O ativismo "black bloc"

 

Impressionante como esses grupos de ativistas que agem nas manifestações de rua, conseguem ganhar a atenção principal da grande mídia por ocasião dos atos de protestos. Eles aproveitam-se da oportunidade de grandes aglomerações para aplicarem suas táticas de violência, buscando intencionalmente provocar a repressão policial, na certeza de que passarão a ser o foco do noticiário, em desfavor do verdadeiro conteúdo reivindicatório dos movimentos de contestação política.

Ninguém de bom senso pode acreditar que parta dos organizadores de qualquer ato público de protesto, a orientação para a depredação e a desordem, colocando em risco a integridade física dos que participam da manifestação. São indivíduos infiltrados na multidão, de forma organizada, para incitarem a violência. Esses deploráveis acontecimentos só prejudicam os que, pacificamente, desejam entoar seu grito de protesto em praça pública, e oferecem discurso acusatório para os repressores. Muitos se inibem de participação em outros eventos com receio de saírem machucados ou serem confundidos com os desordeiros.

Os “Black blocs” surgiram no início da década de oitenta na Alemanha, mas têm atuado no Brasil desde 2013, quando morreu, vítima de uma bomba, um cinegrafista em São Paulo, e durante os protestos contra a Copa do Mundo em 2014. Seja qual for a bandeira de luta da manifestação, eles se fazem presentes unicamente com o objetivo de causar confusão, partindo para a destruição da propriedade privada e do patrimônio público. São “anarquistas” por natureza. Não têm compromisso com a motivação do protesto, o interesse deles é chamar a atenção para suas ações intimidatórias e de ameaças à ordem pública. E têm conseguido sucesso nesse propósito.

Usam máscaras para não serem identificados. Quem vai a um ato público de protesto com boas intenções não esconde o rosto. Os que se escondem no anonimato são marginais, arruaceiros, nunca poderão ser considerados manifestantes, no bom sentido da expressão. A eles pouco interessa solidarizar-se com o pensamento reivindicatório da maioria. Antes, pelo contrário, querem mostrar força, mesmo que impondo a violência como marca de sua atuação.

É lamentável que isso esteja acontecendo. O interessante é que as organizações de polícia conhecem bem o modo de agir desses “bandidos”, e conseguem com facilidade identifica-los entre a multidão, mas preferem entrar no jogo do confronto, aceitando a provocação, gerando o clima de terror que termina sendo a principal matéria para o jornalismo sensacionalista irresponsável. As lideranças desses movimentos mostram-se incompetentes por não se preparar para essas intervenções alheias às causas que defendem, permitindo o discurso de que são coniventes com a baderna. E o povo de boa fé e necessitado de bradar publicamente suas insatisfações e seus anseios é que fica prejudicado.

 


 


Precisamos de uma comunicação social democrática

 

Não há como negar que vivemos atualmente recebendo influências quanto à nossa forma de viver e de pensar, pela força da comunicação social, através da TV, jornais, rádio e internet. A mídia tem o poder de manipular a opinião pública. Os valores sociais vão se adequando ao consumo das informações recebidas no cotidiano. Os veículos de comunicação, portanto, criam conceitos, modas e ideologias.

A vida das pessoas passa a ser pautada pela mídia. E o poder político tira proveito disso. Os grupos que comandam os veículos de comunicação comumente são convencidos a trabalharem no sentido de exercerem um jornalismo que atenda aos interesses dos poderosos de plantão, tanto no campo político, quanto no econômico. É aí que funciona a sua capacidade de manipulação. A avalanche de informações que nos é oferecida diariamente, não nos permite, muitas vezes, conferir a veracidade das notícias. Somos induzidos a acreditar nas primeiras mensagens recebidas.

A imprensa, quase sempre, atrelada às conveniências de grupos dominantes, estabelece um processo de alienação da sociedade. Ela tenta padronizar a opinião das pessoas e formar uma cultura homogênea. Desestimula o público a pensar e refletir sobre os graves problemas que o aflige. A população passa a ser vítima de um jornalismo que despreza a ética e o compromisso com a informação verdadeira.

Os meios de comunicação, em sua maioria, são empresas orientadas para o lucro, por isso não é de estranhar que as notícias divulgadas reflitam os desejos e as expectativas dos seus proprietários, muitas vezes à revelia dos interesses da sociedade. Adotam uma linha editorial descompromissada com a verdade dos fatos, submissa ao propósito de produzir a impressão de consentimento democrático do que é divulgado.

Impossível construir uma sociedade livre sem uma mídia democrática, que respeite e garanta a pluralidade e a diversidade. E isso já está previsto na Constituição vigente, em seu artigo 220, Parágrafo 5, ainda que não cumprido: “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. A comunicação social deve refletir as mais diversas visões de mundo, de pensamento, de opinião e de cultura.


 


A delação premiada

 

Sou de um tempo em que “delatar” era uma atitude reprovável. Aqueles que se dedicavam a esse tipo de comportamento eram chamados de “dedo duro”, alcaguete, traidor. Do ponto de vista moral era uma postura condenável.

Na contemporaneidade passou a ser uma ação que merece ser premiada. Através da delação o criminoso busca amenizar a sua responsabilidade delituosa, sob o pretexto de que está colaborando para o inteiro desvendamento da infração penal da qual participou. Basta que forneça informações que possibilitem conhecer a forma e os demais componentes da ação criminosa de que foi um dos protagonistas.

Não tenho condições de tecnicamente analisar o instituto da “delação premiada”, mas há algo que me incomoda nesse procedimento investigativo tão adotado atualmente. Tenho dificuldade em entender o porque de premiar a traição, oferecendo benefícios extremamente generosos a quem cometeu delitos de grande gravidade. Substituiram a palavra delator pela de colaborador, talvez para melhor dar a impressão de que o criminoso que se dispôs a “entregar o jogo” é menos delinquente do que os seus comparsas. O bandido procura apresentar-se como arrependido, mesmo sendo um corrupto confesso.

Pior ainda quando se percebe que, nem sempre, as delações acontecem por manifestação espontânea do criminoso. Há quem diga que muitas vezes elas são produzidas mediante pressão e orientação que atendam interesses que não são exclusivamente a de elucidar questões ainda não conhecidas na prática do crime.

Temos assistido com certa indignação a soltura de verdadeiros marginais, promotores da corrupção, contemplados com a oportunidade de usufruírem em suas mansões, a vida boa que o produto do crime lhe proporciona. Fica a triste e assombrosa constatação, nesses casos, de que o crime compensa. Péssimo exemplo.

Sinceramente, por mais que renomados criminalistas queriam me convencer de que esse é um método eficaz para combater o crime organizado, desmantelar a existência de quadrilhas, só consigo enxergar que é um estímulo à impunidade. A bandidagem de colarinho branco sabe que tem na “delação premiada” a estratégia para se livrar das penas da lei, o que a torna estimulada ao cometimento de crimes. Desculpem-me os juristas que defendem tal mecanismo legal de avançar nas investigações criminosas, mas me dá um certo inconformismo com a sensação de impunidade que ela oferece.
 


O "batom na cueca"

 

Há uma expressão popular muito citada nos tempos atuais, “o batom na cueca”. Ela representa dizer que, enfim, apareceu algo que é impossível negar a ocorrência do acontecimento criminoso, não há porque suscitar quaisquer dúvidas. Não bastam apenas os indícios ou as deduções baseadas em afirmações, mas são indispensáveis as provas concretas, o flagrante incontestável.

Sem “o batom na cueca” qualquer acusação fica vulnerável ao cometimento de injustiças, oferta de crédito a denúncias que podem vir eivadas de falsidade. A investigação séria deve ir sempre em busca da comprovação dos fatos, mediante identificação da materialidade do crime cometido.

Os indícios jamais deverão ser desconsiderados. Pelo contrário eles oferecem a sinalização para se chegar aos elementos pelos quais possam ser mostradas a existência e a efetividade de um fato delituoso. Só então o juiz poderá formar convicção de culpa para condenar alguém.

A presunção da não-culpabilidade é um princípio jurídico de ordem constitucional aplicado ao direito penal. Isso equivale dizer que ao acusador cabe o encargo de apresentar provas dos crimes atribuídos ao acusado. “In dúbio pro réu”, na definição do jurisdiquês indica que, não havendo certeza da ação delituosa atribuída a alguém, deverá prevalecer o pressuposto da inocência.

Ficamos então a refletir, o que é pior a injustiça ou a impunidade? É um questionamento que aflige a todo mundo neste momento em que se vive um surto de denúncias de corrupção. E isso tem provocado uma impulsão punitivista, na ânsia da sociedade em combater essa chaga que tem afetado de forma assombrosa o exercício da política em nosso país. Ficamos então na dúvida, entre a possibilidade de deixar impune um culpado ou punir um inocente. Todos nós detestamos a impunidade. Entretanto, não desejamos cometer a injustiça de punir um inocente.

A melhor forma de não se praticar a injustiça, nem permitir a impunidade, é adotar procedimentos investigatórios que fundamentem um processo justo, conduzido dentro dos limites legais e constitucionais. Combater a impunidade na certeza do crime praticado, reduzindo, então, a possibilidade de erro judicial.

O “batom na cueca”, portanto, continua sendo o elemento essencial para a admissibilidade de culpa. Sem ele, reside o perigo do julgamento apressado, infenso ao que se estabelece como direito individual de ampla defesa. Enquanto não apresentadas as provas materiais, qualquer acusação está fadada ao cometimento de uma injustiça. Não se elimina a impunidade estimulando a injustiça.


 


O prefácio de Robinson Granjeiro


O pastor presbítero e psicólogo Robinson Granjeiro me deu a honra e a satisfação de tê-lo como prefaciador do livro SENTIMENTOS, EMOÇÕES & ATITUDES que estarei lançando no dia nove de maio, às dezenove horas, no restaurante Picuí Praia, no Bessa.
Eis o texto:

Caro Rui

Faço desse prefácio uma curta missiva, que lhe envio pelo correio inusitado – e de certa forma, em desuso – pelas vias da palavra escrita e impressa, este gênero em derrocada, diante dos emotions virtuais, que se pretendem mais sintéticos do que até a própria pontuação.

Ao ler suas obras, sempre restou-me a convicção de que você tem as duas maiores virtudes de um cronista: capacidade singular de observação das falas e dos não ditos, dos textos e intertextos, bem como aquela que é a mais simples e cabulosa das vontades: a de escrever o que não pode ficar adormecido no leito de meros pensamentos.

Alguém já disse que ser um cronista é como se encontrar com algo que lhe faz falta e que volta como música preferida. Quase como uma comida obrigatória do cardápio diário ou semelhante àquela perseguição religiosa e disciplinada daquele ritual, qualquer que seja, mas sobretudo inescapável e expiatório. É assim que lhe imagino a cada manhã ou fim de dia.

Sim! Quase esqueci dessa adolescente inquieta chamada imaginação, que alguns julgam subtraída desse gênero e seus gênios, mas que é o estofo imprescindível que subjaz nas letras, expressões e frases do texto! Ali, no mesmo canto ou em qualquer recanto, sentado a prosear com a vida e consigo mesmo, dando a nascer sua maneira peculiar de ver a existência e os existentes, mortos ou vivos, tangíveis ou metafísicos, todos lençóis dessa parturiente inquietude de onde brotam as crônicas.

Já li algumas de suas obras, nas quais você, elegante, se acompanhou de finas damas descritivas e lindas senhoras narrativas. Agora, neste presente trabalho, revela uma verve reflexiva à semelhança das balzaquianas discretas de outrora, com seus vestidos cheios de renda escondendo voluptuosas paixões. Contudo, que desafio, amigo, esse de falar de emoções tão básicas, e quase tão indecifráveis como a Alegria, e tão misteriosas como as virtudes, que de tão importantes, tornaram-se cardeais, à semelhança da Moderação e da Modéstia, nomes cheios de etiquetas para descrever a mais pura Humildade! Na olhada atenta e contínua de comportamentos atuais e costumeiros, assim como vulgares e abjetos, a Espetacularização e o Fisiologismo. Enfim, temas multifacetados como todo polígono escrito, que chamamos de coletânea.

Ao companheiro de leitura, que me honra ao ler estas poucas linhas à guisa de prefácio, dou-lhe testemunho que, à semelhança de gotículas de orvalho derramadas parcimoniosamente pelo Criador sobre as folhas aveludadas e frágeis das petúnias, a leitura de cada uma dessas crônicas, desde que calmamente sorvidas, será um bálsamo a lhe tirar da roda-viva para o regaço onde repousam os sentimentos mais nobres. Foi assim que li e reli. E por isso, a minha admiração cresceu, assim como a gratidão, sinceras por me permitir encerrar este ode ao seu talento, com os melhores votos de muitas edições sopradas pelos ventos venturosos de um crescente sucesso. De resto, a minha contínua oração para que Deus o conserve com vida, saúde e lucidez por muitos anos, para que, por suas crônicas também possamos refletir e crescer; não seria esta a razão de escrever ?

Com carinho, do amigo
Robinson Grangeiro
Pastor presbítero e psicólogo
 


SENTIMENTOS, EMOÇÕES & ATITUDES

 

Este é o título do livro a ser lançado no dia nove de maio, às dezenove horas, no restaurante Picuí Praia, no Bessa.
NOTA DO AUTOR
As crônicas contidas nesse livro têm o objetivo de convidar os leitores a compartilhar das reflexões do autor sobre o comportamento humano. São os sentimentos e as emoções que determinam nossas ações e reações na definição do que fazemos enquanto integrantes de uma comunidade, estabelecendo posturas sociais.

As atitudes surgem a partir de estímulos emocionais. Ao tentarmos compreender os sentimentos humanos, estamos contribuindo para que se encontre o equilíbrio das emoções, e, por consequência, a prática de ações fundamentadas em valores ditados pela racionalidade.

Goethe afirma que “os sentimentos e as emoções são a essência da alma”. Quando nos dedicamos à meditação dessas manifestações humanas, estamos nos voltando para o nosso interior e, assim, nos capacitando para transformar nossa vida quando se faz necessário. A luz que deverá iluminar os caminhos da nossa existência está dentro de nós.

O estudo do nosso comportamento, descobrindo causas de nossas atitudes, nos ajuda a elaborar novas ideias e conceitos. A busca de melhoria de nossa personalidade deve estar intrinsecamente ligada ao “desejo de despertar”, o interesse em nos autoavaliar, a decisão de investir em nós mesmos. Desenvolver a consciência do diálogo interno é a proposta desse livro. Espero que possam fazer bom proveito das reflexões provocadas pelas crônicas apresentadas.
 


Os inocentes úteis

 

Eles sempre existiram, mas parecem multiplicados na sociedade contemporânea. Os inocentes úteis são como esponjas vivas absorvendo tudo o que lhes é oferecido. São carentes de imaginação construtiva e desprezam o exercício da consciência crítica. Preferem ser conduzidos por lideranças com discursos de falso moralismo, vítimas de uma manipulação social determinada pelos grandes veículos de comunicação a serviço dos poderosos (sistema financeiro, oligarquias, elite dominante).

Os inocentes úteis defendem ardorosamente causas que, muitas vezes, contrariam seus próprios interesses. Mas estão anestesiados pela propaganda que induz um pensamento que lhes levam a menosprezar a busca da verdade. Como integrantes de um rebanho, são guiados na conformidade do que os manipuladores desejam. Acreditam piamente que o que for bom para os patrões será bom para eles. Até porque se enganam pensando que também são patrões. Para eles a realidade é a que está noticiada na grande mídia. Nunca se dão ao trabalho de questionar as informações recebidas, nem se prestam ao exercício do contraditório.

A histeria coletiva provocada pelos inocentes úteis faz explodir o ódio, a agressividade, o medo, o preconceito, a repulsa. Quando o emocional está atingido por esses sentimentos, desaparecem as oportunidades do raciocínio isento de paixões. Passam a ser orientados pelo “canto da sereia” que lhes fizeram estrategicamente ouvir. Assumem posturas travestidas de dignidade, justiça, com a convicção de que estão ao lado do bem.
Importante reconhecer que, na sua maioria, não são pessoas más. Digamos que são ingênuas. Não conseguem enxergar que estão sendo utilizados como massa de manobra. Suas bandeiras de luta, no fundo, nascem de um amor cívico, embora equivocadas. Não por culpa deles, mas dos que são experientes na arte de manipular consciências.

O grande problema é que essa absorção das ideias que passam a defender, os tornam raivosos, impacientes para o bom debate, provocadores, hostis. Chegam ao ponto de entrarem em litígio com parentes e velhos amigos. É como se estivessem sob os efeitos de uma anestesia que os impedisse de comportarem-se com equilibrio racional. Não os critico, só lamento que não compreendam estarem numa luta contra si mesmos.

 

 

 


 


A volubilidade das multidões

 

Estamos vivendo hoje a celebração da Sexta-feira da Paixão, acontecimento que marcou a condenação e morte de Jesus Cristo. E o episódio, ocorrido há quase dois mil anos atrás, nos leva a refletir sobre a volubilidade das multidões. O Filho de Deus conheceu bem essa característica de comportamento das massas. O mesmo povo que o aclamara quando da sua entrada triunfal em Jerusalém, decidiu aos gritos de “Crucifica-o! Crucifica-o!” a sua condenação.

Por mais que Barrabás dissesse que não enxergava nEle motivo que justificasse a sua crucificação, a multidão, insuflada pelos sumos sacerdotes da igreja judaica, exigia aos brados que fosse executado, pregado a uma cruz. Muitos gritavam, e outros, talvez os que não concordavam com aquela decisão drástica, ficavam calados, com medo de se manifestarem. Os líderes religiosos convenciam os populares de que Ele solto se tornaria um perigo à doutrina que professavam.

As multidões são guiadas por ordens sutis que mexem com as emoções, produzem sensações, afloram sentimentos. Perdendo a individualidade, o ser humano, deixa de raciocinar por si próprio e é arrastado como um animal irracional para atitudes, muitas vezes explosivas, que ferem os princípios de justiça e de respeito ao direito de outros. Passa a ser orientado por “palavras de ordem” ajustadas a interesses arriscadamente estranhos aos que antes defendia.

“A mão que afaga, é a mesma que apedreja”, já nos ensinava nosso conterrâneo Augusto dos Anjos. A mesma multidão que um dia aplaude, festeja, reverencia, pode ser a mesma que, pouco tempo depois, comunga reações iradas, raivosas, violentas, em situações ocorridas em tempos diferentes e contextos outros. O humor das multidões varia de acordo com as circunstâncias. Não se exprime por força da racionalidade, se revela através das contingências emocionais.

Quantas vezes nos surpreendemos gritando: “Crucifica-o! Crucifica-o!”, ao meio de manifestações coletivas, sem nos darmos a oportunidade de analisar com tranqüilidade se estamos sendo corretos, justos, honestos conosco mesmos? Fazendo prejulgamentos, sem oferecermos chance do acusado se defender ou explicar os motivos que o levaram a ser apontado como vítima de uma incriminação?

Jesus, por sua condição de divindade, conhecia bem esse aspecto volúvel no comportamento das multidões. Por isso mesmo, Ele dedicava mais atenção ao indivíduo, procurando fazê-lo compreender que seus julgamentos devam ser presididos pela consciência ditada pelo coração, onde prevaleçam os sentimentos de fraternidade, amor ao próximo, respeito à justiça social e serenidade. Reflitamos um pouco sobre isso neste dia. Evitemos ser levados pela insensibilidade que caracteriza as manifestações coletivas, agindo por impulsos provocados por processos estratégicos de sedução das massas.
 


A bênção

 

Sou do tempo em que era costume pedir a bênção dos pais, avós, tios, padrinhos, sacerdotes. Não saía, nem chegava em casa, sem que me visse na obrigação de pedir a bênção de meu pai e de minha mãe. Fazia isso como um hábito, sem compreender bem essa atitude. Mas era um gesto que trazia um significado muito importante. Não só como demonstração de respeito aos mais velhos, mas como uma oportunidade de recebermos através deles a proteção divina para nossas atividades cotidianas.

A bênção tem o poder de atrair as dádivas de Deus. Elas são proferidas por pessoas que têm autoridade sobre nós, e, através delas, se estabelece o encontro espiritual e emocional com o Criador. Ao abençoar alguém, firmamos o desejo benigno de que ele seja bem sucedido e próspero no caminhar da vida.

O ato de abençoar, em razão da força divina que possui, tem efeitos de retorno. Desejar o bem a outros é tornar-se merecedor de idêntica graça de Deus. Quando falamos “Deus te abençoe”, Ele entende como a invocação do Seu apoio não só a quem a gente está dirigindo a bênção, mas, por extensão, a nós também.

A formalidade de antes, que se afirmava uma tradição familiar, vai aos poucos desaparecendo na sociedade contemporânea. Vejo isso com certa tristeza e nostalgia. Já não se julga necessário pedir a bênção dos pais a cada dia, ignorando que são eles os colaboradores de Deus na construção dos nossos destinos. Pedir a bênção aos parentes, é reconhecer neles o poder de interceder junto ao Pai celeste no sentido de que a Sua proteção e cuidado esteja permanentemente orientando nossa vida.

Nunca me envergonhei do “bença pai”, “bença mãe”, de mão estendida, sempre que os encontrava, porque tinha consciência do quanto era importante receber deles a resposta “Deus te abençoe, meu filho”. Sabia que, naquele instante, estava se constituindo a oportunidade do encontro do homem com o divino. A eles, nossos pais, é outorgada a capacidade de conceder, em nome Dele a bênção que produzirá a paz, a felicidade, o bem estar, que necessitamos a cada dia.

• Integra a série Do livro “SENTIMENTOS, EMOÇÕES E ATITUDES”, a ser lançado brevemente.


 


Uma saudade que não não tem fim

 

Há exatamente sete anos ele partiu para o plano superior. Desde então meu encontro com ele tem se verificado em sonhos, e com muita frequencia. Talvez seja a forma, inexplicável, porque não programada, de minimizar a imensa saudade que ainda faz sofrer meu coração. De qualquer maneira, a sua presença nas minhas noites de sono, alivia, por alguns instantes, a minha alma chorosa. Me dão a sensação de que estou novamente a desfrutar da sua convivência que me fez tão bem enquanto esteve entre nós.

A lembrança de meu pai, se me proporciona lágrimas de saudade, também me oferece encorajamento, ânimo, energia, nas ocasiões em que enfrento dificuldades. Sua história de vida (eu testemunhei boa parte dela) funciona como um livro de regramento da nossa vida. Deusdedit Leitão foi um homem íntegro, em todos os sentidos em que essa qualidade possa se manifestar num ser humano. Adotou a modéstia como comportamento, nunca se vangloriando das suas conquistas ou cargos de importância ocupados. O talento para a pesquisa histórica e capacidade singular para escrever, me inspiram a tentar percorrer caminhos na literatura que ele tão bem percorreu. A dedicação ofertada à família revelava um marido amoroso e um pai afetuoso. Uma personalidade ímpar.

O dia de hoje, portanto, é de muita saudade, entre todos nós que integramos a família que ele responsável e cuidadosamente constituiu. Apesar da ausência física, jamais tive o sentimento de que ele nos abandonou. É firme a impressão de que ele continua próximo a todos nós.

Se neste primeiro de abril não poderemos mais viver a felicidade de sentir o calor do seu abraço, resta-nos elevar os olhos e as mãos aos céus em agradecimento a Deus por ter-nos concedido a graça de tê-lo como pai, avô, sogro, marido, companheiro, amigo.