Como será o Brasil de amanhã?

 

O Brasil está imerso numa crise política sem precedentes na sua história. Isso nos leva à incerteza do que acontecerá até num futuro próximo, porque os fatos cotidianos noticiados revelam um comportamento de muitos dos agentes políticos de nosso país, pautado em desvios éticos que estão levando a população ao descrédito de suas instituições.

È desanimador ver que a impaciência popular não está se manifestando nas ruas, produzindo uma apatia perigosa, demonstrando, lamentavelmente, que estamos despreparados para enfrentar o necessário período de transição. É angustiante perceber essa realidade.

Não quero aqui defender ou acusar quem quer que seja. Afinal de contas, compreendo que todos nós temos parcela de culpa nisso tudo. Somos vítimas de um sistema político viciado, que ajudamos a se estabelecer, contaminado pela corrupção, onde o jogo de poder é protagonizado pelos que não se inibem em fugir dos princípios éticos e morais para alcançarem seus objetivos.

Até no momento em que tivemos avanços, com a implementação de políticas que resultaram em diminuição da desigualdade social e da pobreza, concluímos que só foram possíveis porquanto propostas erguidas sobre a areia movediça dos conchavos políticos patrocinados pelos que detinham força partidária e econômica. As elites nunca abriram mão de serem protagonistas das ações políticas em nosso país. Ficamos, portanto, reféns dos seus interesses. Por um tempo admitiram compartilhar com as camadas sociais desassistidas os bônus da prosperidade. Quando se cansaram disso, resolveram romper acordos de ontem e estabelecer um novo conceito de governabilidade e de tratamento sócio-econômico da nação.

E agora a pergunta que nos incomoda: para onde estamos indo? A república está cambaleando. A promessa de um país nos trilhos não se efetiva. A fila de desemprego em índices crescentes. Direitos conquistados historicamente sendo retirados com o discurso de que se busca a modernização das relações de trabalho. Universidades, hospitais e escolas sem verbas para seu funcionamento pleno. Em quem depositar a crença de que experimentaremos um novo tempo, livres das mazelas da corrupção?

Estamos ainda sendo impactados pelas medidas propagandeadas como de combate à corrupção e à impunidade, executadas pela “lava jato”, embora se percebam posturas que nos levam, em alguns casos, a duvidar da isenção político-partidária dos seus agentes. De qualquer forma, é indiscutível sua importância como uma revolucionária reação aos costumes políticos e de gestão pública nocivos aos princípios do exercício honesto da democracia.

Há uma confusão ideológica, propositadamente alimentada pela grande mídia e grupos políticos e econômicos poderosos, na intenção de promover a divisão entre os brasileiros. Estamos, portanto, numa arquibancada, assistindo o jogo, sem a força de participação no seu resultado, uma vez que divididos. Pior ainda, perdendo a racionalidade, considerando a radicalização de pensamento de parte a parte. É hora de união nacional. Só assim conseguiremos vencer os nossos verdadeiros adversários, aqueles que, a qualquer custo, querem manter o domínio da situação pensando só neles.
 


O Grito de Alerta de Osmar de Aquino (rememorando 1968)

 

A ditadura militar procurava dar uma impressão de normalidade no
país, não permitindo que a sociedade tomasse conhecimento do que
ocorria nos bastidores do governo. A imprensa não poderia noticiar
a realidade dos acontecimentos. Prisões, torturas e assassinatos eram
praticados contra quem ousava enfrentar o poder. A vida política brasileira sofria um esvaziamento com a desmobilização dos movimentos sociais e das organizações de classe.

Ainda com algumas interrupções, o Congresso Nacional chegou a
funcionar durante toda a época do regime de força instalado no país.
Assim daria a impressão de que vivíamos uma democracia. No entanto, o Poder Legislativo, amordaçado e mantido permanentemente sob vigilância, enfraquecia-se nas suas funções de legislador. A lei de Imprensa e a Lei de Segurança Nacional inibiam as forças de oposição.

Entretanto, alguns parlamentares corajosamente se colocavam
como intérpretes da insatisfação popular e denunciavam as arbitrariedades que a sociedade brasileira estava sendo vítima. Lideranças políticas questionavam a ordem e os interesses estabelecidos pelo regime, que maculavam a soberania do povo e quebravam os princípios mais elementares dos conceitos de democracia. Entre esses valorosos combatentes das causas libertárias, destacou-se o paraibano Osmar de Aquino.

Em memorável discurso pronunciado na tribuna da Câmara Federal no dia doze de junho, nosso conterrâneo deu o grito de alerta, chamando a atenção da nação brasileira para a grave situação política que estávamos vivendo.

“Não há uma correspondência do que se convencionou chamar a classe política e o povo brasileiro. O problema, se analisado mais detidamente, tem causas profundas até de sentido universal. Não se pode, todavia, subestimar o quanto para isto contribuiu o movimento militar de 1964, no seu esforço de manter o “status quo” a todo preço.
Os movimentos populares anteriores a 1964, não chegaram a objetivar a tomada do poder, mas o simples fato de existirem alarmou as classes dominantes para as quais, um regime autenticamente democrático chegava a significar uma ameaça.
Extinguido o jogo democrático, o movimento de 1964 pôs fim a qualquer convívio político das massas, notadamente a juventude estudantil, com a figura convencional do político. O processo de transição populista, que embalou as esperanças de largos setores do povo, ainda pouco politizado, perdeu todo o sentido.
A classe média perde, dia a dia, o sonho de atingir a burguesia e também descrê dos processos políticos institucionalizados.
Dentro dessa ordem de ideias, situamos o Congresso Nacional, com suas atribuições mais importantes manietadas pela Constituição neofascista de 1967. O Congresso não se porta à altura de suas responsabilidades históricas.
O Congresso formado imediatamente, após o movimento de 1964,
aparece aos olhos da nação como um parlamento, não somente complacente e displicente, mas servil aos interesses da ditadura, a tal ponto que esta Câmara, depois de cercada, foi em grande parte ao Palácio do Planalto, apertar a mão do responsável pelo estupramento do poder de que fazia parte.
Criou-se, então, no espírito público, uma atitude de irritação e de
revolta contra aquele Congresso. E o meu receio é que se crie contra este Congresso um clima ainda pior do que o da irritação, do que o de protesto, mas um clima de desprezo. Porque o que temos presenciado nestes últimos dias é em verdade uma maioria de cabeças baixas diante da prepotência.
O que ainda me pode restar, como representante do povo brasileiro, é esta capacidade de indignação, que outra coisa não posso fazer. Usemos o mandato que nos conferiu o povo, pelo menos, para advertir este próprio poder de que fazemos parte, de que as últimas esperanças desta nação estão se esvaindo; para advertir este próprio poder de que se está cavando um abismo entre ele e a opinião pública; para advertir a este próprio poder de que, com sua omissão, com a sua displicência, e com a sua complacência, pode ele também contribuir para a radicalização de posições levando este país a dias cujas consequências nós não podemos prever”.
_____________________________________________________

Como está fazendo falta um Osmar de Aquino na atual composição do Congresso Nacional!!

• Esse texto está publicado no livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”, editado em 2013.
 


São "favas contadas"

 

Gosto de fava como tira-gosto. Fico chateado quando elas são colocadas como algo desprezível, desinteressante, sem importância. Como, por exemplo, ao ver alguém mandando “a modéstia às favas”. Traduzindo a afirmação, ela quer dizer que prefere deixar de lado a humildade por julgá-la tão desconsiderada quanto as favas.

Incomoda-me também a expressão “favas contadas”, revelando que um acontecimento do qual se espera indefinição, incerteza, dúvida, já é tido antecipadamente como previsível. Principalmente ao se tratar de julgamento exercido por um colegiado. Nada mais absurdo do que a contagem de votos ficar conhecida antes de que eles sejam expressos publicamente. É, no mínimo, uma falta de respeito a tantos quantos possam, de alguma forma, serem prejudicados com a decisão a ser tomada. Dá a entender que existe uma força maior a determinar o resultado.

Essa expressão popular tem origem nas eleições realizadas nos mosteiros medievais para a escolha do abade. O processo de votação era feito na utilização de favas, com os candidatos sendo diferenciados pelas cores das favas (brancas ou pretas). O eleito, então, era proclamado após a contagem das favas. Mas era, embora estranha, uma forma lícita de se buscar conhecer a manifestação majoritária dos votantes.

No entendimento contemporâneo, “favas contadas”, tem um sentido condenável, porque denota uma eleição ou julgamento sem isenção, com votos direcionados por forças alheias ao colegiado ao qual está submetida a decisão. Se o resultado é conhecido por antecedência, fica claro que o propósito é unicamente o de tentar legitimar uma resolução previamente estabelecida em favor dos interesses de um lado das partes litigantes.

Muito triste constatar essa prática nociva aos princípios de seriedade e equidade da justiça. Se são “favas contadas”, fica parecendo uma farsa, uma enganação, uma estratégia de simular decência num julgamento. Lastimável.


 


Modéstia às favas

 

A melhor forma de se reconhecer uma pessoa esnobe é quando ela pronuncia a frase: modéstia às favas. Destaca-se a personalidade de quem se julga em nível de superioridade. Normalmente se gaba da sua competência, muitas vezes inexistente. Entende ser importante que seja visto como merecedor de todas as homenagens, reverências e admiração. Exerce a autolatria.

É bíblica a afirmação de que “o orgulho é a origem de todos os pecados. É a iniqüidade que precede todas as iniqüidades. O orgulho leva o homem a adorar a si próprio e a desprezar a Deus”. Na autolatria o homem se exalta, colocando-se acima dos demais. Percebe-se nele a necessidade de endeusamento do ego.

Fujo da convivência com aqueles que trazem a soberba no seu coração. Eles não são amigos de ninguém, porque acreditam que todos precisam deles. Não consigo ter respeito por quem vive se vangloriando. Geralmente essas manifestações de autoelogio são características dos indivíduos carentes de enaltecimento. Apressam-se em realçar as suas aparentes qualidades, uma vez que não recebe reconhecimento dos outros. São vítimas do próprio deslumbramento.

Portanto, quando vejo alguém colocar “modéstia às favas”, pressinto que vem uma declaração de sobrançaria, arrogância, falta de humildade. Não há como considerar autenticidade na asserção, soa falso e presunçoso.


 


Um paraibano que orgulha sua gente

 

Ontem ao assistir a sessão inaugural do Tribunal Superior Eleitoral que trata da possibilidade de cassação da chapa “Dilma/Temer”, ouvi com perplexidade o ministro presidente daquela Côrte repercutir a seguinte declaração proferida por alguém do seu convívio: “estão cassando mais do que os ditadores, e é uma justiça que se pretende democrática”. Sua Excelência é um homem culto e sabe que essa afirmação não condiz com a verdade histórica.

No período da ditadura militar ocorreram 4.682 cassações de mandatos eletivos, em todos os níveis. Sem falar na suspensão de direitos políticos de muitos brasileiros, mesmo sem mandatos. Naquela época se cassava sem qualquer processo judicial que pudesse apurar fatos graves que justificassem tão grave medida. Bastava que os ditadores entendessem que se tratava de pessoas consideradas subversivas, perigosas para o regime. Vivíamos num “estado de exceção”, onde os cidadãos não podiam contar com a legislação para se defenderem do cometimento de arbitrariedades.

Hoje as cassações têm uma conotação bastante diferente. Elas se processam através de julgamentos, mediante apuração de fatos que fundamentem a necessidade de punir os responsáveis por atos criminosos, atentatórios aos padrões éticos e morais no exercício da atividade política. Na atualidade são cassados os corruptos comprovados. Antes eram cassados os que defendiam a democracia e os direitos sociais.

Se por um lado fui surpreendido com a infeliz declaração do ministro-presidente do TSE, me senti orgulhoso ao ver a resposta do paraibano ministro Herman Benjamin, relator do processo, ao pronunciar: “As ditaduras cassaram e cassam quem defende a democracia. O TSE cassa aqueles que vão contra a democracia”. “Tudo o que eu disser no meu relatório, como tudo o que eu disser no meu voto, todos os brasileiros poderão clicar na internet e conferir se o que estou dizendo realmente indica a realidade dos autos. Então, esta é uma garantia enorme de cidadania, mas, ao mesmo tempo, uma garantia para nós, julgadores, que queremos julgar com segurança, com justiça e bem”. Quem tem brios e não se curva às conveniências da conjuntura política, age assim, julgando conforme os preceitos legais, livre de pressão dos poderosos, comprometido exclusivamente com a verdade inserida nos autos. A Paraíba se faz, portanto, muito bem representada no Tribunal Superior Eleitoral.


O ativismo "black bloc"

 

Impressionante como esses grupos de ativistas que agem nas manifestações de rua, conseguem ganhar a atenção principal da grande mídia por ocasião dos atos de protestos. Eles aproveitam-se da oportunidade de grandes aglomerações para aplicarem suas táticas de violência, buscando intencionalmente provocar a repressão policial, na certeza de que passarão a ser o foco do noticiário, em desfavor do verdadeiro conteúdo reivindicatório dos movimentos de contestação política.

Ninguém de bom senso pode acreditar que parta dos organizadores de qualquer ato público de protesto, a orientação para a depredação e a desordem, colocando em risco a integridade física dos que participam da manifestação. São indivíduos infiltrados na multidão, de forma organizada, para incitarem a violência. Esses deploráveis acontecimentos só prejudicam os que, pacificamente, desejam entoar seu grito de protesto em praça pública, e oferecem discurso acusatório para os repressores. Muitos se inibem de participação em outros eventos com receio de saírem machucados ou serem confundidos com os desordeiros.

Os “Black blocs” surgiram no início da década de oitenta na Alemanha, mas têm atuado no Brasil desde 2013, quando morreu, vítima de uma bomba, um cinegrafista em São Paulo, e durante os protestos contra a Copa do Mundo em 2014. Seja qual for a bandeira de luta da manifestação, eles se fazem presentes unicamente com o objetivo de causar confusão, partindo para a destruição da propriedade privada e do patrimônio público. São “anarquistas” por natureza. Não têm compromisso com a motivação do protesto, o interesse deles é chamar a atenção para suas ações intimidatórias e de ameaças à ordem pública. E têm conseguido sucesso nesse propósito.

Usam máscaras para não serem identificados. Quem vai a um ato público de protesto com boas intenções não esconde o rosto. Os que se escondem no anonimato são marginais, arruaceiros, nunca poderão ser considerados manifestantes, no bom sentido da expressão. A eles pouco interessa solidarizar-se com o pensamento reivindicatório da maioria. Antes, pelo contrário, querem mostrar força, mesmo que impondo a violência como marca de sua atuação.

É lamentável que isso esteja acontecendo. O interessante é que as organizações de polícia conhecem bem o modo de agir desses “bandidos”, e conseguem com facilidade identifica-los entre a multidão, mas preferem entrar no jogo do confronto, aceitando a provocação, gerando o clima de terror que termina sendo a principal matéria para o jornalismo sensacionalista irresponsável. As lideranças desses movimentos mostram-se incompetentes por não se preparar para essas intervenções alheias às causas que defendem, permitindo o discurso de que são coniventes com a baderna. E o povo de boa fé e necessitado de bradar publicamente suas insatisfações e seus anseios é que fica prejudicado.

 


 


Precisamos de uma comunicação social democrática

 

Não há como negar que vivemos atualmente recebendo influências quanto à nossa forma de viver e de pensar, pela força da comunicação social, através da TV, jornais, rádio e internet. A mídia tem o poder de manipular a opinião pública. Os valores sociais vão se adequando ao consumo das informações recebidas no cotidiano. Os veículos de comunicação, portanto, criam conceitos, modas e ideologias.

A vida das pessoas passa a ser pautada pela mídia. E o poder político tira proveito disso. Os grupos que comandam os veículos de comunicação comumente são convencidos a trabalharem no sentido de exercerem um jornalismo que atenda aos interesses dos poderosos de plantão, tanto no campo político, quanto no econômico. É aí que funciona a sua capacidade de manipulação. A avalanche de informações que nos é oferecida diariamente, não nos permite, muitas vezes, conferir a veracidade das notícias. Somos induzidos a acreditar nas primeiras mensagens recebidas.

A imprensa, quase sempre, atrelada às conveniências de grupos dominantes, estabelece um processo de alienação da sociedade. Ela tenta padronizar a opinião das pessoas e formar uma cultura homogênea. Desestimula o público a pensar e refletir sobre os graves problemas que o aflige. A população passa a ser vítima de um jornalismo que despreza a ética e o compromisso com a informação verdadeira.

Os meios de comunicação, em sua maioria, são empresas orientadas para o lucro, por isso não é de estranhar que as notícias divulgadas reflitam os desejos e as expectativas dos seus proprietários, muitas vezes à revelia dos interesses da sociedade. Adotam uma linha editorial descompromissada com a verdade dos fatos, submissa ao propósito de produzir a impressão de consentimento democrático do que é divulgado.

Impossível construir uma sociedade livre sem uma mídia democrática, que respeite e garanta a pluralidade e a diversidade. E isso já está previsto na Constituição vigente, em seu artigo 220, Parágrafo 5, ainda que não cumprido: “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. A comunicação social deve refletir as mais diversas visões de mundo, de pensamento, de opinião e de cultura.


 


A delação premiada

 

Sou de um tempo em que “delatar” era uma atitude reprovável. Aqueles que se dedicavam a esse tipo de comportamento eram chamados de “dedo duro”, alcaguete, traidor. Do ponto de vista moral era uma postura condenável.

Na contemporaneidade passou a ser uma ação que merece ser premiada. Através da delação o criminoso busca amenizar a sua responsabilidade delituosa, sob o pretexto de que está colaborando para o inteiro desvendamento da infração penal da qual participou. Basta que forneça informações que possibilitem conhecer a forma e os demais componentes da ação criminosa de que foi um dos protagonistas.

Não tenho condições de tecnicamente analisar o instituto da “delação premiada”, mas há algo que me incomoda nesse procedimento investigativo tão adotado atualmente. Tenho dificuldade em entender o porque de premiar a traição, oferecendo benefícios extremamente generosos a quem cometeu delitos de grande gravidade. Substituiram a palavra delator pela de colaborador, talvez para melhor dar a impressão de que o criminoso que se dispôs a “entregar o jogo” é menos delinquente do que os seus comparsas. O bandido procura apresentar-se como arrependido, mesmo sendo um corrupto confesso.

Pior ainda quando se percebe que, nem sempre, as delações acontecem por manifestação espontânea do criminoso. Há quem diga que muitas vezes elas são produzidas mediante pressão e orientação que atendam interesses que não são exclusivamente a de elucidar questões ainda não conhecidas na prática do crime.

Temos assistido com certa indignação a soltura de verdadeiros marginais, promotores da corrupção, contemplados com a oportunidade de usufruírem em suas mansões, a vida boa que o produto do crime lhe proporciona. Fica a triste e assombrosa constatação, nesses casos, de que o crime compensa. Péssimo exemplo.

Sinceramente, por mais que renomados criminalistas queriam me convencer de que esse é um método eficaz para combater o crime organizado, desmantelar a existência de quadrilhas, só consigo enxergar que é um estímulo à impunidade. A bandidagem de colarinho branco sabe que tem na “delação premiada” a estratégia para se livrar das penas da lei, o que a torna estimulada ao cometimento de crimes. Desculpem-me os juristas que defendem tal mecanismo legal de avançar nas investigações criminosas, mas me dá um certo inconformismo com a sensação de impunidade que ela oferece.
 


O "batom na cueca"

 

Há uma expressão popular muito citada nos tempos atuais, “o batom na cueca”. Ela representa dizer que, enfim, apareceu algo que é impossível negar a ocorrência do acontecimento criminoso, não há porque suscitar quaisquer dúvidas. Não bastam apenas os indícios ou as deduções baseadas em afirmações, mas são indispensáveis as provas concretas, o flagrante incontestável.

Sem “o batom na cueca” qualquer acusação fica vulnerável ao cometimento de injustiças, oferta de crédito a denúncias que podem vir eivadas de falsidade. A investigação séria deve ir sempre em busca da comprovação dos fatos, mediante identificação da materialidade do crime cometido.

Os indícios jamais deverão ser desconsiderados. Pelo contrário eles oferecem a sinalização para se chegar aos elementos pelos quais possam ser mostradas a existência e a efetividade de um fato delituoso. Só então o juiz poderá formar convicção de culpa para condenar alguém.

A presunção da não-culpabilidade é um princípio jurídico de ordem constitucional aplicado ao direito penal. Isso equivale dizer que ao acusador cabe o encargo de apresentar provas dos crimes atribuídos ao acusado. “In dúbio pro réu”, na definição do jurisdiquês indica que, não havendo certeza da ação delituosa atribuída a alguém, deverá prevalecer o pressuposto da inocência.

Ficamos então a refletir, o que é pior a injustiça ou a impunidade? É um questionamento que aflige a todo mundo neste momento em que se vive um surto de denúncias de corrupção. E isso tem provocado uma impulsão punitivista, na ânsia da sociedade em combater essa chaga que tem afetado de forma assombrosa o exercício da política em nosso país. Ficamos então na dúvida, entre a possibilidade de deixar impune um culpado ou punir um inocente. Todos nós detestamos a impunidade. Entretanto, não desejamos cometer a injustiça de punir um inocente.

A melhor forma de não se praticar a injustiça, nem permitir a impunidade, é adotar procedimentos investigatórios que fundamentem um processo justo, conduzido dentro dos limites legais e constitucionais. Combater a impunidade na certeza do crime praticado, reduzindo, então, a possibilidade de erro judicial.

O “batom na cueca”, portanto, continua sendo o elemento essencial para a admissibilidade de culpa. Sem ele, reside o perigo do julgamento apressado, infenso ao que se estabelece como direito individual de ampla defesa. Enquanto não apresentadas as provas materiais, qualquer acusação está fadada ao cometimento de uma injustiça. Não se elimina a impunidade estimulando a injustiça.


 


O prefácio de Robinson Granjeiro


O pastor presbítero e psicólogo Robinson Granjeiro me deu a honra e a satisfação de tê-lo como prefaciador do livro SENTIMENTOS, EMOÇÕES & ATITUDES que estarei lançando no dia nove de maio, às dezenove horas, no restaurante Picuí Praia, no Bessa.
Eis o texto:

Caro Rui

Faço desse prefácio uma curta missiva, que lhe envio pelo correio inusitado – e de certa forma, em desuso – pelas vias da palavra escrita e impressa, este gênero em derrocada, diante dos emotions virtuais, que se pretendem mais sintéticos do que até a própria pontuação.

Ao ler suas obras, sempre restou-me a convicção de que você tem as duas maiores virtudes de um cronista: capacidade singular de observação das falas e dos não ditos, dos textos e intertextos, bem como aquela que é a mais simples e cabulosa das vontades: a de escrever o que não pode ficar adormecido no leito de meros pensamentos.

Alguém já disse que ser um cronista é como se encontrar com algo que lhe faz falta e que volta como música preferida. Quase como uma comida obrigatória do cardápio diário ou semelhante àquela perseguição religiosa e disciplinada daquele ritual, qualquer que seja, mas sobretudo inescapável e expiatório. É assim que lhe imagino a cada manhã ou fim de dia.

Sim! Quase esqueci dessa adolescente inquieta chamada imaginação, que alguns julgam subtraída desse gênero e seus gênios, mas que é o estofo imprescindível que subjaz nas letras, expressões e frases do texto! Ali, no mesmo canto ou em qualquer recanto, sentado a prosear com a vida e consigo mesmo, dando a nascer sua maneira peculiar de ver a existência e os existentes, mortos ou vivos, tangíveis ou metafísicos, todos lençóis dessa parturiente inquietude de onde brotam as crônicas.

Já li algumas de suas obras, nas quais você, elegante, se acompanhou de finas damas descritivas e lindas senhoras narrativas. Agora, neste presente trabalho, revela uma verve reflexiva à semelhança das balzaquianas discretas de outrora, com seus vestidos cheios de renda escondendo voluptuosas paixões. Contudo, que desafio, amigo, esse de falar de emoções tão básicas, e quase tão indecifráveis como a Alegria, e tão misteriosas como as virtudes, que de tão importantes, tornaram-se cardeais, à semelhança da Moderação e da Modéstia, nomes cheios de etiquetas para descrever a mais pura Humildade! Na olhada atenta e contínua de comportamentos atuais e costumeiros, assim como vulgares e abjetos, a Espetacularização e o Fisiologismo. Enfim, temas multifacetados como todo polígono escrito, que chamamos de coletânea.

Ao companheiro de leitura, que me honra ao ler estas poucas linhas à guisa de prefácio, dou-lhe testemunho que, à semelhança de gotículas de orvalho derramadas parcimoniosamente pelo Criador sobre as folhas aveludadas e frágeis das petúnias, a leitura de cada uma dessas crônicas, desde que calmamente sorvidas, será um bálsamo a lhe tirar da roda-viva para o regaço onde repousam os sentimentos mais nobres. Foi assim que li e reli. E por isso, a minha admiração cresceu, assim como a gratidão, sinceras por me permitir encerrar este ode ao seu talento, com os melhores votos de muitas edições sopradas pelos ventos venturosos de um crescente sucesso. De resto, a minha contínua oração para que Deus o conserve com vida, saúde e lucidez por muitos anos, para que, por suas crônicas também possamos refletir e crescer; não seria esta a razão de escrever ?

Com carinho, do amigo
Robinson Grangeiro
Pastor presbítero e psicólogo