A maturidade

 

A maturidade não tem nada a ver com envelhecimento. A idade cronológica não condiciona alguém alcançar a maturidade. Amadurecemos quando temos consciência de quem somos, e então passamos a encarar as dificuldades e problemas de forma mais segura. O amadurecimento se dá quando temos mais clareza diante das situações que a vida nos oferece.

Somos pessoas maduras ao nos comportarmos compreendendo melhor o mundo em que vivemos em razão de experiências acumuladas. Isso necessariamente não acontece ao atingirmos a idade da velhice. Conhecemos muita gente idosa que tem a mentalidade de uma criança, porque nunca soube ao longo de sua existência adquirir sabedoria pelas experiências. Do mesmo modo existe muita gente jovem que assume postura de amadurecimento, porque já conseguiu alcançar um estágio de autodisciplina interior, convicção intelectual, senso de responsabilidade e dignidade.

Na maturidade sabemos cultivar a paciência e a perseverança. Aprendemos a respeitar para impor respeito. Temos mais firmeza no agir e no falar. Valemo-nos das nossas certezas para dirigirmos melhor o caminhar na vida.

O envelhecimento é a transformação no corpo, ação física do tempo. O importante é que o avançar da idade não permita que a alma envelheça. O ancião de alma jovem é sim uma pessoa madura, no verdadeiro sentido da palavra.

Mas a maturidade pode ser uma conquista que antecede a velhice, basta que haja um bom aproveitamento das experiências e da assimilação das lições de vida.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”.


O desbaratamento de um aparelho comunista

 

A repressão da ditadura levou a militância mais radical de esquerda à clandestinidade. Em nome da causa essas pessoas, em sua maioria estudantes, pertencentes a grupos organizados de atuação política contra o governo, chegaram a cometer ações criminosas por motivações políticas. Partiram para assaltos a bancos e sequestro de autoridades.

O serviço de inteligência das Forças Armadas vivia a todo tempo procurando desbaratar essas organizações, que eles chamavam de “aparelhos comunistas”. O grupo de esquerdistas mais atuante pertencia ao PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.

Na segunda quinzena de novembro de 1969, os jornais da Capital publicaram fotos de dezenove militantes, que faziam parte de um desses “aparelhos”, que a polícia noticiava haver desmantelado. Fiquei surpreso ao ver entre os “subversivos” apontados pelo governo, um ex-colega do Liceu, Marcos Guilherme Miranda. Nunca imaginei que aquele companheiro de bancos escolares pudesse estar envolvido em tais movimentos. Era um rapaz calmo, tímido, mas muito inteligente. Não tive mais notícias dele. Suspeito de que faça parte da relação dos inúmeros brasileiros que foram assassinados nos porões da ditadura.

Figuravam ainda na lista outros nomes conhecidos da política estudantil: Rômulo Araújo, Eraldo Fernandes, Eduardo Ferreira, Eric Rosas, Emilson Ribeiro, Eduardo Jorge (filho do reitor da UFPB e militar do Exército, Guilhardo Martins, e que recentemente disputou o cargo de Presidente da República pelo PV). Tiveram suas prisões preventivas decretadas pela Auditoria da Sétima Região Militar. Alguns foram capturados e outros foragiram.

O “aparelho” desbaratado funcionava em Tambaú, na Avenida Olinda, 400. Lá foram encontrados, conforme relato militar, armamentos de uso exclusivo das Forças Armadas e vários equipamentos furtados. Pesava contra eles, além de várias ações criminosas, o assalto à Companhia de Cigarros Souza Cruz, no Centro Histórico, ocorrido em maio, no qual teriam roubado cerca de cinqüenta e seis milhões de cruzeiros.

Segundo o depoimento de Eraldo Fernandes, hoje médico, à Comissão da Verdade na Paraíba, eles não teriam sido os responsáveis por esse assalto e atribuiu essa execução aos camaradas de Pernambuco, ainda que tivesse admitido o planejamento de tal ação.

O fato, como era de se esperar, provocou grande repercussão, principalmente por envolver pessoas conhecidas da sociedade, embora não se revelasse algo que causasse espanto, porque se sabia da movimentação das organizações clandestinas no sentido de empreenderem resistência e oposição ao governo militar. Era então apenas mais um episódio do confronto “esquerda x direita”, em que os ditadores procuravam anunciar com destaque, ao mesmo tempo objetivando dar a impressão de que estavam ganhando essa luta e criando mais medo aos que insistiam em combater o regime.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 


O vandalismo

 

O comportamento do ser humano em alguns instantes parece ser mais adequado ao de um animal irracional. Atitudes impróprias para quem tem juízo, posturas insensatas, conduzidas por instintos de crueldade e desrespeito aos mais elementares princípios de boa convivência social. É o que classificamos como vandalismo.

O termo nasceu da ação de um grupo de bárbaros, de origem germânica, chamados “vândalos”, que invadiu o Império Romano promovendo saques e destruição do patrimônio alheio. Vemos na atualidade esse fenômeno de agressividade coletiva acontecendo com frequência.

Sob o argumento de que estão num movimento de protestos, manifestantes se acham no direito de promoverem a baderna e a depredação de bens públicos e privados. Consideram-se acima das leis, julgam-se isentos de qualquer crítica ética. Assumem o espírito da selvageria como se estivessem exercendo um ato de heroísmo, bravura, coragem. Na verdade, quase sempre, são pessoas usadas como massa de manobra para atender interesses políticos. Não têm consciência real do que estão fazendo. Constituem uma turba ensandecida liderada por irresponsáveis.

Tenho feito diariamente um convite aos leitores para me acompanharem na reflexão dos nossos procedimentos enquanto seres humanos. É importante que meditemos um pouco sobre essa conduta coletiva de querer resolver as coisas na base do ataque, da ferocidade, da fúria. Não devemos nunca abrir mão do nosso sagrado direito de reivindicar, reclamar, protestar, mas respeitando a ordem pública, a integridade física das pessoas e preservando o patrimônio público e privado.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”.

 


A intuição

 

Até hoje não se encontrou um explicação científica para esse fenômeno emocional conhecido como intuição. A verdade é que todos nós já nos conduzimos em determinados momentos da vida à luz da intuição. Ela aparece de repente, como um aviso prévio, uma voz interior que nos faz acreditar no caminho certo a seguir. A atitude movida pelo processo intuitivo não tem embasamento racional.

Muitas das nossas decisões carecem de justificativas por terem acontecido. É quando obedecemos cegamente a orientação dos palpites que vêm inesperadamente na nossa consciência, somos guiados pela capacidade de pressupor acontecimentos e seus resultados. Pressentimos fatos, percebemos oportunidades, apostamos no que ainda é irreal.

Da intuição nasce a coragem de seguir em frente no atendimento dos desejos. Ao confiar no que o coração está falando, pela voz da intuição, a pessoa se determina a escolher caminhos. Intuir é compreender algo, sem necessariamente raciocinar, mas que tem origem no conteúdo do seu conhecimento. As informações contidas no seu cérebro instintivamente ocasionam o surgimento da intuição. Ninguém constrói uma suposição de algo que não conhece ou nunca ouviu falar.

Na mulher essa manifestação do inconsciente é conhecida como “sexto sentido”. Na alma feminina a habilidade para prever ocorrências ou captar situações por antecipação é muito mais evidente. Impressiona a capacidade que possuem para perceber previamente o que os homens não veem. A intuição na mulher é potencializada. Ela capta com muito mais facilidade as mudanças que se verificam ao seu redor. Nela o sinal de alerta está sempre muito atento. Dificilmente uma mulher se dá mal no exercício da profissão de detetive. Se mito ou verdade, é prudente crer nessa aptidão extrassensorial do universo feminino.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”.
 


O Pasquim

 

A censura imposta aos veículos de comunicação pelo AI5, não nos deixava opção de leitura sobre os acontecimentos cotidianos. Nada do que se escrevia nos jornais e revistas da época refletia o pensamento isento sobre qualquer assunto, pois só seria publicado aquilo que era permitido pelo governo.

Foi aí que alguns intelectuais cariocas, entre os quais o cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, ousaram em produzir um jornal alternativo. Queriam fazer algo que saísse do costumeiro. Tinha que ser uma publicação que fugisse aos padrões da rigorosa seriedade da imprensa conhecida na época. Pensaram em editar um tablóide carregado de sátiras e críticas, fazendo uso do humor inteligente. Com essas características surgiu em junho de 1969, o Pasquim.

Sua primeira edição foi de apenas vinte mil exemplares, mas causou tanto sucesso que pouco antes de completar um ano de existência sua tiragem já alcançava o número de duzentas mil unidades. Circulava semanalmente. Esperava com ansiedade sua chegada às bancas para adquiri-lo.

Nele se lia sobre tudo: política, sexo, drogas, feminismo, comportamentos, filosofia, etc. Foi a expressão mais firme da contracultura. As entrevistas que trazia eram bastante interessantes porque exploravam temas sérios com toques de irreverência, ironia, subversão de princípios tidos como conservadores. Uma delas, que provocou muita polêmica, foi a que fizeram com Leila Diniz, ensejando inclusive a prisão dos seus diretores, por entenderem os censores oficiais que as manifestações da atriz atentavam contra a moralidade e os bons costumes.

O jornalzinho trazia nas suas páginas artigos de figuras que se destacavam no mundo intelectual brasileiro e se sentiam na obrigação de se posicionarem, de forma subliminar, contra a ditadura que estávamos vivendo. Ziraldo, Millôr, Henfil, Paulo Francis, Chico Buarque, Glauber Rocha, Rubem Fonseca, entre outros, eram colaboradores do jornal, o que já basta para avaliar o nível intelectual das suas publicações.

O governo tentou de todas as formas boicotar sua circulação, mas não conseguiu. Quando proibiam, havia sempre um jeito de fazê-lo chegar às mãos das pessoas que se acostumaram a tê-lo como leitura obrigatória. Teve vinte e dois anos de existência. Sua ultima edição foi em 1991.

O Pasquim fez história e ajudou a juventude dos anos setenta a pensar, contrariando o desejo dos ditadores, que queriam uma mocidade alienada, despolitizada e sem capacidade para discutir e debater as questões que interessavam a sociedade. Era, portanto, a nossa tábua de salvação num mar revolto, em que o perigo de afogamento nas águas turvas e escuras da ditadura se fazia tão ameaçador.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 


O Maravalha

 

Estávamos no início de 1969, quando um grupo de quarenta rapazes, que se intitularam “solteirões”, decidiu criar uma nova opção na vida noturna de João Pessoa. Aliás, naquela época, eram poucas as alternativas de que dispúnhamos para o lazer à noite. Ficávamos restritos ao Elite Bar, na orla, cujo movimento maior era nos fins de semana, a Churrascaria Bambu e o Bar Luzeirinho, o primeiro na Lagoa e o segundo no bairro de Jaguaribe, onde se reuniam empresários, políticos, artistas, intelectuais, jornalistas e estudantes paraibanos, fazendo a boemia da cidade.

A ideia era oferecer como atração turística e de divertimento, um ambiente que pudesse se destacar como diferente, inovador, moderno. Nasceu o Maravalha Praia Clube, instalado na Avenida Tamandaré, vizinho ao Edifício Cannes, próximo ao Hotel Tambaú, ora em construção. Sua diretoria de fundação era composta por Wills Leal, Heytor Santiago, José Camelo, Gilson Melo e Climério Baía.

A sua inauguração foi um evento concorridíssimo, chamando a atenção, não só da juventude, mas de toda a sociedade da nossa capital, cuja fita simbólica foi cortada pela Miss Paraíba 1969, Ilona Pinheiro. Aberto todos os dias, com uma boate ao som de música eletrônica e luz psicodélica (a grande novidade), durante a noite. Nos finais de tarde, o clima era descontraído, não faltando as improvisadas rodas de violão. Sua decoração interna recebeu a assinatura de Raul Córdula. A diretoria provisória, primando pela oferta de um serviço de qualidade, contratou um barman paulista.

Tornou-se o “point” do lazer pessoense. Começávamos a ganhar ares de cidade avançada, atualizada com o que de mais moderno existia em outras capitais. Levávamos, com orgulho, as pessoas que nos visitavam, para conhecer o Maravalha, e a todos causava excelente impressão.

Foi a partir dele, com certeza, que a noite de nossa capital iniciou um novo tempo. Surgiram naquele ano e na década de setenta, outras casas do gênero, oferecendo alternativas conforme suas preferências. Portanto, o Maravalha despertou João Pessoa para o mundo do entretenimento, da distração, do recreio, graças à ousadia de quarenta jovens empresários, artistas e jornalistas da nossa província.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.
 


O aperto de mão

 

Nos pequenos gestos conseguimos transmitir mensagens que mil palavras teriam dificuldade em expressar. É a linguagem corporal, a manifestação de sentimentos através do gestual. Uma delas, de fundamental importância nas relações pessoais, é o aperto de mão. O contato físico que ele proporciona tem um significado de confiança, apreço, respeito.

O aperto de mão sela amizades, consolida acordos, efetiva negócios, mas também revela disposição para o entendimento, a convivência harmoniosa e pacífica, a boa vontade recíproca no estabelecimento de ações comuns, o relacionamento com espírito de fraternidade. Mesmo quando se trata de uma simples e protocolar saudação, ele simboliza concórdia, ajuste.

Na firmeza de um aperto de mão experimentamos a sensação de segurança e sinceridade. Quando ele se faz forte percebemos tratar-se de uma pessoa equilibrada, consciente do que quer, com uma personalidade que irradia simpatia e confiança.

Sabemos que a primeira impressão é a que fica, daí a importância desse gesto. Através dele conseguimos fazer preliminarmente uma avaliação da pessoa que está nos cumprimentando. A melhor forma de iniciar um relacionamento, seja qual for, é quando duas pessoas fazem do aperto de mão o símbolo de um congraçamento.

O aperto de mão pode dizer muita coisa. Por exemplo, detesto quando alguém cumprimenta com as pontas dos dedos, sem colocar por inteiro a palma da mão. Na minha compreensão, vejo essa pessoa como uma pessoa insegura, frágil, medrosa, e, quase sempre, insincera, fingida. O aperto de mão frio, úmido e frouxo, me leva a encarar com desconfiança a saudação. Percebe-se claramente que há ausência de atenção verdadeira.

Portanto, façamos das oportunidades de apertar a mão de alguém, o ensejo de comunicação mais autêntica dos nossos sentimentos.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”.
 


 


O amor



Não é fácil traduzir em palavras o que seja “amor”. Esse que é o sentimento mais nobre da humanidade tem sido tema de inspiração para os poetas e debate para os filósofos. No entanto, ninguém até hoje conseguiu chegar a uma definição precisa. Ele tem o poder mágico de provocar transformações, exercer fascínio, fortalecer espíritos, construir vínculos afetivos, promover sonhos. Todavia, também agita comportamentos, causa desatinos, estimula disputas, gera conflitos. Tanto alegra, quanto entristece. Tanto entusiasma, quanto deprime.

É inesgotável a capacidade de se conceituar o amor. Por mais que se procure explicar, há sempre algo mais a falar sobre esse sentimento. É preciso viver o amor para compreendê-lo. Em todas as suas manifestações, há a necessidade da experiência para chegar a conhecê-lo. Impossível viver sem amor. Somos eternamente aprendizes do amor. A cada instante da vida nos deparamos com maneiras diferentes de exercitar o amor, nas relações com Deus, com familiares, na convivência social, no despertar das paixões românticas.

Amor é desejo de conquista, é doação, é necessidade de compartilhar emoções e prazeres, é dividir responsabilidades e projetos de vida, é estabelecer reciprocidade no bem querer, é deixar o coração falar por si. Os amantes, no sentido mais verdadeiro da palavra, vivem em permanente estado de graça, num mundo de fantasia, num encantamento que acende a chama da paixão.

O amor é a busca da felicidade, disso não se pode duvidar, embora algumas vezes surjam sensações ligadas à dor e ao sofrimento. Essa realidade se materializa quando emergem divergências, inseguranças, indiferenças, desrespeito na desarmonia de convivência entre pessoas que estabeleceram laços de afetividade. É aí que o amor perde o encanto da ternura para assumir a decepção da mágoa, da desilusão, do desgosto.

O homem precisa ter consciência de que o amor é uma ocasião sublime para amadurecer, conhecer a si mesmo, e assim contribuir na construção de um mundo melhor. Onde existir o amor haverá paz. Onde o amor surgir prevalecerá concórdia. Onde o amor for despertado serão celebradas vitórias. Onde se cultiva o amor encontra-se solidariedade, atenção fraterna e respeito mútuo entre as pessoas.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS E EMOÇÕES”.


A esperança



Estamos acostumados a ouvir uma frase que diz: “A esperança é a última que morre”. Isso representa o entendimento de que enquanto houver esperança, não perdemos o sentido da vida. Entretanto, é importante saber que não basta acreditar que tudo pode ser melhor amanhã. É preciso agir, fazer desse sentimento o combustível para realizar aquilo que desejamos. Não podemos ficar na sua dependência, numa postura passiva porque confiamos que as mudanças virão conforme nossa expectativa.

De qualquer forma a certeza de que depois de uma noite escura sempre virá um dia com o sol brilhando, nos dará a energia necessária para colocarmos em prática ações que viabilizem a realização dos sonhos gerados a partir da esperança. Tem que haver um compromisso com a perspectiva alimentada pela esperança. Fazer com que os sonhos não sejam em vão.

O futuro é construído, a partir da nossa capacidade de projetar os acontecimentos, com base naquilo que queremos. Quando se planta no coração do homem a semente da esperança, não há lugar para o medo, o desespero, a dúvida. Se estabelece uma armadura de defesa aos pensamentos pessimistas, as previsões negativas. Nasce a coragem, a força determinante de que vale a pena seguir adiante.

Quem perde a esperança, entrega-se ao desânimo, ao esmorecimento, à apatia. Na descrença de que o melhor está por vir, o indivíduo passa a trilhar por caminhos escuros e tortuosos. Então encontra dificuldade em vencer obstáculos. O segredo da vitória está exatamente em nunca perder a esperança.

Os problemas que enfrentamos no dia a dia só podem ser superados, quando nos dispomos a lutar com a confiança de que somos capazes. Essa força impulsionadora é a esperança. Através dela resgatamos a fé em nós mesmos e partimos em busca dos objetivos aos quais nos determinamos alcançar.

• Integra a série de crônicas “SENTIMENTOS E EMOÇÕES”.


 


A reunião com João Agripino

 

No segundo semestre de 1968, fui surpreendido com um convite para participar de uma reunião com o governador João Agripino. Ele manifestara interesse em conversar com alguns estudantes. Estava claro que queria compor uma força política jovem sob o seu comando. Imaginava ser essa a melhor maneira de enfrentar a reação da juventude ante o movimento que se intensificava em combate ao governo dos militares.

Dispus-me a ir, mesmo consciente das suas intenções, não só pela curiosidade, mas também pela oportunidade de conhecer pessoalmente aquela liderança política, por quem nutria respeito e admiração, apesar da sua ligação ao sistema dominante. João Agripino, em que pese a sua vinculação ao partido que dava sustentação política aos ditadores, impressionava por sua coragem ao tomar decisões que contrariavam o poder central. Assumia publicamente algumas divergências com o governo federal. Conhecia-o a distância, quando acompanhava meu pai nos comícios de sua campanha. Era um grande orador de convencimento, sem ser um tribuno de discursos onde se destacassem frases bem elaboradas que se perpetuassem como célebres na nossa história política. Seu poder de persuasão era, no entanto, bem perceptível.

O encontro aconteceu à noite na residência de José Medeiros Vieira, então secretário de educação do governo estadual, que se localizava na Praça da Independência. As vinte e trinta horas, quando já estavam presentes todos os convidados, entre os quais, lembro de, Geraldo Targino, Aldson Salgado, Levy Borges, Wilson Terroso, Nilo Feitosa, Johnson Abrantes, entre outros, chegou o governador, trazendo debaixo do braço um litro de uísque.

Estávamos ali muito mais para ouvir do que falar. Ele nos deixava informados da sua experiência política, procurando nos passar orientações interessantes de como deveria se comportar um líder na condução das atividades ligadas á vida pública. A sensação era de que estávamos assistindo uma aula prática de política.

Por volta de meia noite, entendi que era chegada a hora de ir embora, afinal de contas já estava empregado e a responsabilidade profissional me chamava ao trabalho logo cedo da manhã seguinte. Pedi licença para me ausentar, no que fui questionado sobre as razões da minha saída. Comuniquei que precisava acordar cedo para ir trabalhar. Perguntou onde eu trabalhava. Ao tomar conhecimento de que eu era funcionário do Banco do Estado da Paraíba, quis me tranquilizar dizendo: você amanhã diz ao gerente que estava reunido com o governador. Achei graça na sua colocação e rebati: difícil governador será o gerente acreditar nessa minha desculpa.

Foi a única reunião de que participei. Não sei se outras aconteceram depois. Entretanto, gostei de ter tido a chance de conversar pessoalmente com essa personalidade marcante da nossa história política estadual.

• Integra a série de textos “INVENTÁRIO DO TEMPO II”.