O que há por trás da notícia



Vivemos um tempo em que somos bombardeados a cada instante por uma avalanche de informações. Por conta disso, muitas vezes, sem tempo de procurarmos conhecer o inteiro conteúdo da matéria, nos deixamos ser influenciados apenas pelas manchetes. Tudo o que deseja a imprensa manipuladora que domina os veículos de comunicação em nosso país.

Raríssimas são as exceções em que ao lermos os jornais, escutarmos as emissoras de rádio ou assistirmos a televisão, sejamos brindados com a verdade integral dos fatos noticiados. Se prestarmos atenção, percebemos claramente as distorções informativas, as notícias sendo deformadas conforme os interesses mercadológicos e políticos dos proprietários das empresas de comunicação. Os fatos descritos com o objetivo de levar o receptor da informação a definir opiniões condicionadas ao que deseja o responsável pela elaboração da notícia. A realidade artificial substituindo a realidade verdadeira.

As pessoas que não se dão ao trabalho de garimpar as notícias, terminam sendo usadas como massa de manobra, e passam a repetir conceitos e ideias propagandeadas pela mídia instrumentalizada. Não conseguem pensar por si próprias. Raciocinam de acordo com o que recebem de informações, sem a preocupação em verificar a comprovação necessária dos fatos como são oferecidos. Tornam-se submissos à cultura política predominante na empresa detentora da veiculação da notícia, assumindo uma postura passiva e acrítica diante da realidade que teima em ignorar. Todos os temas de interesse social são tratados com o viés político.

Estamos, portanto, expostos ao perigo da manipulação de nossas consciências. As pautas jornalísticas são elaboradas de forma a influenciar na interpretação dos fatos, desprezando o interesse em atuarem a serviço da verdade. E não é fácil ficar imune ao poder de interferência na nossa capacidade de formar juízos de valor a respeito dos acontecimentos que nos são transmitidos por essa mídia manipuladora. Por trás da notícia tem muita coisa que propositadamente nos é negado o direito de conhecer.
 


Meu coração não se cansa de ter esperança

 

Há uma declaração de Paulo Coelho que eu acho genial: “Quando você quer alguma coisa, todo o universo conspira para que realize o desejo”. Por isso que a chama da esperança nunca pode se apagar. É preciso acreditar, encarar os projetos idealizados com otimismo. Não deixar nunca ser dominado pelo tempo do medo. A esperança nascida da consciência ganha força.

Não há nada pior do que perder a fé no futuro. Nada se faz realidade quando não se corre o risco de viver os sonhos imaginados. Jamais devemos perder a coragem de lutar contra os desafios do momento. As dores circunstanciais não podem servir de desculpas para desistências ou omissões. Antes pelo contrário deverão servir de experiências que fortaleçam o ânimo.

Vivemos hoje um momento de preocupações, a angústia de não saber para onde estamos caminhando. Daí a razão de estabelecer a esperança como elemento de energia para a luta. Não se dobrar ao peso das desilusões e das decepções. O Brasil passa por uma fase de sua história que assusta. No entanto, não é hora de baixar a guarda. È ocasião para acreditar nas mudanças, na retomada do caminho de felicidade nacional, na reconquista da autoconfiança.

Eu não quero, sob hipótese alguma, perder a esperança. Ainda que os acontecimentos teimem em fragiliza-la, eu não me curvarei diante das intempéries. Termino pois essa proclamação de otimismo fazendo uso de uma estrofe da canção revolucionária de Vandré: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. A esperança não combina com passividade, ela exige esforço, entusiasmo, intrepidez, no enfrentamento das contrariedades. Meu coração então não se cansa de ter esperança, apesar dos pesares.


 


As instituições em frangalhos

 

Tomo por empréstimo o título do histórico editorial do Estadão, publicado no dia em que era baixado o Ato Institucional número 5 (AI-5), escrito pelo jornalista Júlio Mesquita Filho, para refletir um pouco sobre a atual situação que estamos vivenciando no Brasil. Muito mais do que uma crise política ou econômica, o mais preocupante é a percepção de que estamos diante de uma grave crise institucional.

Nada mais perigoso para os ideais democráticos do que constatar que as instituições passam por um processo de rápido descrédito perante o povo. Estão se desfigurando, perdendo a noção de suas verdadeiras funções, comprometidas pela prática de ações que contrariam a ética e a moral. Os escândalos que se sucedem ferem de morte a credibilidade do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. A judicialização na política fragiliza os valores das instituições democráticas.

A Praça dos Três Poderes é cenário de um espetáculo que inquieta a todos. Ora se estabelecem confrontos entre eles, ora se associam na definição de posturas que atendem às conveniências políticas. Lamentavelmente ficam expostos a uma relação de promiscuidade no atendimento de interesses que nem sempre são, necessariamente, os da ordem constitucional, como deveria ser.

O povo começa a ficar sem saber a quem recorrer na busca da satisfação de suas demandas. E aí reside o grande perigo. As experiências pretéritas de crises institucionais ocorridas ao longo da nossa história não tiveram bons desfechos. A democracia no seu sentido mais verdadeiro não convive com as crises institucionais. Se as instituições não funcionam da forma como se espera e de acordo com o que está definido como responsabilidades e competências de cada uma delas, promove-se a desordem, o caos, a anarquia. No momento em que elas deixam de cumprir bem as suas funções, põem em risco o Estado Democrático de Direito e o exercício pleno da cidadania.

Não quero fazer uma previsão apocalíptica do nosso futuro, mas não podemos fugir de um sentimento de desassossego com o que estamos assistindo. Tomara que nossos agentes políticos, em todos os níveis de exercício de poder, despertem para essa realidade e se ajustem na observância de respeito aos valores das instituições que formam os pilares de nossa democracia, os poderes executivo, legislativo e judiciário. Independentes, autônomos, mais aliados num só objetivo: trabalhar em favor do Brasil e dos brasileiros.
 


Os primeiros efeitos do AI-5

(vale a pena relembrar para que ninguém deseje que a história se repita)

O Brasil amanhecia o dia quatorze de dezembro de 1968 mergulhado nas trevas da ditadura militar. Marco zero de um tempo da nossa história onde por dez anos 1.577 cidadãos foram punidos de alguma forma, 454 políticos tiveram seus direitos suspensos ou mandatos cassados, inclusive 3 ministros do STF, 548 funcionários públicos foram aposentados compulsoriamente, 334 demitidos, 241 militares reformados, mais de 500 filmes e telenovelas foram proibidos, 450 peças teatrais, 200 livros e 500 letras de música censurados.

A ação repressora começou, na verdade, bem antes da edição do AI-5. No dia treze, agentes da Polícia Federal já visitavam as residências de lideranças estudantis e sindicais na Paraíba. À noite, o estudante Francisco Barreto, fora procurado em sua casa, refugiando-se na casa de amigos, ao tomar conhecimento de que estavam procurando localizá-lo.

As emissoras de TV, as rádios e redações dos principais veículos de comunicação do país foram ocupados por censores. Mesmo assim, o Jornal do Brasil e o Estado de São Paulo encontraram formas de ludibriar a censura. O JB na sua seção de meteorologia colocou: “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx. 38 graus em Brasília; 5 graus nas Laranjeiras”. Em sua primeira página, editada por Alberto Dines, que viria a ser preso depois, lembrava que a véspera tinha sido o “dia dos cegos”. O Estadão trouxe um editorial “Instituições em frangalhos”, considerado um libelo
pela liberdade da imprensa. O cartunista Maurício de Sousa, o “pai” da Mônica, nas suas tirinhas publicadas na Folhinha, colocava, naquele dia, quadrinhos em que Cascão ao entrar na tenda de um adivinho e pedir para ler seu futuro, ouve como resposta de que não vai ter adivinhação, pois uma nuvem preta apareceu na bola de cristal. Eram formas subliminares de protestar contra o AI-5.

O humorista Ary Toledo, na estreia do espetáculo A CRIAÇÃO DO MUNDO SEGUNDO ARY TOLEDO, encerrou seu show com uma piada: “Quem não tem cão, caça com ATO”. Foi o bastante para ser convidado para uma “conversa” no DOPS, intimado por dois agentes que invadiram seu camarim. Ficou por cinco horas trancado na
delegacia. Por sorte, o coronel com quem manteria a “conversa” revelou-se seu fã e o liberou não sem antes passar-lhe um pito.

Sobral Pinto, aos setenta e cinco anos, foi preso em Goiânia, no hotel, onde se encontrava para paraninfar uma turma de concluintes. O ex-presidente Juscelino Kubitscheck participava, também, de uma solenidade de formatura em que era paraninfo da turma, quando ao sair do Teatro Municipal do Rio de Janeiro recebeu ordem de prisão e foi levado para um pequeno quartel em Niterói, lá permanecendo incomunicável por vários dias.

Carlos Lacerda conta no seu livro de memórias que acordou no dia seguinte ao AI-5 com o médico Jaime Rodrigues sentado à cabeceira da sua cama. E ele foi logo dizendo: “Tenho uma notícia desagradável para o senhor. Estão lá embaixo dois homens da polícia que vieram com ordens de prendê-lo. Mas o senhor está doente e não pode ir para a prisão no estado em que se encontra. Exigi que viesse um médico da polícia para examiná-lo e verificar que o senhor não está em estado de saúde para ser preso”. Lacerda ouviu, trocou de roupa e disse que não queria alegar doença. E o médico foi junto com ele numa Kombi da polícia. Estava sendo preso por ordem do General Jayme Portella. Após uma semana de greve de fome foi libertado.

Mário Covas foi preso ainda em Brasília, ficando num quartel do Exército, ali permanecendo por oito dias. Libertado, manifestou preocupação pelo fato de que seu nome não constava da lista dos primeiros políticos cassados pelo regime, o que só viria a acontecer em 16 de janeiro de 1969. Temia, naquele instante, que a opinião pública entendesse que ele teria feito algum acordo com os militares.

• Esse texto integra o livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”, de minha autoria, lançado em 2013, pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba.
 


Calou-se a voz que a ditadura não conseguiu silenciar

 

Encerrou-se ontem a vida terrena de um dos mais dignos brasileiros, Dom Paulo Evaristo Arms, conhecido como o Cardeal da Resistência. Só a morte poderia fazer silenciar a voz de quem se dedicou durante toda a vida pastoral a defender os pobres, os oprimidos, os perseguidos pelos poderosos. Tornou-se o ícone da igreja progressista no Brasil.

Foi durante o período da ditadura militar que protagonizou os mais importantes episódios em defesa dos direitos humanos, ao reagir contra a repressão política de época, assumindo a posição de combate à truculência que marcava a forma de administrar dos que estavam no poder. Com sua voz mansa, transmitindo em qualquer situação um espírito de tranquilidade, não temia em denunciar as arbitrariedades do regime, nem se submetia às intimidações dos generais.

Houve uma ocasião em que procurou o presidente Médici para reclamar da forma violenta com que os agentes do Estado agiram ao prender dois servidores da pastoral. Recebeu uma resposta enfurecida do general-presidente: “Não temos o que conversar. Sabemos o que temos que fazer. O seu lugar é na igreja, na sacristia, e o meu é aqui para governar o país”. Essa reprimenda mal-educada em nada intimidou o prelado, que continuou na sua luta contra as torturas e os assassinatos que aconteciam no Brasil de então.

Em 1975, ao lado do pastor presbiteriano Jaime Wrigh e o rabino Henry Sobel, realizou um culto ecumênico em homenagem póstuma ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI de São Paulo, levando mais de dez mil pessoas para assistir à cerimônia. Nasceu ali a ideia do projeto BRASIL – NUNCA MAIS, que produziu farta documentação sobre a história do Brasil, nos anos finais da ditadura militar implantada na década de sessenta. São mais de um milhão de páginas, 707 processos do Superior Tribunal Militar, que permitiram a edição do livro que recebeu o mesmo título do projeto.

Não conseguiu viver em palácios, vendeu o que lhe era reservado quando arcebispo de São Paulo, e utilizou o dinheiro na construção de casas de assistência social na periferia. Gostava mesmo de conviver com os humildes,

Sua obra humanitária recebeu o reconhecimento do mundo inteiro. Se a sua voz destemida em favor dos humildes e dos oprimidos não mais será ouvida, fica seu exemplo de vida, onde ressalta uma energia vibrante de coragem, quando pregava a esperança aos que estavam sofrendo, postando-se ao lado dos que estavam sendo injustiçados, tornando-se companheiro dos que estavam desamparados. Pena que essa voz veemente em favor da democracia cale-se exatamente num momento em que vivemos uma crise ética e moral tão grave, que nos oferece insegurança quanto ao futuro da nação. Ficamos órfãos de um dos guardiões da democracia brasileira.


 


Reflexões sobre a reforma da previdência

 

Começo por afirmar que não sou um especialista no assunto, mas não podemos deixar de reconhecer que se trata de uma questão de enorme importância para a vida de cada um de nós brasileiros. Por isso mesmo, merece ser tratada com cuidado, sem pressas, não se afastando dos debates públicos, sem que seja determinada exclusivamente por técnicos do governo.

Algumas perguntas me vêm à cabeça. Será mesmo que o segurado é o único responsável pela propalada quebra do sistema previdenciário no Brasil? Sabe-se que são várias as fontes de captação de recursos para a seguridade social, dentre elas a contribuição dos trabalhadores, o Cofins, o CSLL, a participação das empresas nas folhas de salários de seus empregados, etc. Tudo isso vai para uma conta única do governo. É preciso maior transparência na gestão desses recursos, fazendo provas de que parte deles não está sendo desviada para outras finalidades.

Ninguem pode ignorar que a obrigatoriedade de contribuição do trabalhador durante quarenta e nove anos para obter o direito do benefício integral à remuneração percebida enquanto na ativa, penaliza em maior grau as classes sociais mais pobres e que exercem suas atividades laborais em situações de risco, de insalubridade. Esses têm uma expectativa de vida bem menor do que os que trabalham em gabinetes ou em atividades que não exijam esforço físico, e começam a trabalhar muito mais cedo por necessidade de sobrevivência. O que se conclui é que esses menos favorecidos socialmente dificilmente conseguirão usufruir de sua aposentadoria. Será que uma dessas pessoas que se inclue nas camadas sociais mais pobres, ao perder seu emprego com cinquenta anos de idade, terá condições de ser recolocado no mercado de trabalho? Claro que não. É preciso também ser uma reforma previdenciária justa, equânime, eliminando os privilégios de algumas categorias. 

Bastou o anúncio dessa reforma para que as instituições que comercializam os planos de previdência complementar ganhassem uma procura muito maior. Dá para perceber que os planos privados serão os grandes favorecidos nessa reforma. E quem não tem capacidade para aderir a um plano de previdência complementar?

São apenas alguns pontos que me vêm a cabeça e que me deixam preocupado com as consequências dessa reforma, da forma como está sendo proposta. Acho que vale a pena fazer um debate mais profundo sobre ela, fazendo oitiva inclusive da ciência atuarial. Que se faz necessário um ajuste no sistema previdenciário brasileiro, isso é indiscutível. Todavia, não se pode fazer com que aconteça açodadamente, prevalecendo apenas os argumentos do governo e dos empresários. Nesse país, já faz algum tempo em que gestores públicos, insistem em tratar com desprezo os aposentados, imputando-lhes a culpa dessa propagandeada falência da previdência.
 


A esquerdofobia



O contexto político brasileiro está formando um novo tipo de comportamento, o da esquerdofobia. O medo das ideias de esquerda e a propagação de que nelas reside a ameaça de que possamos ser surpreendidos com um regime comunista. Não existe argumento mais risível do que esse, em que se procura convencer os incautos de que deveremos abraçar a ideologia neoliberal, incutindo o medo quanto a participação do estado na economia.

Alguns argumentam, até em defesa da volta dos militares ao poder, que o golpe de 1964 se deu para nos salvar das garras do comunismo. Quando na verdade haviam outros motivos maiores do que o simples receio do perigo vermelho. O Brasil vivia naquele tempo uma grave crise econômica, uma inflação descontrolada e muitas denúncias de corrupção contra o governo. Mais ou menos o que se verifica hoje. A direita se aproveitou do fato da presença de um socialista no poder para justificar o golpe. E deu no que deu.

A história se repete. A chegada das forças populares ao poder, assustou a direita. Passaram a trabalhar a divulgação, com apoio da mídia e do empresariado, de que havia uma conexão entre os partidos de esquerda e o comunismo. Fizeram despertar a esquerdofobia. Ora, sabe-se que toda fobia é irracional. Não se pode desconhecer que a esquerda que chegou ao poder cometeu alguns erros imperdoáveis, se nivelando aos demais que há muito tempo vêm exercendo a política da corrupção em nosso país. Mas daí a se jogar a culpa exclusivamente na esquerda é algo que se apresenta como muito injusto. Mas é o aproveitamento das circunstâncias.

Voltar a imaginar que o país pode ser tomado pelos comunistas foge à maturidade política e intelectual. O comunismo não se sustenta mais enquanto ideologia. O que permanece é um sentimento contrário à exploração dos pobres pelos poderosos. O que ainda se mantém como ideal é o estabelecimento de uma política direcionada para o social. O que continuam sendo consideradas importantes para benefício de todos, indistintamente, é a inclusão social, o combate à miséria, a defesa da democracia, onde os direitos e deveres sejam iguais para todos.

A esquerda cometeu muitos erros, estratégias equivocadas, adoção de métodos antiquados de governar, imposição autoritária de seus conceitos. Mas não justifica que se consolide o ódio intransigente à sua ideologia. A intolerância sócio-política que estamos vivendo, produz uma cegueira que impede a crítica real e objetiva da conjuntura. Estão levando o país a uma conflagração entre classes, um duelo inconsequente entre os pensadores da política nacional, que se situam, cada vez mais, em posições antagônicas extremadas.

Assistí recentemente um episódio que me causou espanto e perplexidade. Um amigo, ao adquirir a Revista Carta Capital numa banca de jornais no Mag Shopping, foi interpelado de forma violenta por um estranho, sendo acusado aos berros de comunista. A que ponto chegamos. A esquerdofobia fazendo com que cidadãos fiquem expostos a esse tipo de censura pública apenas por estar comprando uma revista que, segundo o agressor, exercia um jornalismo contrário ao que ele defende.
 


Uma coincidência que assusta

 

A próxima terça-feira, 13 de dezembro, assinala o aniversário de um dos mais indesejados acontecimentos da história nacional: a edição do Ato Institucional número 5 (AI 5). Foi, sem qualquer dúvida, o mais duro golpe do regime militar instalado na década de sessenta. Naquela noite de 1968 o Brasil mergulhava na escuridão, verificando-se a partir de então estatísticas que gostaríamos de esquecer: 378 políticos cassados, 122 policiais reformados, mais de dez mil servidores públicos exonerados e em torno de quarenta mil brasileiros interrogados.

Essa data se tornou um episódio que tentamos apagar da nossa memória. Um tiro de morte na democracia. A ditadura militar, na impossibilidade de convencer, por argumentos, a implantação de um regime que violentava os mais elementares princípios de respeito às liberdades, decidiu agir pelo império da força, nos impondo uma experiência traumática que ainda nos provoca pesadelos só em rememorá-la. Os poderes constituídos foram afrontados, a República foi arrasada.

Alguns defendem que essa infeliz efeméride seja sempre lembrada, permitindo assim que as gerações que se sucederam tomem conhecimento da violência a que fomos submetidos e, por isso mesmo, nunca cometam o imperdoável equívoco de desejarem a volta dos militares ao poder. Eu, particularmente, prefiro apagar de minha memória tais fatos, embora sabendo que sua recordação tem um efeito pedagógico, ao alertar os que não sofreram as suas consequências, para a ameaça que nos ronda quando os interesses dos poderosos se confrontam com os conceitos da democracia.

Não sei se por uma estranha coincidência, está programada para o próximos dia treze, a aprovação da PEC 55 pelo Senado. Sei que não alcança o mesmo nível de crueldade do AI 5, mas traz no seu conteúdo algumas semelhanças preocupantes, quando retira, sem qualquer discussão popular, direitos que conquistamos a muito custo. A Emenda Constitucional a ser aprovada se antepõe ao espírito democrático que fundamentou a Constituição Federal de 1988. Assim como o AI 5, conta com o apoio entusiasmado do empresariado e da mídia.

Aí fico a me perguntar: será apenas uma mera coincidência, ou algo feito propositadamente para demonstrar que os poderosos querem revelar sua força? É inconcebível que tenhamos pelas próximas duas décadas os gastos sociais limitados, desvinculando a obrigatoriedade constitucional de investimentos em áreas importantes como a saúde e a educação.

Essa coincidência me assusta.

 


 


Se eu fosse Papai Noel

 

Se eu fosse Papai Noel não ficaria esperando cartinhas pedindo presentes. Até porque eu teria consciência do que cada um precisava. Então iria procurar atender a necessidade de todo mundo. Seria o bom velhinho que chega no momento preciso, na hora da carência, no instante da aflição, da agonia. Sendo pai, me sentiria na obrigação de satisfazer as demandas dos filhos.

O mundo contemporâneo não quer mais que Papai Noel chegue com um saco cheio de presentes. Ele quer que ele apareça trazendo esperança de dias melhores, fortalecendo o ânimo para enfrentar as dificuldades, alimentando esperanças.

Se eu fosse Papai Noel acabaria com as guerras, combateria a miséria, alimentaria a fé, estimularia o espírito de fraternidade. Vestindo a roupa vermelha (sem qualquer conotação ideológica ou política), eu convenceria as pessoas a deixar o egoísmo de lado e passar a pensar de forma mais efetiva no estabelecimento de uma boa convivência com o próximo.

Se eu fosse Papai Noel não perderia tempo em visitar só as casas dos ricos na distribuição de presentes. Me sentiria mais a vontade nos lares da pobreza. Mas me faria presente na Noite de Natal, também nos ambientes em que a festa se colocasse como um evento de opulência. Eu seria mais um na confraternização. Sem assumir o papel de presenteador, mas de promotor da concórdia, da alegria de acreditar no amanhã. Seria o condutor de um caminho de paz, desfazendo as diferenças, propondo a igualdade entre os seres humanos.

Não fugiria das casas ricas. Ali eu me estabeleceria como o elemento que chamaria a atenção dos seus moradores para a situação de privilégio em que vivem, em detrimento de tantos outros que sofrem a desconsideração social, a marginalização política, o desprezo dos que estão no poder. Procuraria despertar o sentimento de igualdade, de equiparação nos deveres e direitos de todos, sem distinção. Eu colocaria no coração dos egoístas a semente da concórdia, renegando a exploração, a opressão, a tirania. Eu faria desaparecer o ódio, a inveja, a ambição desmedida dos seres humanos.

Ah, se eu fosse Papai Noel, pelo menos por um dia. Procuraria mudar o mundo. Faria do Natal realmente uma comemoração do nascimento do filho de Deus, não um festejo profano onde prevalecesse a hipocrisia e a falsidade. As luzes da Noite de Natal iluminariam, antes de qualquer coisa, a consciência em cada um de nós, no sentido de que a vida tem o significado igual para todos. Queria ser um Papai Noel que não distinguisse pobres e ricos, bem nascidos ou predestinados a viver na marginalidade, felizes ou infelizes, burgueses ou favelados. Queria ser um Papai Noel de um novo tempo, produzindo paz, alegria e felicidade, de uma forma geral.


 


Uma tarde de sentimentos desagradáveis

 

Fui dominado por vários sentimentos enquanto assistia pela tv a votação sobre o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado, realizada ontem a tarde pelo Supremo Tribunal Federal.

O primeiro sentimento foi de surpresa, ao ver o decano Ministro Celso de Mello, retificar o seu voto proferido anteriormente, buscando encontrar uma solução conciliatória que atendesse aos interesses do governo. E tomou a iniciativa de se antecipar aos demais na proclamação do seu voto, talvez para encorajar os colegas a lhe acompanharem na estranha manifestação de julgamento.

O segundo foi de tristeza, quando me certifiquei de que a mais alta corte do país, passa a tomar decisões ditadas pelas conveniências. Antes da fundamentação jurídica, prevalecendo o atendimento a objetivos políticos traçados pelo poder vigente. Tirar Renan da presidência do Senado representaria risco à manutenção da pauta que interessa ao governo. Os ministros entenderam isso e se curvaram aos apelos do executivo. Judiciário, Legislativo e Executivo, irmanados, num só propósito, ainda que ferindo a ordem legal.

Também o sentimento foi de desesperança. Está cada vez mais difícil enxergar uma luz no fundo do túnel. A escuridão deixando a todos nós brasileiros numa cegueira que não nos permite ver as coisas com o olhar de percepção crítica. De quem esperávamos atuar como guardião da Constituição, postando-se como salvaguarda do Estado Democrático de Direito, verificamos posição inteiramente subserviente aos conchavos, aos acordos políticos fechados nas madrugadas, aos entendimentos escusos nos gabinetes dos três poderes.

Em suma, ficou o sentimento maior de decepção. Aquele momento em que baixamos a cabeça e ficamos entorpecidos pelo desencanto. Queira Deus que esse sentimento tenha sido apenas momentâneo. Espero que, vencido o trauma do acontecimento, possamos nos reanimar e prosseguir na luta pelo restabelecimento da justiça que encaminhará a nação para dias promissores. A postura não pode ser de passividade. O clamor público pelo respeito à ética e a seriedade no exercício da política, bem como à observância dos preceitos legais, deve ecoar forte, para que seja ouvido pelos que se recusam a cumprir bem as suas funções enquanto ocupantes de cargos de relevância na condução dos destinos desse país. Que Deus tenha piedade de nós.