A violência política (rememorando 1968)

A violência praticada em conflitos politizados era comum na década de sessenta no Brasil, acentuando-se no ano de 1968, com flagrante
desrespeito aos direitos civis e humanos. Os movimentos estudantis continuavam sendo fortemente reprimidos pelo governo. As manifestações não se voltavam exclusivamente contra a ditadura, mas também contra a política educacional do governo. A juventude tomava consciência do seu papel crítico na busca de uma maior participação política.

Mobilizados, levantavam bandeiras de transformação social e comportamental, tais como feminismo, racismo, ecologia, orientação sexual, etc. Intérpretes da indignação do povo brasileiro, os estudantes, nas ruas, ganhavam a adesão dos artistas, profissionais liberais e religiosos.

A reação do governo vinha de forma truculenta, colocando a polícia contra os manifestantes, provocando atos de violência injustificáveis. Espancamentos, prisões, assassinatos, fizeram o registro desses incidentes. O governo buscava sufocar a mobilização estudantil através da força, utilizando serviços de inteligência e informação para perseguir, ameaçar, torturar, censurar.

Lideranças políticas e religiosas protestavam através da imprensa. O arcebispo da Paraíba, Dom José Maria Pires, em entrevista coletiva concedida à imprensa paulista, fez duras críticas à forma como o governo reprimia o movimento estudantil.

“O povo brasileiro é pacato, mas não passivo. Nosso dever é ajudar esse povo marginalizado que se tornou passivo a se tornar ativo, sem perder a sua caracterização de amante da paz. Só considero governo democrático aquele em que o povo participa, em que os governantes são mandatários do povo, e em que todos os planos venham da base. O Brasil é um país em que dois terços da população estão marginalizados do processo de escolha, da possibilidade de se manifestar em relação ao governo, a começar pela impossibilidade de escolher seus mandatários.

O governo é exercido por pequena minoria, o que é uma violência política. O que se vê no momento é uma recusa ao diálogo. Assim como os filhos exigem dos pais o diálogo, os estudantes têm o direito de contribuir para a organização da escola que lhes diz respeito. Eles não podem aceitar uma estrutura universitária em que eles não participem. Enquanto defendem seus direitos, as greves e manifestações públicas são válidas e não é com pancadaria que se resolvem os problemas.

Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”.
 


A "Villa Sanhauá"

 

Uma das primeiras preocupações do prefeito Luciano Cartaxo ao assumir o governo municipal, foi a de resgatar os projetos que oferecessem as condições de promover a revitalização do nosso Centro Histórico. E isso vem sendo feito, sempre procurando atender às exigências técnicas dos órgãos de fiscalização (IPHAN e IPHAEP), porquanto serem intervenções em que se exige observância de legislação específica voltada para áreas tombadas como patrimônio histórico e cultural.

O prefeito, todavia, tem a consciência de que não basta simplesmente restaurar imóveis, mas definir seu uso, de forma a que se transformem em espaços de promoção da cultura e de atração turística. Ao tomar para si essa responsabilidade, compreende que a revitalização do Centro Histórico passa também pela necessidade de oferecer condições de moradia nesse ambiente em que surgiu a cidade.

João Pessoa nasceu às margens do Rio Sanhauá, na área urbana hoje conhecida como Varadouro e Porto do Capim. Ali se estabeleceram os primeiros estabelecimentos comerciais, administrativos e religiosos. As residências de origem, em sua maior parte, com o crescimento populacional e da malha urbana, se deslocaram em direção ao litoral. Com a descentralização das atividades (públicas e privadas), o Centro Histórico passou a enfrentar problemas de congestionamentos e degradação do seu patrimônio arquitetônico e urbanístico.

A atual administração municipal decidiu então pensar a adoção de políticas públicas direcionadas à reversão de imóveis vazios, subutilizados ou degradados, para uso habitacional, aproveitando das vantagens da centralidade da área como fatores que possam motivar as pessoas a morarem no Centro Histórico.

Foi com essa visão que se concebeu a idéia da “Villa Sanhauá”, num projeto de restauração de oito casarões (em ruínas) da rua João Suassuna, dos quais um será destinado à ocupação por unidade administrativa da prefeitura e os outros sete transformados em dezessete unidades habitacionais e seis comerciais. A SEMAHB – Secretaria de Habitação do Município é a responsável pela elaboração e execução do projeto, sob o comando da competente secretária Socorro Gadelha.

É sem dúvida uma estratégia inteligente para consecução dos objetivos maiores de revitalizar o Centro Histórico, tanto no que diga respeito à sua importância como atração turística, quanto pela oportunidade de gerar movimentação dinâmica da vida urbana do local, a partir da fixação de moradias na área.
 


O dia da morte da CLT

 

Hoje é um dia triste para a classe trabalhadora brasileira. O senado oficializa a morte da CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas. A partir desta data serão retirados direitos históricos conquistados com muita luta desde a época de Getúlio Vargas. Nem a ditadura militar foi tão ousada, em impor tanto sacrifício aos que vivem do salário, aprofundando a desigualdade entre o capital e o trabalho.

A reforma, em vias de aprovação, altera mais de cem artigos e duzentos dispositivos da CLT e cria duas novas modalidades de contratação: a de trabalho intermitente, por jornada ou hora de serviço, o que impossibilita o trabalhador saber qual o salário a ser recebido no final do mês, e o chamado teletrabalho, que regulamenta o “home office. Outra novidade em prejuízo dos trabalhadores é o oferecimento de força de lei aos acordos “negociados” entre empresas e empregados. Em outras palavras, o “negociado” prevalecendo sobre o “legislado”.

A ofensiva neoconservadora veio traduzida no discurso político da necessidade de diminuição do tamanho do Estado no Brasil. Os que defendem essa reforma pretendem diminuir a proteção adquirida pelos trabalhadores através da CLT, argumentando que estamos em outros tempos e que a legislação trabalhista precisa ser modernizada. Ora, mas isso vem acontecendo ao longo dos anos, mas sempre com o cuidado de preservar uma justa relação de trabalho.

Dizer que essa reforma vai gerar novos empregos não condiz com a verdade. Nem a CLT tem sido impedimento para o alcance do pleno emprego, tanto que na primeira década deste século não vivíamos a crise do desemprego em nosso país, mesmo com a vigência da legislação trabalhista que acusam de ultrapassada. Na verdade, ela produzirá o surgimento, em número maior, de sub-empregos.

Só nos resta lamentar o fato de que estamos assistindo o Brasil retroceder aos tempos da República Velha, antes da Revolução de 30.

 


O complexo de vira-latas

 

“O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nossa tragédia é que não temos o mínimo de auto-estima”. Essa declaração de Nelson Rodrigues, retrata bem o sentimento chamado de “complexo de vira-latas” a que muitos de nós estão assumindo nos tempos atuais. É muito normal vermos hoje em dia frases como: “só no Brasil acontece isso”, “tinha que ser no Brasil”, na compreensão de que o mundo todo presta, menos o Brasil.

A expressão “complexo de vira-latas” foi cunhada também por Nelson Rodrigues, numa crônica escrita às vésperas da Copa do Mundo de 1958, quando ele se referia ao pessimismo que tomava conta dos brasileiros quanto ao sucesso de nossa seleção. Essa sensação prévia de falta de confiança, foi causada pelo trauma vivenciado por ocasião da inesperada derrota para o Uruguai na decisão de 1950, em pleno Maracanã lotado. Ele afirmou: “por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca perante o mundo”.

Dali por diante toda vez que vemos alguém se lamuriando pelo fato de ser brasileiro, dizemos que ele está alcançado pelo “complexo de vira-latas”. Essa manifestação tem se acentuado ultimamente, por conta das decepções resultantes dos escândalos de corrupção a que estamos diariamente sendo informados. Como se a chaga da corrupção fosse um mal unicamente da índole brasileira.

Na verdade, antes de falarmos mal do Brasil, é necessário que façamos uma autocrítica no sentido de promovermos mudanças de mentalidade e de comportamento. Urge a precisão de que aconteça entre nós uma revolução cultural. Transformar essa mentalidade subalterna, de desconhecimento dos nossos próprios valores, de ignorância dos acontecimentos gloriosos de nossa história, em sentimento de honra patriótica. Somos um povo alegre, trabalhador, sofrido mas corajoso. Não podemos deixar que o desânimo, a desesperança e o desalento, façam com que nos sintamos incapazes de reagir em busca de modificar o que possa ser apontado como nossas deficiências e imperfeições.

Eu não embarco nessa do “complexo de vira-latas”. Tenho orgulho de ser brasileiro. Nossa terra é bonita e rica por natureza, em todos os sentidos. Se temos defeitos, temos também muitas qualidades, e ao invés de realçarmos nossas falhas, devemos valorizar nossas peculiaridades positivas, nossos predicados invejados pelo mundo, nossos atributos de excelência, que são muitos. Essa negação de amor à pátria, representa atitude de sujeição ao império das vontades vindas de fora, submissão ao estrangeiro, fraqueza de personalidade.
 


O movimento cultural da Paraíba (1968)

 


Apesar da situação política, das fortes restrições às liberdades públicas, da rígida censura imposta aos canais de informação, o ano de 1968 foi um dos mais fecundos para a produção cultural de nosso país. A criatividade era estimulada a pensar a realidade brasileira e as relações sociais em conflito. Vivia-se um momento cultural politizado, um ambiente cultural claramente oposicionista. A contestação ao regime, dedicando atenção especial aos temas ideológicos, alimentava o espírito das expressões culturais, fossem escritas, cantadas, lidas ou representadas.

Na Paraíba, essa efervescência cultural era sentida nos eventos acontecidos em João Pessoa. Lançamento de livros, montagem e apresentação de peças teatrais e exposições de artes plásticas, fizeram do mês de julho rico nesse processo de renovação cultural, que o mundo inteiro experimentava esse novo comportamento da intelectualidade e suas manifestações.

O Departamento Cultural da Universidade Federal da Paraíba, dirigido pelo conceituado escritor Juarez da Gama Batista, foi o grande propulsor desse instante de agitação cultural de nosso estado.

Logo no início do mês, o escritor Antônio Freire lançava o livro FRUTO DA TERRA, uma coletânea de suas melhores crônicas, focalizando fatos, coisas e personalidades da Paraíba. Era a primeira promoção do departamento cultural da UFPb, por isso seu diretor fez a apresentação no evento, que aconteceu no hall da reitoria da universidade.

Outro livro que causou forte repercussão nos meios intelectuais paraibanos foi CINEMA E PROVÍNCIA, de Wills Leal. Seu lançamento aconteceu festivamente no clube Astrea, com a presença das mais destacadas personalidades do nosso mundo cultural. Em seu livro, Wills Leal comentava os bastidores cinematográficos da Paraíba, desde os tempos de Walfredo Leal, revelando fatos curiosos ligados às atividades do cinema paraibano. Prefaciado por Oscar de Castro, então presidente da Academia Paraibana de Letras, o livro foi apresentado por Virginius da Gama e Melo, presidente do Conselho de Cultura.

José Altino apresentou, na Galeria José Américo de Almeida, noTeatro Santa Roza, um álbum de xilogravuras intitulado DANAÇÃO.

Guy Joseph concluía um álbum composto por serigrafias, tendo como temática: “o homem diante das perspectivas criadas pela crise mundial”. A obra de Guy Joseph recebeu o nome de “América, América”.

Celene Sitônio, professora do Dpto. Cultural da UFPb, fazia a primeira exposição de artes plásticas naquele mês. Seus quadros foram apresentados também na Galeria de Artes do Teatro Santa Roza. Breno Matos expôs, no Santa Roza, peças executadas em chapa de ferro colorido e em acrílico, reconhecidas pela crítica nacional como arte de vanguarda brasileira.

Luis Ramalho classificava para a finalíssima do Festival Nacional da Música Popular Brasileira, na Tv Excelsior, no Rio de Janeiro, sua composição “Retiro da Lua”, defendida por Roberto Rabelo.

No teatro, Anco Márcio montava a peça “A Menina e o Vento”, de Maria Clara Machado, com um elende estreantes na dramaturgia paraibana, composto por Yara Janner, Edmilde Cyrilo, Martha Janner, Zélia Moura, Manoel Marrocos, Eriberto Dedeu e Niedja Amaral, com especial participação do ator Roosevelt Sampaio. O guarda-roupa e cenários ficaram a cargo de Raul Córdula, com música do maestro Pedro Santos.

Como se vê, foi um mês de intensa produção cultural, mas o fato mais marcante foi a montagem de uma peça escolhida e encenada pelo grupo de teatro da Faculdade de Filosofia da UFPb, com o apoio total do Dpto. Cultural daquela universidade, que contratou o consagrado teatrólogo carioca Rubem Rocha Filho para ser o seu diretor. Foi uma experiência inovadora no teatro paraibano. No próximo texto, maiores informações a respeito.

• Do livro “1968 - O GRITO DE UMA GERAÇÃO”.


 


Mentes manipuladas

 

Provoca uma preocupada inquietação percebermos que uma boa parte da população brasileira está vulnerável às manipulações, sejam em nível social, midiático, político ou publicitário. Mais grave ainda quando se observa que são manipulações mal intencionadas, atendendo o objetivo de fazer com que se perca a autonomia emocional, a soberania pessoal. Procuram brechas que permitam influir nas opiniões, comportamento e sentimentos de outros.

O manipulado nunca admite que isso esteja acontecendo consigo. Acha que está tendo suas próprias idéias. Julga-se alguém que pensa por si próprio, quando, na verdade, fundamenta suas convicções por influências alheias.

Estamos, portanto, perigosamente, correndo o risco de perdermos nossa capacidade de discernir e decidir pela própria vontade, deixando de dar importância à consciência crítica, tão importante para o exercício da democracia, onde deve  prevalecer o entendimento majoritário. O entusiasmo das paixões políticas produz uma cegueira mental que fragiliza o poder de percepção do prejuízo causado por determinados conceitos absorvidos pela propaganda.

O manipulador trabalha no sentido de conquistar adeptos às suas idéias, facilitando assim o triunfo de suas intenções. Enquanto isso os manipulados transformam-se em massa de manobra na conformidade do atendimento às conveniências do manipulador.

O Brasil contemporâneo está, então, susceptível à interferência aventureira das mentes manipuladas. A guerra ideológica, os conflitos político-partidários, a intolerância ao contraditório, o clima de hostilidade e beligerância alimentado por grupos sectários, põem em risco, não só a necessária união nacional, mas também a liberdade de agir e pensar do brasileiro.


 


Carta para Arthur

 

Minha primeira declaração é no sentido de lhe pedir desculpas em nome da sociedade brasileira contemporânea. Você vivia os últimos dias no ventre de sua mãe, na expectativa de conhecer o mundo exterior. Não tinha sequer noção do que iria enfrentar a partir da data do seu nascimento natural. Mas seus pais o esperavam com alegria e desejosos de lhe ofertar uma vida plena de felicidades. Os planos, certamente, eram muitos.

De repente tudo isso foi violentamente alterado. Você ainda nem respirava o ar do mundo em que vivemos e já era vitimado pela brutalidade das relações humanas que estamos construindo. Uma bala perdida foi ao encontro do seu corpo, hipoteticamente protegido pelo ventre materno, e lhe condenou a viver sem os movimentos das pernas e das mãos. É um acontecimento que em tempos pretéritos seria difícil acreditar fosse possível. Entretanto, essa é uma assustadora realidade que nos é oferecida.

Estamos envergonhados Arthur. Lamentamos, profundamente, que a sua recepção ao nosso mundo tenha sido dessa forma. Ao invés de festejarmos sua chegada, como seria normal, estamos atordoados com a hostilidade com que você foi recebido. Sequer teve o direito de dar o primeiro vagido ao nascer, anunciando sua presença entre nós. Foi logo sendo encaminhado para um hospital, na tentativa desesperada de, pelo menos, salvar sua vida.

Não basta somente que nos indignemos com tamanha selvageria de que você foi vítima. O medo que toma conta de cada um de nós deve ser o elemento de estímulo a que tomemos consciência de que estamos perdendo a noção do que seja convivência fraterna entre os homens. Não há mais respeito pela vida humana. É preciso que nos sirvamos do seu exemplo para analisar o estágio de selvageria a que estamos sendo submetidos. Estamos nos tornando seres insensíveis e agressivos. Enquanto as vítimas eram pessoas já oficialmente nascidas, nos resignamos a aceitar esses fatos criminosos como se fossem algo banal, o que por si só já se configura uma anormalidade de compreensão humana. As balas estão cruzando nosso caminho sem necessariamente estarem dirigidas para nos atingir. A cada momento somos informados da existência de mártires da violência urbana, sacrificados inocentemente.

Arthur, você, na agonia de um berço de hospital, lutando para sobreviver, nos convoca a reagir para que outros em situação igual à sua, não sejam surpreendidos por uma bala assassina, vinda ninguém sabe de onde, nem quem a disparou, tenha ceifado prematuramente o direito de viver.

Perdoe-nos Arthur por nossa incapacidade de evitar que você tenha passado por esse infausto acontecimento. Somos todos responsáveis por isso, porquanto nos mantivemos até agora inertes, passivos, apáticos, diante dessa barbárie. Só nos resta, além do pedido de perdão, elevarmos nossas preces a Deus rogando que lhe dê a graça de viver, embora tetraplégico, e pressionarmos as autoridades públicas a buscarem urgentemente uma forma de coibir o comportamento brutal da humanidade que vem se tornando um fato normal no nosso cotidiano.

• Arthur é o garoto vitimado por uma bala perdida, ainda no ventre de sua mâe, que é paraibana, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
 


Porque a indiferença?

 

É preocupante ver o estado de indiferença da sociedade brasileira diante da crise que estamos vivenciando. Fico buscando encontrar as razões dessa apatia nacional, dessa passividade coletiva, dessa alienação geral.

Me assusta ver uma população manifestando-se desacreditada nas suas instituições, um povo desesperançado, sem vislumbrar uma saída triunfante desse quadro de desalento. Me entristece perceber, até entre pessoas de nível cultural, a afirmação de que é melhor abdicar do direito de tentar influir na condução dos nossos destinos, recusando-se a exercer a faculdade de votar na tentativa de escolher quem poderia nos oferecer uma gestão pública que promovesse uma reviravolta na postura política dos que assumem a responsabilidade de conduzir nosso destino. Me assombra encontrar jovens ignorando uma verdade histórica que nos penalizou, ao defenderem a volta dos militares ao poder, desiludidos com a democracia. Me causa estranheza observar, justificando a ausência de lideranças merecedoras da confiança, a opção radical de apoiar candidaturas que em seus discursos alimentam a violência, fazem a apologia da tortura, assumem posturas preconceituosas de desrespeito às diversidades culturais.

Interessante como a revolta dos tempos atuais, ao invés de produzir reações de protesto, indignação, rebeldia, está a gerar um clima de absoluta insensibilidade e frieza perante o caos instalado. O comportamento de alvoroço é silencioso, como se houvesse uma atitude de resignação. Está mais para desencanto do que para posição de insubmissão.

Os poderosos estão alcançando seus objetivos, levar a população ao desinteresse na participação política das questões que digam respeito ao seu futuro. Tudo o que eles querem: terem o domínio da situação, sem que sofram qualquer objeção ou resistência às suas decisões. Para tanto, têm contado com a colaboração da grande mídia, responsável por “fazer a cabeça” de muita gente, incultindo a ideia de que reagir é promover a desobediência civil e a anarquia. Há uma estratégica manipulação de consciências no sentido de convencer a todos de que, se não adianta mudar porquanto há uma generalizada conduta de desconsideração aos princípios éticos e morais, melhor deixar como está.

O país está adormecido. Urge despertá-lo, antes que só seja despertado pela constatação do pesadelo que não tem mais como vencê-lo. Temos a responsabilidade cívica de levantar bandeiras de luta, como se fez em épocas pretéritas da nossa história, em defesa da honestidade administrativa, da igualdade social, da inconformação com os desvios de comportamento que geram a corrupção, da justiça social, da recuperação da credibilidade no “fazer política”. Como diz a sabedoria popular: é melhor prevenir do que remediar.


 


A luta dos estudantes pela reforma universitária (1968)

 

O movimento estudantil brasileiro nos anos sessenta sempre colocou na pauta de suas reivindicações a necessidade de se promover uma reforma educacional no país, em especial, no ensino superior. O sistema de ensino nacional era considerado elitista e desvinculado da nossa realidade social. O acesso dos estudantes à universidade pública e de qualidade era uma das bandeiras de luta que estimulavam as manifestações da juventude naquela década.

Em 1968, quando os estudantes decidiram sair às ruas de forma
mais objetiva brigando por seus pleitos e protestando contra a ditadura militar, a luta pela reforma universitária ganhou mais força de pressão junto ao governo federal. Reclamavam de que as universidades não tinham autonomia e sofriam indébita intervenção do governo em todas as suas dimensões. Entendiam que uma maior inserção da juventude nos espaços universitários contribuiria para a formação da consciência política do povo.

Protestavam contra a Lei Suplicy, que colocou a UNE e as UEEs
na ilegalidade, e o acordo Mec Usaid, que permitia a ingerência dos
Estados Unidos no sistema educacional do país. O modelo americano sinalizava para um projeto de privatização do ensino universitário no Brasil e continuava excluindo boa parte das classes populares do ingresso nas universidades.

Preocupado com as reivindicações estudantis, o governo da ditadura decidiu, em momentos diferentes, instalar duas comissões com a
finalidade de apresentarem propostas de soluções para os problemas
universitários do país. No final de 1967, era criada a Comissão Meira
Mattos, que funcionou no período de 11 de janeiro a 08 de abril de
1968, presidida por um general que deu nome à comissão. Essa comissão foi criada muito mais para analisar a crise na educação, provocada pela agitação ideológica do período, do que propriamente apresentar propostas para a reforma universitária. Um problema grave da época eram os excedentes, aqueles que aprovados nos vestibulares não conseguiam matrículas nas universidades. Isso ensejou muitas greves e manifestações no início do ano, tensionando o clima no meio estudantil.

Concluído o relatório da Comissão Meira Mattos, o governo instalou o Grupo de Trabalho da Reforma Universitária, o que veio a acontecer no mês de junho. De posse do diagnóstico da crise universitária brasileira, produzido pela Comissão Meira Mattos, o grupo de trabalho enfrentou os seguintes temas: autonomia universitária, institutos centrais, desenvolvimento da pesquisa na universidade, indissociabilidade entre ensino e pesquisa, os ciclos básico e profissional, o tempo integral e a instituição de carreira no magistério.

Entendendo, ou procurando simular o entendimento, que os debates são a forma mais adequada para buscar soluções de questões sociais, o governo, por seu Ministro da Educação, solicitou aos governos estaduais que colhessem sugestões para municiar o grupo de trabalho na formatação da proposta da reforma universitária brasileira. Na verdade, a intenção maior era conter a onda de agitações consequente da demanda dos estudantes em relação ao ensino universitário do país.

Na Paraíba, o governador João Agripino designou também o seu
grupo de trabalho para colher propostas a serem encaminhadas ao
ministro, presidido pelo secretário de educação. Encaminhou, portanto, cartas convidando figuras eminentes dos centros acadêmicos paraibanos, entre essas, os professores Kleber Cruz
Marques, Agnelo Amorim Filho, Luiz José de Almeida, Milton Paiva, Lynaldo Cavalcante de Albuquerque, Evaldo Cruz, Atilo Augusto Freitas e Everaldo Lopes Ferreira. Dirigiu, também, correspondência de convite para participar do grupo de trabalho estadual ao presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Paraíba.

Nas cartas, o governador afirmava:
Embora tenham sido solicitadas sugestões ao governador, admito que o problema é demasiado complexo e exige participação de pessoas de alto nível profissional e moral, de forma que a contribuição expresse o consenso cultural da Paraíba.

Prevaleceu o espírito democrático que caracterizava o perfil
político do governador João Agripino, procurando socializar a discussão da matéria, consultando inclusive a representação estudantil, através do presidente do DCE.

• Do livro “1968 - O GRITO DE UMA GERAÇÃO”
 


A passeata dos cem mil (rememorando 1968)

 

A repercussão negativa da “sexta feira sangrenta” fez com que a
população brasileira, por suas lideranças nos mais diversos segmentos, clamasse a uma só voz por diálogo, paz, liberdade de expressão, democracia. Havia um sentimento de indignação e revolta.

Dez governadores decidiram ir ao presidente Costa e Silva, convencê-lo de que as manifestações estudantis não poderiam ser tratadas com repressão policial. Falando em nome dos governantes presentes à reunião, João Agripino, governador da Paraíba, solicitou ao presidente uma reformulação no tratamento que vinha sendo dispensado à juventude. Novamente, a Paraíba marcando presença na história política do Brasil.

Pressionado pela opinião pública, o comando militar decidiu permitir a manifestação estudantil programada para o dia vinte e seis de junho no Rio de Janeiro. Todavia, o general Luis França colocou um contingente de dez mil policiais de prontidão prestes a entrar em ação, se necessário fosse. O governador da Guanabara, Negrão e Lima, decretou ponto facultativo com o objetivo de esvaziar o ato público. Aviões da FAB – Força Aérea Brasileira – afrontosamente davam voos rasantes sobre o centro do Rio de Janeiro.

Nas primeiras horas da manhã, uma multidão já se aglomerava na
Cinelândia. Ao meio dia, já se estimava em cinquenta mil pessoas o
número de manifestantes presentes à concentração. A massa humana alcançava em torno de cem mil participantes
quando teve início a passeata.

Vladimir Palmeira, presidente da UNE – União Nacional dos
Estudantes, no seu discurso inicial, advertiu os participantes de que
não deveriam aceitar possíveis provocações de policiais infiltrados no evento. Na Candelária, num dos seus pronunciamentos, durante a passeata, afirmou:
Pessoal, a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a polícia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam por todos os meios calar a voz do povo. Somos a favor da violência quando, através de um processo longo, chegar a hora de pegar nas armas. Aí, nem a polícia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura, poderá deter o avanço do povo.
Este lugar tem um significado muito grande para nós. Foi na
Candelária que foi rezada a missa do estudante morto no Calabouço. Foi aqui que nós fomos massacrados pela cavalaria da polícia militar. Hoje damos uma demonstração de força e de fraqueza ao mesmo tempo. Temos força para retornar à praça, mas ainda não podemos tomar o poder que eles usurparam.
Não quero quebra-quebra, nada de agitação. Eles querem baderna. Nós queremos outra coisa muito diferente.

Nada intimidava os manifestantes, nem diminuía o seu entusiasmo.
A marcha se iniciava com a participação de intelectuais, religiosos, artistas, operários, políticos da oposição e mães de família que, de mãos dadas, caminhavam pela Avenida Rio Branco. O desfile da
massa humana era recebido com aplausos da população ao longo do
seu percurso. Chuva de papel picado caía das janelas dos prédios. Aos gritos de “abaixo a ditadura” seguiram pelas avenidas Buenos Aires, Regente Feijó, Campo de Santana, contornaram a Praça da República e o Hospital Sousa Aguiar, parando em frente ao Superior Tribunal Militar, onde foi encerrada a manifestação, sem nenhum conflito com a polícia.

No encerramento, Vladimir Palmeira voltou a falar:
Paramos aqui para dizer a este Tribunal que deve deixar de ser militar e ser mais a favor do povo, pois é aqui que nossos colegas são julgados. Estamos reunidos para levar um habeas-corpus de todo o povo para libertar nossos presos.

A passeata dos cem mil ficou na história como uma referência do
poder de mobilização dos estudantes e da força que adquire quando
conta com o apoio da opinião pública, numa luta única em defesa dos interesses nacionais.

• Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”