"Você não deve ter raiva de quem tem raiva"

 

Ao divulgar nas redes sociais minha pretensão em lançar proximamente um livro em que procuro interpretar as mensagens contidas nas letras das canções de Chico Buarque, fui submetido a um ataque verbal de um leitor que se afirmava decepcionado porque eu estava exaltando as qualidades artísticas de um “petista comunista”.

Fiquei impressionado como a divergência de pensamentos políticos em nosso país está fazendo explodir manifestações de ódio. Chega ao ponto de algumas pessoas não conseguirem enxergar talento e competência em quem se posiciona contra suas preferências políticas e ideológicas.

Desconsiderar um gênio da música popular brasileira como Chico Buarque, unicamente porque ele ideologicamente se diferencia de você, é, no mínimo, uma proclamada ignorância do que seja conhecer o valor de uma obra cultural. A arte de Chico está acima de partidos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita. O fato dele ser de esquerda, não enaltece, nem diminui, o conceito extraordinário de sua obra.

É pena que a intolerância política chegue a esse nível. Mas vou me valer do conselho do próprio Chico para responder a esse internauta que me censurou porque estava me dedicando a escrever sobre suas composições musicais: “você não deve ter raiva de quem tem raiva”. E mais, ele não estará obrigado a ler o livro quando for lançado.
 


"Não há melhor juiz do que o tempo"



O tempo é companheiro permanente em todos os caminhos da nossa vida. Ele é, sem dúvidas, o melhor juiz de todas as coisas. O tempo é imparcial, isento, não tem preferências, porque para ele somos todos iguais. Suas sentenças podem demorar algum tempo para serem executadas, mas são sempre sábias e justas.

Ele tanto aprisiona, quanto liberta. Ele sabe a hora certa de promover a tranqüilidade e a paz de espírito, mas sabe também o momento de aplicar sanções e castigos. Ele não mente, não esconde verdades, testemunha nossos fracassos e vitórias.

O tempo não julga avaliando ou criticando, ele ensina. Quando se aprende com o tempo, as sentenças são mais brandas, porque corretivas. Terminam sendo mais justas. A justiça aplicada pelo tempo flui num padrão de equidade.

E quem é o Senhor do tempo? Deus. Logo a justiça do tempo é justiça divina. Portanto perfeita porque está acima da razão humana. A justiça dos homens é parcial, a de Deus é igualitária.

Cabe a todos nós compreender os ensinamentos do tempo e assim entendermos que ele será sempre “o melhor juiz de todas as coisas”.
 


O ultrajante desrespeito à memória de Paulo Gadelha

 

Nem os mortos estão livres da maledicência humana. Como dizia o dramaturgo francês Jean Moliére : “as línguas têm sempre veneno para verter”. Causou-me indignação o atentado contra a honorabilidade de uma das personalidades mais dignas que conheci no mundo jurídico e cultural de nossa querida Paraíba, o desembargador Paulo Gadelha. Irresponsavelmente tentaram macular a sua imagem.

Pura perda de tempo, pois quem conheceu Dr. Paulo Gadelha, sabe da integridade com que se conduziu ao longo da vida. A Paraíba repudia essas insinuações maldosas e criminosas quanto ao comportamento de decência e responsabilidade profissional que marcou o caráter desse nosso conterrâneo enquanto vivo.

O ultrajante desrespeito à sua memória merece de cada um de nós paraibanos, uma reação de repulsa. Não podemos permitir que sua honra seja maculada levianamente. A destacada atuação jurídica de doutor Paulo Gadelha merece sim as nossas homenagens e reverências.

Não poderia silenciar diante de tamanha ignomínia. A voz isolada de um criminoso confesso não pode servir de fundamento para alvejar contra a dignidade de um homem de bem. Faço publicamente a minha manifestação de repúdio a essa infâmia direcionada a um cidadão que soube honrar nossas tradições, portando-se sempre, enquanto viveu, em completa observância dos princípios da moralidade, da probidade e da retidão nos seus procedimentos.

Descanse em paz, doutor Paulo Gadelha, ninguém conseguirá manchar sua reputação, reconhecida e legitimada por todos os que tiveram a felicidade de usufruir de sua amizade e companheirismo.


A nova Praça Venâncio Neiva e o novo Pavilhão do Chá

 

Quando se fala em preservação de centros históricos, muita gente imagina que sejam ações exclusivamente voltadas para o restauro e manutenção do aspecto físico de monumentos considerados patrimônio cultural. O prefeito Luciano Cartaxo tem pensado nisso de forma mais objetiva. Entende ele que “revitalizar” áreas tombadas como centro histórico, significa agir em busca da redemocratização dos espaços públicos sem que percam sua concepção de origem. É assim que tem determinado as intervenções do poder público municipal em praças e logradouros considerados cartões postais de nossa cidade.

Tomemos como exemplos as praças da Independência, 1817, da Pedra e João Pessoa, assim como o Parque Solon de Lucena (a Lagoa). Não há a preocupação única em recuperar e melhorar suas estruturas físicas, mas também a de atribuir novas funções e sentido a esses espaços urbanos, de forma a estimular o turismo e adaptá-los ao lazer e às atividades culturais.

Hoje o prefeito devolve à cidade a Praça Venâncio Neiva totalmente restaurada, cuidando especialmente do Pavilhão do Chá e do Coreto (mirante) ali instalados. Antigamente essa praça era conhecida como Pátio do Palácio, por se situar ao lado da sede do governo estadual. Em 1905, quando inaugurada, foi chamada de Praça da Independência. Só em 1917 passou a ter a atual denominação. Seu projeto de urbanização, contendo jardins, um coreto, um rinque de patinação e uma fonte circular de mármore italiano, recebeu a assinatura do arquiteto Pascoal Fiorillo.

Com o decorrer do tempo a fonte foi retirada e o rinque de patinação demolido, local em que foi construído o pavilhão central, projetado pelo arquiteto Giuseppe Gioia, destinado à realização dos “Chá das Cinco”, motivo pelo qual passou a ser conhecido como o “Pavilhão do Chá”.

O coreto é uma rotunda de dois pavimentos, localizada na extremidade da praça, voltada para a rua General Osório, servindo de mirante para observação da cidade baixa, às margens do rio Sanhauá, e do espetáculo do “por do sol”.

Luciano Cartaxo, portanto, segue nessa orientação de revitalizar o Centro Histórico, com a preocupação de oferecer-lhe uma atmosfera cultural. Nesse espaço urbano ora restaurado funcionará um Centro Multicultural, onde serão realizados eventos que expressam a riqueza de nossas manifestações culturais. Será um ambiente de convivência social da população moradora de nossa capital, mas também com função educativa para as novas gerações, fazendo despertar o sentimento de orgulho com o seu patrimônio cultural, além de voltar a ser ponto de atração turística para os que nos visitam.


A pregação revolucionária de Dom José Maria Pires


A Igreja Católica exerceu papel fundamental na defesa dos direitos humanos na época da ditadura militar. A CNBB – Confederação Nacional dos Bispos Brasileiros atuou de forma corajosa, enfrentando e levantando a voz em favor dos excluídos e dos perseguidos pelo regime. No Nordeste, três bispos dedicaram suas atividades eclesiásticas  buscando construir uma igreja mais aberta para os pobres: Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, e Dom Fragoso, bispo de Crateús.

Dom José Maria Pires exerceu seu episcopado no período de 1966 a 1994. Portanto, chegou à Paraíba nos primeiros anos da ditadura. Notabilizou-se por sua luta combatendo o latifúndio e o preconceito contra os negros. Por sua cor morena ganhou os apelidos de “Dom Zumbi” ou “Dom Pelé”. Na Paraíba esteve sempre ao lado dos oprimidos, comprometido com as causas sociais, o que o colocava numa posição não muito bem aceita pelos militares no poder.

Na sua mensagem de Páscoa proferida na semana santa de 1968, deu ênfase ao papel da Igreja Católica no processo revolucionário que o mundo vivia naquele ano.
"A Igreja tem de vencer o peso dos séculos e romper estruturas envelhecidas para ser a verdadeira “Igreja de Cristo ressuscitado”, onde não há lugar para os acomodados e os passivos. As grandes lideranças da história universal estão mortas e os ideais que eles defenderam podem ser ainda fonte de inspiração para os seus herdeiros espirituais. Suas sepulturas são hoje monumentos históricos.
Só Cristo é vivo, porque só ele venceu a morte. Só o Cristo é atual, porque introduziu a eternidade no temporal. Só o Cristo ressuscitou verdadeiramente.  Por isso a Igreja para ser a “Igreja do Cristo ressuscitado” tem que se rejuvenescer continuamente. Não tenhamos, pois, receio de dar passos à frente, de abandonar posições adquiridas e mantidas com esforço e altivez. Busquemos outras mais atuais e mais próximas de Cristo. A Igreja deve colocar-se não na retaguarda da sociedade, mas na crista dos acontecimentos e à frente de todos os legítimos movimentos de libertação que empolguem a gente moça.
Nesta reflexão está a minha mensagem de Páscoa. Seja a Páscoa de 1968 esta passagem do temor para a segurança, da acomodação para a luta, do ódio para o amor. Que ela desarme os espíritos, aqueça os corações e faça de todos nós mensageiros daquela esperança que deve tornar-se realidade nos dias da nossa existência”.

Dias depois, em uma palestra no Liceu, Dom José Maria Pires afirmava aos estudantes:
Palavra como “subversão” não deveria ser temida pelo povo, porque é necessário subverter uma ordem estabelecida sob a injustiça, a fome e a exploração, a fim de que se removam os obstáculos que impedem as nações de construir o seu desenvolvimento. A luta dos jovens é uma luta de Deus, porque é uma luta pela libertação dos homens. A Igreja se coloca hoje ao lado de todos que lutam pelo desenvolvimento, sejam católicos, protestantes, ateus, espíritas, comunistas, etc. Somente o desenvolvimento é que dará paz aos povos.

• Do livro “1968 - O GRITO DE UMA GERAÇÃO”. Lançado em 2013.
• Na republicação desse texto presto minha homenagem a esse que foi um líder no verdadeiro sentido da palavra. Como ministro de Deus dedicou-se a defender os pobres e os desvalidos no tempo em que a opressão era uma marca de governo em nosso país. 


A democracia da opinião única

 

A degeneração do clima político em nosso país está contribuindo para se forme a “democracia da opinião única”. A polarização estabelecida entre situação e oposição ao governo, tem levado a conflitos fundados na intolerância da opinião contrária. Isso vale para os dois lados. Ninguém admite que os circunstanciais adversários exponham seus pensamentos e opiniões de forma livre.

Ficamos então sem exercitar o debate construtivo, respeitando as discordâncias. Como não existe, na maioria das vezes, a crítica racional, mas aquela que é colocada no calor das emoções e das paixões políticas, o comportamento que está se tornando comum é a desqualificação do opositor, promovendo o terrorismo intelectual e moral.

Maquiavel já dizia que “as ideologias se diferenciam conforme as condições de vida dos seus defensores”. Prevalecem, logicamente, os interesses pessoais ou de grupos. E, por conta disso, os embates discursivos se dão na provocação que procura constranger os divergentes. Aí então o debate cai para o baixo nível, com agressões de parte a parte, com ataques à honra e a dignidade pessoal dos oponentes.

O mais grave é que cada um acha que está cumprindo dever ético revolucionário ao se posicionar dessa forma. Interessante que todos falam como se expressassem o pensamento majoritário e da verdade absoluta, sem perceberem que, via de regra, estão sendo manipulados por instrumentos de persuasão que escondem seus verdadeiros objetivos ao propagarem ideias. Tornam-se massa de manobra dos aproveitadores de ocasião.

O patrulhamento político se consolida nessa polêmica entre extremos. A radicalização cega o entendimento e a compreensão real dos fatos, exacerba ânimos apaixonados, forma grupos sectários e fanáticos. Quando se configura essa situação, os contendores perdem a razão, deixam de ser debatedores de uma causa, para serem contendores de uma guerra.

Espero que a sensatez volte a imperar na nossa cena política. Desejo que vivamos num país onde os amigos tenham o sagrado direito de divergir um do outro sem o risco de serem ofendidos, que pessoas públicas possam verbalizar suas opiniões sem sofrerem a execração dos que com elas não concordam, que nas famílias possam haver discrepância no pensamento político sem que isso venha a promover intrigas e distanciamentos entre parentes.

É profundamente lamentável que estejamos vivendo essa temperatura política. A sua prática em nada ajuda sairmos da crise em que mergulhamos. Pelo contrário, alimentados pelo ódio e a intolerância, ficaremos cada vez mais distantes de encontrarmos a saída que se faz necessária. Enquanto estivermos querendo impor uma democracia de opinião única, marcharemos para a afirmação de um povo que perdeu sua consciência política livre e soberana.
 


"A sabedoria começa na reflexão"

 

Essa frase não é minha, foi proclamada pelo filósofo Sócrates, mas expressa uma grande verdade. Ninguém pode se considerar uma pessoa com sabedoria se não for alguém que se dedique à refletir sobre a vida. Viver constantemente interrogando a si mesmo é condição primeira para se alcançar o conhecimento profundo das coisas. Já dizia Coralina que “o saber se aprende com os mestres, e a sabedoria só com o corriqueiro da vida”.

 Vivemos sempre sendo cobrados por nossa consciência. E estamos, a todo instante, procurando respostas que nos permitam ter um bom relacionamento com a realidade ao nosso redor. É preciso que busquemos compreender “o porque”, “o que” e o “para que”, de tudo que esteja relacionado ao nosso modo de viver. Só assim conseguiremos analisar erros e acertos e firmarmos aquilo que pode ser compreendido como “pensamento próprio”.

Essa discussão que estabelecemos com nossa consciência, pode evitar que sejamos vítimas de manipulação e passemos a emitir opiniões e agir de acordo com o que pensam outras pessoas. Quando nos damos ao exercício da reflexão, ganhamos a capacidade de elaborar nosso próprio pensamento.

Nos tempos atuais somos perigosamente influenciados pela propaganda midiática e pelos discursos ideológicos construídos com a intenção de “fazer nossa cabeça”. Há o risco de nos tornarmos “massa de manobra” para atendimento de interesses nocivos a nós mesmos, sem que os percebamos. Começamos a defender ideias que não são nossas e que sequer nos beneficiam.

Daí a importância da reflexão permanente sobre o mundo em que estamos envolvidos. Nunca devemos deixar sem respostas convincentes as perguntas existentes no nosso íntimo. A preguiça de pensar, questionar, refletir, torna o homem ignorante e presa fácil dos poderosos.


 


A convenção da ARENA -Parte 1 (rememorando)

 

Após o registro da chapa de Mariz, a Paraíba viveu três dias de grande efervescência política. Cada grupo indo em busca da conquista de votos dos convencionais. Os dois lados contabilizavam números que animavam as perspectivas de vitória. A população acompanhava essa movimentação assumindo suas preferências.

As disputas eram entre Burity e Mariz para governador, Clóvis Bezerra e Valdir dos Santos Lima para vice e Milton Cabral e Ernani Sátiro para senador biônico.

No dia quatro de junho de 1978, desde as sete da manhã a Praça João Pessoa começava a tomar um grande público. Os partidários de Mariz eram visivelmente em maior quantidade e bem mais barulhentos. Antes de iniciados os discursos no plenário da Assembléia Legislativa, onde se realizaria a Convenção, ocuparam o parlatório que fica na frente do prédio e ali improvisaram um comício. Parlamentares e lideranças municipais se revezavam nos pronunciamentos em defesa da chapa de contestação liderada por Mariz. Até Mocidade fez uso da palavra, assim se expressando: “Mais uma vez assaltam a soberania da Paraíba. Esta praça é do povo e eu estou acostumado a falar na praça do guardião da democracia que foi o presidente João Pessoa e o faço agora em defesa do nome de Mariz”.

Por volta das dez horas proibiram aquelas manifestações na tribuna da praça. O público ocupou as galerias para ouvir os oradores daquela festa cívica. Em sendo maioria, os marizistas vaiavam os adversários e aplaudiam os correligionários. O único orador dentre os governistas ouvido em silêncio foi Tarcisio Burity, em razão do apelo feito por João Agripino no sentido de que o escutassem com respeito.

Sendo o primeiro a discursar, João Agripino iniciou dizendo: “Eu não ensinei a Paraíba a ser rebelde. Porque esse comportamento, eu proclamo, foi João Pessoa quem ministrou. Compreendo as reações. Apenas eu lhes peço para provarmos que somos um povo bravo, mas educado politicamente. Somos da ARENA e queremos Mariz candidato a governador por nosso partido. Contamos com vocês”.

Os dois candidatos ao governo assim se dirigiram aos convencionais. Tarcisio Burity: “Vou colocar os interesses do povo acima dos pessoais. Sigam-me, portanto, todos aqueles que desejam a paz, a união, a tranqüilidade, o trabalho e o progresso em benefício da Paraíba e do Brasil”. Antônio Mariz: “A Paraiba não admite medo. E o povo é senhor de sua história. Quando o povo grita que eu sou o “governador do povo”, está afirmando uma verdade. Os convencionais da ARENA são uma expressão do povo. Eles trazem para aqui a voz de todos os municípios paraibanos e aqui reunidos farão a vontade desse povo e por isso nos darão a vitória”.

Exatamente às quatorze horas começou o processo de votação, que durou até as dezessete horas, quando então as duas urnas coletoras de votos foram lacradas e entregues à Comissão Apuradora para contagem das cédulas ali depositadas e consequente conhecimento do resultado da histórica convenção

• Do livro “INVENTÁRIO DO TEMPO II”, em construção.
 


O obsessivo


Estive refletindo sobre a personalidade dos indivíduos que assumem a obsessão como determinante no seu modo de agir para conseguirem algo que desejam. Mas os piores e mais perigosos dos obsessivos são aqueles que se dedicam a perseguir os que elegeram como inimigos ou adversários. Na ânsia persecutória não se inibem em agredir os valores de direitos humanos. Ruminam ódio.
Eles dedicam tempo e inteligência na exclusiva intenção de destruir imagens e reputações. Adotam procedimentos que fogem à normalidade, muitas vezes com elevado grau de perversidade, por considerá-los as formas mais eficazes de alcançarem seus objetivos. Não conseguem ter paz de espírito enquanto não produzirem os estragos estrategicamente planejados.
Essas pessoas são, geralmente, carentes de bajulação, precisam estar sendo idolatrados e homenageados por suas atitudes, principalmente porque praticadas na inobservância da serenidade e do equilíbrio racional. Assim aliviam o sentimento de culpa. Apelam, quase sempre, para as chantagens emocionais.
O mais preocupante é que o mundo está cheio desse tipo de gente. E mais inquietante ainda, é perceber que conquistam aliados no seu insistente propósito de perseguir alguém. Formam um exército que aplaude suas investidas, ainda que reconhecendo serem ofensivas aos princípios elementares da justiça e da equidade de tratamento. Mas há um ensinamento popular que diz “tudo o que vai, volta, é a lei da vida”. São inúmeros os exemplos de que esse tipo de comportamento faz com que tropecem na própria arrogância.


A encíclica da pílula (rememorando 1968)

 

A emancipação feminina começou a ser conquistada a partir da década revolucionária dos anos sessenta. Foi exatamente em abril de 1960, quando os Estados Unidos autorizavam a distribuição e venda da pílula como anticoncepcional oral, que as mulheres passaram a se sentir no controle de sua vida sexual, podendo decidir com quem, quando e em que circunstâncias deveriam engravidar. O nascimento de filhos tornava-se, então, resultado do desejo e planejamento dos casais.

No Brasil, seu uso só se tornaria popular a partir de 1970. Entretanto, contrariando o sentimento de mudanças comportamentais e conceituais que caracterizaram o ano de 1968, o Papa Paulo VI, em 25 de julho, lançava a Encíclica “Humanae Vitae” (Da vida humana), que passaria a ser conhecida como a encíclica da pílula, porque tratava justamente da concepção e contracepção da vida humana, posicionando-se contra o que chamava de “irresponsável uso de meios artificiais que tornem infecundo o ato conjugal”. O documento papal provocou várias reações críticas, inclusive dentro da própria igreja católica.

O movimento feminista reivindicava libertar-se da vinculação necessária do exercício da sexualidade com a possibilidade de uma nova gravidez. Havia, ainda, os que defendiam o controle da natalidade por exigências da economia mundial, argumentando que o crescimento demográfico acontecia mais rápido do que a disponibilidade de recursos para a manutenção de sua existência, provocando angústias nas famílias dos povos em desenvolvimento, em razão da pobreza, da falta de condições de trabalho, de alimentação e de educação que garantissem uma vida com dignidade.

A Igreja em contrapartida justificava a proibição da pílula anticoncepcional na preocupação de preservar e proteger a vida em sua sacralidade e beleza, estabelecida nos ensinamentos cristãos, valorizando, sobretudo, a instituição do matrimônio. Entendia, e entende ainda, como uma questão moral. O papa definia que o amor conjugal não terá sentido se não for fecundo e responsável.

A imprensa paraibana trouxe depoimentos de religiosos, políticos e populares sobre a controversa encíclica. O cônego Fernando Abath afirmou que o documento causou surpresa ao mundo, pois esperávamos alguma coisa de nova, além daquilo que já tinha sido dito pelo Papa Pio XII. “Nós todos, filhos amorosos do papa, acatamos a sua decisão e iremos estudar mais profundamente a sua encíclica, que apenas não se preocupa com o problema da natalidade, mas nos mostra o problema da família, o valor do matrimônio, e também aborda o problema dos métodos de limitação de filhos”. O Senhor Euzébio Moura de Vasconcelos, funcionário público estadual, pai de cinco filhos, disse: “Se olharmos a encíclica papal pelo lado religioso, acredito que o Papa Paulo VI está certo, mas pelo lado financeiro, se faz necessária a limitação dos filhos , tanto pelo método de pílulas anticoncepcionais, como pelo controle normal da natalidade. Não vale a pena ter muitos filhos sem poder alimentá-los, nem educá-los. Não pode haver desenvolvimento com a fome e o analfabetismo campeando. Se o governo encarasse, em primeiro lugar, o meio de subsistência do homem, o caminho mais indicado seria o crescimento da população. Enquanto não, sou favorável à limitação dos filhos”.

Na Assembléia Legislativa, foram várias as manifestações dos parlamentares. O deputado Miranda Freire posicionou-se da seguinte forma: “Não entendo desenvolvimento sem o homem. Acho que o problema de alimentação dos filhos é uma questão de consciência, e, portanto, um problema pessoal. Cada um deve saber quando deve ter filhos. Sou totalmente contrário à pressão de terceiros para que não exista a concepção”. O deputado Mário Silveira também emitiu sua opinião a respeito: “O problema no que diz respeito ao Brasil tem que ser encarado, antes de tudo, dentro de um ângulo político-econômico. O Brasil tem como meta prioritária, entre outras, a ocupação do maior espaço vazio geográfico do mundo – a Amazônia. Não vemos porque aceitar uma política de controle da natalidade. Precisamos sim é de uma população capaz de ocupar e desenvolver um grande país que está a exigir mercado interno para poder se transformar numa potência futuramente”. Por fim, importante conhecer o pensamento do arcebispo Dom José Maria Pires emitido na época: “Minha opinião pessoal é a de que nunca, em tempo algum, o controle da natalidade desenvolveu qualquer país, não se encontrando, nenhuma justificativa para a sua aplicação, especialmente num país como o nosso, de grande extensão territorial”.

*Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”