O prefácio de Robinson Granjeiro


O pastor presbítero e psicólogo Robinson Granjeiro me deu a honra e a satisfação de tê-lo como prefaciador do livro SENTIMENTOS, EMOÇÕES & ATITUDES que estarei lançando no dia nove de maio, às dezenove horas, no restaurante Picuí Praia, no Bessa.
Eis o texto:

Caro Rui

Faço desse prefácio uma curta missiva, que lhe envio pelo correio inusitado – e de certa forma, em desuso – pelas vias da palavra escrita e impressa, este gênero em derrocada, diante dos emotions virtuais, que se pretendem mais sintéticos do que até a própria pontuação.

Ao ler suas obras, sempre restou-me a convicção de que você tem as duas maiores virtudes de um cronista: capacidade singular de observação das falas e dos não ditos, dos textos e intertextos, bem como aquela que é a mais simples e cabulosa das vontades: a de escrever o que não pode ficar adormecido no leito de meros pensamentos.

Alguém já disse que ser um cronista é como se encontrar com algo que lhe faz falta e que volta como música preferida. Quase como uma comida obrigatória do cardápio diário ou semelhante àquela perseguição religiosa e disciplinada daquele ritual, qualquer que seja, mas sobretudo inescapável e expiatório. É assim que lhe imagino a cada manhã ou fim de dia.

Sim! Quase esqueci dessa adolescente inquieta chamada imaginação, que alguns julgam subtraída desse gênero e seus gênios, mas que é o estofo imprescindível que subjaz nas letras, expressões e frases do texto! Ali, no mesmo canto ou em qualquer recanto, sentado a prosear com a vida e consigo mesmo, dando a nascer sua maneira peculiar de ver a existência e os existentes, mortos ou vivos, tangíveis ou metafísicos, todos lençóis dessa parturiente inquietude de onde brotam as crônicas.

Já li algumas de suas obras, nas quais você, elegante, se acompanhou de finas damas descritivas e lindas senhoras narrativas. Agora, neste presente trabalho, revela uma verve reflexiva à semelhança das balzaquianas discretas de outrora, com seus vestidos cheios de renda escondendo voluptuosas paixões. Contudo, que desafio, amigo, esse de falar de emoções tão básicas, e quase tão indecifráveis como a Alegria, e tão misteriosas como as virtudes, que de tão importantes, tornaram-se cardeais, à semelhança da Moderação e da Modéstia, nomes cheios de etiquetas para descrever a mais pura Humildade! Na olhada atenta e contínua de comportamentos atuais e costumeiros, assim como vulgares e abjetos, a Espetacularização e o Fisiologismo. Enfim, temas multifacetados como todo polígono escrito, que chamamos de coletânea.

Ao companheiro de leitura, que me honra ao ler estas poucas linhas à guisa de prefácio, dou-lhe testemunho que, à semelhança de gotículas de orvalho derramadas parcimoniosamente pelo Criador sobre as folhas aveludadas e frágeis das petúnias, a leitura de cada uma dessas crônicas, desde que calmamente sorvidas, será um bálsamo a lhe tirar da roda-viva para o regaço onde repousam os sentimentos mais nobres. Foi assim que li e reli. E por isso, a minha admiração cresceu, assim como a gratidão, sinceras por me permitir encerrar este ode ao seu talento, com os melhores votos de muitas edições sopradas pelos ventos venturosos de um crescente sucesso. De resto, a minha contínua oração para que Deus o conserve com vida, saúde e lucidez por muitos anos, para que, por suas crônicas também possamos refletir e crescer; não seria esta a razão de escrever ?

Com carinho, do amigo
Robinson Grangeiro
Pastor presbítero e psicólogo
 


SENTIMENTOS, EMOÇÕES & ATITUDES

 

Este é o título do livro a ser lançado no dia nove de maio, às dezenove horas, no restaurante Picuí Praia, no Bessa.
NOTA DO AUTOR
As crônicas contidas nesse livro têm o objetivo de convidar os leitores a compartilhar das reflexões do autor sobre o comportamento humano. São os sentimentos e as emoções que determinam nossas ações e reações na definição do que fazemos enquanto integrantes de uma comunidade, estabelecendo posturas sociais.

As atitudes surgem a partir de estímulos emocionais. Ao tentarmos compreender os sentimentos humanos, estamos contribuindo para que se encontre o equilíbrio das emoções, e, por consequência, a prática de ações fundamentadas em valores ditados pela racionalidade.

Goethe afirma que “os sentimentos e as emoções são a essência da alma”. Quando nos dedicamos à meditação dessas manifestações humanas, estamos nos voltando para o nosso interior e, assim, nos capacitando para transformar nossa vida quando se faz necessário. A luz que deverá iluminar os caminhos da nossa existência está dentro de nós.

O estudo do nosso comportamento, descobrindo causas de nossas atitudes, nos ajuda a elaborar novas ideias e conceitos. A busca de melhoria de nossa personalidade deve estar intrinsecamente ligada ao “desejo de despertar”, o interesse em nos autoavaliar, a decisão de investir em nós mesmos. Desenvolver a consciência do diálogo interno é a proposta desse livro. Espero que possam fazer bom proveito das reflexões provocadas pelas crônicas apresentadas.
 


Os inocentes úteis

 

Eles sempre existiram, mas parecem multiplicados na sociedade contemporânea. Os inocentes úteis são como esponjas vivas absorvendo tudo o que lhes é oferecido. São carentes de imaginação construtiva e desprezam o exercício da consciência crítica. Preferem ser conduzidos por lideranças com discursos de falso moralismo, vítimas de uma manipulação social determinada pelos grandes veículos de comunicação a serviço dos poderosos (sistema financeiro, oligarquias, elite dominante).

Os inocentes úteis defendem ardorosamente causas que, muitas vezes, contrariam seus próprios interesses. Mas estão anestesiados pela propaganda que induz um pensamento que lhes levam a menosprezar a busca da verdade. Como integrantes de um rebanho, são guiados na conformidade do que os manipuladores desejam. Acreditam piamente que o que for bom para os patrões será bom para eles. Até porque se enganam pensando que também são patrões. Para eles a realidade é a que está noticiada na grande mídia. Nunca se dão ao trabalho de questionar as informações recebidas, nem se prestam ao exercício do contraditório.

A histeria coletiva provocada pelos inocentes úteis faz explodir o ódio, a agressividade, o medo, o preconceito, a repulsa. Quando o emocional está atingido por esses sentimentos, desaparecem as oportunidades do raciocínio isento de paixões. Passam a ser orientados pelo “canto da sereia” que lhes fizeram estrategicamente ouvir. Assumem posturas travestidas de dignidade, justiça, com a convicção de que estão ao lado do bem.
Importante reconhecer que, na sua maioria, não são pessoas más. Digamos que são ingênuas. Não conseguem enxergar que estão sendo utilizados como massa de manobra. Suas bandeiras de luta, no fundo, nascem de um amor cívico, embora equivocadas. Não por culpa deles, mas dos que são experientes na arte de manipular consciências.

O grande problema é que essa absorção das ideias que passam a defender, os tornam raivosos, impacientes para o bom debate, provocadores, hostis. Chegam ao ponto de entrarem em litígio com parentes e velhos amigos. É como se estivessem sob os efeitos de uma anestesia que os impedisse de comportarem-se com equilibrio racional. Não os critico, só lamento que não compreendam estarem numa luta contra si mesmos.

 

 

 


 


A volubilidade das multidões

 

Estamos vivendo hoje a celebração da Sexta-feira da Paixão, acontecimento que marcou a condenação e morte de Jesus Cristo. E o episódio, ocorrido há quase dois mil anos atrás, nos leva a refletir sobre a volubilidade das multidões. O Filho de Deus conheceu bem essa característica de comportamento das massas. O mesmo povo que o aclamara quando da sua entrada triunfal em Jerusalém, decidiu aos gritos de “Crucifica-o! Crucifica-o!” a sua condenação.

Por mais que Barrabás dissesse que não enxergava nEle motivo que justificasse a sua crucificação, a multidão, insuflada pelos sumos sacerdotes da igreja judaica, exigia aos brados que fosse executado, pregado a uma cruz. Muitos gritavam, e outros, talvez os que não concordavam com aquela decisão drástica, ficavam calados, com medo de se manifestarem. Os líderes religiosos convenciam os populares de que Ele solto se tornaria um perigo à doutrina que professavam.

As multidões são guiadas por ordens sutis que mexem com as emoções, produzem sensações, afloram sentimentos. Perdendo a individualidade, o ser humano, deixa de raciocinar por si próprio e é arrastado como um animal irracional para atitudes, muitas vezes explosivas, que ferem os princípios de justiça e de respeito ao direito de outros. Passa a ser orientado por “palavras de ordem” ajustadas a interesses arriscadamente estranhos aos que antes defendia.

“A mão que afaga, é a mesma que apedreja”, já nos ensinava nosso conterrâneo Augusto dos Anjos. A mesma multidão que um dia aplaude, festeja, reverencia, pode ser a mesma que, pouco tempo depois, comunga reações iradas, raivosas, violentas, em situações ocorridas em tempos diferentes e contextos outros. O humor das multidões varia de acordo com as circunstâncias. Não se exprime por força da racionalidade, se revela através das contingências emocionais.

Quantas vezes nos surpreendemos gritando: “Crucifica-o! Crucifica-o!”, ao meio de manifestações coletivas, sem nos darmos a oportunidade de analisar com tranqüilidade se estamos sendo corretos, justos, honestos conosco mesmos? Fazendo prejulgamentos, sem oferecermos chance do acusado se defender ou explicar os motivos que o levaram a ser apontado como vítima de uma incriminação?

Jesus, por sua condição de divindade, conhecia bem esse aspecto volúvel no comportamento das multidões. Por isso mesmo, Ele dedicava mais atenção ao indivíduo, procurando fazê-lo compreender que seus julgamentos devam ser presididos pela consciência ditada pelo coração, onde prevaleçam os sentimentos de fraternidade, amor ao próximo, respeito à justiça social e serenidade. Reflitamos um pouco sobre isso neste dia. Evitemos ser levados pela insensibilidade que caracteriza as manifestações coletivas, agindo por impulsos provocados por processos estratégicos de sedução das massas.
 


A bênção

 

Sou do tempo em que era costume pedir a bênção dos pais, avós, tios, padrinhos, sacerdotes. Não saía, nem chegava em casa, sem que me visse na obrigação de pedir a bênção de meu pai e de minha mãe. Fazia isso como um hábito, sem compreender bem essa atitude. Mas era um gesto que trazia um significado muito importante. Não só como demonstração de respeito aos mais velhos, mas como uma oportunidade de recebermos através deles a proteção divina para nossas atividades cotidianas.

A bênção tem o poder de atrair as dádivas de Deus. Elas são proferidas por pessoas que têm autoridade sobre nós, e, através delas, se estabelece o encontro espiritual e emocional com o Criador. Ao abençoar alguém, firmamos o desejo benigno de que ele seja bem sucedido e próspero no caminhar da vida.

O ato de abençoar, em razão da força divina que possui, tem efeitos de retorno. Desejar o bem a outros é tornar-se merecedor de idêntica graça de Deus. Quando falamos “Deus te abençoe”, Ele entende como a invocação do Seu apoio não só a quem a gente está dirigindo a bênção, mas, por extensão, a nós também.

A formalidade de antes, que se afirmava uma tradição familiar, vai aos poucos desaparecendo na sociedade contemporânea. Vejo isso com certa tristeza e nostalgia. Já não se julga necessário pedir a bênção dos pais a cada dia, ignorando que são eles os colaboradores de Deus na construção dos nossos destinos. Pedir a bênção aos parentes, é reconhecer neles o poder de interceder junto ao Pai celeste no sentido de que a Sua proteção e cuidado esteja permanentemente orientando nossa vida.

Nunca me envergonhei do “bença pai”, “bença mãe”, de mão estendida, sempre que os encontrava, porque tinha consciência do quanto era importante receber deles a resposta “Deus te abençoe, meu filho”. Sabia que, naquele instante, estava se constituindo a oportunidade do encontro do homem com o divino. A eles, nossos pais, é outorgada a capacidade de conceder, em nome Dele a bênção que produzirá a paz, a felicidade, o bem estar, que necessitamos a cada dia.

• Integra a série Do livro “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”, a ser lançado brevemente.


 


Uma saudade que não não tem fim

 

Há exatamente sete anos ele partiu para o plano superior. Desde então meu encontro com ele tem se verificado em sonhos, e com muita frequencia. Talvez seja a forma, inexplicável, porque não programada, de minimizar a imensa saudade que ainda faz sofrer meu coração. De qualquer maneira, a sua presença nas minhas noites de sono, alivia, por alguns instantes, a minha alma chorosa. Me dão a sensação de que estou novamente a desfrutar da sua convivência que me fez tão bem enquanto esteve entre nós.

A lembrança de meu pai, se me proporciona lágrimas de saudade, também me oferece encorajamento, ânimo, energia, nas ocasiões em que enfrento dificuldades. Sua história de vida (eu testemunhei boa parte dela) funciona como um livro de regramento da nossa vida. Deusdedit Leitão foi um homem íntegro, em todos os sentidos em que essa qualidade possa se manifestar num ser humano. Adotou a modéstia como comportamento, nunca se vangloriando das suas conquistas ou cargos de importância ocupados. O talento para a pesquisa histórica e capacidade singular para escrever, me inspiram a tentar percorrer caminhos na literatura que ele tão bem percorreu. A dedicação ofertada à família revelava um marido amoroso e um pai afetuoso. Uma personalidade ímpar.

O dia de hoje, portanto, é de muita saudade, entre todos nós que integramos a família que ele responsável e cuidadosamente constituiu. Apesar da ausência física, jamais tive o sentimento de que ele nos abandonou. É firme a impressão de que ele continua próximo a todos nós.

Se neste primeiro de abril não poderemos mais viver a felicidade de sentir o calor do seu abraço, resta-nos elevar os olhos e as mãos aos céus em agradecimento a Deus por ter-nos concedido a graça de tê-lo como pai, avô, sogro, marido, companheiro, amigo.


 


Não há mal que não traga um bem

 

Esse velho e conhecido ditado popular pode, e deve, ser aplicado ao encarceramento da ex-primeira dama do Rio de Janeiro, a advogada Adriana Ancelmo, transformado ontem em prisão domiciliar. O ato está a merecer a indignação popular por considera-lo um privilégio conferido a alguém que figura como integrante da elite e, portanto, favorecida pelas inúmeras amizades nos círculos de poder. O que se apresenta, à primeira interpretação, como uma injustiça.

Todavia, não há como deixar de reconhecer que ela foi beneficiada pelo que estabelece nova legislação. Foi preciso, então, que houvesse uma decisão contemplando uma criminosa poderosa, para que a sociedade, e, acredito, até muitos operadores do direito, passassem a tomar conhecimento de uma lei recente, publicada no ano passado, que altera o dispositivo do art. 318 do Código de Processo Penal para permitir ao juiz substituir a prisão preventiva em domiciliar quando for gestante ou mãe de filho menor de doze anos de idade, cujo pai também esteja na cadeia.

Por possuir bons advogados a ex-primeira dama encontrou a brecha jurídica para cumprir sua prisão em casa. Ainda que tenha causado revolta popular, o que se espera é que, a partir da aplicação da lei em favor dela, passemos a ver o benefício da norma jurídica conferido igualmente a milhares de outras mulheres em situação idêntica, que não possuem recursos para contratar advogados que requeiram o mesmo tratamento.

A forma de minimizar nossa insatisfação é pressionar defensores públicos, advogados e juízes, a adotarem, a partir de então, o mesmo procedimento em relação às presas pobres, desconhecidas do público. Não nos cabe julgar o mérito da decisão, mas, pelo menos, exigir que a lei seja aplicada de forma igualitária, não favorecendo unicamente quem tem dinheiro ou poder.

Quero acreditar na verdade do ditado, esse “mal” que estamos a enxergar, seja o ponto de início de decisões judiciais que alcancem aquelas que sofrem nas celas a separação de seus filhos, a maioria deles entregue aos cuidados de parentes ou abrigos de menores. Que nossa indignação de hoje, seja, em brevíssimo tempo, a satisfação de ver que a lei se aplica igualmente a todos sem distinção de classe social.

 

 


 


A volubilidade das multidões

 

O episódio da crucificação de Cristo, ocorrido há quase dois mil anos atrás, nos leva a refletir sobre a volubilidade das multidões. O Filho de Deus conheceu bem essa característica de comportamento das massas. O mesmo povo que o aclamara quando da sua entrada triunfal em Jerusalém, decidiu aos gritos de “Crucifica-o! Crucifica-o!” a sua condenação. Mas Ele se entregou àquele martírio porque tinha uma missão a cumprir, determinada pelo Pai: salvar a Humanidade.

Por mais que Barrabás dissesse que não enxergava nEle motivo que justificasse a sua crucificação, a multidão, insuflada pelos sumos sacerdotes da igreja judaica, exigia aos brados que fosse executado, pregado a uma cruz. Muitos gritavam, e outros, talvez os que não concordavam com aquela decisão drástica, ficavam calados, com medo de se manifestarem. Os líderes religiosos convenciam os populares de que Ele solto se tornaria um perigo à doutrina que professavam.

As multidões são guiadas por ordens sutis que mexem com as emoções, produzem sensações, afloram sentimentos. Perdendo a individualidade, o ser humano, deixa de raciocinar por si próprio e é arrastado como um animal irracional para atitudes, muitas vezes explosivas, que ferem os princípios de justiça e de respeito ao direito de outros. Passa a ser orientado por “palavras de ordem” ajustadas a interesses arriscadamente estranhos aos que antes defendia.

“A mão que afaga, é a mesma que apedreja”, já nos ensinava o conterrâneo Augusto dos Anjos. A mesma multidão que um dia aplaude, festeja, reverencia, pode ser a mesma que, pouco depois, comunga reações iradas, raivosas, violentas, em situações ocorridas em tempos diferentes e contextos outros. O humor das multidões varia de acordo com as circunstâncias. Não se exprime por força da racionalidade, se revela através das contingências emocionais.

Quantas vezes nos surpreendemos gritando: “Crucifica-o! Crucifica-o!”, ao meio de manifestações coletivas, sem nos darmos a oportunidade de analisar com tranquilidade se estamos sendo corretos, justos, honestos conosco mesmos? Fazendo prejulgamentos, sem a oferta da chance do acusado se defender ou explicar os motivos que o levaram a ser apontado como vítima de uma incriminação?

Jesus, por sua condição de divindade, conhecia bem esse aspecto volúvel no comportamento das multidões. Por isso mesmo, Ele dedicava mais atenção ao indivíduo, procurando fazê-lo compreender que seus julgamentos devam ser presididos pela consciência ditada pelo coração, onde prevaleçam os sentimentos de fraternidade, amor ao próximo, respeito à justiça social e serenidade. Reflitamos um pouco sobre isso. Evitemos ser levados pela insensibilidade que caracteriza as manifestações coletivas, agindo impulsivamente, provocados por processos estratégicos de sedução das massas.


 


A igreja do Rosário

 

A principal referência do bairro de Jaguaribe ainda é a Igreja do Rosário. Trata-se de um belíssimo projeto arquitetônico com forte influência alemã, em razão da origem dos frades responsáveis por sua construção. No seu interior possui colunas revestidas de mármore escuro, oferecendo uma beleza que impressiona. Sua edificação foi concluída por volta de 1930.

O arrabalde cresceu no seu entorno. A vida religiosa, cultural, educacional, esportiva e social, acontecia nos seus arredores. O templo acolhia a comunidade católica do bairro nas missas celebradas aos sábados à noite e domingos pela manhã. A juventude preferia comparecer às cerimônias noturnas dos sábados. Era a oportunidade para antes e depois da missa, nas reuniões em frente à Igreja, tomar conhecimento da programação social do fim de semana. De lá saia em grupos para os “assustados”, festinhas organizadas em residências próximas. Falarei com detalhes sobre os “assustados”, em crônica posterior.

O cine Santo Antônio, que ficava ao lado direito, reunia mais a garotada. Lógico que lá nunca se exibia nada que pudesse figurar como proibido para menores de dezoito anos. Normalmente eram filmes de aventuras e educativos. Lembro que lá assisti “Marcelino, pão e vinho”, uma produção de apelo religioso que fez grande sucesso na época. Ainda que sob forte vigilância dos administradores (o gerente era Flávio Coutinho), o ambiente escurinho do cinema ajustava-se aos interesses dos casais enamorados.

Na sua frente se instalou a feira livre, funcionando nas quartas-feiras, onde os habitantes do bairro adquiriam seus mantimentos, principalmente de alimentação. Acompanhei minha mãe várias vezes na tarefa de fazer a feira semanal para ajudá-la a transportar as compras. Hoje, com a construção do Mercado Público Municipal no final da Rua Primeiro de Maio, esse movimento comercial para lá se transferiu.

Por trás os frades edificaram um equipamento esportivo que propiciava a realização de atividades físicas dos jovens que integravam uma agremiação chamada “Cruzada”, chefiada pelo Frei Albino. Na verdade o local passou a ser utilizado por todos os que gostavam de praticar o futebol. Lá surgiu o “Estrela do Mar Esporte Clube”, que viria a ser Campeão Paraibano de Futebol em 1959, último ano em que do certame participavam apenas equipes da capital.

No mês de outubro ocorria a festa da padroeira, com seu ritual religioso, mas também com sua programação profana. Parques de diversão infantil eram instalados. No pavilhão central aconteciam as quermesses, com leilões de prendas cuja receita ajudaria na manutenção das atividades da Paróquia. Rapazes e moças trocavam bilhetinhos com declarações românticas. Mais na frente funcionava o que chamávamos de “frasqueira”, barracas com objetivos comerciais, onde não havia restrições ao consumo de bebidas alcoólicas.

Da torre da Igreja conseguíamos ver, á distância, a hora que seu relógio exibia ao alto. Ali também eram tocados os sinos que anunciavam as missas.

Não há quem, tendo morado em Jaguaribe, não guarde gostosas recordações da movimentação social e religiosa da Igreja do Rosário.

• Integra a série de textos do livro “INVENTÁRIO DO TEMPO II”, em construção.


O aprendizado político

 

A fonte para o aperfeiçoamento da democracia é o aprendizado político. As experiências traumáticas, ainda que sejam dolorosas, que sirvam como ensinamento. Mais do que isso, que sejam aproveitadas como injeção de ânimo para a luta, a determinação em combater o bom combate, a corajosa manifestação de permanecermos atentos na busca da correção de rumos que determinem um tempo em que a liberdade de pensamento de ação nunca seja cerceada.

As rupturas circunstanciais da democracia não devem jamais ser razão de baixar a guarda, desistir da perseverante vontade de fazer com que esse país não volte a viver um tempo que deseja esquecer, um período em que as classes sociais menos assistidas pelo poder público estiveram marginalizadas, fora do contexto político. Uma época em que só os poderosos tinham voz e mando, desprezando as demandas partidas dos desprotegidos pelos governos.

Mesmo que as elites em algum momento se mostrem vitoriosas, o povo não permitirá que o país mergulhe no atraso, no retrocesso, na volta à indiferença aos problemas sociais. O Brasil é muito maior do que as influências das forças econômicas e midiáticas que teimam em andar para trás, porque incomodadas com os avanços que colocam a população como protagonista da definição da vida nacional.

Apesar de tudo, nunca podemos torcer pelo fracasso de qualquer que seja o governo instalado, mesmo que carente de legitimidade. O espírito de nacionalidade exige de todos nós o acreditar no amanhã, mas, ao mesmo tempo, nos faz responsáveis pela vigilância, acompanhamento, fiscalização de suas ações. Quem assume o governo criticando, tem a obrigação de acertar. E se errar tem que ser cobrado e criticado.

Vamos em frente. O Brasil não pode perder a esperança.