"A sabedoria começa na reflexão"

 

Essa frase não é minha, foi proclamada pelo filósofo Sócrates, mas expressa uma grande verdade. Ninguém pode se considerar uma pessoa com sabedoria se não for alguém que se dedique à refletir sobre a vida. Viver constantemente interrogando a si mesmo é condição primeira para se alcançar o conhecimento profundo das coisas. Já dizia Coralina que “o saber se aprende com os mestres, e a sabedoria só com o corriqueiro da vida”.

 Vivemos sempre sendo cobrados por nossa consciência. E estamos, a todo instante, procurando respostas que nos permitam ter um bom relacionamento com a realidade ao nosso redor. É preciso que busquemos compreender “o porque”, “o que” e o “para que”, de tudo que esteja relacionado ao nosso modo de viver. Só assim conseguiremos analisar erros e acertos e firmarmos aquilo que pode ser compreendido como “pensamento próprio”.

Essa discussão que estabelecemos com nossa consciência, pode evitar que sejamos vítimas de manipulação e passemos a emitir opiniões e agir de acordo com o que pensam outras pessoas. Quando nos damos ao exercício da reflexão, ganhamos a capacidade de elaborar nosso próprio pensamento.

Nos tempos atuais somos perigosamente influenciados pela propaganda midiática e pelos discursos ideológicos construídos com a intenção de “fazer nossa cabeça”. Há o risco de nos tornarmos “massa de manobra” para atendimento de interesses nocivos a nós mesmos, sem que os percebamos. Começamos a defender ideias que não são nossas e que sequer nos beneficiam.

Daí a importância da reflexão permanente sobre o mundo em que estamos envolvidos. Nunca devemos deixar sem respostas convincentes as perguntas existentes no nosso íntimo. A preguiça de pensar, questionar, refletir, torna o homem ignorante e presa fácil dos poderosos.


 


A convenção da ARENA -Parte 1 (rememorando)

 

Após o registro da chapa de Mariz, a Paraíba viveu três dias de grande efervescência política. Cada grupo indo em busca da conquista de votos dos convencionais. Os dois lados contabilizavam números que animavam as perspectivas de vitória. A população acompanhava essa movimentação assumindo suas preferências.

As disputas eram entre Burity e Mariz para governador, Clóvis Bezerra e Valdir dos Santos Lima para vice e Milton Cabral e Ernani Sátiro para senador biônico.

No dia quatro de junho de 1978, desde as sete da manhã a Praça João Pessoa começava a tomar um grande público. Os partidários de Mariz eram visivelmente em maior quantidade e bem mais barulhentos. Antes de iniciados os discursos no plenário da Assembléia Legislativa, onde se realizaria a Convenção, ocuparam o parlatório que fica na frente do prédio e ali improvisaram um comício. Parlamentares e lideranças municipais se revezavam nos pronunciamentos em defesa da chapa de contestação liderada por Mariz. Até Mocidade fez uso da palavra, assim se expressando: “Mais uma vez assaltam a soberania da Paraíba. Esta praça é do povo e eu estou acostumado a falar na praça do guardião da democracia que foi o presidente João Pessoa e o faço agora em defesa do nome de Mariz”.

Por volta das dez horas proibiram aquelas manifestações na tribuna da praça. O público ocupou as galerias para ouvir os oradores daquela festa cívica. Em sendo maioria, os marizistas vaiavam os adversários e aplaudiam os correligionários. O único orador dentre os governistas ouvido em silêncio foi Tarcisio Burity, em razão do apelo feito por João Agripino no sentido de que o escutassem com respeito.

Sendo o primeiro a discursar, João Agripino iniciou dizendo: “Eu não ensinei a Paraíba a ser rebelde. Porque esse comportamento, eu proclamo, foi João Pessoa quem ministrou. Compreendo as reações. Apenas eu lhes peço para provarmos que somos um povo bravo, mas educado politicamente. Somos da ARENA e queremos Mariz candidato a governador por nosso partido. Contamos com vocês”.

Os dois candidatos ao governo assim se dirigiram aos convencionais. Tarcisio Burity: “Vou colocar os interesses do povo acima dos pessoais. Sigam-me, portanto, todos aqueles que desejam a paz, a união, a tranqüilidade, o trabalho e o progresso em benefício da Paraíba e do Brasil”. Antônio Mariz: “A Paraiba não admite medo. E o povo é senhor de sua história. Quando o povo grita que eu sou o “governador do povo”, está afirmando uma verdade. Os convencionais da ARENA são uma expressão do povo. Eles trazem para aqui a voz de todos os municípios paraibanos e aqui reunidos farão a vontade desse povo e por isso nos darão a vitória”.

Exatamente às quatorze horas começou o processo de votação, que durou até as dezessete horas, quando então as duas urnas coletoras de votos foram lacradas e entregues à Comissão Apuradora para contagem das cédulas ali depositadas e consequente conhecimento do resultado da histórica convenção

• Do livro “INVENTÁRIO DO TEMPO II”, em construção.
 


O obsessivo


Estive refletindo sobre a personalidade dos indivíduos que assumem a obsessão como determinante no seu modo de agir para conseguirem algo que desejam. Mas os piores e mais perigosos dos obsessivos são aqueles que se dedicam a perseguir os que elegeram como inimigos ou adversários. Na ânsia persecutória não se inibem em agredir os valores de direitos humanos. Ruminam ódio.
Eles dedicam tempo e inteligência na exclusiva intenção de destruir imagens e reputações. Adotam procedimentos que fogem à normalidade, muitas vezes com elevado grau de perversidade, por considerá-los as formas mais eficazes de alcançarem seus objetivos. Não conseguem ter paz de espírito enquanto não produzirem os estragos estrategicamente planejados.
Essas pessoas são, geralmente, carentes de bajulação, precisam estar sendo idolatrados e homenageados por suas atitudes, principalmente porque praticadas na inobservância da serenidade e do equilíbrio racional. Assim aliviam o sentimento de culpa. Apelam, quase sempre, para as chantagens emocionais.
O mais preocupante é que o mundo está cheio desse tipo de gente. E mais inquietante ainda, é perceber que conquistam aliados no seu insistente propósito de perseguir alguém. Formam um exército que aplaude suas investidas, ainda que reconhecendo serem ofensivas aos princípios elementares da justiça e da equidade de tratamento. Mas há um ensinamento popular que diz “tudo o que vai, volta, é a lei da vida”. São inúmeros os exemplos de que esse tipo de comportamento faz com que tropecem na própria arrogância.


A encíclica da pílula (rememorando 1968)

 

A emancipação feminina começou a ser conquistada a partir da década revolucionária dos anos sessenta. Foi exatamente em abril de 1960, quando os Estados Unidos autorizavam a distribuição e venda da pílula como anticoncepcional oral, que as mulheres passaram a se sentir no controle de sua vida sexual, podendo decidir com quem, quando e em que circunstâncias deveriam engravidar. O nascimento de filhos tornava-se, então, resultado do desejo e planejamento dos casais.

No Brasil, seu uso só se tornaria popular a partir de 1970. Entretanto, contrariando o sentimento de mudanças comportamentais e conceituais que caracterizaram o ano de 1968, o Papa Paulo VI, em 25 de julho, lançava a Encíclica “Humanae Vitae” (Da vida humana), que passaria a ser conhecida como a encíclica da pílula, porque tratava justamente da concepção e contracepção da vida humana, posicionando-se contra o que chamava de “irresponsável uso de meios artificiais que tornem infecundo o ato conjugal”. O documento papal provocou várias reações críticas, inclusive dentro da própria igreja católica.

O movimento feminista reivindicava libertar-se da vinculação necessária do exercício da sexualidade com a possibilidade de uma nova gravidez. Havia, ainda, os que defendiam o controle da natalidade por exigências da economia mundial, argumentando que o crescimento demográfico acontecia mais rápido do que a disponibilidade de recursos para a manutenção de sua existência, provocando angústias nas famílias dos povos em desenvolvimento, em razão da pobreza, da falta de condições de trabalho, de alimentação e de educação que garantissem uma vida com dignidade.

A Igreja em contrapartida justificava a proibição da pílula anticoncepcional na preocupação de preservar e proteger a vida em sua sacralidade e beleza, estabelecida nos ensinamentos cristãos, valorizando, sobretudo, a instituição do matrimônio. Entendia, e entende ainda, como uma questão moral. O papa definia que o amor conjugal não terá sentido se não for fecundo e responsável.

A imprensa paraibana trouxe depoimentos de religiosos, políticos e populares sobre a controversa encíclica. O cônego Fernando Abath afirmou que o documento causou surpresa ao mundo, pois esperávamos alguma coisa de nova, além daquilo que já tinha sido dito pelo Papa Pio XII. “Nós todos, filhos amorosos do papa, acatamos a sua decisão e iremos estudar mais profundamente a sua encíclica, que apenas não se preocupa com o problema da natalidade, mas nos mostra o problema da família, o valor do matrimônio, e também aborda o problema dos métodos de limitação de filhos”. O Senhor Euzébio Moura de Vasconcelos, funcionário público estadual, pai de cinco filhos, disse: “Se olharmos a encíclica papal pelo lado religioso, acredito que o Papa Paulo VI está certo, mas pelo lado financeiro, se faz necessária a limitação dos filhos , tanto pelo método de pílulas anticoncepcionais, como pelo controle normal da natalidade. Não vale a pena ter muitos filhos sem poder alimentá-los, nem educá-los. Não pode haver desenvolvimento com a fome e o analfabetismo campeando. Se o governo encarasse, em primeiro lugar, o meio de subsistência do homem, o caminho mais indicado seria o crescimento da população. Enquanto não, sou favorável à limitação dos filhos”.

Na Assembléia Legislativa, foram várias as manifestações dos parlamentares. O deputado Miranda Freire posicionou-se da seguinte forma: “Não entendo desenvolvimento sem o homem. Acho que o problema de alimentação dos filhos é uma questão de consciência, e, portanto, um problema pessoal. Cada um deve saber quando deve ter filhos. Sou totalmente contrário à pressão de terceiros para que não exista a concepção”. O deputado Mário Silveira também emitiu sua opinião a respeito: “O problema no que diz respeito ao Brasil tem que ser encarado, antes de tudo, dentro de um ângulo político-econômico. O Brasil tem como meta prioritária, entre outras, a ocupação do maior espaço vazio geográfico do mundo – a Amazônia. Não vemos porque aceitar uma política de controle da natalidade. Precisamos sim é de uma população capaz de ocupar e desenvolver um grande país que está a exigir mercado interno para poder se transformar numa potência futuramente”. Por fim, importante conhecer o pensamento do arcebispo Dom José Maria Pires emitido na época: “Minha opinião pessoal é a de que nunca, em tempo algum, o controle da natalidade desenvolveu qualquer país, não se encontrando, nenhuma justificativa para a sua aplicação, especialmente num país como o nosso, de grande extensão territorial”.

*Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”
 


Jamais trairei minha consciência

 

“Quem pensa com a unanimidade, não precisa pensar”. Essa frase do dramaturgo Nélson Rodrigues me leva a refletir sobre o perigo de seguir ideias defendidas por uma maioria, sem se dar ao trabalho de contestar, discutir. Tem muita gente que age assim, preferindo aderir às opiniões apresentadas como majoritárias numa sociedade, porque assim possam parecer mais inteligentes, mentalmente brilhantes.

Nietzsche classificava essas pessoas como “homens de rebanho”. São pessoas que não se constrangem em perder suas individualidades, agem e falam conforme o padrão politicamente correto que lhe fizeram compreender. Normalmente são indivíduos inflexíveis e reacionários. O discurso repetitivo que usam, muitas vezes absorvido da propaganda midiática, construído através de seduções doutrinárias, revela um lamentável empobrecimento cultural.

Eu procuro seguir o conselho do próprio Nietzsche quando diz: “Toda vez que você se encontrar do lado da maioria, é hora de parar e refletir”. Sou muito desconfiado das posições apontadas como da maioria. Tenho receio de ser convencido pelo discurso fácil, aquele que me oferecem como verdadeiro e não me dão o direito sequer de questioná-lo. Vejo com tristeza alguns amigos e parentes que na incapacidade de organizar suas próprias ideias, ficam a repetir o que ouvem e passam a considerar como verdades absolutas.

Não há hipótese que me leve a trair a consciência. Enquanto não estiver convencido de algo que não concordo numa primeira análise, eu continuarei assumindo minhas convicções, sem medo de críticas. Já vivenciei experiências de sofrer admoestações, e até desqualificação do meu pensamento, por não comungar com o raciocínio da eventual maioria. Me recuso ser mais um “homem de rebanho”. Deixem-me com minha própria compreensão das coisas. Não me incomodo fazer parte de uma minoria circunstancial, desde que isso me dê a paz de quem não está traindo a consciência.


A violência política (rememorando 1968)

A violência praticada em conflitos politizados era comum na década de sessenta no Brasil, acentuando-se no ano de 1968, com flagrante
desrespeito aos direitos civis e humanos. Os movimentos estudantis continuavam sendo fortemente reprimidos pelo governo. As manifestações não se voltavam exclusivamente contra a ditadura, mas também contra a política educacional do governo. A juventude tomava consciência do seu papel crítico na busca de uma maior participação política.

Mobilizados, levantavam bandeiras de transformação social e comportamental, tais como feminismo, racismo, ecologia, orientação sexual, etc. Intérpretes da indignação do povo brasileiro, os estudantes, nas ruas, ganhavam a adesão dos artistas, profissionais liberais e religiosos.

A reação do governo vinha de forma truculenta, colocando a polícia contra os manifestantes, provocando atos de violência injustificáveis. Espancamentos, prisões, assassinatos, fizeram o registro desses incidentes. O governo buscava sufocar a mobilização estudantil através da força, utilizando serviços de inteligência e informação para perseguir, ameaçar, torturar, censurar.

Lideranças políticas e religiosas protestavam através da imprensa. O arcebispo da Paraíba, Dom José Maria Pires, em entrevista coletiva concedida à imprensa paulista, fez duras críticas à forma como o governo reprimia o movimento estudantil.

“O povo brasileiro é pacato, mas não passivo. Nosso dever é ajudar esse povo marginalizado que se tornou passivo a se tornar ativo, sem perder a sua caracterização de amante da paz. Só considero governo democrático aquele em que o povo participa, em que os governantes são mandatários do povo, e em que todos os planos venham da base. O Brasil é um país em que dois terços da população estão marginalizados do processo de escolha, da possibilidade de se manifestar em relação ao governo, a começar pela impossibilidade de escolher seus mandatários.

O governo é exercido por pequena minoria, o que é uma violência política. O que se vê no momento é uma recusa ao diálogo. Assim como os filhos exigem dos pais o diálogo, os estudantes têm o direito de contribuir para a organização da escola que lhes diz respeito. Eles não podem aceitar uma estrutura universitária em que eles não participem. Enquanto defendem seus direitos, as greves e manifestações públicas são válidas e não é com pancadaria que se resolvem os problemas.

Do livro “1968 – O GRITO DE UMA GERAÇÃO”.
 


A "Villa Sanhauá"

 

Uma das primeiras preocupações do prefeito Luciano Cartaxo ao assumir o governo municipal, foi a de resgatar os projetos que oferecessem as condições de promover a revitalização do nosso Centro Histórico. E isso vem sendo feito, sempre procurando atender às exigências técnicas dos órgãos de fiscalização (IPHAN e IPHAEP), porquanto serem intervenções em que se exige observância de legislação específica voltada para áreas tombadas como patrimônio histórico e cultural.

O prefeito, todavia, tem a consciência de que não basta simplesmente restaurar imóveis, mas definir seu uso, de forma a que se transformem em espaços de promoção da cultura e de atração turística. Ao tomar para si essa responsabilidade, compreende que a revitalização do Centro Histórico passa também pela necessidade de oferecer condições de moradia nesse ambiente em que surgiu a cidade.

João Pessoa nasceu às margens do Rio Sanhauá, na área urbana hoje conhecida como Varadouro e Porto do Capim. Ali se estabeleceram os primeiros estabelecimentos comerciais, administrativos e religiosos. As residências de origem, em sua maior parte, com o crescimento populacional e da malha urbana, se deslocaram em direção ao litoral. Com a descentralização das atividades (públicas e privadas), o Centro Histórico passou a enfrentar problemas de congestionamentos e degradação do seu patrimônio arquitetônico e urbanístico.

A atual administração municipal decidiu então pensar a adoção de políticas públicas direcionadas à reversão de imóveis vazios, subutilizados ou degradados, para uso habitacional, aproveitando das vantagens da centralidade da área como fatores que possam motivar as pessoas a morarem no Centro Histórico.

Foi com essa visão que se concebeu a idéia da “Villa Sanhauá”, num projeto de restauração de oito casarões (em ruínas) da rua João Suassuna, dos quais um será destinado à ocupação por unidade administrativa da prefeitura e os outros sete transformados em dezessete unidades habitacionais e seis comerciais. A SEMAHB – Secretaria de Habitação do Município é a responsável pela elaboração e execução do projeto, sob o comando da competente secretária Socorro Gadelha.

É sem dúvida uma estratégia inteligente para consecução dos objetivos maiores de revitalizar o Centro Histórico, tanto no que diga respeito à sua importância como atração turística, quanto pela oportunidade de gerar movimentação dinâmica da vida urbana do local, a partir da fixação de moradias na área.
 


O dia da morte da CLT

 

Hoje é um dia triste para a classe trabalhadora brasileira. O senado oficializa a morte da CLT – Consolidação das Leis Trabalhistas. A partir desta data serão retirados direitos históricos conquistados com muita luta desde a época de Getúlio Vargas. Nem a ditadura militar foi tão ousada, em impor tanto sacrifício aos que vivem do salário, aprofundando a desigualdade entre o capital e o trabalho.

A reforma, em vias de aprovação, altera mais de cem artigos e duzentos dispositivos da CLT e cria duas novas modalidades de contratação: a de trabalho intermitente, por jornada ou hora de serviço, o que impossibilita o trabalhador saber qual o salário a ser recebido no final do mês, e o chamado teletrabalho, que regulamenta o “home office. Outra novidade em prejuízo dos trabalhadores é o oferecimento de força de lei aos acordos “negociados” entre empresas e empregados. Em outras palavras, o “negociado” prevalecendo sobre o “legislado”.

A ofensiva neoconservadora veio traduzida no discurso político da necessidade de diminuição do tamanho do Estado no Brasil. Os que defendem essa reforma pretendem diminuir a proteção adquirida pelos trabalhadores através da CLT, argumentando que estamos em outros tempos e que a legislação trabalhista precisa ser modernizada. Ora, mas isso vem acontecendo ao longo dos anos, mas sempre com o cuidado de preservar uma justa relação de trabalho.

Dizer que essa reforma vai gerar novos empregos não condiz com a verdade. Nem a CLT tem sido impedimento para o alcance do pleno emprego, tanto que na primeira década deste século não vivíamos a crise do desemprego em nosso país, mesmo com a vigência da legislação trabalhista que acusam de ultrapassada. Na verdade, ela produzirá o surgimento, em número maior, de sub-empregos.

Só nos resta lamentar o fato de que estamos assistindo o Brasil retroceder aos tempos da República Velha, antes da Revolução de 30.

 


O complexo de vira-latas

 

“O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Nossa tragédia é que não temos o mínimo de auto-estima”. Essa declaração de Nelson Rodrigues, retrata bem o sentimento chamado de “complexo de vira-latas” a que muitos de nós estão assumindo nos tempos atuais. É muito normal vermos hoje em dia frases como: “só no Brasil acontece isso”, “tinha que ser no Brasil”, na compreensão de que o mundo todo presta, menos o Brasil.

A expressão “complexo de vira-latas” foi cunhada também por Nelson Rodrigues, numa crônica escrita às vésperas da Copa do Mundo de 1958, quando ele se referia ao pessimismo que tomava conta dos brasileiros quanto ao sucesso de nossa seleção. Essa sensação prévia de falta de confiança, foi causada pelo trauma vivenciado por ocasião da inesperada derrota para o Uruguai na decisão de 1950, em pleno Maracanã lotado. Ele afirmou: “por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca perante o mundo”.

Dali por diante toda vez que vemos alguém se lamuriando pelo fato de ser brasileiro, dizemos que ele está alcançado pelo “complexo de vira-latas”. Essa manifestação tem se acentuado ultimamente, por conta das decepções resultantes dos escândalos de corrupção a que estamos diariamente sendo informados. Como se a chaga da corrupção fosse um mal unicamente da índole brasileira.

Na verdade, antes de falarmos mal do Brasil, é necessário que façamos uma autocrítica no sentido de promovermos mudanças de mentalidade e de comportamento. Urge a precisão de que aconteça entre nós uma revolução cultural. Transformar essa mentalidade subalterna, de desconhecimento dos nossos próprios valores, de ignorância dos acontecimentos gloriosos de nossa história, em sentimento de honra patriótica. Somos um povo alegre, trabalhador, sofrido mas corajoso. Não podemos deixar que o desânimo, a desesperança e o desalento, façam com que nos sintamos incapazes de reagir em busca de modificar o que possa ser apontado como nossas deficiências e imperfeições.

Eu não embarco nessa do “complexo de vira-latas”. Tenho orgulho de ser brasileiro. Nossa terra é bonita e rica por natureza, em todos os sentidos. Se temos defeitos, temos também muitas qualidades, e ao invés de realçarmos nossas falhas, devemos valorizar nossas peculiaridades positivas, nossos predicados invejados pelo mundo, nossos atributos de excelência, que são muitos. Essa negação de amor à pátria, representa atitude de sujeição ao império das vontades vindas de fora, submissão ao estrangeiro, fraqueza de personalidade.
 


O movimento cultural da Paraíba (1968)

 


Apesar da situação política, das fortes restrições às liberdades públicas, da rígida censura imposta aos canais de informação, o ano de 1968 foi um dos mais fecundos para a produção cultural de nosso país. A criatividade era estimulada a pensar a realidade brasileira e as relações sociais em conflito. Vivia-se um momento cultural politizado, um ambiente cultural claramente oposicionista. A contestação ao regime, dedicando atenção especial aos temas ideológicos, alimentava o espírito das expressões culturais, fossem escritas, cantadas, lidas ou representadas.

Na Paraíba, essa efervescência cultural era sentida nos eventos acontecidos em João Pessoa. Lançamento de livros, montagem e apresentação de peças teatrais e exposições de artes plásticas, fizeram do mês de julho rico nesse processo de renovação cultural, que o mundo inteiro experimentava esse novo comportamento da intelectualidade e suas manifestações.

O Departamento Cultural da Universidade Federal da Paraíba, dirigido pelo conceituado escritor Juarez da Gama Batista, foi o grande propulsor desse instante de agitação cultural de nosso estado.

Logo no início do mês, o escritor Antônio Freire lançava o livro FRUTO DA TERRA, uma coletânea de suas melhores crônicas, focalizando fatos, coisas e personalidades da Paraíba. Era a primeira promoção do departamento cultural da UFPb, por isso seu diretor fez a apresentação no evento, que aconteceu no hall da reitoria da universidade.

Outro livro que causou forte repercussão nos meios intelectuais paraibanos foi CINEMA E PROVÍNCIA, de Wills Leal. Seu lançamento aconteceu festivamente no clube Astrea, com a presença das mais destacadas personalidades do nosso mundo cultural. Em seu livro, Wills Leal comentava os bastidores cinematográficos da Paraíba, desde os tempos de Walfredo Leal, revelando fatos curiosos ligados às atividades do cinema paraibano. Prefaciado por Oscar de Castro, então presidente da Academia Paraibana de Letras, o livro foi apresentado por Virginius da Gama e Melo, presidente do Conselho de Cultura.

José Altino apresentou, na Galeria José Américo de Almeida, noTeatro Santa Roza, um álbum de xilogravuras intitulado DANAÇÃO.

Guy Joseph concluía um álbum composto por serigrafias, tendo como temática: “o homem diante das perspectivas criadas pela crise mundial”. A obra de Guy Joseph recebeu o nome de “América, América”.

Celene Sitônio, professora do Dpto. Cultural da UFPb, fazia a primeira exposição de artes plásticas naquele mês. Seus quadros foram apresentados também na Galeria de Artes do Teatro Santa Roza. Breno Matos expôs, no Santa Roza, peças executadas em chapa de ferro colorido e em acrílico, reconhecidas pela crítica nacional como arte de vanguarda brasileira.

Luis Ramalho classificava para a finalíssima do Festival Nacional da Música Popular Brasileira, na Tv Excelsior, no Rio de Janeiro, sua composição “Retiro da Lua”, defendida por Roberto Rabelo.

No teatro, Anco Márcio montava a peça “A Menina e o Vento”, de Maria Clara Machado, com um elende estreantes na dramaturgia paraibana, composto por Yara Janner, Edmilde Cyrilo, Martha Janner, Zélia Moura, Manoel Marrocos, Eriberto Dedeu e Niedja Amaral, com especial participação do ator Roosevelt Sampaio. O guarda-roupa e cenários ficaram a cargo de Raul Córdula, com música do maestro Pedro Santos.

Como se vê, foi um mês de intensa produção cultural, mas o fato mais marcante foi a montagem de uma peça escolhida e encenada pelo grupo de teatro da Faculdade de Filosofia da UFPb, com o apoio total do Dpto. Cultural daquela universidade, que contratou o consagrado teatrólogo carioca Rubem Rocha Filho para ser o seu diretor. Foi uma experiência inovadora no teatro paraibano. No próximo texto, maiores informações a respeito.

• Do livro “1968 - O GRITO DE UMA GERAÇÃO”.