Brasil: Freios à recuperação econômica

A economia brasileira, que é capitalista e complexa, entrou em fase cíclica ascendente. Foram oito trimestres consecutivos de queda acelerada da produção, exaustão de estoques de mercadorias e postergação de investimentos, inclusive de reposição. Eis que chegou a hora da virada, à luz da lógica empresarial do lucro, poder de competição e posição de mercado.

Em 2017, o PIB do Brasil, após cair 7,3%, no biênio anterior, dá sinais de recuperação. Cresceu 1% no primeiro trimestre, 0,2% no segundo e 0,41%, no mês de julho, conforme indicador do Banco Central. É possível que, em dezembro, tenha um crescimento anual de 1%.

Essa reversão cíclica da quase depressão de 2015-16 seria compatível com um crescimento do PIB brasileiro de 3% em 2017 e 4,5% em 2018. É fato que se gerou uma enorme capacidade de produção ociosa. Há 13 milhões de desempregados que apequenam a barganha salarial. A recessão reduziu a inflação anual a 2,6%.

A política fiscal-monetária devia assegurar o alto crescimento factível do PIB para 2017-18. Isso viabilizaria a queda do deficit primário e da taxa de juro, reduzindo o deficit público nominal de 9,3% para 4% do PIB. Assim, a relação dívida pública bruta/PIB tenderia a cair. Esses resultados são necessários ao crescimento econômico sustentável com a inflação na meta.

As políticas governamentais reduzem os limites da expansão econômica pronta para acontecer. A política fiscal, que se diz ortodoxa, aumentou o deficit primário anual de 1,57%, em 2015, para 2,66% do PIB, julho/2017, e a divida pública/PIB de 66,0% para 73,8%. Essa contradição é síntese de causa e efeito da taxa básica de juro tão alta para uma inflação tão baixa.

Criou-se um círculo vicioso: dívida e deficit públicos crescentes justificam juros altos que freiam a economia, que recriam a situação fiscal-monetária e econômica adversa. O problema essencial está na política de juros do Banco Central, que contínua com foco na inflação, quando devia, desde janeiro/2017, cuidar do crescimento do PIB e do emprego.

A queda da taxa básica nominal anual de juro camufla o aumento do seu nível real. De novembro/2015 a agosto/2017, essa taxa nominal caiu de 14,25% para 9,25%, enquanto a inflação/IPCA caiu de10,3% para 2,7%. Ponderada a inflação, a taxa básica real de juro cresceu de 4,0% para 6,5%; nos meses janeiro-junho/2017 chegou a 7,5%, de longe a maior do mundo.

Mesmo assim, a economia brasileira teve dois trimestres de crescimento, demonstrando a força do dinamismo expansivo em curso. Mas, com essa política de juros absurda, o país perderá neste ano 2% de incremento do PIB. Isso equivale a R$140 bilhões de bens e serviços a menos para a sociedade, com perda de R$ 42 bilhões de receitas para o setor público.

As atuais políticas fiscal e monetária buscam fazer em 3 ou 4 anos o crescimento de 7% a 8% do PIB, que poderia ser no biênio 2017-18. É lamentável, se isso for obra de inspiração ideológica nefasta. Nessa visão, o maior crescimento da economia e do emprego criaria um cenário sociopolítico desfavorável à reforma da previdência e às mega privatizações.
 

rspolari@uol.com.br


O Brasil socieconômico afunda

O Brasil sofre a falência do seu sistema político. Desde 2015, tornou-se ingovernável. O Poder Executivo esvaziou-se, tomado por nefastos governos de coalização e uma espécie de parlamentarismo espúrio. Nesse caos, o Poder Judiciário é instado a aplicar a Lei sobre uma avalanche de conflitos, mas sem cair na tentação política. É de bom tamanho o importante papel da Justiça no combate à corrupção.

O problema essencial do país é a recessão que já comeu 7,3% do PIB e elevou o desemprego para 14 milhões de trabalhadores. Os Poderes se justificam pela sua capacidade de contribuir no atendimento das necessidades cotidianas básicas da população: emprego, renda, alimentação, educação, saúde, segurança, moradia, transporte e perspectiva de progresso. Nesses aspectos, o país caminha para trás.

É assustador o ideário econômico único, absoluto e simplório que comanda a busca da recuperação: ajustar as finanças públicas, sair do deficit para suparavit primário e conter a explosão da dívida pública. No fundo é uma tentativa de afastar o perigo de calote dessa dívida. Daí emergiria um cenário virtuoso de queda dos juros, riscos, incerteza e retomada dos níveis de investimento e consumo privados.

Os resultados atestam que urge outra equação de solução para a economia nacional. A dita raiz do problema, o deficit público primário, só fez crescer: R$ 33 bilhões, 0,63% do PIB, em 2014; R$ 115 bilhões, 1,57% do PIB, em 2015; R$ 154 bilhões, 2,47% do PIB, em 2016, e R$ 155 bilhões, 2,3% do PIB, no final de 2017. A dívida pública bruta em relação ao PIB disparou, nesses anos: 61%, 66%, 70% e 76%.

Não se pode dizer que esse malogro decorre da falta das reformas salvadoras. A PEC do teto dos gastos públicos foi aprovada e a da reforma trabalhista está em fase final de aprovação. Essas seriam as reformas com benefícios econômicos imediatos, que não ocorreram. Os efeitos esperados da reforma da previdência serão de longo prazo.

As crises são comuns às economias capitalistas, e não duram para sempre. Nas recessões, a exaustão dos estoques de reservas e a não efetivação dos investimentos de reposição agravam a situação. Depois, impõe-se a recomposição dos estoques de mercadorias e do capital fixo depreciado gerando a retomada da expansão econômica.

Essa reversão cíclica ajudou o crescimento do PIB brasileiro, 1% jan-mar/17 e 0,28% no mês abril. Houve fortes contribuições da superexpansão do setor primário e das dezenas de bilhões de reais de depósitos do FGTS liberados aos trabalhadores. Nada se deve às políticas fiscais e monetárias ortodoxas do governo.

A política de teto dos gastos públicos é de alto risco. Ela só promove o ajuste fiscal se houver crescimento econômico. No atual cenário de estagnação/recessão e inflação em queda, a regra de elevação das despesas governamentais pela taxa de inflação do ano anterior aumenta o deficit primário, por insuficiência de receita.

Eis o problema: o governo não pode expandir seus gastos e investimentos; os investimentos e consumo privados continuam de fogo morto; a alta taxa básica real de juros, mais 6% ao ano, e a grande crise político-institucional inibem a recuperação da economia. Até onde a população acomodará tanta regressão socioeconômica?

 

rspolari@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 


Juros reais altos em alta

O economista André Lara Resende abriu um oportuno debate sobre a desnecessidade de juros tão elevados no país. Será que, diante da forte queda da inflação, a taxa Selic não deve cair para um nível que não atrapalhe a retomada do crescimento da economia?

A atuação de longo prazo da política brasileira de juros altos, que vem de outubro de 2014, teria contribuído para aumentar a inflação. A razão estaria nos efeitos adversos que isso provoca nos deficit e endividamento públicos e nas expectativas, pelo risco de o governo não pagar suas dívidas.

Essa crítica causou perplexidade entre nossos economistas ortodoxos. O contra- ataque veio rápido, mas equivocado, ao supor que, para Resende, a queda dos juros reduz a inflação. Na realidade, ele afirmou que, no Brasil, há mais de dois anos, os juros altos foram uma das causas da inflação elevada.

A questão de fundo é o que vem fazendo o Banco Central (BC) na redução da taxa de básica de juros, a partir de outubro de 2016. Essa política ultraconservadora está muito além do que preveem os mercados sobre o comportamento dos juros e inflação.

É importante ressaltar que é a taxa real de juros que interessa. Pois bem, o BC fez essa taxa explodir. Desde Irving Fisher (1867-1947) sabe-se que, sem ilusão monetária, as decisões econômicas relevantes guiam-se pela taxa real de juros, que é a taxa nominal de juros menos a inflação.

O BC aumentou demais a taxa básica real de juros. Em dezembro/15, essa taxa foi de 2,97%, Selic de 14,25% menos IPCA de 11,28%. Em outubro/16 passou para 6,13%, com Selic de 14% e IPCA de 7,87%. Em janeiro/17 pulou para 7,65%, a Selic caiu para 13% e o IPCA para 5,35%.

Na sua reunião de 22.02.17, o Comitê de Política Monetária (COPOM) do BC reduziu a taxa Selic para 12,25%. Ocorre que, para os mercados, a inflação esperada caiu para 4,43%. O que significa dizer que, mais uma vez, elevou-se a já muito alta taxa básica real de juros, agora de 7,65% para 7,82%.

Nesse cenário, a atual política monetária impõe pesados ônus ao país e dificulta o ajuste das finanças públicas. Se a taxa básica real de juros não cair significativamente, nos próximos seis meses, o crescimento econômico ficará abaixo do possível, no biênio 2017-18. A relação deficit público nominal/PIB não convergirá para 4% e a dívida pública continuará a ter um crescimento automático sem gerar qualquer benefício social.

A política monetária do BC se autoassumiu como única no controle da inflação, ao impedir que o ajuste fiscal atue eficientemente nesse sentido. O que é um excesso de protagonismo, carente de bom senso e fundamentos técnicos e teóricos consistentes e convincentes. Se isso não mudar, pode custar ao Brasil dois anos de quase estagnação econômica e a não recuperação de milhões de empregos.

                                                                                                                         rspolari@uol.com.br
 

                                                                                                                             


A crise do fim de um mundo

As consequências danosas da grande crise econômico-financeira mundial de 2008 continuam. Os seus efeitos atuais na vida política dos países desenvolvidos são assustadores. Há aí uma agressiva ascensão do populismo-nacionalista de extrema-direita. O pior é que grande parte das populações locais acredita nessa via de solução.

As evidências desse retrocesso são muito fortes. Donald Trump é o presidente dos EUA. A vitória do Brexit impôs a saída do Reino Unido da União Européia sob o nacionalismo xenófobo da nova primeira-ministra Theresa May. Essa linha da ultradireita tem chances reais de chegar ao poder na França, liderada por Marine Le Pen, na Itália, por Matteo Salvini, e na Alemanha por Frauke Petry.

A força dessa direita antiliberal vem da retórica que atribui à globalização o insucesso econômico, desemprego, queda dos salários e perda de bem-estar, no plano nacional. Pretende-se fulminar o êxito dos avanços da globalização que proporcionou um crescimento muito maior das economias emergentes em relação às desenvolvidas.

Como negar que isso é fruto de uma nova fase de internacionalização do capital, agora absolutamente sem pátria, na busca de melhores lucros? Houve uma imensa migração de capital e atividades produtivas das economias avançadas para as emergentes, com evidentes desvantagens às primeiras, mas à luz da lógica empresarial.

Essa nova ordem capitalista mundial erodiu a capacidade competitiva dos países desenvolvidos, principalmente da Europa e os EUA. As suas economias, mesmo estimuladas por altos níveis de despesas governamentais, dívidas públicas em torno de 100% do PIB e taxas anuais de juros e inflação abaixo de 2%, não crescem no ritmo compatível com as aspirações sociais.

Nos últimos dezesseis anos, as taxas médias anuais de crescimento das economias em desenvolvimento foram de 6,8%, de 2001 a 2007, e 5,5% de 2008 a 2016, e as das desenvolvidas 2,3% e 1,1%. Esses resultados foram benéficos aos capitais empresariais em crise, mas trouxeram profundas alterações na distribuição do poder econômico mundial não assimiladas pelos países ricos.

As implicações dessa reestruturação geoeconômica em curso demonstram que a economia mundial continua distante da recuperação sustentável. É difícil saber o seu futuro de médio a longo prazo. É razoável afirmar que prosseguirá cambaleante e em baixa, em 2017. Isso tem muito a ver com as ebulições político-ideológicas dos governos dos EUA e países europeus.

Os países líderes do capitalismo não estão sabendo acomodar os efeitos dos avanços da globalização econômico-financeira liberal que tanto estimularam. Os empresários não têm o que comemorar, com seus negócios mergulhados no risco e incerteza, nem os trabalhadores com o desemprego e salários indignos. Os governos, altamente endividados e deficitários, pouco podem fazer como promotores de solução.

O capitalismo como um todo se encontra em transe e sem boas perspectivas futuras, quer seja na versão neoliberal ou da intervenção estatal. O novo capitalismo que se faz necessário ainda não saiu das entranhas do atual. Mas as condições básicas para tanto estão dadas no processo de globalização produtiva e econômico-finaneira.
 

rspolari@uol.com.br


Nordeste e Paraíba agonizam

Pouco se tem falado sobre os efeitos devastadores da crise brasileira no Nordeste e, um tanto mais, na Paraíba. Está em curso uma acelerada marcha a ré das economias nordestina e paraibana. E o pior certamente está por vir, com o ajuste fiscal ortodoxo que vai ter impactos negativos muito fortes nos nove estados dessa região.

O Nordeste, com 28% da população do Brasil, passou quatorze anos para elevar a sua correlata participação no PIB de 13% em 2000 para 13,9% em 2014. O que por si só demonstra a característica básica do subdesenvolvimento nacional. Pois bem, o desastre recessivo de 2015-16 reduziu essa dimensão relativa do PIB regional para 13,5%.

A queda do PIB brasileiro, nos últimos dois anos, foi de 7,2%, e a do PIB nordestino 9,8%. A renda per capita deflacionada do Nordeste caiu 11%, de R$14.329,00 em 2014 para R$12.752,00 em 2016. Em relação à renda per capita do país passou de 50% para 48%. As consequências sociais decorrentes são terríveis.

A economia do Nordeste, mesmo sem crise, depende muito das políticas sociais e investimentos do governo federal. É daí que devem vir os apoio e fomento à correção dos altos desníveis socioeconômicos da região no contexto nacional. No biênio 2015-16, essas ações públicas foram significativamente reduzidas.

A Paraíba, o elo fraco do capitalismo brasileiro, sofre consequências danosas do malogro econômico-financeiro do país. O seu PIB, após um crescimento de 19%, nos anos 2011-2014, caiu violentamente, em torno de 10%, de 2015 a 2016. Isso reflete a debilidade econômica do Estado, por ter uma grande dependência de recursos públicos.

Os setores industrial e agropecuário geram 16,5% e 3,5% do PIB da Paraíba. Os 80% restantes são do setor de serviço, em grande parte composto por micro e pequenos negócios improdutivos. Cabe ressaltar que 35% do PIB paraibano provêm de atividades de órgãos públicos, muito acima dos 23%, em média, dos demais estados da região.

Nos próximos dez anos, com o teto das despesas públicas (PEC 55), os governos pouco farão para o crescimento econômico. A recuperação da economia nacional guiada pelos mercados tende a se concentrar nas regiões mais ricas. O Nordeste poderá regredir relativamente, se não houver uma competente política de desenvolvimento regional.

A Paraíba tende a avançar na involução das últimas décadas. A sua economia perdeu o posto de quarta maior do Nordeste para as do Maranhão e R.G. do Norte, hoje é a sexta e pode passar a ser a sétima. Os seus níveis de renda per capita, analfabetismo, mortalidade infantil e deficit habitacional podem piorar entre os piores da região.

Mesmo com esse quadro, não se fala em projeto de desenvolvimento para a Paraíba. Sobram projetos pessoais de candidatos a governador e altos cargos políticos. Entre nós, parece que a política partidária tornou-se um fim em si mesmo. A prosperidade econômica estadual e o bem-estar social não são objeto de preocupação.

rspolari@uol.com.br
 


Brasil 2017: Pior é (im)possível

Não é fácil saber o que será do Brasil em 2017: avançará rumo ao caos econômico social e político? manterá o nível de involução do ano anterior? entrará numa nova fase de prosperidade, com o fim dos recentes absurdos políticos e instabilidade institucional que o levaram à ruína econômica?

A situação política tende a continuar preocupante. O TSE pode cassar o atual presidente da República e levar a uma eleição presidencial indireta pelo Congresso Nacional. Mas há chance de uma Emenda Constitucional fazer essa eleição ser direta. O governo Temer pode se manter, mas cada vez mais fraco e comandado pelo Parlamento.

Economicamente, não se descarta a possibilidade de mais um ano de recessão e desemprego crescente. Este é o quadro compatível com a repetição dos desatinos e desarmonia político-institucionais típicos de 2016. De um modo geral, a economia continuará refém da miséria política nacional.

O cenário estritamente econômico do Brasil é razoável. São factíveis quedas expressivas das taxas de inflação e juros. Isso é essencial à recuperação, ao facilitar o uso da alta capacidade produtiva ociosa, principalmente na indústria. Assim, a economia reforçará sua fase cíclica natural ascendente de reposição de investimentos e estoques.

Isso não acontecerá automaticamente, tem que haver motivação das empresas privadas a investir. O que dependerá muito dos riscos, incertezas e confiança vinculados ao sistema político-institucional do país. O governo federal, preso à sua política de teto de despesas, terá atuação direta modestíssima na retomada do crescimento econômico.

Na visão mais otimista, ao final de 2017, o PIB brasileiro terá crescido 2%, a inflação caído para 4,8%, a taxa básica de juros para 9,5% e o desemprego para 9,8%. Esse ainda baixo desempenho terá muito a ver com o deficit de Estado e sistema de representação política, quanto aos seus papeis na realização das aspirações da sociedade.

O mais provável é que o Brasil político e institucional de 2017 seja o mesmo dos últimos anos, ligeiramente melhorado. Desse modo, não há como realizar o máximo de recuperação econômica possível. Nessa concepção realista, o PIB deve crescer 1%, com inflação de 5%, taxa básica de juros 10% e desemprego de 10,5%.

Mas, se em 2017 aumentar o descaso com vista à solução dos graves problemas nacionais, a instabilidade, incerteza e desconfiança dos investidores e consumidores criarão resultados desastrosos. O PIB cairá de 1% a 2%, com inflação de 5%, taxa básica de juros de 11% e desemprego de 14%.

Nesse cenário catastrófico, o deficit público explodiria com as finanças federais, estaduais e municipais inviabilizadas. Estaríamos assim no pior dos mundos, em meio a uma imensa crise econômico-financeira das empresas, indivíduos, famílias e governos. Seria muito difícil evitar convulsões sociais de sérias consequências imprevisíveis.
 


Brasil além da corrupção

No Brasil, a corrupção é coisa muito antiga. A novidade é o julgamento e punição dos corruptos, o que é muito bem-vindo. Caiu por terra o mito de que esse tipo de crime era exclusivo da administração pública. Veio à tona a atuação de grandes empresas privadas como fonte essencial e maiores beneficiárias da corrupção sistêmica.

A confusa situação institucional do país gera ondas de instabilidade e incerteza à sociedade e aos negócios em geral. Temos um sistema político anacrônico e antidemocratico, um presidente da República carente de legitimidade e choques de ações entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Mas o grande problema do país é a involução de sua economia, sem perspectiva de solução. Isto sim sintetiza fatos históricos inéditos relevantes: mais de dois anos seguidos de altos níveis de recessão e desemprego e a falta de um projeto capaz de viabilizar a recuperação socioeconômica.

É evidente que a reação à exitosa luta contra a corrupção, os desatinos políticos e a desarmonia institucional complicam o difícil quadro econômico nacional. Mas é preciso entender que, mesmo sem essas adversidades, o Brasil teria uma tarefa histórica monumental de reinvenção modernizadora do seu sistema produtivo.

Desde 2012, exauriu-se o modelo econômico baseado no consumo sem suficiente expansão da produção, e não nasceu outro contemporâneo e eficiente. Hoje colhemos os efeitos: desindustrialização, baixa produtividade, um setor público incompetente e um setor privado que não desenvolve as forças produtivas da Nação.

Já se sabe o que fazer para o Brasil ter um processo consistente de desenvolvimento: modernização da infraestrutura; reindustrialização; elevação da produtividade; boa educação para todos e avanço científico-tecnológico. O problema é que esse novo modelo não virá do céu e sim de ações públicas e privadas inovadoras.

Fazer o ajuste fiscal e levar a inflação para o centro da meta favorecerão a recuperação econômica. Mas o governo Temer aumentou o deficit público deste ano, o que repetirá em 2017. A queda da inflação é fruto de fortes golpes de recessão e aumento da taxa básica real de juro. Há claros equívocos nas práticas adotadas.

Urge que o governo e o Banco Central demonstrem que não vão jogar o país na depressão econômica até a deflação. Com efeito, é para aí que vamos, em se mantendo os juros nas nuvens, inviabilizando os investimentos e consumo privados, e as despesas públicas de capital no chão, com a queda contínua das receitas governamentais.
 


Empresários: Cuidado com o andor...

A recessão econômica do Brasil se agrava com notória tendência à depressão. Os trabalhadores já deram, forçosamente, suas cotas de sacrifício ao altar dos negócios capitalistas: formação de um imenso exército de reserva de mão de obra, salário real em queda e uma procura cada vez mais crescente por ocupação.

Esse cenário de superexploração do trabalho se completa com a política fiscal-monetária do governo Temer. A criação do teto de gastos governamentais, já aprovada, reduzirá e piorará os já precários serviços públicos à população. A reforma da previdência, se vigorar como foi proposta, condenará milhões de empregados a uma espécie de trabalho forçado até a véspera da morte.

As classes operárias e o governo pouco podem fazer para reacender o fogo morto da economia brasileira. Os trabalhadores, sob os impactos dos altos níveis de desemprego e endividamento, tornaram-se freios e não aceleradores do consumo. O governo federal, ao optar por um ajuste fiscal superortodoxo a qualquer custo, zerou a capacidade de expansão dos seus gastos e investimentos, em valores reais.

Diante desse quadro, o caminho de solução depende da reativação dos investimentos e expansão da produção pelo setor privado. Essa motivação não se faz presente. Os nossos capitalistas, estrategicamente, fingem não saber que eles ganham com o que gastam, diferentemente dos trabalhadores que só gastam com o que ganham.

Essa falta de iniciativa privada faz parte de uma lógica perversa. A retração da economia só seria resolvida com a criação de altos superavit primários no setor público e as reformas da previdência e legislação trabalhista. Assim, com pesados ônus sociais e perda de direitos trabalhistas, criar-se-ia um ambiente próspero, com o governo podendo investir e os empresários expandir seus negócios com altas taxas de lucro.

O governo fez uma aposta de alto risco, com a regra do seu rigoroso limite de gastos. Se continuarmos com recessão e inflação em queda, o deficit público explodirá: o aumento das despesas federais superará o das receitas. Por exemplo, com o IPCA de 6,5% em 2016, se em 2017 o PIB cair 3% e a inflação for de 5%, essas despesas crescerão 6,5% e as receitas em torno de 2%, se não houver aumento da carga tributária.

Sem crescimento do PIB, a partir de 2017, a situação econômica e fiscal do país tende para um violento caos. Ocorre que a recuperação depende exclusivamente de decisões das empresas privadas. Se estas só voltarem a investir após a implantação das reformas trabalhista e da previdência, o Brasil quebrará de vez, muito antes.

Os empresários do setor produtivo e os detentores de grande riqueza financeira têm que pensar mais em evitar a depressão econômica em marcha do que nos seus interesses imediatos. Afinal as esperanças que restam são a reanimação dos investimentos privados e a utilização da capacidade de produção ociosa.

Há duas providências essenciais: quedas maiores e mais rápidas da taxa básica de juro e a retomada dos investimentos produtivos. Trata-se de ações compatíveis com um ciclo de prosperidade: queda dos juros, elevação da demanda por bens e serviços, da produção e da receita do governo, queda do deficit público e dos juros ...
 


Pós-verdade do politicamente correto

O politicamente correto propõe a neutralidade da linguagem e do imaginário para evitar discriminações e ofensas a pessoas ou grupos sociais. Para não ser apenas aparência, teria que ter como essência conquistas contra o obscurantismo socioeconômico, político e cultural. Houve, sim, algum êxito no internacionalismo, antirracismo, direito das mulheres e minorias, apoio e proteção aos mais pobres, etc.

Nos últimos anos, porém, ficou difícil manter esses avanços essenciais. A correção política passou a ser uma espécie de prática de boas maneiras, ou palavras da boca pra fora, não raro dizendo o que não se sente e faz. Desse modo, embora bonito e simpático, é inócuo ser contra o racismo, o machismo, a homofobia e a exclusão social, entre outros absurdos, quando se ajuda o mundo a ser a síntese de tudo isso.

Vivemos tempos de desvarios sociais e culturais. Avança-se no sancionamento da desnecessidade da verdade como fundamento. A era da pós-verdade emerge baseada na padronização induzida de crenças e desejos. Não se trata mais da falsificação ou contestação da verdade e sim da redução drástica de sua importância.

Não por acaso, “Pós-verdade” foi considerada a palavra deste ano pelo dicionário de Oxford. O seu significado expressa "circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência sobre a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais". Para se validar afirmações, princípios, valores e conclusões basta apoiá-los em elementos que pareçam verdadeiros, mas sem ter vinculação aos fatos.

De certa forma, nunca houve o algo mais, quase divino, que se pensava ser o substrato das verdades da vida sociocultural. Nesse ambiente humano, as verdades sempre se integraram a objetivos e subjetividades de quem pode fazer valer suas vontades. A operacionalização desse poder com o uso massivo dos progressos da informática pôs a nu o endeusamento da verdade e para o que e a quem serve.

A realidade sociocultural perde espaço como objeto de concepção plausível pela razão positivista, dialética ou hermenêutica. Nessa época de pós-tudo, produz-se verdade como algo sintético, não natural, lógico ou histórico, do que se faz parecer verdadeiro. Assim alarga-se o direito às opiniões próprias dos indivíduos, mas sem elos com seus próprios fatos e sim com algo que os substituem, adredemente construído.

Como fica o politicamente correto, no atual contexto de pós-verdade funcional à guinada do mundo à direita? Os EUA e grande parte da Europa consolidam regimes políticos e governos que primam pelo nacionalismo, xenofobia e retrocessos racistas, sexistas e sociais. A América Latina e a Ásia começam a entrar nessa onda.

Em meio a tanto desatino mundial, as virtudes formais do politicamente correto tendem a ser vazios de possibilidades práticas. Os seus discursos respeitosos às pessoas e aos grupos sociais discriminados ficam anos-luz distantes do que constroem em contrário as imensas legiões fanatizadas pelos (des) encantos do mundo da pós-verdade.

 


Só austeridade não basta

A economia brasileira está no oitavo trimestre de profunda recessão. No final do biênio 2015/16 o seu PIB terá caído 7% e a renda per capita 9%. Este é o grande problema do país. É preciso sair das verdades teórico-ideológicas sobre esse quadro e ter foco na solução. O fracasso econômico pode levar à implosão sociopolítica.

Qualquer proposta solucionadora que implique em mais um ano de recessão é temerária. O governo Temer parece que optou por essa linha e pode piorar a situação, com o desemprego indo para 14%, cerca de 14 milhões de desempregados. Nesse cenário adverso, e com a queda dos benefícios sociais públicos, haverá uma perigosa asfixia econômico-financeira da grande maioria da população.

O governo Temer não tem um plano de recuperação da economia do país e sim uma política equilíbrio fiscal a qualquer custo. A necessária redução dos altos níveis da dívida e do deficit públicos não gerará, automaticamente, o crescimento econômico. Isso requer novas condições propulsoras e o aproveitamento das que estão disponíveis.

O Brasil está condenado a fazer sua economia crescer, se não quiser correr riscos de enfrentar convulsões sociais de consequências políticas imprevisíveis. A recuperação pode e deve ser iniciada de imediato. Não faz mais sentido a politicagem da crise, até porque o poder já foi conquistado pelo impeachment. É preciso traçar estratégias exequíveis e compatíveis com uma nova fase de expansão econômica.

É possível contar com três condições básicas ao crescimento econômico: grande capacidade produtiva ociosa; altos superavit da balança comercial e reativação dos investimentos e consumo privados. O governo não tem como elevar os investimentos e gastos públicos autônomos, mas tem um importante papel na motivação e indução do protagonismo dos indivíduos e empresas.

As autoridades monetárias do governo têm que mudar a política de juros. As atuais taxas anuais básicas de 14,0%, nominal, e 7,3%, real, quebram as finanças de qualquer país e inviabiliza a economia. Em coerência com a austeridade fiscal e a tendência declinante da inflação para 4,5%, em 2017, é razoável uma correspondente queda gradativa dessa taxa nominal de juro para 8,5%.

O fim da extorsão financeira facilitará as metas fiscais do governo, o que reforçará a confiança nos efeitos da queda da taxa de juro na reativação dos investimentos e consumo. A maior demanda por bens e serviços será atendida com o uso da capacidade de produção ociosa, sem pressões inflacionárias de curto prazo. A nova política de juros viabilizará taxas de câmbio capazes de manter os saldos da balança comercial como força propulsora da economia.

O governo Temer não propôs essa solução. Para as forças políticas que lhe sustentam, a superação prévia do sufoco econômico pode matar as reformas trabalhista e da previdência. O país tende, portanto, a viver uma versão oficial do quanto pior melhor, em aposta de alto risco. Querer essas reformas em meio a tanta recessão e desarmonia social é inviabilizar o que elas têm de positivo e elevar a ira popular contra o governo e o sistema político.