixão pela política. Houve uma época que aspirei disputar uma eleição. Deus me presenteou com a falta de condições para fazer dessa intenção uma atitude efetiva. No entanto, me instalei nos bastidores dos movimentos políticos do meu estado, tanto na militância estudantil, quanto na partidária. Percorri caminhos que atualmente vejo como antagônicos, circulei por compreensões da política que se distanciam bastante do que hoje eu penso. Todavia, minha incursão nas atividades políticas se deu com maior sucesso no exercício de atividades na administração pública, onde continuo atuando.

Interessante que, só após os sessenta anos, me descobri escritor. Não programei essa prática na vida. Foi acontecendo aos poucos. Trago o DNA do entusiasmo pela cultura herdado de meu pai. Isso, com certeza, tem ajudado muito. Me comprazo em ver o que escrevo e perceber que há quem leia e goste. Tem sido a maior realização da minha vida.

Então, deixei o destino me levar. Não lamento decisões erradas no passado, nem me culpo por sonhos que eu próprio fui a causa de terem sido desfeitos. Na verdade há muita coisa que eu quis ser e não fui. Como também ainda tem muita coisa que eu quero ser e não se tornarão realidade. Mas, estou de bem com a vida. Vou continuar sonhando, não planejando. Quero permanecer com a disposição de sempre estar pronto para os desafios, as novas empreitadas, mesmo que pareçam momentaneamente difíceis de serem executadas.
 


Em cima do muro

 

A todo instante estamos sendo convocados a fazer escolhas. Porque se posicionar sobre tudo o que acontece em nossa volta, faz parte do processo evolutivo da vida. Não é pela apatia ou omissão que conquistaremos vitórias, avançamos na definição dos nossos interesses. É preciso ter opinião própria sobre as questões que envolvem nossos objetivos enquanto cidadãos, partícipes de um agrupamento social. Só os covardes fogem da responsabilidade no estabelecimento de posições firmes, preferem ficar indiferentes, lançados à própria sorte, guiados pelo que for circunstancialmente menos problemático.

Esses são os famosos indivíduos que costumam se equilibrar em cima do muro. Têm receio de desagradar pessoas com quem convive, nunca se animam a enfrentar com coragem um questionamento, desprezam a importância do debate, estão sempre usando a expressão “tanto faz”. Receiam ser julgados pelos outros. Vivem na acomodação, passivos, inertes. Fazem a opção pelo “não decidir”, transferindo essa faculdade para chefes, líderes ou companhias que escolheram.

Não compartilho da tese da neutralidade axiológica. Desconfio de que os politicamente neutros são, antes de qualquer coisa, elementos que pensam exclusivamente em si mesmos, desprezando qualquer ação que traga benefícios sociais. Fazem questão de se abster dos debates, simplesmente por comodismo, alienação. Normalmente ficam em cima do muro, observando e calculando a melhor oportunidade para pular para o lado da maioria, dos mais fortes.

Respeito e admiro os que se manifestam publicamente, sejam conservadores, progressistas, liberais, esquerdistas, ou até mesmo os anarquistas. Conhecendo as opiniões divergentes podemos comparar ideias, confrontar juízos de valor, estabelecer o diálogo nas polêmicas. E assim ficarmos mais preparados para escolher, decidir, e até modificar posições. O importante é jamais "ficar em cima do muro”. Ninguém respeita o indeciso.

Na condição de ser social-político, cada um de nós tem a obrigação de se postar como um observador atento e imparcial da dinâmica da vida, procurando contribuir com sua experiência e conhecimento para a formação da consciência crítica da coletividade. Recusar ser um “maria vai com as outras”, repetindo frases construídas pelos que escolheu para pensar em seu lugar. O momento político nacional exige posicionamentos, a boa disputa de pensamentos e ideias, o exercício efetivo da cidadania. Ficar “em cima do muro” é se esconder, por falta de coragem para assumir responsabilidades.
 


A expressão do coração

 

Estamos esquecendo de deixar que o coração fale por nós. E assim, estamos assumindo uma postura de insensibilidade, frieza, indiferença. O mundo dominado por manifestações que se distanciam daquilo que o nosso coração deseja expressar.

Pode ser que alguém diga, mas a paixão é irracional e nasce do coração. Eu ouso discordar, o coração não intui o que foge da razão. Ele é sentimento, emoção, resultado da consciência. Qualquer atitude fora disso, nada tem a ver com o coração, é influência do exterior. O coração faz vibrar a alma, reflete o que está na interioridade.

Tentamos muitas vezes enganar o coração, mas ele não deixa. Ele fala mais alto que nossa vontade. A consciência, por influência de informações recebidas, quer se fazer maior do que a afirmação do coração. A reação provoca um conflito interno.

Digo até que o coração é menos emotivo que o cérebro. Parece estranho isso, né? Um se faz presente no descobrir saberes, nem sempre verdadeiros, o outro se coloca como orientador de atitudes, impulsionando ações e reações. Prefiro me guiar pelo pulsar do coração, porque ele não sabe mentir.

Todo mundo já passou pela cobrança interior que faz a gente se sentir culpado pelo que fez ou idealizou fazer. O coração chamando a atenção do cérebro. Muitos deverão dizer: mas mão é o contrário? O cérebro censurando o coração? Não, o coração como expressão é interpretação verdadeira do querer, do ser e do agir. Ele dirige, conduz, define o caminho da vida.

Nunca deveremos fazer ouvidos moucos à voz do coração. Ainda que digam que ele comete desatinos, há de se compreender que traduz o que está escondido no nosso íntimo. Utópico ou realista, falso ou verdadeiro, factível ou impossível. Não importa. O que vale é deixar o “coração como expressão”. Isso nos torna verdadeiros.
 


A campanha do medo venceu

 

Donald Trump começou brincando de ser candidato à presidência dos Estados Unidos. Acho que nem ele próprio acreditava que essa brincadeira se tornasse coisa séria. Não dá para pensar de forma diferente, ao ver alguém postular uma eleição para um cargo de tamanha importância com discursos tão polêmicos, cheios de ameaças e promessas que assustavam não só os eleitores, mas todo o mundo.

Explorou bem o sentimento nacionalista do povo norteamericano. O receio de perder a hegemonia como potência líder no planeta, a partir de sentimentos xenófobos e racistas, fez com que grande parte do eleitorado aceitasse bem o discurso do medo. Daí a repercussão do lema maior da sua campanha: “A América vai se tornar grande outra vez”. Dominava a sensação de que estava perdendo a condição de “xerife do mundo” e isso feria o orgulho americano. Trump tornava-se o portavoz dos que tinham medo de ver os Estados Unidos diminuídos. Apresentava-se como único a ter competência para promover a autodefesa da nação.

A invasão dos mulçumanos e imigrantes latinos foi colocada como causa do desemprego e da insegurança entre os americanos. O discurso que, num primeiro instante parecia algo improvável de ser assimilado, foi aos poucos ganhando força e adesão. E Trump viu que já não estava mais brincando de ser candidato, havia chances reais de conseguir a proeza de chegar à Casa Branca.

O medo então venceu. E, em consequência, causou outros medos, agora sentidos fora da área geográfica do país. Sua surpreendente eleição apavorou o mundo na madrugada de hoje. Há um temor global de que ele cumpra suas ameaças: expulsar onze milhões de imigrantes ilegais e mulçumanos, construir um muro na fronteira com o México, rever tratados comerciais assinados com o Canadá, México e países do Pacífico, aplicar impostos de quarenta e cinco por cento em todos os produtos importados da China, entre outras.

Entretanto, há de se lembrar que tem sido uma regra na política colocar a prática distante do discurso. Não será tão fácil cumprir o que prometeu. Seu primeiro pronunciamento após eleito já foi bem diferente, utilizando um tom conciliatório. Tenho a impressão de que esse cão raivoso não tem todos os dentes. Cachorro que ladra não morde. Vamos torcer para que, nesse caso, o ditado se confirme.

De qualquer forma é uma incógnita. Há um clima de tensão em todos os recantos do mundo. Homem de ideias conservadoras, impulsivo, sem experiência política, nascido em berço de ouro, destemperado, ultradireita, o novo presidente dos Estados Unidos tem um perfil que não nos dá tranquilidade quanto ao futuro que pode oferecer ao seu país e ao mundo. Só nos resta rezar para que suas excentricidades não afetem ainda mais o clima de desarmonia que impera mundialmente.


 


A jovem direita brasileira

 

Os jovens, por natureza, são contestadores. E, por isso mesmo, sempre se postaram como questionadores do pensamento político dos donos do poder. É o espírito de rebeldia que instiga, entusiasma, encoraja a juventude a se manifestar contra o “status quo”.

Encontro nessa constatação o motivo maior do nascimento da nova direita no Brasil. Uma geração que nasceu quando o país experimentava grandes conquistas democráticas, após um período de ditadura militar (quando pensar era proibido), teve a sua consciência crítica formada num momento em que estavam no poder aqueles que lutaram pela democracia e pela justiça social. Esperava-se, no entanto, que esses ideais revolucionários das gerações que lhes antecederam, fossem colocados em ação sem serem contaminados pela corrupção e pelas práticas antigas da cultura política brasileira. A percepção de que a esperança, embora atendida por transformações importantes na sociedade, se desfez quando verificados equívocos de postura política que prejudicavam os conceitos ideológicos que sempre defenderam. Daí, surgiu a juventude antiesquerdista, ou antipetista. Nasceu a nova direita entre os jovens brasileiros.

Estimulados pela grande mídia e por setores interessados em conquistar uma militância jovem de direita, muitos não se envergonham mais em assumir convicções ideológicas conservadoras ou neoliberais. A chegada do PT ao poder acirrou então a politização ideológica do Brasil. O discurso da defesa do liberalismo econômico, em contraponto aos ideais socialistas que defendem um compartilhamento igualitário da população dos avanços econômicos e sociais, se mostra cada vez mais presente na internet e nos fóruns de debate da juventude brasileira. O jovem de direita saiu do armário.

Eles ocupam os mais diversos meios de comunicação para colocarem em xeque os dogmas do socialismo, fustigarem os esquerdistas, exaltarem o neoconservadorismo. O viés reacionário da direita jovem já não se coloca como algo reprovável, como em tempos passados. Eles se proclamam militantes de uma causa anticomunista. Detestam a cor vermelha, mesmo que não saibam necessariamente, as razões pelas quais expõem seus argumentos. Porque não são deles. São fundamentos construídos para serem repetidos de forma a estabelecer uma convicção renovadora de ativismo político.

Cada pessoa tem a sua forma de ver o mundo. E é, exatamente isso, que estabelece a importância do diálogo, da formação do senso crítico. O perigo está no emocional, no modismo, na recepção de influências perniciosas que têm somente a intenção de usar indivíduos como massa de manobra para alcançarem interesses que não são os da coletividade.

Os jovens de direita no Brasil de hoje, se utilizam da visibilidade das redes sociais para pregarem discursos que eles próprios desconhecem o seu conteúdo. Mas o fazem movidos por um sentimento de reação inconformada com erros protagonizados pelos que até pouco tempo estavam no poder e não souberam honrar seu idealismo socialista, porquanto manchados pela nódoa enojadora da corrupção, que continua, mas desconsiderada pela paixão política momentânea. Corruptos, na visão deles, são só os que foram afastados do poder. Entendem que o mal maior foi cortado quando expurgados os socialistas.

O grande risco é levantar uma crença nessas jovens mentes de que basta romper com o ideário socialista, demonizando esse campo ideológico por questões meramente circunstanciais de má aplicação dos seus conceitos, e começar a recusar as políticas públicas que efetivamente defendam a igualdade social.

Ainda bem que essa não é, ainda, a postura majoritária da juventude brasileira. Mas estão conquistando aliados.