Quero ver as estrelas na escuridão

 

Não, eu não aceito que a escuridão me dê a sensação da cegueira. Recuso ficar sem enxergar. Quero buscar a luz, mínima que seja, mas que me traga esperança, me conduza no caminhar da vida. Por mais que tentem me jogar num mundo sem claridade, sem perceber como posso dar um passo adiante, eu busco a luz de uma estrela.

Quando vivenciamos momentos de crise, instantes sombrios da vida, nos sentimos em meio a uma escuridão que amedronta. E assim entramos em pânico, sem orientação, desnorteados, querendo encontrar uma luz que nos permita visualizar o caminho a seguir. Esse brilho que se busca evita que tropecemos, esbarremos nos obstáculos sem conhecer como vencê-los. A luz que se encontra, por mais ínfima que seja, permite orientação. Era dessa forma que os navegadores se guiavam nas noites escuras.

No Brasil contemporâneo experimentamos a atordoante impressão que estamos mergulhando numa escuridão, o caos se instalando. Me nego a aceitar essa realidade. Quero enxergar uma saída, desejo visualizar uma luz no fundo do túnel. Na verdade preciso procurar pelo menos uma estrela que me anime a acreditar no amanhã. Não podemos ser tragados pelas trevas da escuridão que teimam em nos colocar.

Há quem diga que as estrelas são os olhos de Deus. Acredito nisso. A imensidão do firmamento nos proporciona luzes que são guias. Nessa visualização evitamos nos perder, sabemos como sair das tenebrosas ameaças da escuridão.

Portanto, quero ver as estrelas na escuridão. E que ninguém me impeça disso. Desejo mais, coloco fé que todos os brasileiros haverão de se libertar da venda nos olhos que querem nos colocar. Quero continuar enxergando. Quero continuar avistando o que possa ser considerado danoso para a nossa democracia, identificando o inaceitável. Quero ver as estrelas na escuridão.
 


Coisas que eu quis ser e não fui

 

Ao alcançar o estágio da maturidade (melhor do que dizer o tempo da velhice), lembro que já construí muitos sonhos que não consegui realiza-los, fantasiei muitas vivências que deixei de torna-las realidade, imaginei conquistas e vitórias que não foram alcançadas. Chego à conclusão de que desperdicei inúmeras e maravilhosas oportunidades. São coisas que eu quis ser e não fui.

Arrependimento por isso? Nenhum. Sou um homem que gosta de lidar com o improviso, o desafio. E, graças a Deus, não tenho porque reclamar dos caminhos que decidi seguir na vida. Nunca estive onde planejei. Tudo aconteceu naturalmente, sem que eu tivesse estabelecido como meta, objetivo. A história de minha vida foi moldada de acordo com as circunstâncias, as chances surgidas, a percepção dos momentos. Em tempo algum tive a preocupação de ficar rico. Aliás, me considero dono de uma riqueza inestimável: a família que formei (esposa, filhos e netos).

Quando criança, tempo em que nossas aspirações são desejos produzidos pela imaginação, cheguei a pensar em ser padre. Ainda hoje me pergunto porque alimentei essa ideia. Talvez tenha sido pela influência de um vizinho que me convenceu a participar como coroinha na Igreja do Rosário, em Jaguaribe. Descobri, depois de três anos, que passava longe de ter vocação para o sacerdócio. Mas valeu a pena o período em que fui aluno do seminário. Serviu, certamente, como base sólida da minha formação cultural.

Já quando me iniciava na vida adulta, pressionado pela exigência de definir uma profissão, decidi que seria advogado. Fiz vestibular, passei, e comecei a frequentar a faculdade. Não concluí o curso, porque me entusiasmei com a rápida ascensão como bancário, ocupando a gerência geral do PARAIBAN aos vinte e um anos de idade.

Herdei de meu pai a paixão pela política. Houve uma época que aspirei disputar uma eleição. Deus me presenteou com a falta de condições para fazer dessa intenção uma atitude efetiva. No entanto, me instalei nos bastidores dos movimentos políticos do meu estado, tanto na militância estudantil, quanto na partidária. Percorri caminhos que atualmente vejo como antagônicos, circulei por compreensões da política que se distanciam bastante do que hoje eu penso. Todavia, minha incursão nas atividades políticas se deu com maior sucesso no exercício de atividades na administração pública, onde continuo atuando.

Interessante que, só após os sessenta anos, me descobri escritor. Não programei essa prática na vida. Foi acontecendo aos poucos. Trago o DNA do entusiasmo pela cultura herdado de meu pai. Isso, com certeza, tem ajudado muito. Me comprazo em ver o que escrevo e perceber que há quem leia e goste. Tem sido a maior realização da minha vida.

Então, deixei o destino me levar. Não lamento decisões erradas no passado, nem me culpo por sonhos que eu próprio fui a causa de terem sido desfeitos. Na verdade há muita coisa que eu quis ser e não fui. Como também ainda tem muita coisa que eu quero ser e não se tornarão realidade. Mas, estou de bem com a vida. Vou continuar sonhando, não planejando. Quero permanecer com a disposição de sempre estar pronto para os desafios, as novas empreitadas, mesmo que pareçam momentaneamente difíceis de serem executadas.
 


Em cima do muro

 

A todo instante estamos sendo convocados a fazer escolhas. Porque se posicionar sobre tudo o que acontece em nossa volta, faz parte do processo evolutivo da vida. Não é pela apatia ou omissão que conquistaremos vitórias, avançamos na definição dos nossos interesses. É preciso ter opinião própria sobre as questões que envolvem nossos objetivos enquanto cidadãos, partícipes de um agrupamento social. Só os covardes fogem da responsabilidade no estabelecimento de posições firmes, preferem ficar indiferentes, lançados à própria sorte, guiados pelo que for circunstancialmente menos problemático.

Esses são os famosos indivíduos que costumam se equilibrar em cima do muro. Têm receio de desagradar pessoas com quem convive, nunca se animam a enfrentar com coragem um questionamento, desprezam a importância do debate, estão sempre usando a expressão “tanto faz”. Receiam ser julgados pelos outros. Vivem na acomodação, passivos, inertes. Fazem a opção pelo “não decidir”, transferindo essa faculdade para chefes, líderes ou companhias que escolheram.

Não compartilho da tese da neutralidade axiológica. Desconfio de que os politicamente neutros são, antes de qualquer coisa, elementos que pensam exclusivamente em si mesmos, desprezando qualquer ação que traga benefícios sociais. Fazem questão de se abster dos debates, simplesmente por comodismo, alienação. Normalmente ficam em cima do muro, observando e calculando a melhor oportunidade para pular para o lado da maioria, dos mais fortes.

Respeito e admiro os que se manifestam publicamente, sejam conservadores, progressistas, liberais, esquerdistas, ou até mesmo os anarquistas. Conhecendo as opiniões divergentes podemos comparar ideias, confrontar juízos de valor, estabelecer o diálogo nas polêmicas. E assim ficarmos mais preparados para escolher, decidir, e até modificar posições. O importante é jamais "ficar em cima do muro”. Ninguém respeita o indeciso.

Na condição de ser social-político, cada um de nós tem a obrigação de se postar como um observador atento e imparcial da dinâmica da vida, procurando contribuir com sua experiência e conhecimento para a formação da consciência crítica da coletividade. Recusar ser um “maria vai com as outras”, repetindo frases construídas pelos que escolheu para pensar em seu lugar. O momento político nacional exige posicionamentos, a boa disputa de pensamentos e ideias, o exercício efetivo da cidadania. Ficar “em cima do muro” é se esconder, por falta de coragem para assumir responsabilidades.
 


A expressão do coração

 

Estamos esquecendo de deixar que o coração fale por nós. E assim, estamos assumindo uma postura de insensibilidade, frieza, indiferença. O mundo dominado por manifestações que se distanciam daquilo que o nosso coração deseja expressar.

Pode ser que alguém diga, mas a paixão é irracional e nasce do coração. Eu ouso discordar, o coração não intui o que foge da razão. Ele é sentimento, emoção, resultado da consciência. Qualquer atitude fora disso, nada tem a ver com o coração, é influência do exterior. O coração faz vibrar a alma, reflete o que está na interioridade.

Tentamos muitas vezes enganar o coração, mas ele não deixa. Ele fala mais alto que nossa vontade. A consciência, por influência de informações recebidas, quer se fazer maior do que a afirmação do coração. A reação provoca um conflito interno.

Digo até que o coração é menos emotivo que o cérebro. Parece estranho isso, né? Um se faz presente no descobrir saberes, nem sempre verdadeiros, o outro se coloca como orientador de atitudes, impulsionando ações e reações. Prefiro me guiar pelo pulsar do coração, porque ele não sabe mentir.

Todo mundo já passou pela cobrança interior que faz a gente se sentir culpado pelo que fez ou idealizou fazer. O coração chamando a atenção do cérebro. Muitos deverão dizer: mas mão é o contrário? O cérebro censurando o coração? Não, o coração como expressão é interpretação verdadeira do querer, do ser e do agir. Ele dirige, conduz, define o caminho da vida.

Nunca deveremos fazer ouvidos moucos à voz do coração. Ainda que digam que ele comete desatinos, há de se compreender que traduz o que está escondido no nosso íntimo. Utópico ou realista, falso ou verdadeiro, factível ou impossível. Não importa. O que vale é deixar o “coração como expressão”. Isso nos torna verdadeiros.
 


A campanha do medo venceu

 

Donald Trump começou brincando de ser candidato à presidência dos Estados Unidos. Acho que nem ele próprio acreditava que essa brincadeira se tornasse coisa séria. Não dá para pensar de forma diferente, ao ver alguém postular uma eleição para um cargo de tamanha importância com discursos tão polêmicos, cheios de ameaças e promessas que assustavam não só os eleitores, mas todo o mundo.

Explorou bem o sentimento nacionalista do povo norteamericano. O receio de perder a hegemonia como potência líder no planeta, a partir de sentimentos xenófobos e racistas, fez com que grande parte do eleitorado aceitasse bem o discurso do medo. Daí a repercussão do lema maior da sua campanha: “A América vai se tornar grande outra vez”. Dominava a sensação de que estava perdendo a condição de “xerife do mundo” e isso feria o orgulho americano. Trump tornava-se o portavoz dos que tinham medo de ver os Estados Unidos diminuídos. Apresentava-se como único a ter competência para promover a autodefesa da nação.

A invasão dos mulçumanos e imigrantes latinos foi colocada como causa do desemprego e da insegurança entre os americanos. O discurso que, num primeiro instante parecia algo improvável de ser assimilado, foi aos poucos ganhando força e adesão. E Trump viu que já não estava mais brincando de ser candidato, havia chances reais de conseguir a proeza de chegar à Casa Branca.

O medo então venceu. E, em consequência, causou outros medos, agora sentidos fora da área geográfica do país. Sua surpreendente eleição apavorou o mundo na madrugada de hoje. Há um temor global de que ele cumpra suas ameaças: expulsar onze milhões de imigrantes ilegais e mulçumanos, construir um muro na fronteira com o México, rever tratados comerciais assinados com o Canadá, México e países do Pacífico, aplicar impostos de quarenta e cinco por cento em todos os produtos importados da China, entre outras.

Entretanto, há de se lembrar que tem sido uma regra na política colocar a prática distante do discurso. Não será tão fácil cumprir o que prometeu. Seu primeiro pronunciamento após eleito já foi bem diferente, utilizando um tom conciliatório. Tenho a impressão de que esse cão raivoso não tem todos os dentes. Cachorro que ladra não morde. Vamos torcer para que, nesse caso, o ditado se confirme.

De qualquer forma é uma incógnita. Há um clima de tensão em todos os recantos do mundo. Homem de ideias conservadoras, impulsivo, sem experiência política, nascido em berço de ouro, destemperado, ultradireita, o novo presidente dos Estados Unidos tem um perfil que não nos dá tranquilidade quanto ao futuro que pode oferecer ao seu país e ao mundo. Só nos resta rezar para que suas excentricidades não afetem ainda mais o clima de desarmonia que impera mundialmente.


 


A jovem direita brasileira

 

Os jovens, por natureza, são contestadores. E, por isso mesmo, sempre se postaram como questionadores do pensamento político dos donos do poder. É o espírito de rebeldia que instiga, entusiasma, encoraja a juventude a se manifestar contra o “status quo”.

Encontro nessa constatação o motivo maior do nascimento da nova direita no Brasil. Uma geração que nasceu quando o país experimentava grandes conquistas democráticas, após um período de ditadura militar (quando pensar era proibido), teve a sua consciência crítica formada num momento em que estavam no poder aqueles que lutaram pela democracia e pela justiça social. Esperava-se, no entanto, que esses ideais revolucionários das gerações que lhes antecederam, fossem colocados em ação sem serem contaminados pela corrupção e pelas práticas antigas da cultura política brasileira. A percepção de que a esperança, embora atendida por transformações importantes na sociedade, se desfez quando verificados equívocos de postura política que prejudicavam os conceitos ideológicos que sempre defenderam. Daí, surgiu a juventude antiesquerdista, ou antipetista. Nasceu a nova direita entre os jovens brasileiros.

Estimulados pela grande mídia e por setores interessados em conquistar uma militância jovem de direita, muitos não se envergonham mais em assumir convicções ideológicas conservadoras ou neoliberais. A chegada do PT ao poder acirrou então a politização ideológica do Brasil. O discurso da defesa do liberalismo econômico, em contraponto aos ideais socialistas que defendem um compartilhamento igualitário da população dos avanços econômicos e sociais, se mostra cada vez mais presente na internet e nos fóruns de debate da juventude brasileira. O jovem de direita saiu do armário.

Eles ocupam os mais diversos meios de comunicação para colocarem em xeque os dogmas do socialismo, fustigarem os esquerdistas, exaltarem o neoconservadorismo. O viés reacionário da direita jovem já não se coloca como algo reprovável, como em tempos passados. Eles se proclamam militantes de uma causa anticomunista. Detestam a cor vermelha, mesmo que não saibam necessariamente, as razões pelas quais expõem seus argumentos. Porque não são deles. São fundamentos construídos para serem repetidos de forma a estabelecer uma convicção renovadora de ativismo político.

Cada pessoa tem a sua forma de ver o mundo. E é, exatamente isso, que estabelece a importância do diálogo, da formação do senso crítico. O perigo está no emocional, no modismo, na recepção de influências perniciosas que têm somente a intenção de usar indivíduos como massa de manobra para alcançarem interesses que não são os da coletividade.

Os jovens de direita no Brasil de hoje, se utilizam da visibilidade das redes sociais para pregarem discursos que eles próprios desconhecem o seu conteúdo. Mas o fazem movidos por um sentimento de reação inconformada com erros protagonizados pelos que até pouco tempo estavam no poder e não souberam honrar seu idealismo socialista, porquanto manchados pela nódoa enojadora da corrupção, que continua, mas desconsiderada pela paixão política momentânea. Corruptos, na visão deles, são só os que foram afastados do poder. Entendem que o mal maior foi cortado quando expurgados os socialistas.

O grande risco é levantar uma crença nessas jovens mentes de que basta romper com o ideário socialista, demonizando esse campo ideológico por questões meramente circunstanciais de má aplicação dos seus conceitos, e começar a recusar as políticas públicas que efetivamente defendam a igualdade social.

Ainda bem que essa não é, ainda, a postura majoritária da juventude brasileira. Mas estão conquistando aliados.
 


O significado cultural do "Chá Solidário"



Foi entusiasmadora a experiência vivenciada no Antigo Hotel Globo, ontem ao final da tarde, por ocasião da realização do Chá Solidário, promovido pela primeira dama do município, senhora Maisa Cartaxo. O sucesso do evento se deu, não apenas quanto aos objetivos beneficentes, mas, também, pela oportunidade oferecida para que muita gente passasse a conhecer esse novo espaço cultural da cidade.

As pessoas não têm o costume de ir ao Centro Histórico a passeio, ainda mais quando se sabe a situação de abandono a que esteve relegada essa importante área da Capital. A expressão dos participantes do evento, ao chegarem ao local, era inicialmente de deslumbramento com o cenário até então desconhecido por muitos, mas igualmente de surpresa positiva com a constatação de que a cidade estava ganhando um novo equipamento turístico, com potencial para desenvolver atividades em que se poderiam misturar história, cultura e lazer.

O Antigo Hotel Globo, agora totalmente restaurado, significa o início de um tempo em que o Varadouro, onde se concentra a maior parte do nosso patrimônio cultural e arquitetônico, ganhe nova vida, atraindo turistas e os próprios habitantes de João Pessoa, promovendo assim uma reciprocidade entre público e produção cultural. Será um espaço multiuso, acolhendo todas as manifestações das artes e da cultura de nossa terra, onde poderão ser realizadas exposições, reuniões, palestras e eventos diversos que promovam nossos valores culturais.

A Prefeitura Municipal de João Pessoa, através da COPAC – Coordenadoria do Patrimônio Cultural da Cidade, em articulação com a FUNJOPE – Fundação Cultural de João Pessoa, está definindo uma vasta programação de atividades, apoiada pelas Secretarias do Planejamento e Educação, no sentido de consolidar o Antigo Hotel Globo como o novo centro das artes e da cultura de nossa capital.

O prefeito Luciano Cartaxo tem procurado dar efetividade ao processo de resgate da importância de preservação do nosso patrimônio cultural e da divulgação e valorização do Centro Histórico pessoense. O Antigo Hotel Globo assume uma simbologia muito interessante nesse contexto. Com essa visão, determinou a execução de um projeto de educação patrimonial, que desenvolverá sentimentos de apropriação, afetividade e pertencimento dos nossos valores histórico-culturais.

O evento de ontem nos deu a certeza de que a sociedade paraibana, abraçará essa causa com entusiasmo, pelo que se constatou das manifestações de aplausos à iniciativa e o desejo de participação do programa cultural planejado. O “Chá Solidário, portanto, foi a marca brilhante da retomada dos movimentos culturais que proporcionarão a revitalização do Centro Histórico de João Pessoa.
 


 


A batalha insana movida pelo ódio

 

Diariamente quando abro meu face me deparo com uma guerra de palavras que semeia o ódio e a intolerância. Estamos vivendo um preocupante tempo em que se observa um nível elevado de violência, tensão e agressividade. Sem perceber, terminamos nos inserindo nesse contexto, aderindo ao domínio das paixões que escravizam, perdendo a sensibilidade para exercitar a racionalidade. Somos tragados por sentimentos fortes de aversão, hostilidade, animosidade, produzidos por um debate político estimulado por interesses outros que não são, necessariamente, para o bem coletivo.

E o pior é que transitamos das mensagens cristãs, de pregação do bem, da fraternidade, da boa convivência, para o discurso do ódio, da impaciência, do fanatismo, da severidade. Isso tem acontecido quase que simultaneamente, numa atitude de incoerência absurda.

O ódio quando se instala no coração, fica mais forte do que o amor. E tem um extraordinário efeito multiplicador. Existe um dramaturgo e crítico espanhol, chamado Jacinto Benavente, que diz: “mais homens se unem para compartilhar um mesmo ódio do que um mesmo amor”. Essa observação é assustadora e, lamentavelmente, vem sendo praticada pela grande maioria de brasileiros na contemporaneidade. Nos mais diversos campos de pensamento, direita ou esquerda, socialista ou liberal, “coxinhas” ou “petralhas” (como se classificam na discussão política). Em todos os níveis sociais, ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, adultos ou jovens.

Todos se acham no direito de xingar, agredir e serem intolerantes, diante dos que divergem de suas opiniões. A raiva contaminando um ambiente que deveria ser de civilidade, respeito ao diferente. Fica deflagrada uma batalha insana que em nada ajuda na busca de um entendimento nacional que nos leve à solução dos graves problemas que estamos enfrentando. Somos todos culpados, mas é difícil admitir isso, porque ficamos procurando em quem colocar as responsabilidades pela crise política, ética e moral, que se instalou no país. Condenamos alguns por antecipação e absolvemos outros unicamente por conta de nossas preferências ideológicas ou políticas.

Isso está se tornando muito perigoso. As labaredas desse incêndio terminam por atingir a todos sem distinção. Quando se semeia ódio, colhe-se violência. Termino essa reflexão, chamando a atenção para a frase de um pensador e político norte-americano Robert Green Ingarsoll : “o ódio é um vento que apaga a lâmpada da mente”. Nada mais verdadeiro.


 


O despertar de novos olhares

 

O acontecimento que mais preocupou a direita brasileira no momento foi o emocionante discurso da estudante Ana Júlia, proclamado na Assembleia Legislativa do Paraná. Embora nervosa, a garota foi convincente e segura nas suas afirmações, mostrando ao Brasil o pensamento crítico da juventude.

Fiquei emocionado ao assistir o vídeo. Orgulhoso e esperançoso de um futuro diferente para o nosso país. Uma voz quase infantil se impôs perante uma plateia formada por políticos profissionais. Ela nos faz crer que é possível realizar uma transformação cultural em nossa nação. Querem impedir os estudantes do exercício de reflexão das práticas políticas, sociais e culturais, mas ela reagiu, exemplarmente, demonstrando a capacidade dessa geração em debater temas que, muitos querem unicamente adequados aos adultos.

Foi o bastante para que os discordantes de sua opinião, sentindo-se atingidos de forma eficaz, reagissem, tentando desqualifica-la. Talvez envergonhados por verem seus conceitos confrontados tão sabiamente. Parte da imprensa comprometida com a política neo-liberal que vem se instalando no país, manifestou-se na intenção de querer minimizar os efeitos do seu brilhante pronunciamento. É sinal de que a repercussão foi estrondosa, calando os que insistem em desconsiderar a força da juventude brasileira.

Devem haver mais de mil Ana Júlias espalhadas por esse Brasil a dentro. E, por isso, estão fazendo o possível para que elas não apareçam, continuem desconhecidas, perdidas no anonimato. Ana Júlia representa o despertar de novos olhares. A consciência cívica de uma juventude que quer participar das discussões políticas que conduzirão nosso destino.

São jovens que não se intimidam no enfrentamento dos desafios que lhes são impostos. São garotos que querem compreender melhor o mundo, preparando-se para receberem a missão de dirigir o futuro. Conjugar racionalidade e sensibilidade na busca da construção de um novo tempo, mais justo, mais equânime, mais produtivo coletivamente. Eles querem ter uma escola multifocada, com uma visão de mundo mais integrada e abrangente, atenta para tudo o que acontece ao seu redor. Desejam assumir protagonismo na construção de nossa História. Não aceitam serem condicionados a uma educação que os deseja alienados, sem o direito de compartilharem do processo transformador que se faz necessário na atualidade.

Ana Júlia fez renascer as expectativas de que os jovens desta geração não abrem mão da oportunidade de proclamarem o seu pensamento crítico, repensando valores, expressando seu descontentamento quando algo é apresentado como danoso à sua formação cultural. Não admitem contrariar uma tradição histórica, que mostra na juventude a força propulsora dos grandes movimentos sociais de transformação no mundo inteiro. Os conservadores detestam quando uma Ana Júlia fala publicamente o que eles não querem ouvir e tentam proibir que a sociedade ouça verdades que eles se esforçam para ficarem omitidas. A voz dela ecoou forte, não só no Brasil, mas em todo o planeta, Salve Ana Júlia!!!

 


 


Os pobres continuam pagando a conta da crise

 

Quando vejo o governo fazer malabarismos para estabelecer um necessário ajuste fiscal, fico desesperançado ao constatar que os pobres continuarão a pagar a conta da crise. A pesada e perversa carga tributária brasileira continua só penalizando os que vivem exclusivamente de salários e a classe média. No Brasil continuaremos percebendo que quem paga mais impostos é quem ganha menos.

Não tem qualquer sentido a definição de  imposto de renda. Salário não é renda. Quem vive de renda quase não paga imposto. Deveria ser chamado “imposto sobre salário”. A tributação só passa a ser favorável a quem tem um nível de remuneração superior a setenta salários mínimos. Os demais comprometem mais da metade do que ganham no pagamento dos impostos, direta ou indiretamente.

A PEC do teto nos gastos públicos, em nenhum momento, trata de impor maior cobrança de impostos a quem tem bens e fortuna. As rendas de capital recebem apenas algumas pequenas mordiscadas da receita federal. Permanecemos castigados por uma impiedosa injustiça fiscal.

Nada muda, continuamos na mesma situação, embora o discurso seja a de que está sendo feito um corte nos gastos públicos em favor do país. Balela. Quem deveria ser mais afetado pelas medidas do ajuste fiscal é quem mais vai se beneficiar.

A pobreza, que depende de uma maior assistência das políticas públicas, vai sofrer ainda mais o desfavor do cuidado e atenção que deveria merecer. Os investimentos na educação e saúde na administração pública serão minimizados, enquanto os ricos que dispõem desses serviços pela iniciativa privada em nada serão afetados.

Não é uma conclusão fundamentada em paixões partidárias. O fato verdadeiro é que novamente os pobres pagarão a conta da crise. O mais preocupante é ver os “não ricos” aplaudirem as medidas como se fossem a salvação do país. Quando será que veremos esse quadro de tanta injustiça ser alterado?