Calou-se a voz que a ditadura não conseguiu silenciar

 

Encerrou-se ontem a vida terrena de um dos mais dignos brasileiros, Dom Paulo Evaristo Arms, conhecido como o Cardeal da Resistência. Só a morte poderia fazer silenciar a voz de quem se dedicou durante toda a vida pastoral a defender os pobres, os oprimidos, os perseguidos pelos poderosos. Tornou-se o ícone da igreja progressista no Brasil.

Foi durante o período da ditadura militar que protagonizou os mais importantes episódios em defesa dos direitos humanos, ao reagir contra a repressão política de época, assumindo a posição de combate à truculência que marcava a forma de administrar dos que estavam no poder. Com sua voz mansa, transmitindo em qualquer situação um espírito de tranquilidade, não temia em denunciar as arbitrariedades do regime, nem se submetia às intimidações dos generais.

Houve uma ocasião em que procurou o presidente Médici para reclamar da forma violenta com que os agentes do Estado agiram ao prender dois servidores da pastoral. Recebeu uma resposta enfurecida do general-presidente: “Não temos o que conversar. Sabemos o que temos que fazer. O seu lugar é na igreja, na sacristia, e o meu é aqui para governar o país”. Essa reprimenda mal-educada em nada intimidou o prelado, que continuou na sua luta contra as torturas e os assassinatos que aconteciam no Brasil de então.

Em 1975, ao lado do pastor presbiteriano Jaime Wrigh e o rabino Henry Sobel, realizou um culto ecumênico em homenagem póstuma ao jornalista Vladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI de São Paulo, levando mais de dez mil pessoas para assistir à cerimônia. Nasceu ali a ideia do projeto BRASIL – NUNCA MAIS, que produziu farta documentação sobre a história do Brasil, nos anos finais da ditadura militar implantada na década de sessenta. São mais de um milhão de páginas, 707 processos do Superior Tribunal Militar, que permitiram a edição do livro que recebeu o mesmo título do projeto.

Não conseguiu viver em palácios, vendeu o que lhe era reservado quando arcebispo de São Paulo, e utilizou o dinheiro na construção de casas de assistência social na periferia. Gostava mesmo de conviver com os humildes,

Sua obra humanitária recebeu o reconhecimento do mundo inteiro. Se a sua voz destemida em favor dos humildes e dos oprimidos não mais será ouvida, fica seu exemplo de vida, onde ressalta uma energia vibrante de coragem, quando pregava a esperança aos que estavam sofrendo, postando-se ao lado dos que estavam sendo injustiçados, tornando-se companheiro dos que estavam desamparados. Pena que essa voz veemente em favor da democracia cale-se exatamente num momento em que vivemos uma crise ética e moral tão grave, que nos oferece insegurança quanto ao futuro da nação. Ficamos órfãos de um dos guardiões da democracia brasileira.