Mentes manipuladas

 

Provoca uma preocupada inquietação percebermos que uma boa parte da população brasileira está vulnerável às manipulações, sejam em nível social, midiático, político ou publicitário. Mais grave ainda quando se observa que são manipulações mal intencionadas, atendendo o objetivo de fazer com que se perca a autonomia emocional, a soberania pessoal. Procuram brechas que permitam influir nas opiniões, comportamento e sentimentos de outros.

O manipulado nunca admite que isso esteja acontecendo consigo. Acha que está tendo suas próprias idéias. Julga-se alguém que pensa por si próprio, quando, na verdade, fundamenta suas convicções por influências alheias.

Estamos, portanto, perigosamente, correndo o risco de perdermos nossa capacidade de discernir e decidir pela própria vontade, deixando de dar importância à consciência crítica, tão importante para o exercício da democracia, onde deve  prevalecer o entendimento majoritário. O entusiasmo das paixões políticas produz uma cegueira mental que fragiliza o poder de percepção do prejuízo causado por determinados conceitos absorvidos pela propaganda.

O manipulador trabalha no sentido de conquistar adeptos às suas idéias, facilitando assim o triunfo de suas intenções. Enquanto isso os manipulados transformam-se em massa de manobra na conformidade do atendimento às conveniências do manipulador.

O Brasil contemporâneo está, então, susceptível à interferência aventureira das mentes manipuladas. A guerra ideológica, os conflitos político-partidários, a intolerância ao contraditório, o clima de hostilidade e beligerância alimentado por grupos sectários, põem em risco, não só a necessária união nacional, mas também a liberdade de agir e pensar do brasileiro.


 


Carta para Arthur

 

Minha primeira declaração é no sentido de lhe pedir desculpas em nome da sociedade brasileira contemporânea. Você vivia os últimos dias no ventre de sua mãe, na expectativa de conhecer o mundo exterior. Não tinha sequer noção do que iria enfrentar a partir da data do seu nascimento natural. Mas seus pais o esperavam com alegria e desejosos de lhe ofertar uma vida plena de felicidades. Os planos, certamente, eram muitos.

De repente tudo isso foi violentamente alterado. Você ainda nem respirava o ar do mundo em que vivemos e já era vitimado pela brutalidade das relações humanas que estamos construindo. Uma bala perdida foi ao encontro do seu corpo, hipoteticamente protegido pelo ventre materno, e lhe condenou a viver sem os movimentos das pernas e das mãos. É um acontecimento que em tempos pretéritos seria difícil acreditar fosse possível. Entretanto, essa é uma assustadora realidade que nos é oferecida.

Estamos envergonhados Arthur. Lamentamos, profundamente, que a sua recepção ao nosso mundo tenha sido dessa forma. Ao invés de festejarmos sua chegada, como seria normal, estamos atordoados com a hostilidade com que você foi recebido. Sequer teve o direito de dar o primeiro vagido ao nascer, anunciando sua presença entre nós. Foi logo sendo encaminhado para um hospital, na tentativa desesperada de, pelo menos, salvar sua vida.

Não basta somente que nos indignemos com tamanha selvageria de que você foi vítima. O medo que toma conta de cada um de nós deve ser o elemento de estímulo a que tomemos consciência de que estamos perdendo a noção do que seja convivência fraterna entre os homens. Não há mais respeito pela vida humana. É preciso que nos sirvamos do seu exemplo para analisar o estágio de selvageria a que estamos sendo submetidos. Estamos nos tornando seres insensíveis e agressivos. Enquanto as vítimas eram pessoas já oficialmente nascidas, nos resignamos a aceitar esses fatos criminosos como se fossem algo banal, o que por si só já se configura uma anormalidade de compreensão humana. As balas estão cruzando nosso caminho sem necessariamente estarem dirigidas para nos atingir. A cada momento somos informados da existência de mártires da violência urbana, sacrificados inocentemente.

Arthur, você, na agonia de um berço de hospital, lutando para sobreviver, nos convoca a reagir para que outros em situação igual à sua, não sejam surpreendidos por uma bala assassina, vinda ninguém sabe de onde, nem quem a disparou, tenha ceifado prematuramente o direito de viver.

Perdoe-nos Arthur por nossa incapacidade de evitar que você tenha passado por esse infausto acontecimento. Somos todos responsáveis por isso, porquanto nos mantivemos até agora inertes, passivos, apáticos, diante dessa barbárie. Só nos resta, além do pedido de perdão, elevarmos nossas preces a Deus rogando que lhe dê a graça de viver, embora tetraplégico, e pressionarmos as autoridades públicas a buscarem urgentemente uma forma de coibir o comportamento brutal da humanidade que vem se tornando um fato normal no nosso cotidiano.

• Arthur é o garoto vitimado por uma bala perdida, ainda no ventre de sua mâe, que é paraibana, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
 


Porque a indiferença?

 

É preocupante ver o estado de indiferença da sociedade brasileira diante da crise que estamos vivenciando. Fico buscando encontrar as razões dessa apatia nacional, dessa passividade coletiva, dessa alienação geral.

Me assusta ver uma população manifestando-se desacreditada nas suas instituições, um povo desesperançado, sem vislumbrar uma saída triunfante desse quadro de desalento. Me entristece perceber, até entre pessoas de nível cultural, a afirmação de que é melhor abdicar do direito de tentar influir na condução dos nossos destinos, recusando-se a exercer a faculdade de votar na tentativa de escolher quem poderia nos oferecer uma gestão pública que promovesse uma reviravolta na postura política dos que assumem a responsabilidade de conduzir nosso destino. Me assombra encontrar jovens ignorando uma verdade histórica que nos penalizou, ao defenderem a volta dos militares ao poder, desiludidos com a democracia. Me causa estranheza observar, justificando a ausência de lideranças merecedoras da confiança, a opção radical de apoiar candidaturas que em seus discursos alimentam a violência, fazem a apologia da tortura, assumem posturas preconceituosas de desrespeito às diversidades culturais.

Interessante como a revolta dos tempos atuais, ao invés de produzir reações de protesto, indignação, rebeldia, está a gerar um clima de absoluta insensibilidade e frieza perante o caos instalado. O comportamento de alvoroço é silencioso, como se houvesse uma atitude de resignação. Está mais para desencanto do que para posição de insubmissão.

Os poderosos estão alcançando seus objetivos, levar a população ao desinteresse na participação política das questões que digam respeito ao seu futuro. Tudo o que eles querem: terem o domínio da situação, sem que sofram qualquer objeção ou resistência às suas decisões. Para tanto, têm contado com a colaboração da grande mídia, responsável por “fazer a cabeça” de muita gente, incultindo a ideia de que reagir é promover a desobediência civil e a anarquia. Há uma estratégica manipulação de consciências no sentido de convencer a todos de que, se não adianta mudar porquanto há uma generalizada conduta de desconsideração aos princípios éticos e morais, melhor deixar como está.

O país está adormecido. Urge despertá-lo, antes que só seja despertado pela constatação do pesadelo que não tem mais como vencê-lo. Temos a responsabilidade cívica de levantar bandeiras de luta, como se fez em épocas pretéritas da nossa história, em defesa da honestidade administrativa, da igualdade social, da inconformação com os desvios de comportamento que geram a corrupção, da justiça social, da recuperação da credibilidade no “fazer política”. Como diz a sabedoria popular: é melhor prevenir do que remediar.


 


A luta dos estudantes pela reforma universitária (1968)

 

O movimento estudantil brasileiro nos anos sessenta sempre colocou na pauta de suas reivindicações a necessidade de se promover uma reforma educacional no país, em especial, no ensino superior. O sistema de ensino nacional era considerado elitista e desvinculado da nossa realidade social. O acesso dos estudantes à universidade pública e de qualidade era uma das bandeiras de luta que estimulavam as manifestações da juventude naquela década.

Em 1968, quando os estudantes decidiram sair às ruas de forma
mais objetiva brigando por seus pleitos e protestando contra a ditadura militar, a luta pela reforma universitária ganhou mais força de pressão junto ao governo federal. Reclamavam de que as universidades não tinham autonomia e sofriam indébita intervenção do governo em todas as suas dimensões. Entendiam que uma maior inserção da juventude nos espaços universitários contribuiria para a formação da consciência política do povo.

Protestavam contra a Lei Suplicy, que colocou a UNE e as UEEs
na ilegalidade, e o acordo Mec Usaid, que permitia a ingerência dos
Estados Unidos no sistema educacional do país. O modelo americano sinalizava para um projeto de privatização do ensino universitário no Brasil e continuava excluindo boa parte das classes populares do ingresso nas universidades.

Preocupado com as reivindicações estudantis, o governo da ditadura decidiu, em momentos diferentes, instalar duas comissões com a
finalidade de apresentarem propostas de soluções para os problemas
universitários do país. No final de 1967, era criada a Comissão Meira
Mattos, que funcionou no período de 11 de janeiro a 08 de abril de
1968, presidida por um general que deu nome à comissão. Essa comissão foi criada muito mais para analisar a crise na educação, provocada pela agitação ideológica do período, do que propriamente apresentar propostas para a reforma universitária. Um problema grave da época eram os excedentes, aqueles que aprovados nos vestibulares não conseguiam matrículas nas universidades. Isso ensejou muitas greves e manifestações no início do ano, tensionando o clima no meio estudantil.

Concluído o relatório da Comissão Meira Mattos, o governo instalou o Grupo de Trabalho da Reforma Universitária, o que veio a acontecer no mês de junho. De posse do diagnóstico da crise universitária brasileira, produzido pela Comissão Meira Mattos, o grupo de trabalho enfrentou os seguintes temas: autonomia universitária, institutos centrais, desenvolvimento da pesquisa na universidade, indissociabilidade entre ensino e pesquisa, os ciclos básico e profissional, o tempo integral e a instituição de carreira no magistério.

Entendendo, ou procurando simular o entendimento, que os debates são a forma mais adequada para buscar soluções de questões sociais, o governo, por seu Ministro da Educação, solicitou aos governos estaduais que colhessem sugestões para municiar o grupo de trabalho na formatação da proposta da reforma universitária brasileira. Na verdade, a intenção maior era conter a onda de agitações consequente da demanda dos estudantes em relação ao ensino universitário do país.

Na Paraíba, o governador João Agripino designou também o seu
grupo de trabalho para colher propostas a serem encaminhadas ao
ministro, presidido pelo secretário de educação. Encaminhou, portanto, cartas convidando figuras eminentes dos centros acadêmicos paraibanos, entre essas, os professores Kleber Cruz
Marques, Agnelo Amorim Filho, Luiz José de Almeida, Milton Paiva, Lynaldo Cavalcante de Albuquerque, Evaldo Cruz, Atilo Augusto Freitas e Everaldo Lopes Ferreira. Dirigiu, também, correspondência de convite para participar do grupo de trabalho estadual ao presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Paraíba.

Nas cartas, o governador afirmava:
Embora tenham sido solicitadas sugestões ao governador, admito que o problema é demasiado complexo e exige participação de pessoas de alto nível profissional e moral, de forma que a contribuição expresse o consenso cultural da Paraíba.

Prevaleceu o espírito democrático que caracterizava o perfil
político do governador João Agripino, procurando socializar a discussão da matéria, consultando inclusive a representação estudantil, através do presidente do DCE.

• Do livro “1968 - O GRITO DE UMA GERAÇÃO”
 


A passeata dos cem mil (rememorando 1968)

 

A repercussão negativa da “sexta feira sangrenta” fez com que a
população brasileira, por suas lideranças nos mais diversos segmentos, clamasse a uma só voz por diálogo, paz, liberdade de expressão, democracia. Havia um sentimento de indignação e revolta.

Dez governadores decidiram ir ao presidente Costa e Silva, convencê-lo de que as manifestações estudantis não poderiam ser tratadas com repressão policial. Falando em nome dos governantes presentes à reunião, João Agripino, governador da Paraíba, solicitou ao presidente uma reformulação no tratamento que vinha sendo dispensado à juventude. Novamente, a Paraíba marcando presença na história política do Brasil.

Pressionado pela opinião pública, o comando militar decidiu permitir a manifestação estudantil programada para o dia vinte e seis de junho no Rio de Janeiro. Todavia, o general Luis França colocou um contingente de dez mil policiais de prontidão prestes a entrar em ação, se necessário fosse. O governador da Guanabara, Negrão e Lima, decretou ponto facultativo com o objetivo de esvaziar o ato público. Aviões da FAB – Força Aérea Brasileira – afrontosamente davam voos rasantes sobre o centro do Rio de Janeiro.

Nas primeiras horas da manhã, uma multidão já se aglomerava na
Cinelândia. Ao meio dia, já se estimava em cinquenta mil pessoas o
número de manifestantes presentes à concentração. A massa humana alcançava em torno de cem mil participantes
quando teve início a passeata.

Vladimir Palmeira, presidente da UNE – União Nacional dos
Estudantes, no seu discurso inicial, advertiu os participantes de que
não deveriam aceitar possíveis provocações de policiais infiltrados no evento. Na Candelária, num dos seus pronunciamentos, durante a passeata, afirmou:
Pessoal, a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a polícia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam por todos os meios calar a voz do povo. Somos a favor da violência quando, através de um processo longo, chegar a hora de pegar nas armas. Aí, nem a polícia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura, poderá deter o avanço do povo.
Este lugar tem um significado muito grande para nós. Foi na
Candelária que foi rezada a missa do estudante morto no Calabouço. Foi aqui que nós fomos massacrados pela cavalaria da polícia militar. Hoje damos uma demonstração de força e de fraqueza ao mesmo tempo. Temos força para retornar à praça, mas ainda não podemos tomar o poder que eles usurparam.
Não quero quebra-quebra, nada de agitação. Eles querem baderna. Nós queremos outra coisa muito diferente.

Nada intimidava os manifestantes, nem diminuía o seu entusiasmo.
A marcha se iniciava com a participação de intelectuais, religiosos, artistas, operários, políticos da oposição e mães de família que, de mãos dadas, caminhavam pela Avenida Rio Branco. O desfile da
massa humana era recebido com aplausos da população ao longo do
seu percurso. Chuva de papel picado caía das janelas dos prédios. Aos gritos de “abaixo a ditadura” seguiram pelas avenidas Buenos Aires, Regente Feijó, Campo de Santana, contornaram a Praça da República e o Hospital Sousa Aguiar, parando em frente ao Superior Tribunal Militar, onde foi encerrada a manifestação, sem nenhum conflito com a polícia.

No encerramento, Vladimir Palmeira voltou a falar:
Paramos aqui para dizer a este Tribunal que deve deixar de ser militar e ser mais a favor do povo, pois é aqui que nossos colegas são julgados. Estamos reunidos para levar um habeas-corpus de todo o povo para libertar nossos presos.

A passeata dos cem mil ficou na história como uma referência do
poder de mobilização dos estudantes e da força que adquire quando
conta com o apoio da opinião pública, numa luta única em defesa dos interesses nacionais.

• Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”
 


Como será o Brasil de amanhã?

 

O Brasil está imerso numa crise política sem precedentes na sua história. Isso nos leva à incerteza do que acontecerá até num futuro próximo, porque os fatos cotidianos noticiados revelam um comportamento de muitos dos agentes políticos de nosso país, pautado em desvios éticos que estão levando a população ao descrédito de suas instituições.

È desanimador ver que a impaciência popular não está se manifestando nas ruas, produzindo uma apatia perigosa, demonstrando, lamentavelmente, que estamos despreparados para enfrentar o necessário período de transição. É angustiante perceber essa realidade.

Não quero aqui defender ou acusar quem quer que seja. Afinal de contas, compreendo que todos nós temos parcela de culpa nisso tudo. Somos vítimas de um sistema político viciado, que ajudamos a se estabelecer, contaminado pela corrupção, onde o jogo de poder é protagonizado pelos que não se inibem em fugir dos princípios éticos e morais para alcançarem seus objetivos.

Até no momento em que tivemos avanços, com a implementação de políticas que resultaram em diminuição da desigualdade social e da pobreza, concluímos que só foram possíveis porquanto propostas erguidas sobre a areia movediça dos conchavos políticos patrocinados pelos que detinham força partidária e econômica. As elites nunca abriram mão de serem protagonistas das ações políticas em nosso país. Ficamos, portanto, reféns dos seus interesses. Por um tempo admitiram compartilhar com as camadas sociais desassistidas os bônus da prosperidade. Quando se cansaram disso, resolveram romper acordos de ontem e estabelecer um novo conceito de governabilidade e de tratamento sócio-econômico da nação.

E agora a pergunta que nos incomoda: para onde estamos indo? A república está cambaleando. A promessa de um país nos trilhos não se efetiva. A fila de desemprego em índices crescentes. Direitos conquistados historicamente sendo retirados com o discurso de que se busca a modernização das relações de trabalho. Universidades, hospitais e escolas sem verbas para seu funcionamento pleno. Em quem depositar a crença de que experimentaremos um novo tempo, livres das mazelas da corrupção?

Estamos ainda sendo impactados pelas medidas propagandeadas como de combate à corrupção e à impunidade, executadas pela “lava jato”, embora se percebam posturas que nos levam, em alguns casos, a duvidar da isenção político-partidária dos seus agentes. De qualquer forma, é indiscutível sua importância como uma revolucionária reação aos costumes políticos e de gestão pública nocivos aos princípios do exercício honesto da democracia.

Há uma confusão ideológica, propositadamente alimentada pela grande mídia e grupos políticos e econômicos poderosos, na intenção de promover a divisão entre os brasileiros. Estamos, portanto, numa arquibancada, assistindo o jogo, sem a força de participação no seu resultado, uma vez que divididos. Pior ainda, perdendo a racionalidade, considerando a radicalização de pensamento de parte a parte. É hora de união nacional. Só assim conseguiremos vencer os nossos verdadeiros adversários, aqueles que, a qualquer custo, querem manter o domínio da situação pensando só neles.
 


O Grito de Alerta de Osmar de Aquino (rememorando 1968)

 

A ditadura militar procurava dar uma impressão de normalidade no
país, não permitindo que a sociedade tomasse conhecimento do que
ocorria nos bastidores do governo. A imprensa não poderia noticiar
a realidade dos acontecimentos. Prisões, torturas e assassinatos eram
praticados contra quem ousava enfrentar o poder. A vida política brasileira sofria um esvaziamento com a desmobilização dos movimentos sociais e das organizações de classe.

Ainda com algumas interrupções, o Congresso Nacional chegou a
funcionar durante toda a época do regime de força instalado no país.
Assim daria a impressão de que vivíamos uma democracia. No entanto, o Poder Legislativo, amordaçado e mantido permanentemente sob vigilância, enfraquecia-se nas suas funções de legislador. A lei de Imprensa e a Lei de Segurança Nacional inibiam as forças de oposição.

Entretanto, alguns parlamentares corajosamente se colocavam
como intérpretes da insatisfação popular e denunciavam as arbitrariedades que a sociedade brasileira estava sendo vítima. Lideranças políticas questionavam a ordem e os interesses estabelecidos pelo regime, que maculavam a soberania do povo e quebravam os princípios mais elementares dos conceitos de democracia. Entre esses valorosos combatentes das causas libertárias, destacou-se o paraibano Osmar de Aquino.

Em memorável discurso pronunciado na tribuna da Câmara Federal no dia doze de junho, nosso conterrâneo deu o grito de alerta, chamando a atenção da nação brasileira para a grave situação política que estávamos vivendo.

“Não há uma correspondência do que se convencionou chamar a classe política e o povo brasileiro. O problema, se analisado mais detidamente, tem causas profundas até de sentido universal. Não se pode, todavia, subestimar o quanto para isto contribuiu o movimento militar de 1964, no seu esforço de manter o “status quo” a todo preço.
Os movimentos populares anteriores a 1964, não chegaram a objetivar a tomada do poder, mas o simples fato de existirem alarmou as classes dominantes para as quais, um regime autenticamente democrático chegava a significar uma ameaça.
Extinguido o jogo democrático, o movimento de 1964 pôs fim a qualquer convívio político das massas, notadamente a juventude estudantil, com a figura convencional do político. O processo de transição populista, que embalou as esperanças de largos setores do povo, ainda pouco politizado, perdeu todo o sentido.
A classe média perde, dia a dia, o sonho de atingir a burguesia e também descrê dos processos políticos institucionalizados.
Dentro dessa ordem de ideias, situamos o Congresso Nacional, com suas atribuições mais importantes manietadas pela Constituição neofascista de 1967. O Congresso não se porta à altura de suas responsabilidades históricas.
O Congresso formado imediatamente, após o movimento de 1964,
aparece aos olhos da nação como um parlamento, não somente complacente e displicente, mas servil aos interesses da ditadura, a tal ponto que esta Câmara, depois de cercada, foi em grande parte ao Palácio do Planalto, apertar a mão do responsável pelo estupramento do poder de que fazia parte.
Criou-se, então, no espírito público, uma atitude de irritação e de
revolta contra aquele Congresso. E o meu receio é que se crie contra este Congresso um clima ainda pior do que o da irritação, do que o de protesto, mas um clima de desprezo. Porque o que temos presenciado nestes últimos dias é em verdade uma maioria de cabeças baixas diante da prepotência.
O que ainda me pode restar, como representante do povo brasileiro, é esta capacidade de indignação, que outra coisa não posso fazer. Usemos o mandato que nos conferiu o povo, pelo menos, para advertir este próprio poder de que fazemos parte, de que as últimas esperanças desta nação estão se esvaindo; para advertir este próprio poder de que se está cavando um abismo entre ele e a opinião pública; para advertir a este próprio poder de que, com sua omissão, com a sua displicência, e com a sua complacência, pode ele também contribuir para a radicalização de posições levando este país a dias cujas consequências nós não podemos prever”.
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Como está fazendo falta um Osmar de Aquino na atual composição do Congresso Nacional!!

• Esse texto está publicado no livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”, editado em 2013.
 


São "favas contadas"

 

Gosto de fava como tira-gosto. Fico chateado quando elas são colocadas como algo desprezível, desinteressante, sem importância. Como, por exemplo, ao ver alguém mandando “a modéstia às favas”. Traduzindo a afirmação, ela quer dizer que prefere deixar de lado a humildade por julgá-la tão desconsiderada quanto as favas.

Incomoda-me também a expressão “favas contadas”, revelando que um acontecimento do qual se espera indefinição, incerteza, dúvida, já é tido antecipadamente como previsível. Principalmente ao se tratar de julgamento exercido por um colegiado. Nada mais absurdo do que a contagem de votos ficar conhecida antes de que eles sejam expressos publicamente. É, no mínimo, uma falta de respeito a tantos quantos possam, de alguma forma, serem prejudicados com a decisão a ser tomada. Dá a entender que existe uma força maior a determinar o resultado.

Essa expressão popular tem origem nas eleições realizadas nos mosteiros medievais para a escolha do abade. O processo de votação era feito na utilização de favas, com os candidatos sendo diferenciados pelas cores das favas (brancas ou pretas). O eleito, então, era proclamado após a contagem das favas. Mas era, embora estranha, uma forma lícita de se buscar conhecer a manifestação majoritária dos votantes.

No entendimento contemporâneo, “favas contadas”, tem um sentido condenável, porque denota uma eleição ou julgamento sem isenção, com votos direcionados por forças alheias ao colegiado ao qual está submetida a decisão. Se o resultado é conhecido por antecedência, fica claro que o propósito é unicamente o de tentar legitimar uma resolução previamente estabelecida em favor dos interesses de um lado das partes litigantes.

Muito triste constatar essa prática nociva aos princípios de seriedade e equidade da justiça. Se são “favas contadas”, fica parecendo uma farsa, uma enganação, uma estratégia de simular decência num julgamento. Lastimável.


 


Modéstia às favas

 

A melhor forma de se reconhecer uma pessoa esnobe é quando ela pronuncia a frase: modéstia às favas. Destaca-se a personalidade de quem se julga em nível de superioridade. Normalmente se gaba da sua competência, muitas vezes inexistente. Entende ser importante que seja visto como merecedor de todas as homenagens, reverências e admiração. Exerce a autolatria.

É bíblica a afirmação de que “o orgulho é a origem de todos os pecados. É a iniqüidade que precede todas as iniqüidades. O orgulho leva o homem a adorar a si próprio e a desprezar a Deus”. Na autolatria o homem se exalta, colocando-se acima dos demais. Percebe-se nele a necessidade de endeusamento do ego.

Fujo da convivência com aqueles que trazem a soberba no seu coração. Eles não são amigos de ninguém, porque acreditam que todos precisam deles. Não consigo ter respeito por quem vive se vangloriando. Geralmente essas manifestações de autoelogio são características dos indivíduos carentes de enaltecimento. Apressam-se em realçar as suas aparentes qualidades, uma vez que não recebe reconhecimento dos outros. São vítimas do próprio deslumbramento.

Portanto, quando vejo alguém colocar “modéstia às favas”, pressinto que vem uma declaração de sobrançaria, arrogância, falta de humildade. Não há como considerar autenticidade na asserção, soa falso e presunçoso.


 


Um paraibano que orgulha sua gente

 

Ontem ao assistir a sessão inaugural do Tribunal Superior Eleitoral que trata da possibilidade de cassação da chapa “Dilma/Temer”, ouvi com perplexidade o ministro presidente daquela Côrte repercutir a seguinte declaração proferida por alguém do seu convívio: “estão cassando mais do que os ditadores, e é uma justiça que se pretende democrática”. Sua Excelência é um homem culto e sabe que essa afirmação não condiz com a verdade histórica.

No período da ditadura militar ocorreram 4.682 cassações de mandatos eletivos, em todos os níveis. Sem falar na suspensão de direitos políticos de muitos brasileiros, mesmo sem mandatos. Naquela época se cassava sem qualquer processo judicial que pudesse apurar fatos graves que justificassem tão grave medida. Bastava que os ditadores entendessem que se tratava de pessoas consideradas subversivas, perigosas para o regime. Vivíamos num “estado de exceção”, onde os cidadãos não podiam contar com a legislação para se defenderem do cometimento de arbitrariedades.

Hoje as cassações têm uma conotação bastante diferente. Elas se processam através de julgamentos, mediante apuração de fatos que fundamentem a necessidade de punir os responsáveis por atos criminosos, atentatórios aos padrões éticos e morais no exercício da atividade política. Na atualidade são cassados os corruptos comprovados. Antes eram cassados os que defendiam a democracia e os direitos sociais.

Se por um lado fui surpreendido com a infeliz declaração do ministro-presidente do TSE, me senti orgulhoso ao ver a resposta do paraibano ministro Herman Benjamin, relator do processo, ao pronunciar: “As ditaduras cassaram e cassam quem defende a democracia. O TSE cassa aqueles que vão contra a democracia”. “Tudo o que eu disser no meu relatório, como tudo o que eu disser no meu voto, todos os brasileiros poderão clicar na internet e conferir se o que estou dizendo realmente indica a realidade dos autos. Então, esta é uma garantia enorme de cidadania, mas, ao mesmo tempo, uma garantia para nós, julgadores, que queremos julgar com segurança, com justiça e bem”. Quem tem brios e não se curva às conveniências da conjuntura política, age assim, julgando conforme os preceitos legais, livre de pressão dos poderosos, comprometido exclusivamente com a verdade inserida nos autos. A Paraíba se faz, portanto, muito bem representada no Tribunal Superior Eleitoral.